Galeria Sete de Abril Assassino do Cartão Postal · Capítulo 10 de 12
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Galeria Sete de Abril

A Galeria Sete de Abril fechava às vinte e duas, mas ninguém saía de uma galeria antiga no horário marcado. Lojistas baixavam portas devagar, clientes fingiam que ainda escolhiam presente, seguranças atravessavam corredores com chaves demais e pressa nenhuma. Quando Lia chegou com Mauro, Simone e a equipe da perícia, a notícia do homem pendurado no Viaduto do Chá já corria pelos celulares. Algumas pessoas reconheceram o investigador. Outras reconheceram a confusão e ficaram para olhar.

A galeria tinha piso de granilite, vitrines de joias usadas, conserto de relógio, alfaiataria, uma loja de discos e três salas vazias com placa de aluga-se. No fundo, perto dos banheiros, havia uma escada de serviço bloqueada por grade. Antônio Bessa, ainda no hospital, dissera subsolo antigo. O síndico da galeria garantiu que não existia subsolo utilizável havia décadas.

"Utilizável é palavra ótima", Lia disse. "Serve para esconder o que não serve mais."

Mauro pediu a planta do prédio. O síndico trouxe uma pasta de reformas, cheia de cópias dobradas e carimbos. Simone abriu sobre o balcão de uma ótica fechada. A planta mais recente mostrava depósitos e casa de máquinas. A planta de 1978 mostrava outra coisa: uma passagem sob a loja de discos, ligada a um antigo abrigo de manutenção do viaduto e a uma sala sem identificação.

"Essa sala foi concretada", o síndico disse rápido.

"Por quem?", Mauro perguntou.

"Não sei. Antes da minha gestão."

"Tudo importante é antes da gestão de alguém", Lia falou.

A loja de discos tinha porta de ferro e letreiro vermelho: Agulha Fina. O dono, um homem magro de boné, apareceu com cara de quem já perdera venda e paciência. Disse que não havia passagem nenhuma, só estoque, mofo e caixas de LP que ninguém comprava desde 2003. Quando Mauro mostrou autorização emergencial, ele abriu reclamando da prefeitura, da polícia, do centro, do mundo.

Atrás de uma estante de vinis de samba, havia uma parede falsa de madeira. Atrás dela, uma porta baixa, pintada da mesma cor do rodapé, com cadeado novo.

O dono parou de reclamar.

"Esse cadeado não é meu."

Simone fotografou antes de cortarem. O ar que saiu da passagem era úmido, velho, com cheiro de cimento e ferro. Lia sentiu o estômago apertar. Não era mediunidade, nem pressentimento bonito. Era o corpo reconhecendo lugar onde ninguém deveria respirar.

Desceram em fila. Mauro primeiro, depois dois policiais, Simone, Lia contra a recomendação de todos, e mais dois peritos. A escada era estreita, degraus irregulares, paredes marcadas por infiltração. No fim, um corredor baixo levava a uma sala retangular fechada por tijolos quebrados recentemente. No chão, pó de obra fresco e marcas de sapato.

"Evandro esteve aqui", Mauro disse.

"Ou alguém abriu para ele", Simone respondeu.

Dentro da sala, a lanterna revelou sacos de cimento antigos, ferragens, pedaços de azulejo e uma parede de concreto mais nova que as outras. Sobre essa parede, preso com fita, havia um cartão-postal da própria Galeria Sete de Abril no dia da inauguração. Verso:

Aqui venderam a noiva, a criança e a cidade que fingiu não ver.

Lia leu em silêncio. O postal parecia menos ameaça agora. Parecia placa de túmulo feita por alguém incapaz de pagar lápide.

Os peritos começaram a trabalhar na parede. Mauro afastou Lia, mas não o suficiente para impedir que ela ouvisse o som das ferramentas. Martelo, talhadeira, concreto cedendo em pedaços. A cada golpe, uma parte do caso deixava de ser história e virava matéria. Poeira, osso, pano, metal.

A primeira coisa que apareceu foi pano branco manchado pelo tempo. Lia fechou os olhos antes da palavra entrar na boca de alguém. Depois veio uma pulseira infantil de contas coloridas. Clara. Ninguém disse o nome, mas a sala inteira mudou quando a pulseira apareceu.

Mauro tirou o chapéu que não usava; apenas passou a mão no cabelo, gesto inútil e humano. Simone saiu da sala por alguns segundos. Lia ficou olhando para a pulseira, pensando em quantas vezes uma criança pode sumir antes de a cidade admitir que ela existiu.

"Tem mais", disse um perito.

Atrás do primeiro vão, havia uma lata metálica enferrujada. Dentro, protegidos por plástico grosso, estavam papéis, negativos e um envelope com o logotipo da Bessa Construções. Simone voltou, fotografou, lacrou. Mauro abriu apenas o suficiente para confirmar: recibos, nomes, mapas de terreno, uma cópia de reportagem inacabada assinada por Helena Gouveia.

Lia reconheceu a caligrafia de Beatriz em uma folha dobrada. Algumas letras aparecem em fotos de convite, bilhete de prova de vestido, dedicatória de álbum, e o arquivo ensina esse tipo estranho de intimidade.

Na folha, Beatriz escrevera: se eu não chegar, entregar para Helena. Celso tem cópia. Evandro sabe onde guardei a outra.

Mauro leu por cima do ombro de Simone. "Evandro sabe."

"Sabia", Lia disse. "E esperou trinta anos alguém escutar."

"Matou para isso."

"Eu sei."

"Fala como quem está tentando separar."

Lia olhou para ele. "Estou tentando não juntar errado."

O rádio de Mauro chiou. Um policial na entrada da galeria informou movimento no térreo: homem deixando envelope na loja de discos, boné cinza, fugindo pela saída da Rua Barão. Mauro subiu correndo. Lia ficou com Simone até ouvir os passos se afastarem, depois subiu atrás. Ninguém teve tempo de impedir.

No térreo, a loja de discos estava cheia de policiais. Sobre o balcão, havia um envelope pardo. Dentro, não havia cartão. Havia uma fotografia recente: Mauro e Lia descendo a escada da loja, tirada minutos antes, de cima, provavelmente da passarela interna da galeria. No verso:

Agora vocês têm os mortos. Falta devolver a legenda aos vivos.

Abaixo, um endereço: Cine República.

Mauro voltou ofegante da rua. "Perdeu no cruzamento."

Lia entregou a foto. "Ele não quer mais que a gente descubra. Quer que siga."

"E você acha que vamos?"

"Acho que ele vai continuar matando se não formos."

Mauro amassou a vontade de responder. "A perícia fica. A gente vai com equipe maior."

"Cine República era da Bessa?"

O síndico, que observava de longe, respondeu antes de perceber que todos olharam para ele. "Foi. Quer dizer, o prédio. Compraram nos anos 90, fecharam, virou depósito, depois igreja, depois nada."

"Nada também é ótimo para esconder", Lia disse.

Na saída da galeria, uma repórter perguntava se havia corpos no subsolo. Mauro passou sem falar. Lia quase fez o mesmo. Então viu, do outro lado da rua, uma menina de vestido amarelo em um outdoor antigo de loja infantil, desbotado, sorrindo para ninguém. O centro era cheio de fantasmas impressos.

O celular dela vibrou.

Desta vez, a mensagem veio com uma foto de Eunice sentada no sofá de casa, segurando um cartão-postal do Cine República.

O texto dizia:

Leve a mãe. Ela viu o começo. Você vai ver o fim.

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