Universo da obra
Universo da obra
Nota editorial. Tradução original Literunico, em português brasileiro, preparada a partir do texto inglês em domínio público de David Hume, An Enquiry Concerning Human Understanding.
[9] O sr. Locke divide todos os argumentos em demonstrativos e prováveis. Nessa perspectiva, devemos dizer que é apenas provável que todos os homens devam morrer, ou que o sol nascerá amanhã. Mas, para conformar nossa linguagem mais ao uso comum, devemos dividir os argumentos em demonstrações, provas e probabilidades. Por provas entendendo aqueles argumentos extraídos da experiência que não deixam lugar para dúvida nem oposição.
46. Embora não exista algo como o acaso no mundo, nossa ignorância da causa real de qualquer acontecimento tem a mesma influência sobre o entendimento e gera uma espécie semelhante de crença ou opinião.
Certamente há uma probabilidade que surge de uma superioridade de chances de um lado; e, conforme essa superioridade aumenta e supera as chances opostas, a probabilidade recebe um aumento proporcional e gera um grau ainda mais elevado de crença ou assentimento àquele lado no qual descobrimos a superioridade. Se um dado estivesse marcado com uma figura ou número de pontos em quatro faces, e com outra figura ou número de pontos nas duas faces restantes, seria mais provável que saísse o primeiro resultado do que o segundo; embora, se ele tivesse mil faces marcadas da mesma maneira e apenas uma face diferente, a probabilidade fosse muito maior, e nossa crença ou expectativa quanto ao evento mais firme e segura. Esse processo do pensamento ou raciocínio pode parecer trivial e óbvio; mas, para aqueles que o considerarem mais de perto, talvez possa fornecer matéria para curiosa especulação.
Parece evidente que, quando a mente olha adiante para descobrir o evento que pode resultar do lançamento de tal dado, ela considera igualmente provável o aparecimento de cada face particular; e esta é a própria natureza do acaso: tornar todos os eventos particulares nele compreendidos inteiramente iguais. Mas, encontrando um número maior de faces concorrendo para um evento do que para o outro, a mente é levada com maior frequência àquele evento e o encontra mais vezes, ao revolver as várias possibilidades ou chances das quais o resultado final depende. Essa concorrência de várias visões em um único evento particular gera imediatamente, por uma disposição inexplicável da natureza, o sentimento de crença e dá a esse evento vantagem sobre seu antagonista, que é sustentado por um número menor de visões e retorna com menor frequência à mente. Se admitirmos que a crença nada mais é do que uma concepção mais firme e forte de um objeto do que aquela que acompanha as meras ficções da imaginação, essa operação talvez possa, em alguma medida, ser explicada. A concorrência dessas várias visões ou relances imprime a ideia mais fortemente na imaginação, dá-lhe força e vigor superiores, torna sua influência sobre as paixões e os afetos mais sensível e, numa palavra, gera aquela confiança ou segurança que constitui a natureza da crença e da opinião.
47. O caso é o mesmo com a probabilidade das causas como com a do acaso. Há algumas causas que são inteiramente uniformes e constantes na produção de um efeito particular, e até agora jamais se encontrou qualquer exemplo de falha ou irregularidade em sua operação. O fogo sempre queimou, e a água sufocou todo ser humano; a produção do movimento por impulso e gravidade é uma lei universal, que até agora não admitiu exceção. Mas há outras causas que se mostraram mais irregulares e incertas; e o ruibarbo nem sempre se mostrou purgativo, nem o ópio soporífero para todos os que tomaram esses remédios. É verdade que, quando alguma causa deixa de produzir seu efeito usual, os filósofos não atribuem isso a alguma irregularidade na natureza; antes supõem que certas causas secretas, na estrutura particular das partes, impediram a operação. Nossos raciocínios, contudo, e nossas conclusões acerca do evento são os mesmos como se esse princípio não tivesse lugar. Sendo determinados pelo costume a transferir o passado ao futuro em todas as nossas inferências, onde o passado foi inteiramente regular e uniforme esperamos o evento com a maior segurança e não deixamos lugar para qualquer suposição contrária. Mas, onde se verificou que diferentes efeitos seguiram-se de causas que à aparência são exatamente semelhantes, todos esses vários efeitos devem ocorrer à mente ao transferirmos o passado ao futuro, e entrar em nossa consideração quando determinamos a probabilidade do evento. Embora demos preferência àquele que se mostrou mais usual e acreditemos que esse efeito existirá, não devemos desprezar os outros efeitos, mas atribuir a cada um deles um peso e uma autoridade particulares, na proporção em que o tenhamos encontrado com maior ou menor frequência. É mais provável, em quase todo país da Europa, que haja geada em algum momento de janeiro do que que o tempo permaneça aberto durante todo esse mês; embora essa probabilidade varie conforme os diferentes climas e se aproxime da certeza nos reinos mais setentrionais. Aqui, então, parece evidente que, quando transferimos o passado ao futuro para determinar o efeito que resultará de alguma causa, transferimos todos os diferentes eventos na mesma proporção em que apareceram no passado e concebemos que um ocorreu cem vezes, por exemplo, outro dez vezes e outro uma única vez. Como um grande número de visões aqui concorre para um único evento, elas o fortalecem e confirmam para a imaginação, geram aquele sentimento a que chamamos crença e dão ao seu objeto a preferência sobre o evento contrário, que não é sustentado por número igual de experimentos e não retorna com tanta frequência ao pensamento ao transferirmos o passado ao futuro. Que alguém procure explicar essa operação da mente com base em qualquer dos sistemas aceitos de filosofia, e perceberá a dificuldade. Quanto a mim, julgarei suficiente se as presentes observações excitarem a curiosidade dos filósofos e os tornarem sensíveis a quão defeituosas são todas as teorias comuns ao tratar de assuntos tão curiosos e tão sublimes.
Ensaio filosófico de David Hume sobre experiência, ideias, causalidade, crença, probabilidade, milagres e os limites do entendimento humano. Tradução brasileira Literunico em andamento a partir do texto inglês original em domínio público.\n\nTexto original no Aurora: An Enquiry Concerning Human Understanding - https://literunico.com.br/aurora/93441\nFonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/9662
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