A Professora de Paulo O Monstro do Rio Pinheiros · Capítulo 9 de 12
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A Professora de Paulo

Lúcia Sato abriu a porta lateral do instituto antes que Douglas parasse o carro. Usava jaleco sobre roupa de dormir, tênis sem meia e uma máscara pendurada no pescoço. Tinha setenta anos, talvez mais, cabelo branco preso com lápis e o olhar de quem já vinha irritada havia muito tempo.

"Tirem o senhor da cadeira e entrem sem falar nome de ninguém", ela disse.

Camila obedeceu antes de perguntar. Roberto ajudou Adalberto a levantar. Douglas, mancando, pegou a mochila e olhou para a fachada escura do Instituto de Ciências Biomédicas como se esperasse Helena sair de trás de uma coluna. Eram quase três da manhã. O campus parecia abandonado, mas algumas janelas ainda tinham luz. Ciência e insônia sempre foram parentes próximas.

Lúcia levou o grupo por um corredor de serviço até um laboratório no fundo. A sala tinha bancadas limpas, geladeiras trancadas, capela de exaustão e uma pia que Camila evitou encarar. Em cima de uma mesa, dentro de uma caixa térmica, estava o saco amarelo com a amostra C. Alguém da lavanderia conseguira entregar antes deles.

"Quem trouxe?", Camila perguntou.

"Uma senhora baixinha que me chamou de doutora como se fosse ameaça", Lúcia respondeu. "Fez certo."

Roberto respirou fundo. "Minha mãe."

"Mande flores depois. Agora todos sentados. Sem água aberta, sem copo, sem torneira, sem falar nome completo perto da caixa."

Douglas apontou para o próprio corte na boca. "Sangue conta?"

"Tudo conta quando ainda não sabemos a regra." Lúcia entregou gaze seca a ele. "Pressiona. Não dramatiza."

Camila quase riu. A professora tinha envelhecido sem perder a capacidade de tornar emergência uma aula prática.

Adalberto foi colocado numa cadeira reclinável. Estava pálido, os olhos afundados, mas recusou maca. "Se eu deitar, durmo. Se eu dormir, falo."

Lúcia olhou para ele com respeito imediato. "Então não durma."

Camila tirou os documentos da mochila: cópias do caderno, laudo da amostra B, fotos da Equipe 4, recibo com o nome de Sérgio Valente. Lúcia colocou luvas e examinou tudo em silêncio. Quando viu a letra de Paulo, ficou parada por tempo demais.

"A senhora conheceu meu pai em 2007", Camila disse.

"Conheci antes. Ele me procurou em 2006 por causa de um relatório de sedimento. Eu era especialista em biofilmes urbanos e contaminação por metais. Seu pai queria saber se uma colônia microbiana podia fixar material orgânico em estrutura de drenagem. Pergunta estranha, mas não impossível. Depois voltou com gravações."

"Gravações de voz?"

Lúcia assentiu. "No início, ruídos. Depois sílabas. Depois nomes. Paulo achava que era transmissão acústica por cavidade. Um duto funcionando como caixa de ressonância. Eu achei que ele precisava dormir."

A frase doeu nela mesma. Lúcia tirou os óculos, limpou com a ponta do jaleco e colocou de volta.

"Quando Edson desapareceu, ele me trouxe uma amostra. Pouca coisa, material escuro aderido a pele humana."

Camila ficou rígida.

Lúcia ergueu uma mão. "Desculpa. Material aderido a pele e osso. Não vou dourar porque não ajuda. A amostra respondia a vibração. Não a qualquer vibração. Frequências associadas a vozes familiares provocavam crescimento orientado. Voz desconhecida quase não fazia diferença. Voz gravada tinha efeito menor. Voz viva era pior."

Douglas parou de pressionar a gaze. "Pior como?"

"Aumentava atividade. Produzia gás. Movia filamentos. E, com água contaminada do rio, parecia armazenar padrão sonoro."

Roberto murmurou: "Guardar voz."

"Imitar voz", Lúcia corrigiu. "Guardar é palavra generosa demais."

Camila pensou no pai chamando pelo lado de fora da porta, em Mauro ouvindo Edson pedir cigarro, em Edson seguindo um menino que não existia. "Por que isso não virou caso público?"

"Porque eu fui covarde com método científico."

A resposta calou a sala.

Lúcia fechou a pasta. "Paulo queria denunciar. Eu pedi mais prova. Pedi repetição, controle, cadeia de custódia, laudo independente. Ele trouxe tudo aos pedaços enquanto gente ameaçava a carreira dele e a minha. Quando Valente apareceu com advogado e financiamento para o laboratório, eu entendi tarde demais que já sabiam. Recusei o dinheiro. Não denunciei. Paulo morreu achando que eu ainda tinha amostra segura."

"Tinha?"

"Tenho."

Ela atravessou o laboratório e digitou duas senhas numa geladeira de segurança. Tirou uma caixa menor, selada, com etiqueta desbotada: P.D. / R.P. / 2007 / NÃO HIDRATAR.

Camila leu as iniciais do pai e sentiu a garganta fechar.

"A amostra dele está morta?"

"Dormindo. Seca. Eu testei formas de contenção durante anos, sem abrir o material principal. Cal virgem ajuda. Desidratação ajuda. Cobre inibe crescimento. Ultrassom em frequência alta desorganiza os filamentos."

"Dá para matar a colônia da comporta?"

"Talvez. Se ela ainda fosse pequena."

Adalberto soltou uma respiração amarga. "Não é pequena."

Lúcia caminhou até um quadro branco e desenhou um mapa simples do rio, comporta, galeria lateral e pontos de drenagem. "A colônia original ficou confinada na galeria por anos. Alimentada por sedimento, matéria orgânica, metal e silêncio. Quando a obra de revitalização abriu canais secundários, ela ganhou circulação. Quando Mauro mexeu na grade, ganhou superfície. Quando Valente guardou e transportou amostras, ganhou laboratório sem controle."

"E ganhou vozes", Camila disse.

"Vozes são isca. O corpo dela é outro problema."

Douglas levantou. "Então chamamos imprensa, ministério público, exército, qualquer coisa grande."

"Com que prova?", Lúcia perguntou. "Um velho ferido, uma bióloga perseguida, vídeos estranhos, uma amostra que ninguém pode abrir em sala comum e documentos de uma obra que Valente já deve estar chamando de falsificação."

Camila olhou para o saco amarelo dentro da caixa térmica. "Precisamos de prova pública."

"Precisamos de coleta na comporta, em transmissão ao vivo ou com testemunha forte o suficiente para Valente não engolir."

"A visita técnica de sexta", Douglas disse. "Imprensa, vereadores, instituto, incorporadora."

"Valente vai estar lá", Camila completou.

Adalberto agarrou o braço da cadeira. "Ele não vai deixar vocês abrirem."

"Ele vai abrir para a câmera", Camila disse. "Se achar que controla o que sai."

Lúcia olhou para ela como professora diante de aluna que acertou pelo caminho perigoso. "Você quer usar a vaidade dele."

"Ele criou um instituto para dizer que devolveu o rio à cidade. Vai querer aparecer ao lado da comporta limpa."

"E se a colônia aparecer?"

"Aí a cidade vê o que ele guardou."

Lúcia apoiou as duas mãos na bancada. "Escuta com atenção. Não se combate isso com coragem. Coragem fala alto, responde chamado, entra em água para salvar sombra. Vocês precisam de procedimento. Ninguém fala nomes na margem. Ninguém atende voz sem confirmação. Toda prova duplicada antes de sair. Toda amostra seca, isolada e longe de ralo."

Douglas levantou a gaze. "E quando a coisa vier atrás?"

"Cobre, cal, ultrassom, distância da água. E silêncio."

O celular de Camila vibrou.

Dessa vez, era um número conhecido: Douglas. Mas Douglas estava ao lado dela, olhando para o próprio aparelho apagado.

A mensagem dizia:

A professora esqueceu de contar por que Paulo parou de procurá-la.

Camila mostrou a tela a Lúcia.

A velha professora leu, empalideceu e sentou devagar.

"Porque eu respondi", ela disse.

No laboratório, a pia fechada começou a pingar.

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