Subsolo Dois
A primeira coisa que Camila fez foi tapar a boca de Douglas.
Ele já tinha puxado ar para responder à mensagem, talvez xingar, talvez chamar segurança, talvez dizer alguma coisa que o escuro pudesse guardar. A mão dela encontrou o rosto dele no breu, fria, suja de plástico e papel. Douglas entendeu depressa. Não falou.
O celular dela iluminava pouco, uma placa branca dentro do depósito fechado. A mensagem continuava na tela.
A voz do seu pai durou pouco. A sua vai durar mais.
Camila desligou o aparelho. O escuro ficou inteiro.
Do lado de fora da porta metálica, alguém andava no corredor. Passos lentos, sola dura, sem pressa. Pararam diante do depósito 17. Uma chave bateu na fechadura, apenas uma vez, como provocação. Depois veio uma voz masculina, calma, adulta, muito perto da fresta.
"Doutora Duarte, a senhora pegou documentos que não sabe interpretar."
Douglas se inclinou até o ouvido dela. "Valente?", sussurrou quase sem som.
Camila não respondeu. A voz não era a de Sérgio Valente das entrevistas; era mais jovem. Segurança particular, assessor, funcionário do prédio. Qualquer pessoa com crachá bastava quando havia porta trancada e subsolo sem câmera visível.
"Seu pai também interpretou errado", o homem continuou. "Ele achava que estava diante de um acidente. Depois achou que estava diante de crime. As duas leituras eram pequenas."
A água começou a pingar dentro do depósito.
Uma gota caiu em cima de uma caixa de papelão. Outra bateu no chão perto do sapato de Camila. Douglas acendeu a lanterna do celular por um segundo, cobriu a luz com a palma e virou para cima. O teto era laje seca. Sem cano. Sem fissura. Mesmo assim, as gotas surgiam do ar, grossas, escuras, cheirando a ferrugem.
"Tem saída?", Camila murmurou.
Douglas apontou para o fundo, onde uma grade de ventilação ficava acima de uma pilha de maquetes quebradas. Pequena demais para um adulto passar. Grande o suficiente para ar, som e talvez cabo. Camila pensou no caderno, no laudo, na foto da mão presa à massa escura. O depósito não precisava se encher. Bastava molhar papel.
Ela abriu a mochila no chão, enfiou o caderno e o laudo em outra sacola, amarrou com força e colocou tudo dentro da própria camiseta, junto à pele. O plástico frio encostou no abdômen. Douglas tirou o cinto e passou pela alça interna da porta, improvisando um puxador para impedir que alguém abrisse de fora.
"Não adianta", disse a voz no corredor. "A fechadura trava para os dois lados."
Douglas olhou para Camila e moveu os lábios: elevador de carga?
Ela negou. No caminho, vira apenas o corredor, a grade e a porta. Mas prédios antigos reformados carregavam vícios de planta. Sempre havia shaft, sala técnica, duto de exaustão. Sempre havia o espaço que o acabamento escondia porque ninguém pagava caro para lembrar estrutura.
A água desceu mais forte. Caixas começaram a escurecer na base. Um cartaz enrolado caiu de uma prateleira. No papel, a palavra revitalização apareceu de cabeça para baixo, com letras verdes e alegres.
O homem do corredor falou de novo.
"A colônia não é sua inimiga, doutora. Ela preserva. A cidade mata, enterra, esquece. A colônia guarda. Seu pai entendeu tarde, mas entendeu."
Camila sentiu vontade de gritar que Paulo tinha tentado abrir a comporta. Que o pai dela não preservaria ninguém dentro de água podre. Que Edson não era arquivo. Segurou a língua. Adalberto tinha dado a regra mais importante: não responder.
Douglas subiu na pilha de maquetes e forçou a grade de ventilação. O metal reclamou alto. No corredor, os passos se afastaram. Camila escutou um rádio curto, um som de porta, talvez alguém liberando outra pessoa. Eles tinham pouco tempo ou tempo nenhum.
Ela pegou uma placa de obra quebrada e ajudou a alavancar a grade. O parafuso inferior soltou primeiro. O superior resistiu até Douglas bater com a base da lanterna. A grade caiu dentro do depósito e acertou uma caixa com barulho seco.
O vão não dava passagem.
"Não para gente", Douglas disse.
"Para o caderno."
Camila amarrou a sacola no cinto dele. Douglas prendeu a outra ponta no celular com a lanterna acesa e empurrou pelo vão. O aparelho entrou de lado, mostrando um túnel estreito de concreto, poeira, cabos velhos e marcas úmidas que não deviam existir ali. A imagem transmitia para a tela dele por reflexo improvisado, ruim, suficiente.
"Tem sala do outro lado", ele disse. "Uns três metros."
"Empurra."
"Se cair, perdemos."
"Se ficar, molha."
Ele empurrou.
A sacola avançou pelo duto raspando. A água dentro do depósito já cobria a sola das botas de Camila. Ela segurava a outra ponta do cinto quando alguma coisa tocou seu tornozelo. Não agarrou. Só encostou com dedos leves, infantis.
Camila fechou os olhos.
A voz de Edson veio debaixo da água rasa.
"Doutora, abre para mim."
Douglas viu o rosto dela mudar e balançou a cabeça com força. Não responde.
A água subiu até o peito do pé. Impossível. O depósito não tinha volume, não tinha fonte, não tinha razão. Ainda assim subia. Camila levantou uma caixa, subiu em cima, puxou a perna para longe do toque e mordeu o próprio punho para não falar.
No corredor, uma segunda voz apareceu. Dessa vez, feminina, impaciente.
"Chega. Valente quer os documentos, não cadáver novo."
"Ela já viu demais", respondeu o homem.
"Então faz parecer furto. Abre."
A chave entrou na fechadura.
Douglas puxou o cinto de volta com violência. A sacola não voltou. O cinto veio vazio, rasgado na ponta.
"Passou", ele disse.
A porta começou a abrir. O cinto improvisado segurou por dois segundos. No terceiro, a fivela estourou. Luz do corredor cortou o depósito.
Camila jogou a placa de obra na lâmpada mais próxima. O plástico quebrou, o corredor apagou pela metade, alguém gritou. Douglas avançou sem elegância nenhuma, ombro primeiro, acertando o homem da porta no peito. Os dois caíram contra a parede. A mulher tentou puxar algo da bolsa. Camila viu brilho de metal e chutou a mão dela antes de pensar. O objeto deslizou pelo chão: não era arma. Era um frasco pequeno, com líquido escuro e etiqueta branca.
A etiqueta dizia AMOSTRA C.
Camila pegou o frasco.
A mulher olhou para ela. Tinha uns cinquenta anos, cabelo preso, terno sem uma dobra. Não parecia assustada. Parecia contrariada.
"Você não tem ideia do que está levando", ela disse.
Camila guardou o frasco no bolso da jaqueta. "Estou começando a ter."
Douglas se levantou com a boca sangrando, puxou Camila pelo braço e correu. O segurança do balcão apareceu no fim do corredor, viu os dois, viu a mulher caída, viu a água escorrendo para fora do depósito. Por um instante, escolheu não entender.
"Escada!", ele gritou, apontando para a porta corta-fogo.
Eles subiram dois andares sem parar. No térreo, a recepção estava vazia. A parede verde pingava água pelas folhas de plástico. Do lado de fora, a madrugada cheirava a escapamento e chuva distante.
No carro, Douglas arrancou antes de fechar direito a porta.
"O caderno?", Camila perguntou.
"Foi para o outro lado do duto."
"Que outro lado?"
"Sala técnica, eu acho."
"A gente deixou lá?"
"A gente saiu vivo. É uma categoria de vitória."
Ela abriu o celular. Sem sinal por alguns segundos. Depois chegaram doze mensagens de uma vez. Fotos, uma atrás da outra. O caderno aparecia aberto em uma superfície metálica. As páginas tinham sido fotografadas de cima, nítidas, completas. Alguém do outro lado do duto pegara a sacola e digitalizara o resto.
A última mensagem vinha de número desconhecido, diferente do anterior.
Seu pai me salvou em 2007. Agora salva você.
Anexo havia uma localização: Hospital Municipal de Osasco, ala de observação, leito 12.
Adalberto.
Camila olhou para Douglas.
Ele já mudava de faixa.