A Quarta Legenda Assassino do Cartão Postal · Capítulo 9 de 12
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A Quarta Legenda

O Viaduto do Chá às 20h56 tinha turistas demais para uma armadilha e sombras demais para uma operação limpa. Mauro espalhou equipe antes de chegar perto, disfarçada em casal, entregador, guarda de trânsito, homem parado com mochila. Lia reconhecia o esforço e também reconhecia a inutilidade parcial dele. Evandro Lacerda trabalhara em estação, conhecia fluxo, atraso, ponto cego. Gente treinada para observar multidão aprende a desaparecer dentro dela.

A faixa branca aparecia no centro da grade do viaduto, amarrada onde o postal indicava. Não havia corpo. Não havia manequim. Apenas uma faixa branca balançando com o vento e a cidade embaixo, luzes dos carros passando como risco longo.

"Você fica no carro até confirmarmos", Mauro disse.

Lia segurava o envelope com a foto do livro azul. Dentro, no lugar da original, havia uma cópia. A original seguira com Simone para o laboratório, decisão de Mauro que Lia aprovou e Evandro provavelmente já considerara. Ela não sabia se aquilo a protegia ou apenas mudava o tipo de decepção do assassino.

"Ele sabe que não trouxemos a original", disse.

"Então ele também sabe que não vamos entregar prova real no meio da rua."

"Você ainda pensa que ele quer a prova."

Mauro olhou para ela. "E quer o quê?"

Lia encarou a faixa branca. "Quer que eu veja a parte que falta."

Às 21h em ponto, o celular dela vibrou. Mauro estava com o aparelho clonado em mãos; o original ficara com Lia, por insistência dela e mau humor dele. A mensagem veio sem imagem.

Atrás da faixa. Não entregue ao policial. Ele só sabe prender o que já caiu.

"Não", Mauro disse antes que ela abrisse a boca.

"Ele quer conversar."

"Ele quer controlar distância."

"As duas coisas."

Mauro fez sinal para a equipe fechar o perímetro. Lia caminhou ao lado dele até a faixa. Simone vinha alguns passos atrás. O trânsito continuava passando nas pontas do viaduto, controlado por dois policiais que fingiam obra emergencial. Um grupo de jovens tirava foto perto da entrada do shopping sem entender por que uma rua comum tinha ficado tensa.

A faixa branca estava presa por barbante simples. Atrás dela, amarrado à grade, havia um cartão-postal protegido por plástico. Mauro segurou o braço de Lia antes que ela tocasse. Simone fotografou, retirou, virou.

Na frente, o Viaduto do Chá antigo, com homens de chapéu e mulheres de vestido atravessando em direção ao centro. No verso, a frase:

Quem olha de cima escolhe quem vira paisagem.

Lia leu em voz baixa. "Não é sobre cair. É sobre olhar."

Um alto-falante portátil chiou em algum lugar. Mauro puxou Lia para trás. A voz de Evandro saiu de perto e de longe ao mesmo tempo, espalhada pelo concreto.

"Você achou a foto errada, Lia."

Mauro ergueu a arma. Pessoas no fim do viaduto começaram a correr quando entenderam que aquilo não era obra.

"Evandro", Lia disse, tentando localizar a voz. "Sua irmã ia receber Beatriz na estação."

"Minha irmã recebeu uma ligação. Depois recebeu um caminhão na contramão. A polícia recebeu uma pasta. A cidade recebeu silêncio. Todo mundo recebeu alguma coisa. Só Beatriz não recebeu nome."

"Você matou o homem do mirante."

"Ele carregou dinheiro para Bessa pai. Riu quando Helena perguntou da vala. Disse que morto em obra era problema de mestre, não de jornal."

"E Marisa?"

"Marisa viveu trinta anos com medo. Medo é pena longa."

"Celso?"

"Celso guardou prova para vender quando estivesse caro. Ele não merecia morrer antes de falar. Ainda."

Mauro sussurrou no rádio, pedindo triangulação do som. Lia percebeu tarde que Evandro queria exatamente aquilo: policiais olhando para caixas de som, para postes, para telhados. Olhando para cima.

Ela olhou para baixo.

Sob a grade do viaduto, na estrutura metálica de manutenção, havia uma pessoa presa por cinto de segurança antigo. Homem, terno claro, mãos amarradas, boca coberta. Não caía porque uma corda o segurava à viga, invisível para quem olhasse só a rua. Bessa? Não. Antônio Bessa, mais velho, rosto inchado, cabelo branco. O noivo de Beatriz.

"Mauro", Lia disse.

Ele seguiu o olhar e praguejou. A equipe se moveu. Evandro riu pelo alto-falante.

"Agora a legenda cabe."

Antônio tentou gritar por trás da fita. O corpo dele balançava sobre o vazio. A imprensa, os turistas, a polícia, todos em cima, olhando para um homem que por trinta anos ficara fora do quadro.

"Ele está vivo", Lia disse.

"Por enquanto", Evandro respondeu. "Ele sabe onde Beatriz terminou. Bessa pai mandou, Antônio viu, Celso fotografou depois. Cada um guardou uma parte. Eu guardei a outra foto. Você guardou a errada."

"Então mostra."

"Você primeiro. Leia o verso da sua."

Lia abriu o envelope e tirou a cópia. Virou. Moço do trem pegou a outra. Letra infantil, torta, inútil para todos até aquela noite.

"Eu li."

"Leia como adulta."

Ela olhou de novo. Moço do trem pegou a outra. A outra não era outra foto. Era outra criança? Outra pessoa? Outra prova? Lia fechou os olhos e voltou para a estação: Beatriz puxada, mala branca, sapato na mão, o ferroviário abaixado, uma mulher de vermelho chorando. E outra menina ao lado do banco, menor que Lia, cabelo preso, segurando um postal em branco.

"Havia outra criança", Lia disse.

O alto-falante ficou mudo.

Mauro olhou para ela. "Quem?"

Evandro respondeu com a voz diferente, sem filtro por um segundo. "Minha sobrinha. Filha da Helena. Beatriz ia levar ela junto. Tinha visto demais na obra. Também sumiu. Ninguém colocou no jornal porque criança pobre sem pai famoso não estraga casamento de construtora."

A revelação atravessou Lia pior que ameaça. A foto que ela guardara mostrava o crime principal para a cidade. A foto que Evandro guardara talvez mostrasse uma criança apagada até da memória do caso.

"Qual era o nome dela?", Lia perguntou.

Silêncio.

"Evandro, qual era o nome dela?"

"Clara."

Antônio balançou mais forte. A corda rangeu.

Mauro gritou para a equipe de resgate acelerar. Um policial desceu pela estrutura lateral. Simone filmava tudo, rosto fechado.

Lia falou para o alto-falante. "Se você soltar Antônio, ele não conta. Morto não depõe."

"Vivo rico também não."

"Então faz ele falar aqui. Agora. Do jeito que você queria que ouvissem sua irmã."

O som cortou. Depois veio um estalo. O microfone mudou para outro canal. A voz de Evandro apareceu mais perto, talvez de um celular preso à grade.

"Pergunta."

Lia se ajoelhou perto da grade. Antônio olhou para ela de baixo, apavorado, humilhado, vivo.

"Onde Beatriz e Clara foram enterradas?"

Antônio sacudiu a cabeça, tentando negar. A corda afrouxou um centímetro. Ele urinou na calça. Mauro fez sinal para Lia continuar, mesmo odiando.

"Onde?"

A fita na boca de Antônio estava mal presa. Ele cuspiu parte dela. "Galeria Sete de Abril", gritou. "Subsolo antigo. Meu pai mandou fechar. Eu não matei. Eu só..."

A corda afrouxou de novo.

"Você só olhou", Lia disse.

A frase parou o viaduto.

Evandro desligou o alto-falante. Na extremidade oposta, um homem de boné cinza se afastou da grade. Lia viu a cicatriz perto da boca. Mauro também.

"Evandro!", ele gritou.

O homem correu em direção ao shopping. Dois policiais foram atrás. No mesmo instante, a corda de Antônio começou a ceder de verdade.

Lia largou o envelope e segurou a corda com Mauro. Outros chegaram. A fibra queimou sua mão. Antônio gritava. A cidade inteira parecia olhar finalmente para baixo.

Quando puxaram Antônio de volta para a estrutura, vivo, Evandro já tinha sumido.

No chão do viaduto, ao lado do envelope de Lia, havia um cartão novo. Ninguém vira cair.

Na frente, a Galeria Sete de Abril. No verso:

A quinta legenda fica enterrada onde venderam a noiva.

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