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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 3 · Água de Juventa

Revendo o passado

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E aqui estamos nós, á margem do rio, á sombra das arvores, que tantas vezes nos viram chegar, com as nevoas de junho ou com os luares de outubro, guiando os passos timidos d'alguma rapariga ainda inexperiente que se encolhia, toda transida de medo, assustada com o rumor do vento nas arvores ou com uma folha morta que cahia roçando-lhe a núca . Entravamos no hotel, sempre cheio de besouros , e , aos berros , atirando bengaladas ás mesas , atroando o silencio da casa immensa e lugubre e acordando o creado, que dormia á sombra do balcão, pediamos vinho e ovos, que outras cousas não chegavam a estes confins da cidade. Como vae longe esse

REVENDO O PASSADO tempo e como está tudo mudado : nós envelhecemos e mirramos , a cidade rejuvenesce e dilata-se . E ainda fallamos, com um fatuo orgulho, da nossa superioridade sobre as cousas . Eu preferia a longevidade material da pedra e do ferro, da arvore e do pantano, á eternidade espiritual que nos promettem. Olha esta arvore- parece nova : tão viva, tão verde, cheia de botões , prestes a florir, já era uma reliquia citada quando aqui vinhamos ; e o rio lá rola eterno nas suas aguas, sempre soberbo e cantando, e nós começamos a envelhecer, vergando , com a cabeça cheia de cabellos brancos e rugas nas faces . Bom tempo ! Viviamos discutindo o futuro que tão differente nos sahiu dos planos que esboçavamos . Tu , sempre com visões poeticas , abarrotado de romantismo , querias possuir um castello de nome sonoro, reunir mesnadas e dominar, do alto da torre, o burgo humilde. Fallavas dos homens d'armas espalhados pelos adarves, com lanças e buzinas, de uma sentinella vigiando a ponte, de roldas e sobre roldas caminhando lentamente a espiar, por entre as ameias, o campo e o rio ; e nas salas immensas , abobadadas, com pannos e armas pela paredes fortes , ao jorrar dos vinhos e ao som das musicas dos menestreis, descrevias

REVENDO O PASSADO trebelhos alegres de histriões e de moças , ao calor das chammas de carvalhos inteiros , arrancados com as raizes, que ardiam no fogão collossal, com um fulgurar de incendio que accendia esbrazeadamente os vidraes, dando razão ás lendas medrosas dos solarengos - «que eras o proprio demonio e o teu castello uma das entradas do inferno» . Lembras-te ? Americo sorriu, levando á bocca o seu copo de whisky e soda. Estavam á beira do Tieté, n'uma clareira da Floresta, abancados a uma mesa rustica, estalando sob os pés as folhas seccas . A tarde cahia afogueada e silente. A pouca distancia o automovel esperava guardado pelo chauffeur. Nem te lembras mais d'esses sonhos ... Até tentaste com elles um poema . -Não , lembro-me, ás vezes ; mas os sonhos são como as andorinhas : querem calor, sol de mocidade. Chegam, procuram o ninho tepido e, só encontrando frieza e cuidados , batem azas e desapparecem - vão buscar espiritos mais árdegos , almas mais novas. Deve haver, por ahi, algum rapaz com as minhas idéas , as idéas d'esse tempo, porque os sonhos não morrem-passam de um a outro , a gente vae-os deixando ficar na vida e, como

REVENDO O PASSADO nada se perde na natureza, a phantasia não deve constituir excepção . Eu acredito que algum burguez, dos que aqui encontravamos nas noites quentes, refrescando a cabeça atormentada pelos calculos ambiciosos e pela caspa irritante, tivesse recebido a aura de idéal que eu espalhava quando descrevia os meus projectos cerebrinos e, levando-a, como o insecto leva o pollen de uma flór á outra, a houvesse inconscientemente transmittido, num beijo, a alguma mulher gerando um poeta. Anda por ahi um mocinho que escreve sobre torneios e castellos- é possivel que seja meu filho, em parte, filho espiritual apenas, porque o seu verdadeiro pae deve ser um dos taes homens que vinham interromper os nossos devaneios nocturnos com o estrepitar dos dados com os quaes jogavam a cerveja que bebiam a grandes sorvos avidos e com estrondos d'arrotos . Não creio que os sonhos pereçam o seu numero é limitado como o das especies botanicas- o que ha é que se desenvolvem mais em certos espiritos do que em outros, na medida da maior ou menor potencia intellectual, da maior ou menor cultura . -Tens razão : nós somos simples reproductores . Depois de molhar os labios Albino

REVENDO O PASSADO continuou : Agora podias, se quizesses, realizar a phantasia d'esse bom tempo. Não digo que te mudasses para as margens do Rheno, tens aqui o Tieté . Mandavas edificar um castello á beira d'agua e restauravas, com brilho , a vida mediavel em pleno seculo xx. Até eu era capaz de deixar o meu boulevard e atravessar os mares para vir ás tuas caçadas com gerifaltos ou ao som de trompas e com cães e ás tuas festas de inverno com trovadores e damas . -Não , meu caro : falta ao Tieté a tradição . Eu só comprehendo este rio com as monções, com bandeirantes armados, com indios captivos e capivaras dormindo entre as hervas altas das margens . Cada região tem o seu caracter proprio, a sua lenda e a sua historia- por mais que nella trabalhe a civilisação não consegue tirar o fundo essencial da sua natureza, nem despojal-a d'aquellas louçainhas de poesia com que a ornaram os homens das primeiras eras . A Allemanha é e ha de ser sempre para a imaginação aquella forte e agreste Germania do Libellus aureus , de Tacito. O Egypto, apezar de todos os calafetos e envernizamentos com que os inglezes o remoçam e adaptaım ao seculo, não deixará jámais de ser o veneravel paiz pharaonico, paiz do mysterio e da

REVENDO O PASSADO Morte . Jerusalém ha de ser perpetuamente a triste cidade malsinada na prophecia. O Rheno não deixará jámais de ser o rio sentimental das balladas . Assim, os que d'aqui a quinhentos annos vierem gozar as manhans ou as tardes á beira d'este rio, contido, então, por muros de granito lavrado, cintado de pontes, com barcos de recreio cruzando-o abaixo e acima, com um pouco de poesia nalma, hão de ainda ouvir, no perenne murmurio da corrente, o echo das cantigas dos exploradores ousados e a triste lamentação dos indios prisioneiros , cruzando-se, pairando sobolas aguas . As primeiras impressões subsistem eternamente . Demais, este rio é violento, caprichoso, insubmisso : de tempos a tempos cresce assoberbado, transborda, derrama-se pelos campos e ... seria um incommodo ter de apparelhar falúas para mandar ao mercado á carne e á fructa. Não tenho suzerania, mas não estou triste com o meu destino- se não é dos mais bellos é, pelo menos, tranquillo . E, francamente te digo que não nasci para a agitação e para a aventura e hoje, se Deus me désse a escolher uma vida, entre estas duas- governar homens e conduzir batalhas ou ficar inerte, cravado na terra como uma arvore, eu preferia ser um cedro ou um pinheiro para viver socegado, com as minhas

REVENDO O PASSADO raizes bem entranhadas no solo e as minhas ramagens bem abertas ao sol, bailando ás brizas e acolhendo passarinhos. O que eu sou , meu amigo, é um grande preguiçoso ... -E eu outro ! Bocejaram . Na frescura da tarde passava um leve arôma de campos floridos . O chauffeur, sentado á sombra d'uma arvore, com o queixo nos joelhos, olhava melancolicamente, seguindo o vôo rasteiro das andorinhas. Albino rompeu o silencio : -Ainda existe a nossa casa da rua dos Bambús ? -Não . Eu a vi cahir. Os muros, que eram de taipa rigida, resistiram longamente á picareta. Hoje ha lá um palacio . -E as raparigas do nosso tempo? nunca mais as viste ? a Lucilia, a Engracinha , a Eugenia, com a mania dos versos ... -A proposito : sabes que foste injusto com a Engracinha ? - Como injusto ? -Já te não lembras da scena tremenda que fizeste quando, uma vez, a encontraste em conversa com o Louro ? ... -Sim ... -Ella disse-te que estava defendendo a Tuca, aquella rapariguinha loura, que vivia com o Mendonça e que acabou tysica ... cuja

REVENDO O PASSADO morte deu ao Fonseca pretexto para quebrar quatorze versos que foram cahir, com mais dureza do que a terra, sobre o caixão da pobresinha ... - Sim ... -Pois a Engracinha dizia a verdade, mas tu, com os teus furiosos ciumes ... - Nào , não foi por ciume ... Francamente -eu já não supportava aquella mulher. Dois annos ! era quasi um casamento. Foi um pretexto. -Pois se te lembras, quando a despediste, ella disse-te que estava gravida e jurou sobre o ventre já crescido que o filho era teu ... -Ah ! jurou ... Todas juram . -Pois , meu amigo, não jurou falso. A filha é tua. -A filha ! Pois então eu tenho uma filha em S. Paulo ! Estás brincando . - Fallo sério . -E por que affirmas que é minha filha ? Quem sabe lá ! -Por que ? por que é o teu retrato . -Pobresinhal então deve ser hedionda. -Não, por isso não : Minha afilhada parece- se extraordinariamente comtigo e eu não admitto que haja creança mais bella. A outra é encantadora! Os olhos, então são teus : grandes, claros, languidos ...

REVENDO O PASSADO -E achas que tenho nos olhos todos esses encantos ? -Hoje não , já os tiveste . A Eulalia morria por elles ... - Que Eulalia ? -Homem, parece que o Lethes corre agora no leito do Sena. Tu esqueces facilmente . Aquella da Tabatinguera ... -Uma sardenta ? ... - Não , homem de Deus ! uma morena, que cantava romances ... - Filha de um mestre d'obras ? ... Isso ! - Sim , lembro-me agora. Bello collo de rapariga ! Mas vamos á pequena, que o caso me está interessando devéras . - Encontrei-a, uma vez, com a mãe-já moça e lindissima. A Engracinha apresentoum'a. Pois , meu amigo, foi como se me houvesses apparecido numa visão rapida. Eu via, através d'aquella belleza, todos os teus traços , cobertos, com mais cuidado, por uma carne mais tenra, colorida com mais fineza e ameigados por um arsinho de ingenuidade que The augmentava o encanto . Havia naquella creança alguma coisa de ti- a tua assignatura lá estava . Engracinha, percebendo a minha perturbação, disse suspirando : «Eu só queria que elle a visse agora, elle que fez tão máu

REVENDO O PASSADO juizo de mim, que foi tão ingrato commigo . O snr . não imagina como me tenho sacrificado por esta filha. Emfim ... Espero em Deus vêl-a ainda feliz ... » Estendeu-me a mão e là foi . Pobre Engracinha ! Era uma ruina : magra, a cabeça toda branca e aquelles lindos olhos , que fecundaram tanta poesia, annuviados, sumidos no fundo de duas covas . A desgraçada dera tudo á filha. A pequena chama-se Dyonisia. -Alta ? -Alta e esbelta como uma palmeira ; a pelle fina e rosada, uns cabellos admiraveis . Mas os olhos ... os olhos ! ... -Tu reparaste ! ... notou Albino, com malicia. -Para convencer-me da tua injustiça . Houve um silencio, por fim Albino perguntou , garatujando na terra com a bengala : -E sabes onde está morando a Engracinha? -A Engracinha ?! A Engracinha morreu . Morreu ?! E ella? - Vive em Santos, com um commissario. Vive , dizes ... -Sim , vive. - Não casou ? e atirou a mão num gesto de abandono ...

REVENDO O PASSADO -Que havia ella de fazer ? pobre, sem um parente e, demais a mais, lindissima ! Albino ficou um momento d'olhos perdidos . - Dyonisia ... murmurou. Quem lhe teria dado este nome ? -O padrinho, com certeza. Eu não fui. Ella costuma apparecer por aqui , tenho-a visto nos theatros, sempre com o commissario que a vigia com ferocidade. E' d'um ciume ! ... A mim mesmo tem elle desfeiteado ... -E' que sentiu o perigo. - Não , olho-a sem intenção. E' formosa mas, sinceramente, o que em Dyonisia me seduz é ... como direi ? é ... o passado que ella me recorda. Vendo-a, lembro-me de ti, da Engracinha, da Lucilia, do Mendonça, do Claudio com as suas idéas sobre a «redempção da mulher» , das nossas noites de litteratice e de troça, dos nossos passeios a este bosque : tu com a Engracinha, eu com a Paula- que está casada e gorda e tem dois filhos formidaveis . O marido tem uma olaria em S. Bernardo . -Pois eu daria alguma coisa para ver a pequena. A mãe era bonita, tinha um corpo admiravel . -E ella, então ? é uma esculptura. Mas ... acho melhor que a não vejas ... -Por que ?

REVENDO O PASSADO -Porque ... francamente- e sorrindo : ficarás com pena de ser o pae. -Oh ! -Pois sim , pois sim... Mas vamos que já são cinco e tanto e as nossas mulheres esperam-nos . Levantaram -se . O chauffeur correu a accionar o motor do automovel que começou a trepidar , aos trancos . Os dois subiram para o banco da frente. Americo calçou as grossas luvas e manobrou para a volta avançando, recuando, até que poz o vehiculo no caminho ; regulou a marcha e foram sahindo maciamente por entre as arvores onde cantavam cigarras . -Está uma tarde linda . -Admiravel ! E, na estrada, com um arranco, o automovel partiu á grande velocidade.

A' NEVOA

Água de Juventa

Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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