Universo da obra
Universo da obra
M ANDA- O entrar, disse o barão ao creado que lhe annunciava o ferreiro . O gabinete, que abria para o terraço, recebendo, por duas largas portas , o ar puro e a luz viva do parque, era de gosto severo, com a sua mobilia macissa de jacarandá esculpido : immensos armarios atulhados de livros , cadeiras d'alto espaldar, com a pregaria a luzir nos rebordos de couro lavrado, quadros serios nas paredes sombrias e dois bustos, em bronze, de pensativos philosophos , sobre columnas negras . O barão , com o charuto ao canto da bocca, revolvia distrahidamente uns papeis, acamados na secretária, sob um pesado blóco de crystal, quando um homemsinho appareceu á
OS PAES porta, muito acanhado, a machucar o chapeu d'encontro ao peito. Moreno, a pelle gretada e côr de ferrugem contrastava com os cabellos hispidos , muito rentes, d'um amarello queimado, como se o fogo da forja, diante da qual elle passava os dias a malhar, desde as cinco da manhan até as ultimas luzes da tarde , lh'os houvesse tostado. As mãos rugosas, possantes, eram quasi negras . Vestia aceiadamente : calças e casaco de brim riscado, camisa de chita, e o pescoço , com o relevo das cordoveias turgidas e roxas, estava esganado pelo collarinho, que uma gravata esfiapada arrochava como um baraço . -Entre, disse o barão . O homem adiantou-se, curvado como ao peso d'um fardo , sem levantar os olhos . O titular puxou a porta, fechou-a á chave e, caminhando serenamente para a secretária, offereceu uma cadeira : -Sente-se . O ferreiro hesitou um instante, mas, a um gesto imperativo do barão , sentou-se, com os joelhos muito juntos, sempre a esmagar o chapeu . Então, meu caro snr. Bento, que se faz ? O homemsinho torceu-se na cadeira e , sorrindo, com a cara tisnada cheia de rugas, deu d'hombros . Houve um silencio entre os dois :
OS PAES o barão folheava os papeis, o ferreiro virava e revirava o chapeu nas mãos . Fóra, no terraço , os canarios cantavam , e um fresco murmurio d'agua tremia no silencio . Ora , vamos lá ao nosso caso, snr. Bento , disse o barão, consultando o relogio ; são dez horas, e eu hoje tenho de estar cedo na cidade . Está então resolvido ? O ferreiro poz-se a sacudir a cabeça, com um risinho velhaco . - Eh ... v. s.a sabe ... cá por mim, eu já disse o que é : a gente não tem tempo para andar com justiças. Assim como assim, o mal está feito ... ha de ser o que Deus quizer. Foi um máo passo, foi ; mas agora ... que se lhe ha de fazer ? Era a unica esperança da gente, não temos outra filha, e, v. s. sabe : ella, casada, com um bom marido, sempre era um auxilio . -E quem lhe diz que não ha de casar ? -Uhm... essas coisas sabem-se, por mais que se escondam. Não é lá pela mulher em si , que isso não lhe tira a virtude, cá no meu parecer, mas a honra, v. s.ª sabe, é, como quem diz - o rotulo . Sem isso ... é custoso -esticou o beiço meneando com a cabeça desoladamente . Eu , por mim, não fazia grande questão ,
OS PAES mas a mulher ... V. s.a sabe : um homem não é só e, em casa, quem governa é a mulher : ella é quem põe e dispõe . A filha atirou-se-lhe nos braços a chorar, contou-lhe a desgraça, e ella, que tem genio, fez um escarceu dos demonios- quiz ir logo á justiça, aos jornaes ; até falou em cá vir fazer um escandalo . Custei a contel-a, e disse-lhe : Olha lá, não te ponhas ahi a berrar ; para que hão de os outros saber ? Havemos de arranjar tudo pela melhor . O snr . barão é um homem de bem, eu vou ter com elle e falando é que a gente se entende. V. s . recebeu-me aqui assim, disse-me a coisa ao certo - que a verdade é que v. s.ª tem tanta culpa nisso como eu- e cá estou para a combinação, sem barulho, porque eu só quero o que é justo . A pequena é bonita, isso é ... e o moço ... que diabo ! ... Eu tambem fui rapaz. A gente foge-lhe , mas o diabo parece que se mette no meio ... Eu , por mim ... O barão interrompeu-o : -Mas , vamos lá saber, snr. Bento : que resolveu a sua senhora ? -Ella ... a dizer a verdade, está na mesma: diz que a pequena é menor e coisas , fala de leis que ouvio nomear e então acha que
OS PAES v. s.ª devia dar um poucochinho mais ... que a pequena, coitadita ... ! a gente com dinheiro na mão póde arranjar qualquer coisa, nem é preciso dizer o que houve, está bem visto ... mas o dinheiro ... v . s.ª sabe . - E então ? não lhe chegam os cinco contos? - Ella é que teima. Eu por mim, cá não tornava a maçar v. s. Estou aqui porque, emfim, sou o homem da casa. Ella tem sua razão , isso tem . A gente com dinheiro vê uma coisa, vê outra, faz sempre um negocio melhor. Eu não quero um vintem para mim, estou velho mas, para a casa e para o bocado, ainda o braço ha de dar... o que vier será para ella . Quando era perfeita, emfim... sempre havia esperança, que ha por lá rapazes que a querem , isso ha ... mas, v. s . sabe : são todos os mesmos , rezam pela mesma cartilha : rondam, rondam mas , se a mulher não está como Deus a fez , atiram-na p'r'ahi á tôa e vão - se ! Ella tem a carinha, que é bonita, isso é mas , v . s . sabe - é costume, é lei do mundo . A mulher para casar quer-se pura, como um fato novo . -Sim... sim ... mas resolvamos , snr. Bento . O senhor tem a sua officina, eu tenho o meu escriptorio, não podemos estar aqui a
OS PAES gastar palavras . Eu offereço um pequeno dote á sua filha, não lhe estou propondo um negocio . Sua senhora insiste na ameaça da denuncia, pois denuncie : os juizes hão de fazer justiça a quem a merecer. Todas as provas são contra a Maria- estão ahi os creados promptos a jurar que era ella quem provocava meu filho. Ora diga-me : que ia ella fazer todas as noites lá embaixo, aos aposentos do rapaz? Elle tinha o seu creado e a unica rapariga que entrava na sua sala de estudo, no seu dormitorio, era a Maria ... para que ? Demais quem poderá affirmar que ella era ainda pura quando o senhor a trouxe ? O ferreiro poz-se de pé e affirmou com segurança, estendendo a mão num gesto de juramento : a -Lá isso não ... tenha v. s . paciencia - eu garanto ! Oral o senhor ... Ella não dava um passo fóra de casa sem uma pessoa de confiança. V. s.ª póde tomar informações . Pois sim , mas isso não vem ao caso. - Não, mas a verdade deve-se dizer. Que ella veio para aqui pura isso ... Depois d'um silencio o barão continuou seccamente : -Pois é isto , meu caro snr. Bento : mantenho o que disse e nem mais um vintem.
OS PAES Se quer o dinheiro, elle aqui está- abrio uma das gavetas da secretária e tirou um pacote, desembrulhou-o mostrando as notas - se não quer ... encolheu os hombros com indifferença e, lentamente, poz-se a refazer o maço , prendendo-o com um elastico. Estou pelo que quizer. Se prefere a justiça, vamos á justiça : sua mulher que denuncie o crime, o meu advogado fará o que fôr conveniente e, no fim, veremos quem tem razão . O rapaz está longe. O ferreiro murmurou humildemente : -E' , eu sei : a pequena leu num jornal que elle embarcou para a Europa... e chorou, a coitada ... - Já vê o senhor. -Mas , eu já disse a v. s . que, por mim, isto já estava acabado . Assim como assim, não ha remedio mesmo . A questão é a mulher. Eu se repetisse a v . s . o que ella me diz ... sei lá ! A's vezes até parece maluca , palavra de honra ! Não sei quem foi que lhe metteu na cabeça uma historia de casamento que é, desde a manhãsinha até á noite , a mesma cantilena : que eu vá á policia, aos jornaes e conte tudo como se deu, porque, lá diz ella, um homem que perde uma moça é obrigado, por lei , a casar com ella ... -Tolice! resmungou desdenhosamente o barão sorrindo .
OS PAES -Pois é o que eu digo. Porque eu sou pelo que é justo, isso sou. Não tenho estudos mas sei vêr as coisas. Um moço como é o filho de v. s.ª, de bôa casa, rico, quasi a formar-se, não é para casar com uma pobresinha, filha de um ferreiro, que mal sabe assignar o nome . Isso não ! eu sou pelo que é justo ... Mas a mulher, v . s sabe, ellas quando teimam ... é pr'alli ! e ninguem as tira do proposito . A coitada é mãe ... E é por ser mãe que augmenta o preço ... ? -E' o que ella diz . Eu por mim já ando enfarado . Garanto a v. s . que não é por meu gosto que vivo mettido nisto. Sou um homem de trabalho e quem me tira os meus ferros tirame tudo . O barão ia e vinha lentamente, mordicando o bigode grisalho. De repente parando diante do ferreiro, disse : -Homem, acabemos com isto. Dou mais duzentos mil réis, serve ? O ferreiro , de cabeça baixa, retorcia as abas do chapeu . Tenho que fazer, não posso estar aqui a perder tempo. Pois, vá lá ! exclamou o Bento atirando o braço num gesto pródigo . Vá lá ! estamos aqui os dois a perder tempo e palavras. A mulher ha de cançar... e que fale. O que é justo éjusto.
OS PAES - Sabe escrever? perguntou vivamente o barão . -Eu, a dizer a verdade, faço p'r'ahi uns garranchos , mas entendem-se. Sei p'r'o gasto . E bamboleava- se . O barão estendeu um caderno de almasso sobre a pasta, tomou uma caneta, molhou a penna e entregou-a ao ferreiro . O homem deixou o chapeu na cadeira, sentou-se á secretária e, muito curvado, foi garatujando , letra a letra, o que o barão lhe dictava : «Recebi do snr. barão de Souzella a quantia de cinco contos e duzentos mil réis ... » O barão hesitou um momento, a remorder o bigode , preoccupado ; por fim, resoluto, proseguio : ... «pelos serviços prestados por minha filha Maria em sua casa . » Quando o ferreiro, com o rosto a luzir de suor, concluio a phrase, respirou desabafadamente, como alliviado . O barão tomou uma estampilha e collando-a, impoz : - Dacte e assigne . Concluido o penoso trabalho o ferreiro afastou- se da secretária esbaforido . O barão passou os olhos pelo papel e, tirando a carteira do bolso, puxou uma nota de duzentos mil réis que reunio ao pacote : Aqui tem, disse . E' bom contar . -Ora ! perdõe v. s .*... escusou-se o Bento . Não , senhor : conte. O homem, então ,
OS PAES cedendo, desembrulhou vagarosamente o pacote , abrio as notas e, salivando o grosso dedo encoscorado e encardido , foi contando de vagar, com verdadeiro goso, os olhos muito brilhantes e fitos nas grandes cedulas novas que estrallejavam . Sorrio ao barão, agradecido e guardando o maço, tomou o chapeu e inclinou-se com humildade estendendo timidamente a mão aspera. Mas o barão, antes de abrirlhe a porta, falou com muita gravidade : Meu caro snr. Bento, o papel que alli fica é um documento, entende o senhor ? O ferreiro aprumou - se formalisado : -Ora essa ! Perdõe v. s . mas eu sou um homem honrado - o que está feito, está feito . Nem precisava o papel, bastava a minha palavra . -Pois é isso . - Então , muito obrigado a v. s.a E ás ordens . Desculpe v. s. a maçada ... Eu se cá vim foi porque a mulher ... v. s.ª sabe ... Perfeitamente ... Adeus ! E aos recuões, ás zumbaias, o ferreiro sumio-se no corredor . O barão respirou largamente e, de pé no meio do gabinete, ficou um momento a pensar, carrancudo. Subitamente , ao explodir d'uma idéa, tirou o lenço do bolso e sacudio a pasta que reluzia sobre a secretária, depois caminhou vagarosamente para o terraço .
OS PAES O sol rebrilhava na folhagem, já as rosas pendiam languidas . Debruçou-se á balaustrada e olhava os fundos macissos de verdura quando, á sombra da grande araucaria, descobrio o ferreiro que a sorrir, recontava vagarosamente as notas levando, de instante a instante , o grosso dedo á bocca.
PAPOULAS
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