A Ponte das Velas O Monstro do Rio Pinheiros · Capítulo 4 de 12
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A Ponte das Velas

Douglas chegou ao prédio de Camila às 22h31, sem tocar campainha. Mandou mensagem dizendo estou na garagem, desce com o que achou e sem discutir. Ela leu diante da mesa da cozinha, entre documentos úmidos, fotografia manchada e a frase de Adalberto ainda presa no ouvido: vim devolver uma coisa.

A primeira vontade foi esconder tudo. A segunda foi obedecer ao pai morto que nunca pedia duas vezes quando dizia fecha a porta. Camila escolheu uma terceira: fotografou cada folha, cada verso, cada assinatura, salvou as imagens em duas pastas com nomes banais e enviou uma cópia para um e-mail antigo que usava para receber boletos. Só então juntou o envelope, a foto da Equipe 4 e as folhas com a assinatura de Paulo dentro de uma mochila impermeável.

Antes de sair, olhou de novo para a janela da área de serviço. O risco escuro continuava no vidro, imóvel, grosso, como dedo passado em graxa. Do lado de fora, décimo andar, não havia varanda, calha nem cano. Camila pegou papel toalha e limpou. A mancha saiu com cheiro de rio.

Douglas não comentou a mochila. Estava de boné, jaqueta velha e aquela expressão de quem tentava parecer calmo por respeito ao pânico dos outros.

"Você devia ter chamado a polícia", ele disse quando ela entrou no carro.

"E falado o quê? Um homem que deveria estar em Osasco ligou pelo meu interfone e depois talvez tenha sido engolido debaixo de uma ponte?"

"Eu faria um boletim mais organizado."

"Por isso você dirige."

Ele arrancou. A cidade passava pelo vidro como um lugar visto depois de febre: bares cheios, ônibus atrasados, motoboys costurando faixas, gente saindo de academia com fone no ouvido. Camila pensou em Mauro caminhando sozinho pela margem, em Edson voltando para o duto por causa de um choro impossível, em Adalberto velho demais para correr e culpado demais para ficar longe.

"Qual ponte?", Douglas perguntou.

"Ele disse onde Mauro deixava vela. Rita falou que Mauro falava com a água toda noite. Deve ser perto da comporta."

"Isso é pouco."

"É o que temos."

"Temos também um número inexistente, uma foto molhada na sua cozinha e meu cargo que vai evaporar se eu aparecer em cena sem autorização."

"Você pode me deixar na ciclovia e ir embora."

Douglas riu uma vez, sem alegria. "Boa tentativa."

A Marginal à noite tinha outro tipo de pressa. De dia, o rio parecia cenário feio. À noite, virava buraco comprido entre luzes, um espaço escuro que a cidade fingia dominar com postes e grades. Perto da comporta, havia duas viaturas paradas, giroflex apagado, e uma ambulância atravessada no recuo. Douglas reduziu antes de passar por elas.

"Não encosta", Camila pediu.

"Já encostei."

"Douglas."

"Se Adalberto está ferido, cada minuto conta. Se está morto, cada minuto muda a cena."

Ela odiou ele estar certo.

Um soldado tentou barrar os dois na fita. Douglas mostrou credencial, falou rápido, misturou concessionária, ocorrência ambiental e material biológico. O soldado ouviu metade e deixou passar porque precisava discutir com três curiosos filmando de longe. Camila seguiu pelo acostamento até a descida de manutenção que levava à parte baixa da ponte.

O cheiro veio primeiro. Vela queimada, água podre, plástico quente. Debaixo da estrutura, onde o concreto formava um teto baixo sobre a margem, havia um pequeno altar improvisado em cima de um bloco: sete velas brancas, duas apagadas pela umidade, uma garrafa de água mineral, um maço de cigarro fechado e uma marmita de alumínio. Ao lado, no barro, marcas de joelho.

"Mauro", Camila murmurou.

Douglas apontou a lanterna para o chão. "Tem rastro."

Não era pegada comum. Alguém fora arrastado da área das velas até a beira do rio, deixando sulcos fundos, paralelos, interrompidos por marcas de dedos. Dedos humanos. Dedos tentando agarrar barro.

Camila agachou e fotografou. A luz da lanterna pegou algo brilhando perto de uma coluna. Um aparelho de pressão antigo, daqueles de farmácia, preso por fita adesiva a um saco plástico. Dentro do saco havia um caderno preto sem capa.

Ela esticou a mão.

Douglas segurou seu pulso. "Espera."

"Adalberto disse que veio devolver uma coisa."

"E se deixaram isso para você tocar?"

"Então fotografa antes."

Ele fotografou de todos os ângulos. Camila vestiu luvas novas e abriu o saco com cuidado. O caderno estava seco. Seco demais para aquele lugar, como se tivesse sido guardado em outra temperatura. Na primeira página, a letra de Paulo Duarte ocupava metade da folha.

Se este caderno aparecer sem mim, procurar Camila somente quando ela for adulta.

Camila perdeu a sensação dos dedos por um instante.

Douglas leu por cima do ombro e ficou quieto.

Ela virou a página. Não havia diário, ao menos não no começo. Havia medições de pH, datas, nomes de empresas, croquis da galeria lateral e anotações sobre gás acumulado. Paulo escrevera uma frase circulada três vezes: presença de material orgânico não compatível com fauna local. Embaixo, outra: resposta sonora a nomes próprios durante inspeção.

"Seu pai ouviu também", Douglas disse.

"Ele mediu", Camila respondeu.

A diferença a atingiu com força. Paulo não tinha escrito monstro, assombração, milagre, vingança. Tinha feito tabela. Tinha tentado transformar medo em dado porque era assim que ele sobrevivia ao absurdo.

Uma voz chamou do escuro sob a ponte.

"Doutora."

Camila levantou a lanterna. Perto de uma pilha de pneus, Adalberto Freire estava sentado no barro, costas contra a coluna, rosto branco demais. A camisa dele estava encharcada até o peito. Um corte abria a testa. A mão direita segurava o próprio tornozelo, como se impedisse alguma coisa de puxá-lo de volta.

Douglas correu primeiro. "Senhor Adalberto? Fica parado. Ambulância está ali em cima."

O velho riu com os dentes batendo. "Em cima não ouve. Aqui embaixo ouve."

Camila se ajoelhou diante dele. "Quem fez isso?"

Adalberto olhou para o rio. "Mauro veio buscar vela. Eu vim buscar perdão. Nenhum de nós achou."

"O senhor trouxe o caderno?"

"Seu pai me deu no hospital, antes de morrer. Disse que, se a obra voltasse a chamar gente, era para entregar a você. Eu devia ter feito antes."

"Por que não fez?"

Ele tentou engolir. A garganta falhou. "Porque eu assinei a retirada do Edson."

Douglas chamou socorro pelo rádio. Camila ouviu, distante, a voz dele dando coordenadas.

"O senhor viu Edson sair?", ela perguntou.

Adalberto chorou sem som, do jeito que Rita chorara na margem. "Vi uma coisa sair usando a voz dele. Vi Mauro abrir espaço na grade porque achou que era o menino. Quando puxamos, veio só o capacete. O engenheiro mandou parar tudo. Mandou abrir de novo. A empreiteira fechou com ele fora da obra, disse que era risco de desabamento. Depois assinaram por cima."

"Quem assinou por cima?"

Adalberto agarrou a manga dela. "Nome no caderno. Página do recibo. Não leva para delegacia comum. Eles têm gente."

A água atrás dele borbulhou, baixa, quase educada.

Douglas parou de falar no rádio.

Do rio veio a voz de Paulo Duarte.

"Camila, volta para casa."

Ela conhecia a entonação. Conhecia até a pausa antes do nome, curta, impaciente, quando ela demorava para atravessar a rua. O corpo dela obedeceu por meio segundo: levantou, deu um passo para trás, procurou o pai no escuro.

Adalberto apertou sua manga com força surpreendente.

"Não responde", ele sussurrou. "Ele aprende quando a gente responde."

A água bateu na margem. Algo comprido passou sob a superfície, deslocando reflexos de farol. A lanterna de Douglas tremia. Camila mordeu a parte de dentro da boca até sentir gosto de sangue. Não disse pai. Não disse nada.

A voz mudou.

"Filha."

Dessa vez, veio com a dor exata dos últimos dias no hospital, quando Paulo tentava esconder falta de ar para ela dormir na poltrona.

Camila abriu o caderno no colo, sem olhar para o rio. Na página marcada por um clipe enferrujado, havia um recibo colado. Pagamento extra, 19 de abril de 2007. Autorização de fechamento fora do procedimento. Assinatura do diretor de obras: Sérgio Valente.

Ao lado do nome, Paulo escrevera uma anotação curta.

Valente sabe que E.N. não saiu.

A voz do pai parou.

Na água, alguma coisa riu com a boca cheia.

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