Leito 12
O Hospital Municipal de Osasco tinha luz demais para aquela hora. Luz branca nos corredores, luz azul nas máquinas de senha, luz amarela na lanchonete fechada, luz vermelha no letreiro da emergência. Camila entrou com a sensação estranha de que a madrugada tinha ficado do lado de fora e o hospital funcionava num tempo próprio, feito de dor sentada em cadeira de plástico.
Douglas estacionou mal e pediu para ela não correr. Ela correu mesmo assim.
Na recepção, uma funcionária sonolenta disse que Adalberto Freire não podia receber visita. Douglas tentou credencial. Camila tentou urgência familiar. A funcionária não se comoveu com nenhuma das duas mentiras.
"Ele está em observação", disse, batendo unha no balcão. "Só parente."
"Ele me chamou", Camila respondeu.
"Todo mundo chama alguém. Próximo."
Douglas encostou a mão no ombro de Camila, pedindo calma sem dizer calma. Camila olhou para a tela atrás da recepção. Leito 12 aparecia numa lista parcialmente visível: Freire, A. Observação masculina. Status: transferência pendente.
"Transferência para onde?", ela perguntou.
A funcionária seguiu o olhar dela e fechou a tela. "Informação interna."
Um homem de jaleco passou atrás do balcão empurrando um carrinho com caixas de soro. Camila viu no crachá: Enfermagem, Roberto. O homem olhou para ela por um segundo a mais do que devia. Depois deixou cair uma prancheta perto da porta lateral.
"Ai", ele disse, sem convicção.
A funcionária virou para reclamar. Roberto abaixou, pegou a prancheta, e a porta lateral ficou aberta por tempo suficiente.
Douglas soltou um palavrão baixo. "Você viu?"
"Vi."
"Isso é cilada ou ajuda?"
"Hoje está difícil separar."
Eles atravessaram a porta quando a funcionária atendeu o telefone. O corredor interno cheirava a desinfetante, café velho e roupa molhada. Roberto esperava perto de uma máquina de gelo, sem olhar diretamente para eles.
"Três minutos", ele disse. "Depois eu não vi ninguém."
Camila parou diante dele. "Foi você que mandou as fotos do caderno?"
Roberto engoliu seco. Tinha olheiras fundas, barba por fazer e um curativo pequeno no pescoço, como picada infeccionada. "Não fala isso aqui."
"Quem é você?"
"Neto do José Nilton. Meu avô estava na Equipe 4. Morreu dizendo que deixou um rapaz lá embaixo. Todo mundo chamou de demência."
Douglas olhou para o corredor vazio. "Você trabalha aqui por coincidência?"
"Eu trabalho em três lugares porque salário não fecha mês. Hoje a ambulância trouxe Adalberto e eu reconheci o nome. Depois reconheci o seu no celular dele." Roberto apontou para Camila. "Ele acordou falando Duarte, caderno, não deixa levar."
"Quem quer transferir ele?"
"Pedido externo. Médico assinou sem examinar. Ambulância particular chega em quinze minutos."
Camila sentiu o estômago endurecer. "Valente."
Roberto não confirmou. Também não precisou.
O leito 12 ficava no fim da observação masculina, separado por cortinas verdes. Adalberto estava deitado com acesso no braço, oxigênio no nariz e uma mancha roxa subindo pelo lado esquerdo do pescoço. Parecia menor sob o lençol. A boca tremia enquanto dormia, formando palavras sem voz.
Camila se aproximou. "Seu Adalberto."
Os olhos dele abriram de uma vez, assustados. A primeira reação foi medo. Depois reconhecimento. Ele tentou levantar.
"Não", Camila disse. "Fica quieto."
"Caderno?"
"Copiado. Parte está comigo. Parte está segura."
Ele fechou os olhos, aliviado por um segundo. "Não existe seguro. Existe escondido melhor."
Douglas puxou a cortina para dar privacidade. Roberto ficou do lado de fora, vigiando.
"Quem é a mulher do subsolo?", Camila perguntou.
Adalberto respirou com dificuldade. "Helena Valente. Filha dele. Advogada do instituto. Resolve coisa suja sem sujar sapato."
"Ela tinha um frasco com amostra C."
O velho virou o rosto tão rápido que a cânula saiu do nariz. Douglas recolocou com cuidado.
"Não abre", Adalberto disse. "Não deixa cair em água."
"O que é?"
"Parte que separou da colônia em 2007. Seu pai mandou queimar. Valente guardou. Queria estudar, vender, usar para limpar área contaminada sem obra cara. Depois descobriu que aquilo aprendia. Aprendia voz, caminho, medo."
Camila pensou na mensagem: a sua vai durar mais. "Ele alimentou?"
Adalberto olhou para a cortina. "No começo, com amostra de laboratório. Depois com bicho morto. Depois gente começou a sumir perto de obra, perto de córrego, perto de galeria. Quem podia provar já estava comprado ou com medo."
"Mauro sabia."
"Mauro rezava para Edson porque ajudou a abrir grade. Ele achava que podia tirar o rapaz aos poucos. Quando me ligou semana passada, disse que a voz de Edson tinha mudado. Disse que chamava Camila."
O nome dela dentro daquela frase fez o ar rarear.
"Por que eu?"
"Porque seu pai marcou você no caderno."
"Marcado como filha?"
"Como testemunha futura. Ele escreveu que você reconheceria método, amostra, mentira técnica. Disse que, se a colônia aprendesse a voz dele, ninguém próximo devia responder."
Camila fechou a mão no lençol. Paulo, sempre atrasado para pedir desculpa, tinha deixado proteção em forma de instrução.
Um alarme curto tocou no corredor. Roberto apareceu pela abertura da cortina.
"Ambulância particular entrou. Dois homens com autorização de transferência."
Douglas pegou o celular. "Vou chamar PM."
"A PM de quem?", Adalberto perguntou. "Da ocorrência normal ou da que recebeu telefonema?"
A pergunta cortou a decisão pela metade.
Camila tirou o frasco AMOSTRA C do bolso e mostrou a Adalberto. "Eles querem isso?"
"Querem isso e querem você calada. O frasco é isca. Helena deixou para você pegar."
Douglas encarou Camila. "Então a gente se livra."
"Não aqui", Adalberto disse. "Se quebrar no ralo, o hospital vira margem."
Roberto abriu mais a cortina. "Tem saída de serviço perto da lavanderia. Dá para tirar ele de cadeira."
"Ele está sem condição", Douglas disse.
Adalberto riu fraco. "Condição eu perdi em 2007. Agora só tenho pressa."
Do corredor, uma voz feminina chamou com delicadeza:
"Senhor Freire? Viemos buscar o senhor."
Helena.
Camila não tinha visto o rosto dela direito no subsolo, só a postura, o terno, a calma contrariada. Mesmo assim reconheceu. A voz trazia aquele tipo de educação que não pede licença; informa que a sala já pertence a ela.
Douglas apagou a luz do leito. Roberto puxou a cadeira de rodas dobrável. Camila ajudou Adalberto a sentar. Ele reprimiu um gemido mordendo o lençol. No corredor, passos se aproximavam.
"Tem outra saída pela sala de medicação", Roberto sussurrou.
"Vai", Douglas disse para Camila. "Eu seguro conversa."
"Não."
"Camila."
"Sem heroísmo barato."
"Sem discurso. Vai."
Ela empurrou a cadeira com Roberto, odiando cada segundo. Atrás da cortina, Douglas abriu a voz num tom absurdo de funcionário ofendido.
"A senhora não pode entrar aqui sem paramentação."
Helena respondeu algo baixo demais para Camila ouvir. Depois houve silêncio. Silêncio ruim.
A sala de medicação estava vazia, com armários fechados e uma janela basculante alta. Roberto digitou código numa porta lateral. O leitor apitou vermelho.
"Trocaram", ele disse.
Adalberto agarrou o braço da cadeira. "Ela já bloqueou."
Do ralo no centro da sala saiu uma bolha preta.
Depois outra.
Camila puxou a cadeira para trás. O chão começou a molhar em volta do ralo, uma água escura subindo devagar, sem pressa, porque sabia que eles estavam trancados.
O celular de Camila vibrou no bolso.
Mensagem de Helena.
Dê a amostra, ou ele chama por você na voz certa.
Do outro lado da porta, Douglas gritou o nome dela com a voz do pai.