Leia agora
Investigação Sobre o Entendimento Humano

Universo da obra

Investigação Sobre o Entendimento Humano

Capítulo 5 · Investigação Sobre o Entendimento Humano

Seção V - Solução cética dessas dúvidas

5 de 12 ≈ 31 min de leitura

Nota editorial. Tradução original Literunico, em português brasileiro, preparada a partir do texto inglês em domínio público de David Hume, An Enquiry Concerning Human Understanding.

Seção V

Solução cética dessas dúvidas

Parte I

34. A paixão pela filosofia, assim como a pela religião, parece sujeita a este inconveniente: embora vise à correção de nossos costumes e à extirpação de nossos vícios, pode servir apenas, quando manejada imprudentemente, para alimentar uma inclinação predominante e empurrar a mente, com resolução ainda mais determinada, para o lado para o qual já é demasiadamente arrastada pelo viés e pela propensão do temperamento natural.

É certo que, enquanto aspiramos à firmeza magnânima do sábio filosófico e procuramos encerrar nossos prazeres inteiramente dentro de nossas próprias mentes, podemos enfim tornar nossa filosofia, como a de Epicteto e outros estóicos, apenas um sistema mais refinado de egoísmo, e raciocinar-nos para fora de toda virtude, assim como de todo gozo social.

Enquanto estudamos atentamente a vaidade da vida humana e dirigimos todos os nossos pensamentos para a natureza vazia e transitória das riquezas e das honras, talvez estejamos, ao mesmo tempo, apenas adulando nossa indolência natural, que, odiando a agitação do mundo e a labuta dos negócios, procura um pretexto racional para conceder-se uma indulgência plena e sem controle.

Há, no entanto, uma espécie de filosofia que parece pouco sujeita a esse inconveniente, justamente porque não coincide com nenhuma paixão desordenada da mente humana, nem pode misturar-se com qualquer afeto ou propensão natural; e essa é a filosofia Acadêmica ou Cética.

Os acadêmicos sempre falam de dúvida e suspensão do juízo, do perigo das determinações apressadas, de confinar a limites muito estreitos as investigações do entendimento e de renunciar a todas as especulações que não se encontrem dentro dos limites da vida e da prática comuns. Nada, portanto, pode ser mais contrário a tal filosofia do que a indolência lânguida da mente, sua arrogância precipitada, suas pretensões elevadas e sua credulidade supersticiosa.

Toda paixão é por ela mortificada, exceto o amor da verdade; e essa paixão nunca é, nem pode ser, levada a grau excessivo. É surpreendente, portanto, que essa filosofia, que em quase todos os casos deve ser inofensiva e inocente, seja objeto de tanto reproche e desonra infundados. Mas talvez a própria circunstância que a torna tão inocente seja justamente o que mais a expõe ao ódio e ressentimento públicos.

Sem adular nenhuma paixão irregular, ela ganha poucos partidários; ao opor-se a tantos vícios e loucuras, levanta contra si abundância de inimigos, que a estigmatizam como libertina, profana e irreligiosa.

Nem precisamos temer que essa filosofia, ao procurar limitar nossas investigações à vida comum, venha a minar os raciocínios da vida comum e a levar suas dúvidas tão longe a ponto de destruir toda ação, assim como toda especulação. A natureza sempre manterá seus direitos e, por fim, prevalecerá sobre todo e qualquer raciocínio abstrato.

Embora devamos concluir, por exemplo, como na seção precedente, que em todos os raciocínios tirados da experiência há um passo dado pela mente que não é sustentado por nenhum argumento nem processo do entendimento, não há perigo de que tais raciocínios, dos quais depende quase todo conhecimento, venham algum dia a ser afetados por essa descoberta.

Se a mente não é levada por argumento a dar esse passo, deve ser levada por algum outro princípio de peso e autoridade iguais; e esse princípio preservará sua influência enquanto a natureza humana permanecer a mesma. Qual seja esse princípio pode muito bem valer o esforço da investigação.

35. Suponha-se uma pessoa que, embora dotada das mais fortes faculdades de razão e reflexão, fosse trazida de súbito a este mundo; ela, de fato, observaria imediatamente uma sucessão contínua de objetos e um acontecimento seguindo-se a outro; mas não seria capaz de descobrir nada além disso.

De início, por nenhum raciocínio ela seria capaz de alcançar a ideia de causa e efeito; pois os poderes particulares pelos quais todas as operações naturais se realizam jamais aparecem aos sentidos; nem é razoável concluir, simplesmente porque um acontecimento, em um caso, precede outro, que por isso o primeiro seja a causa e o segundo o efeito. Sua conjunção pode ser arbitrária e casual. Pode não haver razão alguma para inferir a existência de um a partir da aparição do outro.

E, em suma, tal pessoa, sem mais experiência, jamais poderia empregar sua conjectura ou raciocínio acerca de qualquer questão de fato, nem assegurar-se de coisa alguma além do que estivesse imediatamente presente à sua memória e aos seus sentidos.

Suponha-se, por outro lado, que ela tenha adquirido mais experiência e vivido tempo suficiente no mundo para ter observado objetos ou acontecimentos familiares constantemente conjugados entre si; qual é a consequência dessa experiência? Ela imediatamente infere a existência de um objeto a partir da aparição do outro.

Contudo, por toda sua experiência, não adquiriu nenhuma ideia nem conhecimento do poder secreto pelo qual um objeto produz o outro; nem é por algum processo de raciocínio que ela é levada a tirar essa inferência. Ainda assim, encontra-se determinada a tirá-la; e, embora se convencesse de que seu entendimento não tem participação alguma nessa operação, continuaria, não obstante, no mesmo curso de pensamento. Há algum outro princípio que a determina a formar tal conclusão.

36. Esse princípio é o costume ou hábito. Pois sempre que a repetição de algum ato ou operação particular produz propensão para renovar o mesmo ato ou operação, sem ser impelida por qualquer raciocínio ou processo do entendimento, sempre dizemos que essa propensão é efeito do costume. Ao empregar essa palavra, não pretendemos ter dado a razão última de tal propensão. Apenas apontamos um princípio da natureza humana universalmente reconhecido e bem conhecido por seus efeitos.

Talvez não possamos levar nossas investigações mais longe, nem pretender dar a causa dessa causa; mas devemos contentar-nos com ela como o princípio último que podemos atribuir a todas as nossas conclusões derivadas da experiência. É satisfação suficiente podermos ir até aí, sem lamentar a estreiteza de nossas faculdades por não poderem levar-nos mais adiante.

E é certo que aqui avançamos uma proposição ao menos muito inteligível, ainda que talvez não verdadeira, quando afirmamos que, após a conjunção constante de dois objetos, calor e chama, por exemplo, peso e solidez, somos determinados apenas pelo costume a esperar um a partir da aparição do outro.

Essa hipótese parece ser até a única que explica a dificuldade de por que tiramos, de mil casos, uma inferência que não somos capazes de tirar de um único caso, que em nada difere deles. A razão é incapaz de tal variação. As conclusões que ela tira da consideração de um círculo são as mesmas que formaria ao examinar todos os círculos do universo.

Mas nenhum homem, tendo visto apenas um corpo mover-se após ser impelido por outro, poderia inferir que todo outro corpo se moverá após um impulso semelhante. Todas as inferências da experiência são, portanto, efeitos do costume, não do raciocínio[7].

[7] Nada é mais útil aos autores, mesmo quando tratam de assuntos morais, políticos ou físicos, do que distinguir entre razão e experiência e supor que essas espécies de argumentação são inteiramente diferentes entre si. Os argumentos da primeira espécie são tidos como mero resultado de nossas faculdades intelectuais, que, considerando a priori a natureza das coisas e examinando os efeitos que devem seguir-se de sua operação, estabelecem princípios particulares da ciência e da filosofia. Os da segunda espécie são supostos derivar inteiramente dos sentidos e da observação, pelos quais aprendemos o que efetivamente resultou da operação de objetos particulares e daí somos capazes de inferir o que deles resultará no futuro. Assim, por exemplo, as limitações e restrições do governo civil e uma constituição legal podem ser defendidas tanto pela razão, que, refletindo sobre a grande fragilidade e corrupção da natureza humana, ensina que não se pode confiar com segurança autoridade ilimitada a homem algum, quanto pela experiência e pela história, que nos informam dos enormes abusos que a ambição, em todas as épocas e países, tem feito de confiança tão imprudente.

A mesma distinção entre razão e experiência é mantida em todas as nossas deliberações acerca da conduta da vida: confia-se no estadista, general, médico ou comerciante experiente e seguem-se suas orientações, enquanto o novato sem prática, quaisquer que sejam seus talentos naturais, é negligenciado e desprezado. Embora se admita que a razão possa formar conjecturas muito plausíveis acerca das consequências de determinada conduta em determinadas circunstâncias, ela ainda é considerada imperfeita sem o auxílio da experiência, a única capaz de dar estabilidade e certeza às máximas derivadas do estudo e da reflexão.

Mas, apesar de essa distinção ser assim universalmente aceita, tanto nas esferas ativas quanto nas especulativas da vida, não hesitarei em declarar que ela é, no fundo, errônea ou, ao menos, superficial.

Se examinarmos os argumentos que, em qualquer das ciências acima mencionadas, são supostos meros efeitos do raciocínio e da reflexão, veremos que terminam, por fim, em algum princípio ou conclusão geral para o qual não podemos indicar outra razão além da observação e da experiência. A única diferença entre eles e aquelas máximas que vulgarmente se consideram resultado da experiência pura é que os primeiros não podem ser estabelecidos sem algum processo de pensamento e alguma reflexão sobre aquilo que observamos, a fim de distinguir suas circunstâncias e acompanhar suas consequências; ao passo que, nas últimas, o acontecimento experimentado é exata e inteiramente semelhante àquele que inferimos como resultado de determinada situação.

A história de um Tibério ou de um Nero faz-nos temer tirania semelhante se nossos monarcas fossem libertados das restrições das leis e dos senados; mas a observação de qualquer fraude ou crueldade na vida privada basta, com o auxílio de pequena reflexão, para causar-nos o mesmo receio, pois serve como exemplo da corrupção geral da natureza humana e mostra-nos o perigo em que incorreríamos ao depositar inteira confiança na humanidade. Em ambos os casos, é a experiência que constitui, em última instância, o fundamento de nossa inferência e conclusão.

Não há homem tão jovem e inexperiente que não tenha formado, pela observação, muitas máximas gerais e justas acerca dos assuntos humanos e da conduta da vida; mas deve-se confessar que, quando um homem procura colocá-las em prática, estará extremamente sujeito ao erro até que o tempo e uma experiência mais ampla tanto alarguem essas máximas quanto lhe ensinem seu uso e aplicação apropriados.

Em toda situação ou ocorrência há muitas circunstâncias particulares e aparentemente ínfimas que mesmo o homem de maior talento tende, a princípio, a não perceber, embora delas dependam inteiramente a justeza de suas conclusões e, consequentemente, a prudência de sua conduta. Sem mencionar que, para um jovem iniciante, as observações e máximas gerais nem sempre ocorrem nas ocasiões apropriadas, nem podem ser imediatamente aplicadas com a devida calma e discernimento. A verdade é que um raciocinador inexperiente não poderia raciocinar de modo algum se fosse absolutamente destituído de experiência; e, quando atribuímos esse caráter a alguém, empregamo-lo apenas em sentido comparativo e supomos que essa pessoa possui experiência em grau menor e mais imperfeito.

O costume, então, é o grande guia da vida humana. É somente esse princípio que torna nossa experiência útil para nós e nos faz esperar, para o futuro, uma série de acontecimentos semelhante àqueles que apareceram no passado.

Sem a influência do costume, seríamos inteiramente ignorantes de toda questão de fato além do que estivesse imediatamente presente à memória e aos sentidos. Jamais saberíamos ajustar meios a fins, nem empregar nossos poderes naturais para produzir qualquer efeito. Haveria, de uma só vez, fim para toda ação, assim como para a principal parte da especulação.

37. Mas aqui talvez convenha observar que, embora nossas conclusões tiradas da experiência nos levem além da memória e dos sentidos e nos assegurem de questões de fato ocorridas nos lugares mais distantes e nas épocas mais remotas, ainda assim algum fato deve sempre estar presente aos sentidos ou à memória, de onde possamos primeiro proceder ao tirar essas conclusões.

Um homem que encontrasse num país deserto os restos de edifícios suntuosos concluiria que o país fora, em tempos antigos, cultivado por habitantes civilizados; mas, se nada desse tipo lhe ocorresse, jamais poderia formar tal inferência.

Aprendemos os acontecimentos das eras passadas pela história; mas então precisamos ler os volumes em que essa instrução está contida e daí elevar nossas inferências de um testemunho a outro, até chegarmos às testemunhas oculares e espectadores desses acontecimentos distantes.

Em suma, se não procedemos a partir de algum fato presente à memória ou aos sentidos, nossos raciocínios seriam meramente hipotéticos; e, por mais bem conectados que estivessem os elos particulares entre si, a cadeia inteira de inferências nada teria que a sustentasse, nem poderíamos jamais, por seu meio, chegar ao conhecimento de qualquer existência real. Se eu perguntar por que você crê em alguma questão de fato particular que relata, você deve dizer-me alguma razão; e essa razão será algum outro fato, conectado com ela.

Mas, como não pode proceder desse modo in infinitum, deve por fim terminar em algum fato que esteja presente à sua memória ou a seus sentidos; ou então admitir que sua crença é inteiramente sem fundamento.

38. Qual é, então, a conclusão de toda a questão? Uma conclusão simples, embora, deve-se confessar, bastante remota das teorias comuns da filosofia. Toda crença em questão de fato ou existência real deriva meramente de algum objeto presente à memória ou aos sentidos e de uma conjunção costumeira entre esse objeto e algum outro.

Ou, em outras palavras: tendo encontrado, em muitos casos, que quaisquer dois tipos de objetos, chama e calor, neve e frio, estiveram sempre conjugados, se chama ou neve se apresentam novamente aos sentidos, a mente é levada pelo costume a esperar calor ou frio e a crer que tal qualidade existe e se manifestará numa aproximação maior. Essa crença é o resultado necessário de colocar a mente em tais circunstâncias.

É uma operação da alma que, quando estamos assim situados, é tão inevitável quanto sentir a paixão do amor quando recebemos benefícios, ou o ódio quando encontramos injúrias. Todas essas operações são espécies de instintos naturais, que nenhum raciocínio nem processo do pensamento e do entendimento é capaz de produzir ou impedir.

Neste ponto, seria muito admissível que interrompêssemos nossas investigações filosóficas. Na maioria das questões, jamais podemos dar um único passo além; e em todas as questões devemos por fim terminar aqui, depois de nossas mais inquietas e curiosas investigações. Mas nossa curiosidade ainda será perdoável, talvez louvável, se nos levar a investigações ulteriores e nos fizer examinar com maior exatidão a natureza dessa crença e dessa conjunção costumeira de que ela deriva.

Por esse meio talvez encontremos algumas explicações e analogias que deem satisfação, ao menos aos que amam as ciências abstratas e podem entreter-se com especulações que, por mais exatas que sejam, ainda podem conservar certo grau de dúvida e incerteza. Quanto aos leitores de gosto diferente, a parte restante desta seção não foi calculada para eles, e as investigações seguintes podem muito bem ser compreendidas, ainda que ela seja omitida.

Parte II

39. Nada é mais livre do que a imaginação do homem; e, embora ela não possa exceder aquele estoque original de ideias fornecido pelos sentidos internos e externos, tem poder ilimitado de misturar, compor, separar e dividir essas ideias em todas as variedades de ficção e visão.

Ela pode fingir uma série de acontecimentos com toda a aparência de realidade, atribuir-lhes um tempo e um lugar determinados, concebê-los como existentes e pintá-los para si mesma com toda circunstância que pertence a qualquer fato histórico em que crê com a maior certeza. Em que consiste, então, a diferença entre tal ficção e a crença? Não reside meramente em alguma ideia peculiar anexada a tal concepção e que impõe nosso assentimento, faltando a toda ficção conhecida.

Pois, como a mente tem autoridade sobre todas as suas ideias, poderia anexar voluntariamente essa ideia particular a qualquer ficção e, consequentemente, ser capaz de acreditar no que quisesse; ao contrário do que encontramos na experiência cotidiana. Podemos, em nossa concepção, unir a cabeça de um homem ao corpo de um cavalo; mas não está em nosso poder crer que tal animal jamais existiu realmente.

Segue-se, portanto, que a diferença entre ficção e crença reside em algum sentimento ou sensação que se anexa à última, mas não à primeira, e que não depende da vontade, nem pode ser comandado à vontade. Deve ser excitado pela natureza, como todos os demais sentimentos, e surgir da situação particular em que a mente se encontra em qualquer conjuntura particular.

Sempre que algum objeto se apresenta à memória ou aos sentidos, ele imediatamente, pela força do costume, leva a imaginação a conceber aquele objeto que costuma estar conjugado com ele; e essa concepção vem acompanhada de um sentimento ou sensação diferente dos devaneios frouxos da fantasia. Nisso consiste toda a natureza da crença.

Pois, como não há questão de fato em que creiamos tão firmemente que não possamos conceber o contrário, não haveria diferença entre a concepção à qual assentimos e aquela que rejeitamos, não fosse algum sentimento que distingue uma da outra. Se vejo uma bola de bilhar mover-se em direção a outra sobre uma mesa lisa, posso facilmente conceber que ela pare ao tocar a outra.

Essa concepção não implica contradição; contudo, ela se sente de modo muito diferente daquela concepção pela qual represento a mim mesmo o impulso e a comunicação do movimento de uma bola à outra.

40. Se tentássemos definir esse sentimento, talvez o achássemos tarefa muito difícil, quando não impossível; do mesmo modo que se procurássemos definir a sensação de frio ou a paixão da ira a uma criatura que nunca tivesse tido experiência desses sentimentos. Crença é o nome verdadeiro e próprio desse sentimento; e ninguém jamais hesita em compreender o significado desse termo, porque todo homem é, a cada momento, consciente do sentimento que ele representa.

Pode não ser impróprio, contudo, tentar uma descrição desse sentimento, na esperança de que, por esse meio, possamos chegar a algumas analogias que proporcionem explicação mais perfeita dele. Digo, então, que a crença nada mais é do que uma concepção mais vívida, viva, enérgica, firme e estável de um objeto do que aquela que a imaginação sozinha jamais é capaz de alcançar.

Essa variedade de termos, que talvez pareça pouco filosófica, pretende apenas exprimir aquele ato da mente que torna as realidades, ou aquilo que é tomado como tal, mais presentes para nós do que as ficções, faz com que pesem mais no pensamento e lhes confere influência superior sobre as paixões e a imaginação. Contanto que concordemos quanto à coisa, é inútil disputar sobre os termos. A imaginação tem comando sobre todas as suas ideias e pode uni-las, misturá-las e variá-las de todos os modos possíveis.

Pode conceber objetos fictícios com todas as circunstâncias de lugar e tempo. Pode colocá-los, de certo modo, diante de nossos olhos, em suas verdadeiras cores, tal como poderiam ter existido. Mas, como é impossível que essa faculdade da imaginação possa por si mesma alcançar a crença, é evidente que a crença não consiste na natureza peculiar nem na ordem das ideias, mas na maneira como são concebidas e no modo como são sentidas pela mente.

Confesso que é impossível explicar perfeitamente esse sentimento ou modo de concepção. Podemos usar palavras que expressem algo próximo dele. Mas seu nome verdadeiro e próprio, como observamos antes, é crença; termo que todos compreendem suficientemente na vida comum. E, na filosofia, não podemos ir além de afirmar que a crença é algo sentido pela mente, que distingue as ideias do juízo das ficções da imaginação.

Ela lhes dá mais peso e influência; faz com que pareçam de maior importância; as reforça na mente; e as torna o princípio governante de nossas ações. Ouço neste momento, por exemplo, a voz de uma pessoa que conheço; e o som vem como do aposento ao lado. Essa impressão de meus sentidos imediatamente transporta meu pensamento à pessoa, juntamente com todos os objetos ao redor.

Eu os desenho para mim mesmo como existindo no presente, com as mesmas qualidades e relações que anteriormente sabia possuírem. Essas ideias se apoderam de minha mente com mais rapidez do que as ideias de um castelo encantado. Elas são muito diferentes no sentimento e têm influência muito maior de todo tipo, seja para dar prazer ou dor, alegria ou tristeza.

Tomemos, então, toda a extensão dessa doutrina e admitamos que o sentimento de crença nada mais é do que uma concepção mais intensa e estável do que aquela que acompanha as meras ficções da imaginação, e que esse modo de concepção surge de uma conjunção costumeira do objeto com algo presente à memória ou aos sentidos. Creio que, com essas suposições, não será difícil encontrar outras operações da mente análogas a ela e remontar esses fenômenos a princípios ainda mais gerais.

41. Já observamos que a natureza estabeleceu conexões entre ideias particulares e que, assim que uma ideia ocorre aos nossos pensamentos, ela introduz sua correlativa e leva nossa atenção para ela por um movimento suave e insensível.

Reduzimos esses princípios de conexão ou associação a três: Semelhança, Contiguidade e Causalidade; estes são os únicos vínculos que unem nossos pensamentos e dão origem àquela sequência regular de reflexão ou discurso que, em maior ou menor grau, ocorre entre todos os homens. Ora, aqui surge uma questão de cuja solução dependerá a dificuldade presente.

Acontece, em todas essas relações, que, quando um dos objetos se apresenta aos sentidos ou à memória, a mente não apenas é levada à concepção do correlativo, mas atinge uma concepção mais estável e mais forte dele do que aquela que de outro modo poderia alcançar? Isso parece ocorrer com aquela crença que surge da relação de causa e efeito.

E, se o caso for o mesmo com as outras relações ou princípios de associação, isso pode estabelecer-se como uma lei geral que tem lugar em todas as operações da mente.

Podemos, portanto, observar, como primeiro experimento para nosso propósito presente, que, ao aparecer a imagem de um amigo ausente, nossa ideia dele é evidentemente avivada pela semelhança, e toda paixão que essa ideia ocasiona, seja de alegria ou de tristeza, adquire nova força e vigor. Para produzir esse efeito, concorrem tanto uma relação quanto uma impressão presente.

Quando a imagem não lhe guarda semelhança alguma, ou ao menos não foi feita para ele, ela sequer conduz nosso pensamento até ele; e quando ela está ausente, assim como a própria pessoa, embora a mente possa passar do pensamento de uma ao da outra, sente que sua ideia é antes enfraquecida do que avivada por essa transição.

Sentimos prazer em contemplar a imagem de um amigo quando ela está diante de nós; mas, quando é retirada, preferimos considerá-lo diretamente a refletir sobre ele numa imagem que é igualmente distante e obscura.

As cerimônias da religião católica romana podem ser consideradas exemplos da mesma natureza. Os devotos dessa superstição costumam alegar, como justificativa para as cerimônias farsescas pelas quais são censurados, que sentem o bom efeito desses movimentos, posturas e ações externas em avivar sua devoção e reaquecer seu fervor, que de outro modo enfraqueceriam, se dirigidos inteiramente a objetos distantes e imateriais.

Damos corpo aos objetos de nossa fé, dizem eles, em tipos e imagens sensíveis, e os tornamos mais presentes para nós pela presença imediata desses tipos do que nos seria possível fazê-lo apenas por uma contemplação intelectual. Objetos sensíveis sempre têm maior influência sobre a fantasia do que quaisquer outros; e essa influência eles prontamente transmitem àquelas ideias com as quais estão relacionados e às quais se assemelham.

Inferirei apenas dessas práticas e desse raciocínio que o efeito da semelhança em avivar as ideias é muito comum; e, como em todo caso devem concorrer uma semelhança e uma impressão presente, temos abundância de experimentos para provar a realidade do princípio acima exposto.

42. Podemos acrescentar força a esses experimentos por outros de espécie diferente, considerando os efeitos da contiguidade, bem como os da semelhança. É certo que a distância diminui a força de toda ideia e que, ao nos aproximarmos de qualquer objeto, embora ele não se revele aos nossos sentidos, opera sobre a mente com uma influência que imita uma impressão imediata.

Pensar em qualquer objeto transporta prontamente a mente ao que lhe é contíguo; mas é somente a presença atual de um objeto que a transporta com vivacidade superior. Quando estou a poucas milhas de casa, tudo o que se relaciona com ela me toca mais de perto do que quando estou a duzentas léguas de distância; embora, mesmo a essa distância, refletir sobre qualquer coisa na vizinhança de meus amigos ou de minha família naturalmente produza uma ideia deles.

Mas, como neste último caso ambos os objetos da mente são ideias, apesar de haver fácil transição entre eles, essa transição sozinha não é capaz de conferir vivacidade superior a nenhuma das ideias, por falta de alguma impressão imediata[8].

[8] “Devo dizer, perguntou ele, que nos foi dado pela natureza, ou por algum erro, que, quando vemos os lugares onde sabemos que homens dignos de memória passaram muito tempo, somos mais comovidos do que quando ouvimos falar de seus próprios feitos ou lemos algum de seus escritos? É assim que me comovo agora. Pois Platão me vem à mente, de quem sabemos que foi o primeiro a ter o costume de aqui discutir; e aqueles jardins próximos não apenas me trazem sua lembrança, mas parecem colocar o próprio homem aqui diante de meus olhos. Aqui esteve Espeusipo, aqui Xenócrates, aqui seu discípulo Pólemon, cujo assento era precisamente aquele que vemos. Também eu, ao contemplar nossa cúria — quero dizer, a Hostília, não esta nova, que me parece menor depois que foi ampliada —, costumava pensar em Cipião, Catão, Lélio e, sobretudo, em nosso avô. Tão grande é o poder de evocação dos lugares que não foi sem razão que deles se derivou a arte da memória.”

Cícero, De Finibus. Livro V.

43. Ninguém pode duvidar de que a causalidade exerce a mesma influência que as outras duas relações de semelhança e contiguidade. Pessoas supersticiosas apreciam relíquias de santos e homens sagrados pela mesma razão que recorrem a tipos ou imagens, a fim de avivar sua devoção e dar-lhes concepção mais íntima e forte daquelas vidas exemplares que desejam imitar.

Ora, é evidente que uma das melhores relíquias que um devoto poderia obter seria a obra das mãos de um santo; e, se suas roupas e seus móveis devem ser considerados sob essa luz, é porque estiveram outrora à sua disposição e foram movidos e afetados por ele; sob esse aspecto, devem ser considerados efeitos imperfeitos e conectados com ele por cadeia de consequências mais curta do que qualquer daquelas pelas quais aprendemos a realidade de sua existência.

Suponha-se que o filho de um amigo, morto ou ausente há muito tempo, nos fosse apresentado. É evidente que esse objeto reviveria instantaneamente sua ideia correlativa e traria de volta ao pensamento todas as intimidades e familiaridades passadas em cores mais vivas do que de outro modo nos apareceriam. Este é outro fenômeno que parece provar o princípio acima mencionado.

44. Podemos observar que, nesses fenômenos, a crença no objeto correlativo está sempre pressuposta, sem a qual a relação não poderia ter efeito. A influência do retrato supõe que creiamos que nosso amigo existiu outrora. A contiguidade em relação à casa jamais pode excitar nossas ideias de casa, a menos que creiamos que ela realmente existe.

Ora, afirmo que essa crença, quando vai além da memória ou dos sentidos, é de natureza semelhante e surge de causas semelhantes à transição do pensamento e vivacidade de concepção aqui explicadas. Quando lanço um pedaço de madeira seca ao fogo, minha mente é imediatamente levada a conceber que ele aumenta a chama, não que a extingue. Essa transição do pensamento da causa ao efeito não procede da razão. Deriva sua origem inteiramente do costume e da experiência.

E, como começa primeiro de um objeto presente aos sentidos, torna a ideia ou concepção da chama mais forte e mais viva do que qualquer devaneio frouxo e flutuante da imaginação. Essa ideia surge imediatamente. O pensamento move-se instantaneamente em sua direção e lhe transmite toda aquela força de concepção derivada da impressão presente aos sentidos.

Quando uma espada é apontada para meu peito, não me atinge a ideia de ferida e dor mais fortemente do que quando me é apresentado um cálice de vinho, ainda que, por acaso, essa ideia pudesse ocorrer após a aparição deste último objeto? Mas que há em toda essa questão que cause concepção tão forte, senão apenas um objeto presente e uma transição costumeira à ideia de outro objeto que estamos acostumados a conjugar com o primeiro? Esta é toda a operação da mente em todas as nossas conclusões acerca de questão de fato e existência; e é satisfatório encontrar algumas analogias pelas quais ela possa ser explicada.

A transição a partir de um objeto presente, em todos os casos, dá força e solidez à ideia relacionada.

Aqui, pois, há uma espécie de harmonia preestabelecida entre o curso da natureza e a sucessão de nossas ideias; e, embora os poderes e forças pelos quais o primeiro é governado nos sejam inteiramente desconhecidos, ainda assim encontramos que nossos pensamentos e concepções seguiram a mesma trilha que as outras obras da natureza.

O costume é o princípio pelo qual essa correspondência foi efetuada; tão necessária à subsistência de nossa espécie e à regulação de nossa conduta em toda circunstância e ocorrência da vida humana.

Se a presença de um objeto não excitasse instantaneamente a ideia daqueles objetos comumente conjugados com ele, todo nosso conhecimento estaria limitado à estreita esfera de nossa memória e de nossos sentidos; e jamais teríamos sido capazes de ajustar meios a fins, nem de empregar nossos poderes naturais, seja para produzir o bem, seja para evitar o mal. Aqueles que se deleitam na descoberta e contemplação das causas finais encontram aqui amplo assunto para empregar sua admiração e assombro.

45. Acrescentarei, para confirmação ulterior da teoria precedente, que, como essa operação da mente pela qual inferimos efeitos semelhantes de causas semelhantes, e vice-versa, é tão essencial à subsistência de todos os seres humanos, não é provável que ela pudesse ser confiada às deduções falíveis de nossa razão, a qual é lenta em suas operações, não aparece em grau algum durante os primeiros anos da infância e, no melhor dos casos, em toda idade e período da vida humana, está extremamente sujeita a erro e engano.

Está mais conforme à sabedoria ordinária da natureza assegurar ato tão necessário da mente por algum instinto ou tendência mecânica, que possa ser infalível em suas operações, revelar-se no primeiro aparecimento da vida e do pensamento e ser independente de todas as deduções trabalhosas do entendimento.

Assim como a natureza nos ensinou o uso de nossos membros sem nos dar o conhecimento dos músculos e nervos pelos quais são movidos, também implantou em nós um instinto que leva adiante o pensamento num curso correspondente àquele que ela estabeleceu entre os objetos externos, embora sejamos ignorantes daqueles poderes e forças dos quais depende inteiramente esse curso regular e sucessão dos objetos.

Investigação Sobre o Entendimento Humano

Sinopse

Ensaio filosófico de David Hume sobre experiência, ideias, causalidade, crença, probabilidade, milagres e os limites do entendimento humano. Tradução brasileira Literunico em andamento a partir do texto inglês original em domínio público.\n\nTexto original no Aurora: An Enquiry Concerning Human Understanding - https://literunico.com.br/aurora/93441\nFonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/9662

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978651251833884444084157
Investigação Sobre o Entendimento Humano

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Investigação Sobre o Entendimento Humano

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Investigação Sobre o Entendimento Humano - Tradução Literunico Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
1Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 5 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir