O Arquivo da Comporta
Camila voltou para casa depois das nove, com a roupa cheirando a margem e a imagem da mão de barro repetida por trás dos olhos. Douglas insistiu para levá-la até o prédio. Ela aceitou porque o número desconhecido ainda estava no celular, mudo desde a foto da fita métrica, e porque a cidade inteira parecia feita de água represada naquele fim de noite.
No elevador, uma vizinha reclamou do cheiro.
"Problema no encanamento", Camila disse.
A mulher olhou para as botas dela, para a barra da calça suja, para a luva descartável saindo do bolso do colete. Preferiu não perguntar mais nada. Quando a porta abriu no décimo andar, Camila atravessou o corredor com vontade de rir de cansaço. Encanamento. Era assim que São Paulo explicava tudo que subia debaixo dela.
O apartamento do pai continuava dentro do dela, mesmo cinco anos depois. Paulo Duarte já não morava ali; ainda assim deixara caixas na área de serviço, pranchetas no alto do armário, réguas de alumínio atrás da estante e uma coleção de cadernos de capa preta que Camila nunca teve coragem de jogar fora. Durante o luto, muita gente falara que guardar objeto demais prendia a pessoa. Ela descobrira que jogar fora também prendia, só que com culpa nova.
Tomou banho sem conseguir lavar a sensação do barro na mesa. Depois abriu a área de serviço. As caixas estavam etiquetadas com letra do pai: recibos, projetos antigos, IPTU, ferramentas, Pinheiros 2006-2008.
Camila ficou parada diante da última etiqueta.
O celular vibrou. Douglas.
"Chegou?"
"Cheguei."
"Tranca tudo. Amanhã eu vou com você em Osasco falar com Adalberto."
"Amanhã eu aviso."
"Esse seu amanhã costuma significar vou sozinha antes das sete."
"Então você já está avisado."
Ele ficou em silêncio por um instante. "Camila, seu pai aparece num documento de obra com osso humano na margem. Você não precisa provar nada hoje."
Ela encostou a testa na porta do armário. "Eu preciso saber se ele sabia."
"Isso também pode esperar a luz do dia."
"A foto veio de dentro da comporta, Douglas. Alguém entrou lá ou quer que eu ache que entrou."
"As duas opções são ruins."
"Por isso eu estou em casa."
"Lendo caixa de morto."
Camila desligou sem responder. Não por raiva. Porque ele acertara.
A caixa Pinheiros 2006-2008 pesava mais do que parecia. Dentro havia pastas amareladas, cópias de plantas, folhas de ponto, fotografias impressas em papel barato e um envelope marrom preso por elástico ressecado. Ela colocou tudo sobre a mesa da cozinha, a mesma onde Paulo corrigia boletins dela com caneta vermelha e calculava vigas em guardanapos de padaria.
As primeiras páginas eram comuns: medição de concreto, relatório de chuva, comunicado de interdição parcial, recibos de luva, compra de tela de proteção. Camila procurou nomes. Mauro Cândido apareceu em lista de presença. José Nilton também. Adalberto assinava como encarregado. Edson Nascimento surgia apenas em planilhas de diária, sempre como auxiliar de drenagem, sempre nos turnos de madrugada.
No dia 17 de abril de 2007, havia uma anotação de Paulo escrita à mão na lateral de uma folha: galeria lateral instável; suspender entrada humana até inspeção técnica.
Camila leu devagar. A caligrafia era inconfundível. O pai desenhava o g minúsculo como um laço apertado, um detalhe que ela imitara durante anos na escola sem perceber.
Na folha seguinte, outro documento trazia carimbo de urgência. Reforço emergencial da comporta. Fechamento provisório autorizado devido a risco de colapso. A assinatura de Paulo aparecia embaixo, firme, com a data do dia 19.
Dois dias depois da ordem de suspender entrada humana.
Ela afastou a cadeira e levantou. A cozinha pareceu menor. O barulho da avenida chegou abafado pela janela fechada. Camila abriu o envelope marrom. Dentro havia uma fotografia da Equipe 4 em frente à comporta, todos de capacete. Mauro era mais novo, sem barba branca. Adalberto tinha barriga saliente e sorriso de supervisor. José Nilton levantava o polegar. Edson Nascimento aparecia meio de lado, magro, vinte e poucos anos, mão no ombro de outro rapaz.
Atrás deles, Paulo Duarte olhava para a câmera sem sorrir.
No verso da foto, alguém escrevera: antes de descer.
Camila sentou de novo. A palavra descer não era técnica. Era coisa de equipe falando de buraco, duto, trecho baixo onde o mapa virava corpo e joelho ralado. Ela virou todas as folhas do envelope. Encontrou uma cópia de memorando sem timbre, só duas linhas datilografadas: Atraso na liberação inviabiliza entrega. Proceder com fechamento até 18h. Responsável local deve assinar conclusão.
A assinatura no recebimento era de Adalberto Freire.
No rodapé, escrito com caneta azul, vinha uma frase do pai: confirmar retirada de E.N. antes de concretar.
E.N.
Edson Nascimento.
Camila levou a mão à boca para segurar um som que sairia alto demais. Aquilo não absolvia Paulo. Também não condenava sozinho. Mostrava que ele perguntara. Mostrava que alguém tinha obrigação de responder.
O interfone tocou.
Ela deu um pulo tão brusco que bateu o joelho na mesa. O relógio marcava 22h14. Ninguém subia sem portaria anunciar, e a portaria anunciava pelo aplicativo desde que trocaram o sistema. O toque veio de novo, curto, elétrico, atravessando o apartamento.
Camila foi até a porta sem abrir. Olhou pelo olho mágico.
O corredor estava vazio.
O interfone tocou pela terceira vez. Desta vez, a voz saiu do aparelho antes que ela tirasse do gancho.
"Doutora Camila?"
Era um homem idoso, com respiração falhada.
Ela pegou o fone. "Quem fala?"
"Adalberto. Não vai em Osasco. Tem gente esperando você fazer isso."
Camila apertou o aparelho. "Como conseguiu meu endereço?"
"Seu pai guardou coisa demais. Se a senhora abriu a caixa, eles já sabem."
Ela olhou para a mesa. As folhas estavam espalhadas, a foto da Equipe 4 virada para cima. "Quem são eles?"
Adalberto tossiu. Do outro lado, parecia haver vento e carros passando rápido. "Na época era empreiteira, fiscal, político pequeno querendo obra entregue. Hoje eu não sei o nome que usam. Sei que Mauro morreu porque começou a falar."
"Mauro está desaparecido."
"Mauro está pagando promessa no lugar errado. O rio não entrega inteiro."
Camila fechou os olhos por um segundo. "Edson estava dentro quando fecharam?"
A respiração de Adalberto mudou. A pergunta atravessou alguma defesa antiga.
"Eu mandei ele sair", ele disse. "Juro pela minha neta que mandei. Ele voltou porque ouviu menino chorando na galeria. Não tinha menino nenhum ali, doutora. Tinha uma coisa imitando."
O apartamento ficou frio. Camila olhou para a janela da área de serviço. Estava fechada, mas havia um risco úmido descendo pelo vidro, grosso e escuro, como se chuva suja escorresse do lado de dentro.
"Que coisa?"
"A mesma que chamava Mauro. A mesma que aprendeu o nome do seu pai."
A ligação chiou. Ao fundo, alguém gritou longe de Adalberto. Ele sussurrou rápido:
"Seu pai não mandou fechar com Edson lá. Seu pai tentou abrir depois. Por isso tiraram ele da obra. Procura o caderno sem capa. Não entrega para polícia antes de copiar. Não confia em laudo que chegar pronto."
"Adalberto, onde você está?"
"Debaixo da ponte, onde Mauro deixava vela. Vim devolver uma coisa."
"Sai daí agora."
"Tarde."
O som seguinte não foi grito. Foi água entrando em algum lugar pequeno, água demais, batendo perto do telefone, arrastando metal. A chamada caiu.
Camila discou de volta. Número inexistente.
Na cozinha, entre as folhas da caixa, a foto da Equipe 4 começou a escurecer pelas bordas. Não queimava. Molhava. A água surgia do papel como se a imagem tivesse sido revelada dentro do rio. Primeiro os pés dos homens desapareceram. Depois as pernas. Depois o concreto atrás deles.
Só Edson continuou seco.
Na mão dele, agora visível onde antes havia sombra, havia um caderno preto sem capa.