Cine República
O Cine República não tinha cartaz na fachada havia anos. A marquise ainda guardava lâmpadas quebradas, letras faltando e o contorno de filmes que ninguém lembrava. Uma igreja pequena ocupara o saguão por algum tempo; depois veio um depósito de móveis; depois o abandono com cadeado novo, que era sempre a forma mais suspeita de abandono. O prédio pertencia à massa falida de uma empresa ligada à Bessa Construções. Lia soube disso antes de chegar, porque Mauro pediu tudo no caminho e Simone lia as respostas em voz alta.
Eunice estava no banco de trás, entre Lia e a porta, segurando o cartão-postal que recebera como se fosse carta de cobrança. Mauro não queria levá-la. Lia também não. Eunice resolveu o impasse trancando a própria porta e dizendo que, se a deixassem em casa, sairia sozinha e chegaria pior acompanhada.
"Eu vi o começo", ela disse. "Não vou ficar esperando o fim pela televisão."
Lia não teve força para discutir com a frase que o assassino escrevera por ela.
A operação cercou o quarteirão. Nenhuma sirene. Nenhum carro atravessado na porta. Mauro aprendera um pouco com Evandro: cena demais vira material para quem sabe enquadrar. Entraram pelo acesso lateral, antigo corredor de carga, com coletes, lanternas e respiração contida. O ar dentro do cinema cheirava a mofo, carpete podre e pipoca fantasma, essa memória grudada que lugares de exibição nunca perdem de todo.
No saguão, havia uma fileira de cartões-postais colados na parede. Mirante das Paineiras. Praça das Noivas. Estação Central. Viaduto do Chá. Galeria Sete de Abril. Todos alinhados como programação de sessão. Abaixo, um sexto cartão: Cine República, fachada iluminada em noite de estreia, gente bem vestida na calçada, um carro azul estacionado na lateral.
No verso, escrito em letras grandes:
Última sessão: a cidade assiste ao que comprou.
Mauro fez sinal para a equipe avançar. A sala principal ficava atrás de duas portas pesadas. Uma delas estava aberta. Do lado de dentro vinha luz de projetor.
Eunice parou. Lia sentiu o corpo da mãe endurecer ao lado.
"Você não precisa entrar", Lia disse.
"Preciso desde 1994."
Entraram.
A sala do cinema tinha poltronas rasgadas, teto descascado e uma tela enorme manchada de umidade. No centro, sentado na primeira fileira, estava Evandro Lacerda. Boné no colo, cabelo grisalho, corpo magro. Não tinha arma visível. Ao lado dele, em uma cadeira, havia uma caixa metálica de filme e um controle remoto. Na tela, congelada em preto e branco, aparecia a Estação Central em 1994.
"Chegaram antes da legenda", ele disse, sem virar.
Mauro apontou a arma. "Mãos onde eu veja."
Evandro levantou as duas, devagar. "Se me prender antes de assistir, vocês deixam Bessa narrar de novo."
"Antônio Bessa está sob custódia", Mauro respondeu.
"Custódia não é memória."
Lia caminhou até a fileira do meio. "Onde está a outra foto?"
Evandro virou o rosto. A cicatriz perto da boca era menor ao vivo, menos sinistra que nas imagens ampliadas. Isso irritou Lia. Monstros deviam ter a gentileza de parecer monstros.
"Não era foto", ele disse. "Era filme. Helena percebeu. Beatriz percebeu. Celso percebeu tarde e vendeu o atraso. Você só guardou o pedaço que uma criança podia carregar."
Ele apertou o controle.
A imagem se moveu.
A projeção era instável, cheia de riscos, mas nítida o bastante. Plataforma da Estação Central. Beatriz entrando em quadro, sem véu, segurando a própria bolsa. Marisa atrás, chorando. Antônio Bessa discutindo com o pai. Bessa pai abrindo a porta do carro azul. Celso aparecia por um segundo, câmera pendurada no peito. Lia criança estava perto do banco, sapato na mão.
E outra menina surgia ao lado dela.
Clara Gouveia. Cabelo preso, vestido simples, segurando um cartão-postal em branco. A menina olhava para Beatriz como se esperasse instrução. Beatriz se abaixava e falava algo com as duas crianças. Depois entregava uma tira de foto para Lia e outra para Clara.
Eunice levou a mão à boca. "Eu não vi a outra menina."
"Viu", Evandro disse. "Só não levou junto."
Lia virou para ele. "Ela não era responsável por Clara."
"Ninguém era. Esse foi o problema."
O filme continuou. Um homem fora de quadro chamava. Clara se afastava primeiro, seguindo o ferroviário jovem: Evandro. Ele aparecia de uniforme, tentando puxá-la para trás, para longe dos carros. Bessa pai via. Antônio via. Dois homens atravessavam a plataforma. A imagem tremia. Evandro corria. Clara tropeçava. Beatriz gritava sem som. O filme cortava para outra cena: subsolo da Galeria Sete de Abril, paredes nuas, Bessa pai com a pasta, Beatriz sentada em uma cadeira, Clara no chão, viva, chorando. Helena Gouveia não aparecia. A irmã de Evandro nunca chegara à estação.
"Como você filmou isso?", Mauro perguntou.
"Não filmei. Celso instalou câmera para registrar entrega de dinheiro. Depois disse que perdeu. Mentiu para todos. Guardou até precisar vender para Antônio. Eu roubei dele há cinco anos."
"E passou a matar."
Evandro olhou para a tela. "Passei a legendar."
Mauro avançou um passo. "Você matou o homem do mirante. Tentou matar Antônio. Ameaçou Marisa, Celso, Eunice, Lia."
"O homem do mirante ajudou a levar os corpos. Antônio ia depor? Antônio ia comprar advogado e doença. Marisa e Celso só falaram porque viram a própria foto chegando. Vocês chamam isso de ameaça. Eu chamo de foco."
"Eu chamo de homicídio", Mauro disse.
A tela continuava passando imagens sem som. Beatriz levantava, tentava proteger Clara, recebia um tapa de Antônio. Bessa pai colocava documentos na mesa. Uma placa de obra aparecia encostada no canto: futuro Cine República - revitalização cultural. A cidade comprara até o nome da sala onde escondia a venda.
Lia percebeu a armadilha tarde demais. O filme era prova, sim. Também era isca emocional. Quanto mais olhavam para a tela, menos olhavam para Evandro.
Ele tinha uma lâmina pequena na mão direita.
Não apontava para Lia. Apontava para o próprio pescoço.
"Evandro", ela disse.
Mauro travou. Atirar não servia. Avançar podia cortar.
"Minha irmã morreu tentando publicar isso", Evandro falou. "Clara morreu porque estava no caminho de uma prova. Beatriz morreu porque tentou não casar com a obra. Eu fiquei vivo para virar funcionário demitido, louco de estação, homem que escrevia carta para jornal. Ninguém imprimiu. Agora imprimiram todos os cartões."
"Você queria ser preso?", Lia perguntou.
"Eu queria terminar a sessão."
Eunice saiu de trás de Lia. "Clara segurou minha mão na praça."
Evandro olhou para ela.
"Eu lembrei agora", Eunice continuou. A voz tremia e não fugia. "Ela perguntou se a excursão era nossa. Eu disse que sim, porque achei que era uma criança perdida. Depois chamaram Lia, Beatriz entrou no carro, eu puxei minha filha. Não puxei Clara. Passei trinta anos chamando isso de confusão. Era escolha."
Lia sentiu a frase atravessar a sala com mais força que qualquer confissão arrancada. Evandro abaixou a lâmina um centímetro.
"Diga o nome dela", ele falou.
Eunice respirou. "Clara Gouveia."
"De novo."
"Clara Gouveia."
Na tela, a menina chorava sem som.
Lia deu um passo. "Evandro, se você morrer aqui, eles vão escrever assassino do cartão-postal e fechar o resto em rodapé. Bessa vira passado. Celso vira nota. Clara vira sua motivação, não pessoa."
"Você promete manchete?"
"Eu prometo arquivo. Inteiro. Com nome, data, prova e o que você fez também."
Ele sorriu pela primeira vez. Pequeno, triste, desagradável. "Você aprendeu a legendar."
"Aprendi a não deixar uma legenda só."
Mauro avançou no momento certo. Simone também. Evandro cortou o ar, não o próprio pescoço. Mauro segurou o braço dele. A lâmina caiu entre as poltronas. Houve luta curta, seca, sem beleza. Evandro foi imobilizado no chão, rosto contra o carpete podre, enquanto a projeção continuava mostrando Beatriz e Clara no subsolo.
Quando as algemas fecharam, Evandro não gritou. Só disse, com a boca perto do chão:
"Não deixem cortar a cena antes dela terminar."
Lia olhou para a cabine de projeção. O filme continuava rodando. Simone já filmava a tela, os equipamentos, a caixa metálica, tudo. Eunice chorava sentada em uma poltrona quebrada, os olhos fixos em Clara.
Na última imagem, Beatriz encarava a câmera escondida. Movia os lábios, sem som. Lia não precisava ouvir para entender uma parte.
Não era pedido de socorro.
Era instrução.
Olhem direito.