A Voz Que Lúcia Deu O Monstro do Rio Pinheiros · Capítulo 10 de 12
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A Voz Que Lúcia Deu

Lúcia não olhou para a pia. Essa foi a primeira coisa que Camila percebeu. A professora escutou o primeiro pingo, depois o segundo, e manteve os olhos no rosto dela, como se olhar para a água fosse uma forma de aceitar conversa.

"Ninguém fala", Lúcia disse.

Douglas levantou devagar, segurando a gaze na boca. Roberto puxou a cadeira de Adalberto para longe da bancada. Camila pegou o saco de cal sodada e espalhou uma linha grossa no chão entre a pia e a mesa onde estava a caixa térmica. Talvez aquilo não funcionasse contra água saindo de encanamento. Ainda assim, procedimento começava com algum gesto menos burro que pânico.

A torneira estava fechada. O registro abaixo da cuba também. Mesmo assim, uma gota preta se formava na boca metálica, inchava e caía com paciência.

Plic.

Lúcia atravessou o laboratório e desligou a chave elétrica da bancada. As geladeiras continuaram alimentadas por circuito separado. O restante da sala mergulhou numa penumbra azulada de luz de emergência.

Plic.

"O que aconteceu em 2007?", Camila perguntou, baixo.

"Eu falei com ela."

"Com a amostra?"

Lúcia assentiu. "Paulo trouxe material seco, lacrado, e gravações de Edson chamando por Mauro. Eu achei que havia fraude acústica. Coloquei a amostra em câmara isolada, reproduzi as gravações, medi reação. Até aí, ciência ruim, mas ciência. Depois ouvi minha irmã."

Camila não conhecia a irmã de Lúcia. Pelo modo como Douglas parou de mexer, ele também entendeu que não importava conhecer. Voz certa não precisava apresentação.

"Minha irmã tinha morrido em 1998", Lúcia continuou. "A amostra usou uma frase que só ela dizia. Eu respondi. Só uma palavra. O material cresceu o suficiente para tocar o vidro interno da câmara. Paulo viu pelo visor. No dia seguinte, tirou a amostra principal daqui. Disse que eu já tinha virado dado para a colônia."

A água escorreu pela torneira em fio curto.

"E tinha virado?", Roberto perguntou.

Lúcia pegou um bastão de cobre de uma gaveta e colocou sobre a linha de cal. "Durante meses, ouvi minha irmã perto de ralos. Depois parou. Ou aprendi a não ouvir."

A torneira pingou mais rápido.

Da cuba veio uma voz feminina, velha e carinhosa:

"Lu, abre para mim."

Lúcia fechou os olhos. Só isso. O rosto dela não quebrou. Ficou menor. Camila sentiu um respeito doloroso por aquela mulher que passara dezenove anos guardando silêncio como se fosse remédio.

Adalberto começou a chorar. "Ela pega tudo que a gente deixou sem despedida."

"Ela pega padrão", Lúcia disse, a voz firme de novo. "Não amor. Não culpa. Padrão. Lembrem disso."

Camila queria acreditar. Queria muito. Só que a voz da pia tinha usado diminutivo, e padrão nenhum deveria saber onde machuca.

Douglas apontou para a caixa térmica. "A amostra C está reagindo?"

Lúcia verificou o indicador químico preso ao saco externo. "Contida. A pia não veio por ela. Veio por mim. Ou pela mensagem."

"Mensagem de quem?"

"De alguém com acesso ao laboratório e aos telefones." Lúcia abriu uma gaveta trancada e tirou três pequenos dispositivos pretos. "Bloqueadores de sinal local. Velhos, ilegais, úteis. Coloquem os celulares aqui."

Douglas desconfiou. "Isso apaga prova?"

"Apaga rastreamento. As provas que prestam já estão duplicadas?"

Camila confirmou. Colocou o celular na caixa metálica indicada. Todos fizeram o mesmo. A sala ficou sem vibrações, sem telas, sem mensagens novas. A ausência pareceu absurda, quase luxuosa.

A voz da pia chamou de novo. Lúcia espalhou mais cal no ralo, despejou pó de cobre por cima e ligou um aparelho de ultrassom portátil na tomada de emergência. Um zumbido alto, fino, tomou o laboratório. A água na cuba tremeu, escureceu, recuou em pequenos círculos até sumir pelo ralo.

Roberto cobriu os ouvidos. "Isso mata?"

"Isso irrita", Lúcia disse. "Às vezes irritar compra vida."

Quando a pia secou, Camila respirou pela primeira vez em quase um minuto. A professora desligou o aparelho e apoiou as mãos na bancada. Parecia exausta, mas não derrotada.

"Sexta-feira é tarde", Lúcia disse.

"A visita técnica é sexta", Douglas respondeu.

"Valente não vai esperar. Ele sabe que a amostra saiu do controle dele, sabe que Adalberto falou, sabe que Camila tem o caderno. A visita de sexta será vitrine ou limpeza. Se ele for inteligente, antecipa uma intervenção de manutenção amanhã cedo e sela a galeria com concreto químico. Depois chama a imprensa para mostrar tudo limpo."

Camila viu o desenho no quadro: comporta, galeria lateral, pontos de drenagem. "Então entramos antes."

"Não."

A negativa veio de três pessoas: Douglas, Lúcia e Adalberto. Roberto levantou um dedo, pensou melhor e deixou a mão cair.

Camila encarou o mapa. "Se ele sela a galeria, Edson vira prova morta. Mauro some como lenda. Meu pai fica como assinatura suja."

"Você não entra na comporta de madrugada", Douglas disse.

"Não de madrugada. Ao amanhecer. Com câmera, com Lúcia, com Roberto, com Adalberto gravando depoimento antes."

"Eu não vou aguentar margem", Adalberto disse.

"Não precisa ir. Precisa falar. Agora."

O velho olhou para ela por tempo longo. Havia vergonha nos olhos dele, e uma esperança tão cansada que parecia machucar mais. "Se eu falar, eles matam minha neta."

Lúcia se aproximou. "Se o senhor não falar, eles usam sua assinatura para matar outros."

A frase foi dura. Necessária. Adalberto assentiu com uma raiva triste.

Roberto montou o celular dentro de uma caixa seca, sem conexão, só gravação local. Lúcia colocou uma placa de cobre embaixo, como se aquilo pudesse proteger até memória digital. Adalberto falou durante vinte e seis minutos. Contou a ordem de fechamento, o retorno de Edson ao duto, o capacete vazio, a pressão de Sérgio Valente, a assinatura falsa, Mauro rezando na margem, Paulo tentando reabrir e sendo tirado da obra. Não chorou até dizer o nome de Edson. Depois chorou e continuou.

Camila ficou atrás da câmera, quieta. A cada minuto, a história deixava de ser dela e virava documento. Era melhor assim. Mais frio. Mais difícil de afogar.

Quando a gravação terminou, Lúcia copiou o arquivo para três cartões e entregou um a Douglas, um a Roberto e um a Camila.

"Agora o plano", ela disse. "Amanhã, antes das seis, vocês vão à comporta com equipamentos de coleta e transmissão. Eu levo ultrassom portátil, cal, cobre e câmeras. Douglas chama um jornalista confiável. Não influencer. Jornalista. Roberto fica com Adalberto e manda o depoimento se não receber nossa confirmação até sete e meia."

"E Valente?", Douglas perguntou.

"Valente vai estar lá", Camila disse.

Todos olharam para ela.

"Ele não vai conseguir esperar até sexta. A Lúcia tem razão. Se ele sabe que perdemos o medo da prova, a única saída dele é apagar o lugar antes."

Lúcia foi até a geladeira de segurança e tirou a caixa com as iniciais de Paulo. "Então levamos isto."

"A amostra do meu pai?"

"Seca, inativa, controlada. Ela pode reagir à colônia principal e servir de marcador."

"Ou acordar."

"Tudo pode acordar se formos incompetentes. Por isso não seremos."

Douglas riu com a boca machucada. "A senhora é sempre assim?"

"Quando gosto das pessoas, sou pior."

Camila pegou a caixa. Era leve demais para carregar dezenove anos de medo. No rótulo, a letra de Lúcia cercava as iniciais de Paulo com instruções curtas: não hidratar, não vocalizar, não expor a corrente aberta.

Do lado de fora do laboratório, o corredor acendeu sozinho.

Roberto apagou a luz interna. Pela janelinha da porta, viram uma mulher parada a dez metros, imóvel, de jaleco branco e cabelo solto. Por um segundo, Camila achou que fosse Helena. Depois percebeu que a mulher era mais baixa, mais velha, e usava um vestido que ninguém usaria dentro de laboratório.

Lúcia fez um som pequeno, quase sem ar.

"Minha irmã", ela sussurrou.

A mulher do corredor sorriu com ternura.

A boca dela se abriu larga demais, cheia de água escura.

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