O Nome no Recibo
A ambulância levou Adalberto vivo, embora ele parecesse deixar parte de si grudada no barro a cada metro da maca. Camila acompanhou até a subida de manutenção com o caderno apertado contra o corpo por dentro da jaqueta. Douglas discutia com um policial militar que queria recolher tudo como achado de ocorrência. O policial apontava para a mochila dela. Douglas apontava para a ambulância, para o rio, para a credencial, para qualquer coisa que ganhasse tempo.
"Material ambiental sensível", ele dizia. "Precisa de cadeia de custódia específica."
"Isso é caderno", o policial respondeu.
"Caderno que saiu de área contaminada."
Camila quase sorriu. Douglas mentia mal quando era sobre si mesmo. Mentia muito bem quando precisava proteger alguém.
Do alto da ponte, uma mulher filmava com o celular. Dois rapazes narravam em voz baixa, procurando monstro na água para ganhar visualização. Um deles disse que havia corpo. Outro disse que era jacaré. Ninguém disse Edson. Ninguém disse Mauro. A cidade já começava a transformar pessoas em versão compartilhável.
No carro, Douglas só falou depois de três quarteirões.
"Você não vai para delegacia com esse caderno."
"Adalberto pediu a mesma coisa."
"Então ele ainda raciocina."
"Ele confessou assinatura falsa."
"Ele confessou debaixo de uma ponte, depois de quase morrer, enquanto uma voz imitou seu pai. Um delegado comum vai chamar isso de surto coletivo e guardar o caderno onde alguém consegue sumir com ele em vinte minutos."
Camila abriu a mochila no colo. O caderno estava dentro de dois sacos, seco, grosso, sem capa. Ela não teve coragem de encostar nas páginas de novo. "Sérgio Valente."
"Já ouvi esse nome."
"Diretor de obras em 2007."
Douglas pegou o celular no suporte, destravou com o polegar e pediu para ela pesquisar. Camila digitou com as mãos ainda tremendo. O primeiro resultado trouxe um homem de terno cinza sorrindo diante de um painel azul: Sérgio Valente, presidente do Instituto Margem Viva, participa de audiência sobre revitalização do Pinheiros.
A foto tinha sido publicada três dias antes.
"Ele está vivo", Camila disse.
"E perto."
Ela abriu a matéria. Valente falava sobre recuperação urbana, memória ambiental e segurança das estruturas antigas. O texto citava uma visita técnica marcada para sexta-feira na região da comporta, com presença de vereadores, imprensa local e representantes de uma incorporadora interessada em um parque linear.
Sexta-feira era dali a dois dias.
"Ele vai voltar à comporta", Douglas disse.
Camila ampliou a foto. Valente devia ter mais de sessenta, cabelo branco muito bem cortado, rosto liso de consultório caro. Na lapela havia um broche verde em forma de gota. Atrás dele, no painel, a frase: o rio devolvido à cidade.
"Devolvido por quem?", ela murmurou.
O caderno respondeu sem som. Uma gota escura apareceu no plástico que o envolvia, do lado de dentro do saco. Depois outra. Camila segurou a respiração. As páginas continuavam secas. As gotas se formavam entre o saco e o ar, impossíveis, lentas, como suor de coisa enterrada.
Douglas estacionou em frente a uma farmácia vinte e quatro horas. "Vamos digitalizar isso em algum lugar que não seja sua casa."
"Farmácia?"
"Tem copiadora no fundo. O dono me deve favores desde uma multa de descarte irregular que eu aliviei com palestra."
"Você aliviei?"
"Eu eduquei."
A copiadora ficava ao lado de prateleiras de fralda geriátrica e suplemento de academia. O balconista reconheceu Douglas, fechou a porta de vidro do fundo e fingiu não ver a sujeira nas botas de Camila. Durante quarenta minutos, eles fotografaram e escanearam páginas. O caderno tinha registros técnicos, nomes, valores e pequenas frases do pai que pareciam deixadas para alguém específico.
Em 23 de abril de 2007: Valente exige relatório sem desaparecimento. Recusei.
Em 26 de abril: amostra retirada da galeria apresenta proteína degradada, presença de metais acima do tolerável, odor adocicado. Laboratório terceirizado recusou protocolo.
Em 2 de maio: Mauro diz que ouviu E.N. pedir cigarro. Edson não fumava.
Em 9 de maio: entidade acústica responde melhor a vozes conhecidas. Não registrar em sistema aberto.
Camila parou nessa linha. "Entidade acústica."
Douglas leu. "É jeito de engenheiro dizer que estava com medo."
"É jeito do meu pai pedir ajuda sem virar piada."
Na página seguinte havia uma lista de pagamentos. Três empresas de fachada, dois fiscais, um vereador já morto e Sérgio Valente no topo, com iniciais S.V. ao lado de valores em dinheiro. No rodapé, Paulo colara a cópia de um cartão de visita. Valente Obras Integradas. O endereço ficava na Vila Olímpia.
"Essa empresa não existe mais", Douglas disse, pesquisando. "Foi incorporada por outra, que virou fundo, que virou instituto. O mesmo truque com nome bonito."
Camila fotografou o cartão. "O prédio ainda existe?"
"Existe. Hoje é coworking caro."
"Então vamos."
"Agora?"
"O caderno diz que ele tirou amostras. Se alguma coisa sobrou da empresa antiga, pode estar em arquivo físico, depósito, subsolo."
Douglas olhou para ela como se tentasse calcular qual parte da noite ainda era racional. "Você ouviu a frase coworking caro e imaginou subsolo secreto?"
"Eu cresci com engenheiro. Sempre tem subsolo."
Ele pensou em protestar. Desistiu no meio da respiração.
À 00h18, estavam diante de uma torre espelhada na Vila Olímpia. O prédio tinha catraca moderna, recepção com cheiro de aromatizador cítrico e uma parede verde de plantas que não pareciam gostar de viver ali. O segurança escutou Douglas falar em vazamento, risco ambiental e vistoria emergencial. Depois escutou Camila dizer comporta Pinheiros, 2007, arquivo de obra. O rosto dele mudou pouco, mas a mão foi para o telefone.
"O senhor vai ligar para quem?", Camila perguntou.
"Administradora."
"Qual o nome?"
"Procedimento, senhora."
Douglas inclinou o corpo sobre o balcão. "Se tiver vazamento antigo e vocês atrasarem acesso, a responsabilidade é do condomínio. Quer que eu registre sua negativa?"
O segurança abriu a boca. O telefone tocou antes que ele falasse. Ele atendeu, ouviu, olhou para Camila e desligou devagar.
"Subsolo dois", disse. "Arquivo técnico fica no depósito 17."
"Quem autorizou?"
"Administradora."
"Nome?"
Ele não respondeu.
O elevador desceu com música baixa demais para ser música. Camila sentiu o caderno vibrar dentro da mochila, ou achou que sentiu. No subsolo dois, as luzes acenderam por sensor em fileiras, revelando carros cobertos, bicicletas presas e portas metálicas numeradas. O depósito 17 ficava no fim de um corredor de serviço, atrás de uma grade pintada de cinza.
A fechadura estava aberta.
Douglas levantou a lanterna. "Isso é convite."
"Ou pressa."
Dentro havia caixas de arquivo, maquetes quebradas, placas antigas de obras e um cheiro que não combinava com prédio novo: água parada e ferrugem. Camila encontrou a etiqueta Valente Obras em três caixas no canto. A primeira tinha contratos. A segunda, fotos de inauguração. A terceira estava vazia, exceto por um envelope plástico preso ao fundo com fita ressecada.
Ela abriu.
Havia um laudo de 2007 com o nome de Edson Nascimento, marcado como amostra B. Não corpo. Amostra. Duas páginas depois, uma foto granulada mostrava uma massa escura presa à grade interna da comporta. No canto da imagem, uma mão humana saía da massa, dedos abertos, unhas arranhando concreto.
Douglas virou o rosto. "Meu Deus."
Camila leu a conclusão do laudo. Material biológico humano integrado a colônia não identificada. Reação sonora induzida por nomes de contato. Risco de expansão em ambiente com matéria orgânica e metais pesados.
A porta do depósito fechou atrás deles.
A luz apagou.
No escuro, o telefone de Camila recebeu uma mensagem de número desconhecido.
A voz do seu pai durou pouco. A sua vai durar mais.