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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 2 · Água de Juventa

Desapontamento

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E M camisa, com o collete ajustado, cavando a cinta, Guiomar, toda inclinada para o espelho do psyché, polvilhava o rosto . O seu corpo, carnudo e bem feito, desenhava-se em linhas soberbas sob a cambraia fina, d'uma transparencia de téla humida. O collo nú, muito branco, repulsado pelo collete, subia em duas ondas turgidas, inchando-lhe o peito ; o pescoço alto movia-se com uma graça languida, sem uma ruga, com brilhos, por vezes , a um toque de sol na fina pennugem loura que crescia para a nuca até a cabelleira fulva e cheia que ella retorcera e apertára em espiral . As botas chegavam-lhe á meia perna, comprimindo a carne que saltava, rica e sadia, retezando a seda das meias e, entre a fimbria da

DESAPONΤΑΜΕΝΤΟ camisa e as ligas, com fechos de prata, transluzia um pouco da coxa marmorea. Com o alçar dos braços descobriam-se-lhe as axillas fundas com uma felpuda filigrana encaracolada entre as fitas que se juntavam em laço sobre os hombros lisos, e, de toda ella, da frescura viçosa d'aquella carne exhalava-se um aroma penetrante que impregnava o aposento . Gaudencio, em mangas de camisa, ia e vinha parando, por vezes, diante de um movel para examinar um bibelot ou retorcendo as guias do bigode, distrahido, ficava a olhar o espelho ou um chromo copiado de Cabanel. Um relogio bateu vivamente. Guiomar suspirou e, voltando-se com pressa, passou ao quarto contiguo. Gaudencio parecia gozar o perfume que pairava no ar tépido, caminhou vagarosamente para o divan e, sentando-se, deixou-se ficar com o cigarro apagado entre os dedos, os olhos parados, perdido em scismas . Ouvia os passos ligeiros da mulher, o farfalhar das sedas e foi quasi com espanto que a viu reapparecer prompta, com um costume justo de crépon e um chapeusinho leve, de palha escura, com flores e gaze. - Em que instante ! ... - Que horas pensas que são ? uma e tanto.

DESAPONΤΑΜΕΝΤΟ Inclinou-se de novo ao espelho do psyché, ajustando o chapeu sobre a massa opulenta dos cabellos e, abrindo uma gavetinha, tirou um broche, as pulseiras, as luvas e, depois que desceu o véu, calçando-as, voltou-se para o marido que a contemplava : Muito bem, estou prompta . E agora ? -Agora ?! agora é o que combinamos : Manda o teu cartão- elle conhece-te, recebe-te logo- e tu dizes-lhe a coisa sem rodeios, francamente : «Que estou assim, sem emprego , ha quasi quatro mezes » ; e pedes-lhe o logar de guarda-livros ou outro qualquer, isso pouco importa ; elle sabe as minhas habilitações . O que quero é arranjar-me ... E concluiu: Esteja eu de dentro ... o mais fica por minha conta. -E se elle disser que agora não é possivel ? se vier com desculpas e promessas, como os outros ? -Ora ! isso depende de ti, affirmou sorrindo . - Depende de mim ?! Depende de mim, não ! Eu não hei de dizer ao homem : Quero, porque quero ! -Tudo está em saber pedir... -Parece-te . Ficou, um momento, d'olhos baixos e disse depois : Eu achava melhor ir procural-o de manhan, a casa. Isso de ir ao

DESAPONΤΑΜΕΝΤΟ banco, com tanta gente... fez um momo, contrariada . - Que tem ? - -Tenho vergonha. -Ora , vergonha ... Elle não gosta que o procurem em casa : parece que a mulher é muito ciumenta. Guiomar fitou o marido com um ar d'escandalisada : -Quem sabe se ella vae ter ciume de mim ? Ora ! -Não estou dizendo isso, filha ... -... Nem que elle viesse coberto de ouro ! concluiu e, resolvida, deu mais um olhar ao espelho e despediu-se : Até logo ! Afastando, porém , o leve reposteiro, affirmou : Eu vou sem confiança alguma... Emfim... Elle ouviu-lhe os passos e, quando a campainha bateu no portão, sentindo-se bem, á vontade, encolheu-se no divan para gozar aquella esperança . A vida ia-se-lhe tornando insupportavel com a miseria que se aggravava : tinha todas as joias de valor empenhadas, os recursos de expediente escasseavam e, da manhan á tarde, não raro mesmo á noite, quando tinha visitas , eram fornecedores ao portão, teimosos, impertinen

DESAPONΤΑΜΕΝΤΟ tes , fallando alto, com ameaças. A conta do armazem crescia e os caixeiros, como se se julgassem senhores , entravam pela casa batendo rijamente os tamancos, atiravam a lenha no pateo, deixavam as compras sobre a mesa e sahiam assobiando, com desprezo, como se houvessem feito uma esmola . Os creados riam, cochichavam pelos cantos ; elle evitava-os, fugia-lhes aos olhares sem energia, sempre receioso de ouvir uma palavra que o ferisse ou de ser abordado por algum mais exigente que reclamasse os atrazados . A sua vida era commentada, nas vendas e nos açougues, entre a creadagem e sobretudo o que maior desespero lhe causava era vêr a mulher, que fora criada com muito mimo, na abundancia, aperreada naquella miseria, a conter os desejos, refreando tantas ambições naturaes : passeios, theatros , visitas, saráos , uma joia, um vestido . E lembrar-se elle do passado, do bom tempo da fortuna, quando as gavetas do contador regorgitavam de dinheiro, os armarios mal se podiam fechar com a quantidade de lençaria, o guarda-vestidos transbordava e em todos os moveis d'aquelle vestiario luziam joias finas : anneis, pulseiras, broches, brincos, collares que andavam, então, espalhados pelas

DESAPONΤΑΜΕΝΤΟ casas de penhores, vencendo juros avultados, em vesperas de leilão. Era um horror ! Os amigos , apezar das apparencias enganadoras, como que sentiam o desastre e, pouco a pouco, rareando as visitas, evitavam a casa que se tornava calada e triste, povoada de tedio nas longas horas monótonas das noites , d'antes tão ligeiras e alegres . O relogio tiniu. Gaudencio accendeu o cigarro, tirou uma baforada e poz-se a seguir, em espirito, a mulher. Ella já devia ir perto, com o seu andar ligeiro e gracioso, atravessando aquelle quarteirão de commercio, por entre a multidão azafamada dos corretores e dos zangões e mais gente que fervilha na ganancia da bolsa, o mundo ávido do dinheiro, a caudal ambiciosa da fortuna . Os bancos defrontavam-se recebendo, despejando gente- uns que entravam sobraçando pacotes de notas para o deposito , outros que sahiam , á pressa, com maços de contos de réis e, lá dentro, aos guichets, o farfalhar dos cheques , o estrallejar das latas que se abriam mostrando pilhas de cédulas apertadas, placas numeradas , verdes d'azinhavre, que iam e vinham, recibos garatujados com ancia, o cheiro das notas, o apregoar de centenares de contos, o referver d'uma vida atordoadora

DESAPONΤΑΜΕΝΤΟ no exterior e no interior d'aquelles immensos edificios obscuros onde, apezar do sol que luzia em todo o esplendor, as chammas das arandellas abriam-se como azas de ouro illuminando aquelle fluir e refluir da riqueza. Ella já devia ir pela escada do banco, timida, despertando a attenção d'aquella gente, para ella estranha, que se voltava, com uma curiosidade sensual, sentindo-lhe o perfume, analysando -lhe as linhas adoraveis do corpo, commentando-a, interrogando-se sobre ella : quem seria? que andaria a fazer por alli ? E a maledicencia entraria logo com a sua perversidade, pondo uma infamia naquelle desespero, amargando ainda mais aquella angustia . E ella? não se deixaria vencer pela seducção do ouro ? ella, tão resignada, não enfraqueceria ao dar com aquella fortuna, vendo aquelle incessante passar e repassar do dinheiro d'um homem para outro até perder-se no bojo dos cofres escancarados, torres de sonho , castellos inaccessiveis de ventura ? Um pensamento atravessou-lhe o espirito como a ligeira sombra que deixa no clarão do sol a passagem aligera d'um corvo . O Navarro tinha fama de ousado, citavam-se-lhe as amantes : damas da alta sociedade que viviam das sobras das suas arrojadas operações de bolsa, ostentando cynicamente os lucros do despu

DESAPONTAMENTO dor, cocottes que dissipavam á larga; mesmo na pobreza elle entrava com a sua lubricidade, cevando a deshonra de donzellas com mancheias d'oiro , a titulo de protecção e amparo até o dia em que os paes , affeitos ao bem estar que lhes proporcionára a fortuna infame, temendo uma volta repentina aos duros tempos da fome e do desagasalho, relaxassem a guarda do corpo virgem para que o rico homem , preso á carne pura e nova da infamada, continuasse a regalar com a sua generosidade a casa, outr'ora virtuosa, indemnizando a innocencia perdida com a fartura e com o descanço até o dia fatal da saciedade e do abandono . Conhecia bem o Navarro desde os tempos do Auxiliador, grande escriptorio de penhor agricola que absorvera, em hypothecas avaras , o melhor das terras cafeeiras da zona do Sul do Estado . Lembrava-se das suas palestras á hora do café, palestras livres nas quaes eram lançados, sem o menor escrupulo, nomes de senhoras conhecidas em promiscuidade aviltante com alcunhas de cocottes e de bailarinas e ainda The soavam as gargalhadas estrondosas e bajuladoras com que os da roda recebiam e applaudiam os alardes devassos do banqueiro, que se repoltreava, muito ancho, orgulhoso da sua libidinagem, dando minucias indecoDESAPONΤΑΜΕΝΤΟ , rosas dos seus amores , referindo-se, com uma ironia cruel, aos maridos ultrajados . Levantou-se e, passeiando pelo aposento, sentia como um remorso de haver mandado a mulher áquella casa. E se elle a cubiçasse ? Guiomar tinha todos os attractivos - era alta, branca, esbelta ; a sua voz, grave e lenta, era carinhosa e macia, o seu olhar tinha uma doçura meiga, a sua bocca, pequena e carnuda, muito vermelha e humida, era como uma flôr que se entreabria em sorrisos e o seu corpo indiscreto mostrava-se, através das roupas, como se insistisse em dar-se aos olhos ; por mais cuidado que houvesse em encobril-o sempre resaltava, mesmo quando ella se sentava impunha-se, mostrava-se, offerecia-se. Bateram de leve á porta- era uma creada a annunciar-lhe que despachára um homem, dizendo que elle não estava . «Sim ! » E o silencio recahiu . Tornou á mulher . Estaria ella em presença do Navarro ? Sim, devia estar, devia estar no acanhado gabinete do banqueiro, separado da sala por um biombo , apenas fechado por uma cortina que o velava ás vistas dos empregados . Elle conhecia-o bem, lá estivéra varias vezes : havia a escrevaninha, um cofre, uma pequena mesa, cadeiras e o divan de couro. Aquelle divan ! ... Numa ancia, com uma grande oppressão

DESAPONΤΑΜΕΝΤΟ que lhe pesava no peito, passou ao dormitorio e, diante do leito contido pelo cortinado, deteve-se, olhando vagamente : alli estavam , em desordem, as roupas caseiras de Guiomar, os seus trajos honestos . No chão , sobre o tapete , a sua camisa jazia num rolo, tomou-a e, apertando-a entre as mãos, cheirou-a com volupia, como se fosse um ramo branco de flores e o aroma, alma da carne, trescalou allucinante . Teve vexame de si mesmo. Que loucura ! Mas o pensamento atormentava-o e a idéa d'um crime passional recrescia diante d'aquellas roupas abandonadas . Parecia-lhe que a mulher havia partido núa, que errava pela cidade como uma borboleta que houvesse deixado o seu casulo e gozasse livremente o sol e o ar, vagando de flor em flor. O sangue accendia-se-lhe naquelle silencio da casa, toda cheia d'um mysterio denunciador. E as horas ? O tempo parecia-lhe tambem haver entrado em cumplicidade, demorando-se para dar ensejo e vagar á pratica nefanda . Que faria ella lá embaixo até áquella hora? para a conversa bastavam-lhe alguns minutos -sim ou não .- Que ficára ella fazendo no escriptorio d'aquelle homem? e se a vissem ? se algum conhecido désse com ella alli , a sós com o banqueiro ?

DESAPONTAMENTO Na sala de jantar tiniam louças - era, de certo, a creada que arranjava a mesa. Entreabriu a porta e olhou : á mesa alvejava a toalha e, ao centro, num cache-pôt de Delft, uma latanea muito verde espalmava-se . Lançando rapidamente os olhos ao relogio viu que eram 4 horas . Franziu o sobr'olho e nervoso, retorcendo os bigodes, voltou ao vestiario, atirando-se, de novo, ao divan com um odio surdo á mulher, convencido de que ella se deixára enlevar pelas attracções da riqueza deslumbradora. E o Navarro, o canatha ! como havia de sorrir quando o visse e como havia de celebrar com mordacidade aquella aventura facil, levada a effeito no seu proprio escriptorio, emquanto ao lado, apenas separados por um tabique, os empregados , curvados sobre os grandes livros, sommavam parcellas e, mais adiante, o thesoureiro pagava e recebia, assignando cadernetas, inutilisando cheques com a mesma indifferença com que mordicava o charuto. Não, não havia que duvidar. Viu ao cabide um casaco de seda, vestiu-ó ás pressas mas logo , retomado de desanimo, num descoroçoamento, sentiu uma commoção violenta : a garganta como que se lhe ia apertando numa angustia, sentia lagrimas nos olhos e, de pé , deslembrado de tudo, apenas com aquella

DESAPONΤΑΜΕΝΤΟ visão do ciume, voltando-se de vez em vez para olhar as roupas da mulher, deu pela primeira lagrima que lhe rolára pela face, entranhando-se no bigode. Reagiu envergonhado da fraqueza e, a passos largos e vagarosos , penteando os cabellos com os dedos muito abertos, tornou ao vestiario, sem coragem de deixar aquelles aposentos intimos, com medo dos creados, certo de que todos leriam na sua physionomia o segredo torturante d'aquillo que então lhe parecia um commercio infame, um lenocinio torpe , o mais abjecto dos traficos imaginaveis . Pobre Guiomar ! Mas a campainha tiniu ; voltou-se sobresaltado e , olhando desvairadamente em torno, viu um jornal, tomou-o, atirou-se com elle ao divan, abriu-o e esperou . Ao ruido dos passos de Guiomar sentiu que todo o sangue lhe affluia ao rosto- não fosse ella perceber que chorava. O reposteiro afastou-se e ella appareceu linda, com as côres avivadas por aquelle exercicio ao ar e ao sol e, vendo-o na mesma attitude em que o havia deixado, pasmou : --O' homem , ainda estás assim ? ! ... -Estava lendo. Olharam-se mudos e ella, levantando o véu , disse com um movimento sacudido do busto airoso :

DESAPONTAMENTO -Pois, meu amigo ... nada ! -Como !? -E' o que te digo... Que agora não é possivel , tem até empregados demais ; que lamenta muito não te poder servir e por ahi além ... E ia descalçando as luvas que resistiam como se sentissem deixar a pelle fina, macia e cheirosa d'aquellas mãosinhas brancas . E elle olhava sem uma palavra, espantado, surprehendido, como se lhe parecesse impossivel que o Navarro negasse alguma coisa áquella linda mulher que alli estava , mais bella e mais seductora que nunca e, com uma ponta de despeito, levantando-se mollemente , resmungou com odio, por entre os dentes cerrados : Idiotas !

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REVENDO O PASSADO

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Água de Juventa

Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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