Equipe 4 O Monstro do Rio Pinheiros · Capítulo 2 de 12
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Equipe 4

A placa metálica foi para um saco de prova, o osso para outro, e o crachá de Mauro Cândido para as mãos erradas antes que Camila conseguisse impedir. Um bombeiro jovem, nervoso, pegou o objeto para mostrar ao superior e deixou cair no barro. Camila respirou pelo nariz, contou até três e pediu que ninguém tocasse em mais nada sem luva. O pedido saiu educado demais para a irritação que sentia.

Douglas conhecia seu rosto. "Você vai morder alguém."

"Ainda estou escolhendo."

"Morde depois. Agora o chefe quer relatório preliminar."

"O relatório preliminar é: tem osso humano ou parecido, uma placa antiga, um desaparecido que trabalhou na obra e uma voz saindo da comporta. Quer em PowerPoint?"

Douglas passou a mão no cabelo. "Eu não ouvi voz nenhuma no meu rádio."

"Ouviu na margem."

"Ouvi barulho."

"Barulho com meu nome."

Ele olhou para os curiosos atrás da fita. "Não fala isso para câmera."

"Eu não falo nada para câmera."

A mulher de casaco marrom continuava perto da ciclovia, apesar dos guardas. Camila caminhou até ela antes que Douglas tentasse impedir. A mulher apertava a sacola de mercado contra o corpo; dentro havia pão, leite e um pacote de vela branca.

"Você conhecia Mauro de onde?", Camila perguntou.

"Da margem."

"A margem é grande."

"Para quem passa. Para quem fica, é pequena."

Camila aceitou a correção. "Seu nome?"

"Rita."

"Rita de quê?"

"Rita que não quer documento em relatório."

"Mauro falava da Equipe 4?"

Rita olhou para a comporta. "Falava quando bebia. Dizia que quatro entraram, três saíram, e o que ficou lá embaixo aprendeu a chamar."

A frase teria soado como lenda se não houvesse um osso dentro de um saco de prova atrás delas. Camila anotou. "Quem ficou?"

"Um rapaz. Apelido Nego Duto. Nome eu não sei. Trabalhava entrando nos canos para tirar entulho."

"Morreu na obra?"

"Sumiu na obra. Morte precisa de corpo, doutora. Sumir só precisa de chefe com pressa."

Camila olhou para Douglas, que fingia não ouvir e ouvia tudo. "E Mauro?"

"Mauro segurava corda. Ele dizia que ouviu o rapaz bater do lado de dentro quando fecharam a comporta. Dizia que gritou para abrirem. Dizia que mandaram assinar papel falando que todo mundo tinha saído. Depois ele nunca mais dormiu direito."

A água bateu de novo no concreto. Uma vez só. Rita fechou os olhos.

"Não é monstro", ela disse. "É gente que não coube no documento."

Camila queria discordar. Parte do trabalho dela era separar metáfora de evidência, medo de bicho, boato de relatório. Mas a margem tinha os próprios métodos de prova: crachá, placa, osso, nome chamado do escuro.

À tarde, no escritório da concessionária, ela pediu acesso ao arquivo da obra de 2007. Recebeu três pastas digitais, duas incompletas, uma com senha que ninguém sabia, e um e-mail do jurídico lembrando que contratos antigos pertenciam a empresas incorporadas, terceirizadas e extintas. Burocracia tinha predadores próprios. Comia responsabilidade antes que alguém encontrasse sangue.

Douglas trouxe café e uma lista impressa. "Achei Equipe 4."

Camila pegou. Quatro nomes: Mauro Cândido, auxiliar de margem; José Nilton dos Reis, operador de máquina; Adalberto Freire, encarregado; e Edson Nascimento, auxiliar de drenagem. Ao lado, uma anotação manual: DUTO.

"Edson", Camila disse. "Nego Duto."

"Sem registro de acidente fatal. Sem CAT. Sem indenização. Desligamento por abandono de posto três dias depois."

"Como abandona posto trancado dentro de comporta?"

Douglas sentou na beira da mesa. "Com assinatura de encarregado."

"Adalberto?"

"Vivo. Mora em Osasco. José Nilton morreu em 2019. Mauro desapareceu ontem. Edson sumiu oficialmente em 2007."

Camila abriu o mapa da comporta. Havia um duto lateral, desativado, que ligava a estrutura a uma galeria de drenagem sob a pista. Na planta, o trecho estava marcado como concretado. Ela ampliou. A placa encontrada na margem tinha a mesma inscrição: Trecho interditado. Equipe 4.

"Quem fechou?"

Douglas abriu outro documento. "Assinatura do engenheiro responsável. Paulo Duarte."

O nome apagou o ruído do escritório.

Camila leu de novo. Paulo Duarte. Engenheiro civil. Responsável técnico por reforço emergencial da comporta, 2007. Seu pai tinha morrido havia cinco anos, infarto rápido, funeral cheio de colegas que falavam dele como homem correto, exigente, incapaz de deixar obra mal feita. Camila lembrava das mãos dele cheirando a concreto e sabonete, dos mapas na mesa da cozinha, das broncas sobre desperdiçar água enquanto a cidade jogava rios fora.

Douglas percebeu. "Parente?"

"Meu pai."

O silêncio dele foi melhor que qualquer pedido de desculpa. Camila fechou o documento e abriu de novo, como se o nome pudesse mudar. Não mudou.

Às 18h12, o laudo preliminar do osso chegou: humano, rádio esquerdo, adulto, tempo prolongado em ambiente úmido. Não bastava para dizer Edson. Bastava para tirar o caso do folclore.

O celular de Camila vibrou. Número desconhecido. Uma foto carregou devagar: a comporta à noite, vista de dentro da água, como se alguém fotografasse do lugar onde a corrente prendia lixo e segredo. No centro da imagem, uma mão segurava uma fita métrica velha, marcada com o sobrenome Duarte escrito a caneta.

A mensagem dizia:

Seu pai mandou fechar. Você vai abrir?

Camila levantou tão rápido que a cadeira caiu. Douglas leu por cima do ombro e xingou baixo.

No escritório, as lâmpadas piscaram. O ar-condicionado desligou. Por três segundos, todo o andar ficou escuro. Quando a luz voltou, havia barro sobre a mesa de Camila.

Não muito. Apenas uma faixa úmida, como marca de mão.

Sobre o mapa da comporta.

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