Universo da obra
Universo da obra
Nota editorial. Tradução original Literunico, em português brasileiro, preparada a partir do texto inglês em domínio público de David Hume, An Enquiry Concerning Human Understanding. Nesta seção, Hume distingue impressões e ideias, e formula sua tese de que as ideias são cópias menos vivas de percepções anteriores.
Todos admitirão prontamente que há grande diferença entre as percepções do espírito quando alguém sente a dor de um calor excessivo, ou o prazer de uma temperatura moderada, e quando depois recorda essa sensação pela memória, ou a antecipa pela imaginação. Essas faculdades podem imitar ou copiar as percepções dos sentidos, mas nunca conseguem alcançar inteiramente a força e a vivacidade do sentimento original.
O máximo que dizemos delas, mesmo quando operam com maior vigor, é que representam seu objeto de modo tão vivo que quase poderíamos dizer que o sentimos ou o vemos. Mas, a menos que o espírito esteja desordenado por doença ou loucura, elas nunca chegam a tal grau de vivacidade que tornem essas percepções totalmente indistinguíveis. Todas as cores da poesia, por mais esplêndidas que sejam, jamais podem pintar objetos naturais de modo que a descrição seja tomada por uma paisagem real. O pensamento mais vivo ainda é inferior à sensação mais fraca.
Podemos observar distinção semelhante atravessando todas as outras percepções do espírito. Um homem tomado por um acesso de cólera é movido de modo muito diferente daquele que apenas pensa nessa emoção. Se me dizem que uma pessoa está apaixonada, compreendo facilmente o sentido e formo uma concepção justa de sua situação, mas nunca confundirei essa concepção com as desordens e agitações reais da paixão.
Quando refletimos sobre nossos sentimentos e afetos passados, nosso pensamento é um espelho fiel e copia verdadeiramente seus objetos. Mas as cores que emprega são pálidas e opacas em comparação com aquelas em que nossas percepções originais estavam vestidas. Não é preciso discernimento refinado nem cabeça metafísica para notar a distinção entre elas.
Aqui, portanto, podemos dividir todas as percepções do espírito em duas classes ou espécies, distinguidas por seus diferentes graus de força e vivacidade. As menos fortes e vivas são comumente chamadas de pensamentos ou ideias. A outra espécie carece de nome em nossa língua, e na maior parte das outras, suponho, porque não era necessário, salvo para fins filosóficos, reuni-las sob um termo ou designação geral.
Tomemos, então, alguma liberdade e chamemo-las impressões, empregando essa palavra em sentido um pouco diferente do usual. Pelo termo impressão, entendo todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos. As impressões distinguem-se das ideias, que são as percepções menos vivas das quais temos consciência quando refletimos sobre qualquer das sensações ou movimentos acima mencionados.
Nada, à primeira vista, pode parecer mais ilimitado que o pensamento humano. Ele não apenas escapa a todo poder e autoridade humanos, como nem sequer se mantém dentro dos limites da natureza e da realidade. Formar monstros e unir formas e aparências incongruentes custa à imaginação tão pouco trabalho quanto conceber os objetos mais naturais e familiares.
E enquanto o corpo está confinado a um planeta, pelo qual se arrasta com dor e dificuldade, o pensamento pode, num instante, transportar-nos às regiões mais distantes do universo, ou mesmo para além do universo, ao caos ilimitado onde se supõe que a natureza esteja em completa confusão. Aquilo que nunca foi visto nem ouvido ainda pode ser concebido. Nada está além do poder do pensamento, exceto o que implica contradição absoluta.
Mas, embora nosso pensamento pareça possuir essa liberdade ilimitada, veremos, por exame mais atento, que ele está realmente confinado dentro de limites muito estreitos. Todo esse poder criador do espírito não passa da faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais fornecidos pelos sentidos e pela experiência.
Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas ideias consistentes, ouro e montanha, com as quais já estávamos familiarizados. Podemos conceber um cavalo virtuoso porque, a partir de nosso próprio sentimento, podemos conceber a virtude, e podemos uni-la à figura e à forma de um cavalo, animal que nos é familiar. Em suma, todos os materiais do pensamento derivam do sentimento externo ou interno. A mistura e a composição desses materiais pertencem apenas ao espírito e à vontade. Ou, para expressar-me em linguagem filosófica, todas as nossas ideias, ou percepções mais fracas, são cópias de nossas impressões, ou percepções mais vivas.
Para provar isso, espero que os dois argumentos seguintes sejam suficientes. Primeiro: quando analisamos nossos pensamentos ou ideias, por mais compostos ou sublimes que sejam, sempre descobrimos que se resolvem em ideias simples copiadas de um sentimento ou sensação precedente. Mesmo aquelas ideias que, à primeira vista, parecem mais afastadas dessa origem, quando examinadas de perto mostram derivar dela.
A ideia de Deus, entendida como a de um ser infinitamente inteligente, sábio e bom, surge da reflexão sobre as operações de nosso próprio espírito e do aumento, sem limite, dessas qualidades de bondade e sabedoria. Podemos levar essa investigação tão longe quanto quisermos. Sempre descobriremos que toda ideia que examinamos foi copiada de uma impressão semelhante. Aqueles que afirmam que essa posição não é universalmente verdadeira, nem isenta de exceção, têm apenas um método, e um método fácil, para refutá-la: produzir a ideia que, em sua opinião, não deriva dessa fonte. Caberá então a nós, se quisermos manter nossa doutrina, produzir a impressão, ou percepção viva, que lhe corresponde.
Segundo: se acontece, por defeito do órgão, que uma pessoa não seja suscetível de alguma espécie de sensação, sempre descobrimos que ela tampouco é suscetível das ideias correspondentes. Um cego não pode formar noção das cores, nem um surdo dos sons. Devolvam a qualquer um deles o sentido em que é deficiente. Ao abrir essa nova entrada para suas sensações, abre-se também uma entrada para as ideias, e ele não encontra dificuldade em conceber esses objetos.
O caso é o mesmo se o objeto próprio para provocar alguma sensação nunca foi aplicado ao órgão. Um lapão ou um negro não tem noção do sabor do vinho. E embora haja poucos ou nenhum exemplo de deficiência semelhante no espírito, em que uma pessoa nunca tenha sentido, ou seja inteiramente incapaz de sentir, um sentimento ou paixão pertencente à sua espécie, ainda assim vemos a mesma observação valer em grau menor.
Um homem de costumes brandos não consegue formar ideia de vingança inveterada ou crueldade. Um coração egoísta dificilmente concebe as alturas da amizade e da generosidade. Admite-se facilmente que outros seres possam possuir muitos sentidos dos quais não podemos ter concepção, porque as ideias deles nunca nos foram introduzidas pelo único modo pelo qual uma ideia pode ter acesso ao espírito, isto é, pelo sentimento e pela sensação efetivos.
Há, contudo, um fenômeno contrário que pode provar que não é absolutamente impossível que ideias surjam independentemente de suas impressões correspondentes. Creio que se admitirá prontamente que as várias ideias distintas de cor, que entram pelos olhos, ou as de som, transmitidas pelo ouvido, são realmente diferentes entre si, embora ao mesmo tempo se assemelhem.
Ora, se isso é verdadeiro quanto a cores diferentes, deve sê-lo também quanto aos diferentes tons da mesma cor. Cada tom produz uma ideia distinta, independente das demais. Pois, se isso fosse negado, seria possível, pela gradação contínua dos tons, fazer uma cor passar imperceptivelmente àquilo que lhe é mais remoto. E se não se admite que os intermediários sejam diferentes, não se pode, sem absurdo, negar que os extremos sejam o mesmo.
Suponhamos, portanto, uma pessoa que tenha desfrutado da visão durante trinta anos e se tenha tornado perfeitamente familiarizada com cores de todos os tipos, exceto com um tom particular de azul, por exemplo, que nunca teve a sorte de encontrar. Coloquem-se diante dela todos os diferentes tons dessa cor, exceto aquele único, descendo gradualmente do mais escuro ao mais claro. É claro que ela perceberá um vazio onde falta esse tom e sentirá que há ali uma distância maior entre as cores contíguas do que em qualquer outro ponto.
Pergunto agora se é possível que essa pessoa, por sua própria imaginação, supra essa deficiência e forme para si a ideia daquele tom particular, embora ele nunca lhe tenha sido transmitido pelos sentidos. Creio que poucos deixarão de opinar que ela pode. Isso pode servir como prova de que ideias simples nem sempre, em todos os casos, derivam das impressões correspondentes. Mas esse exemplo é tão singular que mal merece nossa atenção, e não justifica que, apenas por ele, alteremos nossa máxima geral.
Aqui, portanto, temos uma proposição que não só parece, em si mesma, simples e inteligível, mas que, se dela se fizesse uso adequado, poderia tornar igualmente inteligível toda disputa e banir todo aquele jargão que há tanto tempo tomou posse dos raciocínios metafísicos e os cobriu de descrédito.
Todas as ideias, especialmente as abstratas, são naturalmente fracas e obscuras. O espírito tem sobre elas apenas domínio tênue. Elas tendem a ser confundidas com outras ideias semelhantes. E, quando empregamos muitas vezes algum termo, ainda que sem significado distinto, tendemos a imaginar que há uma ideia determinada ligada a ele.
Ao contrário, todas as impressões, isto é, todas as sensações, externas ou internas, são fortes e vívidas. Os limites entre elas são determinados com maior exatidão. Tampouco é fácil cair em erro ou engano a seu respeito. Quando, portanto, suspeitamos que algum termo filosófico é empregado sem qualquer significado ou ideia, como acontece com demasiada frequência, basta perguntar: de que impressão deriva essa suposta ideia? Se for impossível indicar alguma, isso servirá para confirmar nossa suspeita. Ao trazer as ideias a uma luz tão clara, podemos razoavelmente esperar remover toda disputa que surja acerca de sua natureza e realidade.
Nota de Hume. É provável que aqueles que negaram as ideias inatas não quisessem dizer mais do que isto: que todas as ideias eram cópias de nossas impressões. Deve-se confessar, contudo, que os termos empregados por eles não foram escolhidos com tal cautela nem definidos com tanta exatidão que impedissem todos os enganos sobre sua doutrina. Pois que se entende por inato? Se inato equivale a natural, então todas as percepções e ideias do espírito devem ser admitidas como inatas ou naturais, em qualquer sentido que tomemos esta última palavra, seja em oposição ao incomum, ao artificial ou ao miraculoso.
Se por inato se entende contemporâneo ao nosso nascimento, a disputa parece frívola. Não vale a pena investigar em que momento começa o pensamento, se antes, no instante ou depois do nascimento. Além disso, a palavra ideia parece ser comumente tomada em sentido muito frouxo por Locke e outros, significando qualquer uma de nossas percepções: sensações e paixões, assim como pensamentos. Nesse sentido, eu gostaria de saber o que se pode querer dizer ao afirmar que o amor de si, o ressentimento por ofensas, ou a paixão entre os sexos não é inata.
Mas, admitindo esses termos, impressões e ideias, no sentido acima explicado, e entendendo por inato aquilo que é original ou não copiado de nenhuma percepção precedente, então podemos afirmar que todas as nossas impressões são inatas, e nossas ideias não são inatas.
Para ser sincero, devo declarar que, em minha opinião, Locke foi levado a essa questão pelos escolásticos, que, servindo-se de termos indefinidos, prolongam suas disputas de modo tedioso sem jamais tocar o ponto em questão. Ambiguidade e rodeio semelhantes parecem atravessar os raciocínios desse filósofo sobre este, assim como sobre a maior parte dos outros assuntos.
Ensaio filosófico de David Hume sobre experiência, ideias, causalidade, crença, probabilidade, milagres e os limites do entendimento humano. Tradução brasileira Literunico em andamento a partir do texto inglês original em domínio público.\n\nTexto original no Aurora: An Enquiry Concerning Human Understanding - https://literunico.com.br/aurora/93441\nFonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/9662
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