Universo da obra
Universo da obra
T u que andas a explorar a selva veneravel dos rimances, mais batida que muita estrada de caravanas , onde não ha florinha e já não fallo d'arvores - por mais occulta que nasça, que não tenha um nome rebarbativo , composto em latim erudito ou em grego classico por algum Linneo d'oculos e gorro , e uma doce e mimosa alcunha com a qual o povo, sempre poetico, singelamente a appellida, has de achar encanto nesta aventura que eu comparo, pela sua originalidade, a uma delicada bonina de silvedo, pequenina e ephemera, d'essas que desabrocham com o nascer da lua e morrem ao primeiro luzir do sol . Ouve-me e terás, a um tempo, assumpto
A LINGUA PORTUGUEZA para um dos teus contos- se ainda os escreves- e a explicação que, ha dias, me pediste, no Laemmert, quando lá me achaste a procurar grammaticas e selectas portuguezas . Perguntaste se eu queria enriquecer o meu cabedal linguistico e eu respondi, com mysterio, que tratava de cousa mais séria e mais util- effectivamente, tratava . Para o meu gasto basta-me o que aprendi nesse tempo, menos sabio e mais fecundo, das pequenas grammaticas de nomes faceis e de regras simples : leio e entendo o meu Bernardim e o meu Garção, ando com vagar e segurança pelas agruras floridas dos principes da chronica, redijo um bilhete intelligivel para saber das minhas lavouras, ao sul, e do meu gado nas terras centraes onde tenho pastores como um patriarcha biblico e ainda sirvo ao meu amor que só me pede, com sobriedade rara, flores de rhetorica, em vernaculo . Dirás que estou abundante e diffuso- éo calor, meu amigo ; o calor dilata os corpos e o espirito : o meu espirito poreja facundia e este champagne gelado torna-me chrisologo . Confesso-te que estou languido, languido e fallador como um gaulez ; disse mollemente, espreguiçando se. Que horas são ? tres ; tenho tempo. A's cinco devo estar ajoelhado aos pés de Mylady,
A LINGUA PORTUGUEZA explicando -lhe o participio. Mas, vamos ao caso- pelo brilho de teus olhos vejo que ardes em curiosidade . Se achares a aventura banal não me deixes chegar ao fim ... eu acho-a divina ! Mas é bem possivel que neste velho mundo, onde é tão velho o amor, outra mulher tenha precedido a minha irlandeza, entregando-se, toda languida, a algum homem só com ouvir-lhe a musica da voz ; é possivel . Aos ouvidos delicados das divinas athenienses devia causar estranheza a rude e aspera linguagem d'um scytha ou o rouco bramir d'um thracio e, como a mulher foi sempre o espelho da incoherencia, não duvido que , antes de Betsey, alguma branca e formosa filha de Athené se houvesse despido e, toda núa e toda tremula , se desse á bruta sensualidade d'um d'aquelles gigantes pedindo, já embriagada de amor, que atroasse os ares com o seu dialecto rispido e mais trovejante que a colera de Zeus . Esta é a verdade, meu amigo : a mulher é capaz de tudo e eu não creio que haja um capricho inedito . Emfim - ouve e fala . Refrescou os labios na taça, enrolou uma cigarrilha e continuou, com molle preguiça, encolhendo-se no chambre de seda sobre o divan de couro pardo . Conhecemo-nos a bordo, na tolda do Clyde, logo ao deixarmos Lisboa, em outubro : ella 16.
A LINGUA PORTUGUEZA e Nymph, a cadellinha, eu e Djinn, o meu pointer. Em inglez trocamos as nossas impressões sobre a cidade de Ulysses, a florída Lisboa e sobre a belleza do Tejo e eu entrei , com o meu vago saber, a falar de historia , dizendo-lhe cousas memoraveis dos briosos tempos da grandeza e do heroismo d'aquella terra e d'aquella gente : as guerras, as navegações ousadas em barineis ligeiros, grandes como chalupas, que iam descobrir terras ; os avanços no mar virgem, os transmontos de cabos procellosos, a gloria divina da poesia e o triumpho terreal do descobrimento das praias verdes e largas do nosso Brazil . Ella ouvia-me sorrindo , as duas mãos no collo, toda embebida nas minhas palavras como se tivesse apenas cinco annos e eu lhe estivesse a contar fabulas . Desciamos com uma aragem fresca e tocada de aromas, perdiamos a vista da terra -lá ficavam os moinhos e as torres , lá se afundava em bruma a veneranda cidade e ella a insistir em pormenores , curiosa, ávida de saber, interessada na historia e com os olhos tão azués e tão grandes que eu, ás vezes , ficava-me a olhar para elles com a certeza de que contemplava o céu por duas vigias . E assim permanecemos duas ou tres
A LINGUA PORTUGUEZA horas e só nos apartamos quando ella sentio que era tempo de ir fazer a sua toilette para o jantar. Do pouco que me disse fiquei sabendo que era da Irlanda, terra da harpa e dos santos , casada ; que ia para o Rosario, na Argentina, onde o marido cria carneiros e cavallos e outras coisas mais. Ah ! meu amigo , que encanto de voz ! A harpa gemente da patria de santa Brigida perpetúa os seus sons na bocca das irlandezas . Queria que a ouvisses, não a falar ligeiramente e sem interesse, mas murmurando, na intimidade do amor, pondo o vocabulo no halito , deixando-o ir lento e subtil como um fumo que se sopra e que, au de leve, sóbe e some-se desfeito. Assim é que é ouvil- a ! Depois do jantar, junto á amurada, falava eu a um gordo minhoto, que vinha ao Brasil collocar o seu azeite e o seu vinho quando dei por ella e tão viva, tão irrequieta, tão nervosa, olhando-me tão fixamente e com uma tal ancia a soerguer-lhe o collo, que receei pela sua vida- adiantei-me e ella, firme, rigida, a encarar-me com um brilho mais quente nos olhos, perguntou-me : « Que lingua é essa que o senhor falla ?>>> Portugueza, mylady ; a mesma em que, ha pouco, ouvimos tão lindos cantos entoados por estivadores ; e ella , pallida de emoção ,
A LINGUA PORTUGUEZA erguendo as mãos brancas como uma santa em supplica, suspirou : - O' a bella lingua ! Em portuguez ? - Não , homem de Deus-em inglez. Eu vou traduzindo para não dar á nossa palestra o caracter d'uma dissertação enxertada de textos . E logo, toda agitada, pedio-me que lhe falasse portuguez, muito e sempre, que lhe dissesse tudo em portuguez, tudo! Buscamos as nossas cadeiras e, á luz das estrellas , eu tudo lhe disse em portuguez e ella, (ó sagacidade da mulher !) tudo comprehendia com uma tão lucida intelligencia que os mais subtis idiotismos da nossa lingua, tão rica em idiotismos e em idiotices grammaticaes, principalmente agora que tão mal a escrevem os que põem tanto empenho em reformal-a, enchendo -a de complicadas raizes como um bocal de boticario, eram logo divinamente adivinhados , interpretados, traduzidos com tanta graça que eu, maravilhado, relanceando em torno um olhar ligeiro e vendo que estavamos sós , ajoelhei-me e, beijando-lhe as mãos, offereci -me para inicial-a nos segredos da lingua encantadora ... N'essa mesma noite, alli mesmo, ao som do mar, enveredamos pelo substantivo . E até o Rio só falei portuguez com ella para delicial- a .
A LINGUA PORTUGUEZA Ao entrarmos a barra, com o coração partido, reunia coragem para dizer-lhe a ultima e uma das mais tristes palavras da nossa lingua, que é «Adeus ! » certo de que ella seguia, com virtuosa pressa, para o aprisco conjugal, no Rosario, quando a vi apparecer linda e mais airosa que nunca, num esguio traje de flanella , com a cadellinha, reclamando as malas e um gárrulo kakotoes que comprara em Dakar, a um negro. E disse-me, muito séria, abrindo a sua carteirinha de notas : Fico uns dias aqui, uma semana, talvez, para ver a terra, que parece bella, e concluirmos o substantivo » . Foi tão grande a minha sorpreza que, em vez de atirar-me, alli mesmo, de joelhos , agradecido e alegre, beijando-lhe as mãos, fiquei immovel e mudo, como fincado nas taboas do navio, com um tremor nos labios, os olhos humidos e o coração numa furia, aos esbarros ao peito . Desembarcamos juntos e subimos para a Tijuca e, num hotel dos mais agazalhados no bosque, com aguas vivas brincando em torno , quedamos todo um mez estudando a grammatica e as selectas. Todavia, sem esquecer os nobres deveres de esposa, escrevia, por todos os paquetes , minuciosas cartas ao marido falando, com sincero enthu
A LINGUA PORTUGUEZA siasmo, da natureza do Brasil- a nossa incomparavel naturezal-e louvando a rica, sonóra e doce lingua portugueza, mais doce ainda em bocca brasileira. E, lendo-me as suas cartas graves, sem as explosões dengosas que transbordam da nossa flacida correspondencia de latinos bastardos, empallidecia e corava e toda tremia se os nossos olhos se fitavam num encontro fugitivo e languido. Por fim, ao cabo de um mez, reclamada pelo marido, que telegraphava diariamente , partio. Levei-a ao Nile e, a bordo, na cabine, com lagrimas e beijos , recapitulamos algumas regras com a pressa assustada de um crime. Em uma lancha acompanhei o paquete até a barra que nos devia separar e, ainda algum tempo vi o lencinho de Betsey palpitando entre a cordoalha negra do transatlantico como uma borboleta captiva que se debatesse numa teia. Voltei triste e recolhi a esta casa, que me pareceu mais funebre do que um jazigo, buscando esquecer esse sonho , delicioso e curto , certo de que nunca mais, oh ! nunca mais ! volveria á ventura e á utilidade d'aquellas horas de bem applicado amor. No sabbado, porém, com todo aquelle frio, chegou-me pelo correio este bilhetinho .
A LINGUA PORTUGUEZA Voltou-se e, d'uma concha de madreperola, pousada sobre uma tripode de bronze, tirou um pequenino cartão e leu : «Senhor, aqui estou no mesmo hotel, na Tijuca ; espero-o. Não posso comprehender o participio .-Betsey» . Poz-se de pé num salto agil : Diabol e eu que apenas desci para escolher champagne e Rheno na minha adéga e aqui estou a tagarelar ... E' que me sinto fatigado, meu velho, fatigadissimo ... ! E ajuntou, com malicioso sorriso : é ardua, em verdade, a vida de professor . E lá foi para o quarto, lento e derreado, com o robe de chambre aberto e escorrido como as azas bambas d'um escaravelho enorme . -E o marido ? homem ... -Ignoras que estamos no tempo da tosquia? está a apurar lan . -E tu aqui ... -Eu ... Reappareceu em mangas de camisa e, abrindo os braços nos umbraes da porta, perguntou : Mas, dize : conheces fantasia mais original ? uma mulher que se impressiona por um idioma ? -Fazes bem em dizer idioma ... -Por que ? Ah ! não , refutou logo depois , sizudo : estás enganado- é séria. E, a vestir-se, poz-se a cantar, com musica im
A LINGUA PORTUGUEZA provisada, desenvolvendo a sua bella voz de barytono, os versos do grande e purissimo Ferreira : Floresça, fale , cante, ouça-se e viva A portugueza lingua e já onde fôr Contente vá de si soberba e altiva ...
! UMA AVENTURA
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