Universo da obra
Universo da obra
E que tal é elle, Clotilde ? -Madame ainda não o viu ? Elle costuma vir aqui, aos domingos . Não é por ser meu noivo, mas é um bello rapaz : alto, espigado, moreno, com os cabellos muito negros , em cachos . Depois - muito sério, trabalhador. Os patrões adoram-no . E' o empre . gado de confiança da casa . -E' do commercio ? -E' cabelleireiro . Cabelleireiro ?! assim bonito ... E tu não tens ciume ? - Não , madame, Eugenio é um timido. Oh ! conheço-o bem ; creamo-nos juntos- é incapaz de ousar isto . Demais ... ama-me até á loucura .
PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO -E tu ? -Oh ! eu ... Se não o amasse ... sei lá ! Madame não imagina as propostas vantajosas que me tem sido feitas : eu era ainda menina e já recebia presentes. Eu é porque entendo que não ha dinheiro que valha a honra de uma rapariga. Isto é um preconceito caduco, já de todo esquecido mas ... que quer ? crearam-me com taes idéas e eu respeito-as como respeito a religião. Meu pae era d'uma severidade ! ... Serei uma simploria... deu d'hombros com indifferença. Ha quem diga que vivo a dar ponta-pés na fortuna, pois sim ... mas ninguem rirá das minhas flores de laranjeira nem do meu pobre Eugenio, quando elle fôr meu marido . Posso andar com a cabeça levantada. Suspirou : Mas o que eu tenho luctado ! Em casa do barão, por exemplo ... (isto eu digo á madame) não imagina o que soffril Eram os dois : pae e filho. A um rumor correu á janella e dubruçou-se : é o carro. -O coupé ? -Sim, madame. Mas vamos ... -Ah ! não me deixavam em paz com offertas de dinheiro- contos de reis !-e joias , vestidos de seda. O barão quiz até montar uma casa para mim ... - Quê ! aquelle velho ? ! ...
PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO - Velho ... se madame soubesse o que elle me propunhal Luciana desatou a rir, um riso alegre, crystallino, cheio de mocidade . E ria diante do espelho compondo os finos cabellos que esvoaçavam, quando o marido appareceu , muito grave, limpando os oculos . -Estás muito alegre, Luciana ... Historias de Clotilde. Tem sempre um caso novo para contar quando me vem vestir . Clotilde, d'olhos baixos, ia e vinha arranjando o toilette, pondo em ordem o psyché, recolhendo grampos , alfinetes, fitas , ferros de frisar, todos os pequeninos apetrechos de aformoseamento que se confundiam nos marmores dos moveis . - Olha, Luciana, dize á tua mãe que eu pretendia ir comtigo mas, infelizmente, tenho de responder amanhan ao discurso do Barros sobre o caso do arrendamento e preciso tomar umas notas . Além disso estou indisposto, máo estomago : uma pontinha de enxaqueca . Aquelles camarões não me fizeram bem . -Não , não foram os camarões ... E' que tu não descanças , Luiz : mal acabas de almoçar é logo para o trabalho. Nem sei mesmo como ainda não tiveste uma coisa séria . -E' preciso , filha . -Nem tanto . E fitando-o carinhosamente: Mas tu podias vir, tambem não é só a Po
PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO litica . Mamãe fica tão contente quando appareces . -Sim , mas hoje não é possivel. Não é vontade que me falta mas, primeiro a obrigação , bem sabes . -E jantar, ao menos-não pódes ? Lá janta-se ás sete horas . -Póde ser : se eu concluir o trabalho ... Todavia não me comprometto . Vê se queres alguma cousa. - Nào . Ia sahindo quando a mulher o chamou com meiguice : Olha, Luiz, faze um esforço : vae jantar, ao menos ; mesmo para eu não vir por ahi sósinha, á noite. Prometto sahir logo que queiras. Vaes ? - Pois sim , accedeu depois de pensar. Palavra ? Vou . - Olha lá : não nos sentamos á mesa sem tu chegares . -Pois sim . E foi-se vagarosamente, pensativamente , coçando a nuca. De novo sós, Luciana , já prompta, deu um olhar ao espelho e, tomando as luvas, muito direita, voltou a sorrir, pensando no barão . -E que lhe disseste, Clotilde ? - - A quem, madame ? Ao barão . -Ah ! foi uma campanhal Tive de ameaPRIMEIRO A OBRIGAÇÃO çal-o com a baroneza, ainda assim o homem continuou a perseguir-me : elle e o filho . O filho é doente , como a senhora sabe : tem uma molestia d'olhos, anda sempre com umas lagrimas muito compridas pela cara e madame não imagina como era ridiculo aquelle chorão , muito magro, mal se aguentando nas pernas bambas , a limpar os olhos amarellos e a pedir-me beijos, pelos cantos . Um dia zangueime de veras e perguntei-lhe se não sabia que eu era donzella ? pois soubesse . Elle ficou a olhar-me espantado e, a chorar com a molestia e a tremer como se estivesse com sezões, perguntou-me - se eu queria casar com elle . Luciana explodiu a rir diante do espelho . -E tu ? -Ora , madame ... pois eu sou alguma tôla ? Para livrar-me de taes importunos deixei a casa, bem contrariada porque a baroneza é uma excellente senhora, coitada ! -E aqui ? perguntou Luciana, com malicia ... o nosso doutor... Falla com franqueza . Clotilde fez uma cara de espanto e, entre séria e risonha, murmurou : -Nossa Senhora ! Madame quer saber ? eu até tenho medo de olhar para elle. Trata a gente tão de resto ... -Pois sim ... vae-te fiando, disse a rir. Desceu o veu, tomou a carteira , fez ainda uma
PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO volta como á procura de alguma cousa e decidiu- se . Bem . Olha : se a costureira vier não te esqueças do meu recado : os figurinos estão na minha escrevaninha, em cima; as rendas estão no chiffonier . -Sim , madame . Luciana atravessou a galeria, d'uma luz doce, velada pelos stores de linho e bateu á porta do gabinete, onde o marido trabalhava : -Até logo, Luiz. Não faltes, sim ? Sim . - - Até logo . -Até logo . Desceu a escada vagarosamente . Clotilde, de cima, acompanhava-a com o olhar, sorrindo. Ella voltou -se : - Adeus . E vê lá a costureira . -Vá descançada, madame. Os passos de Luciana soaram no vestibulo de marmore . Clotilde, encostada ao balaustre da escada, sob a clara-boia de vidros polychromicos, com uma luz azul descendo-lhe da cabeça aos hombros como um fino manto diaphano, olhava um fresco mural, mordendo preoccupadamente o labio . O rapido rodar do carro tirou-a d'aquella preoccupação enlevada ; deu d'hombros,n'uma resolução e, vagarosamente, depois de lançar um olhar á porta do gabinete, voltou á camara e pôz- se a arranjar as gavetas , a pendurar as roupas, a esticar os tapetes engelhados . A's
PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO vezes detinha-se e ficava a pensar, immovel, de olhos perdidos mas logo sorria despreoccupada e contente . A camara rescendia á verbena. Parou diante do espelho , a mirar-se ; tomou o pente de tartaruga loura e alisou os cabellos dourados , perfumou as mãos, as faces , o pescoço . Viu-se, reviu-se ao psyché, de frente, correndo a mão pelo avental ; de flanco, tufando as rendas dos hombros e sorria, satisfeita com as suas côres de saúde, com o brilho humido dos seus olhos verdes . Foi á janella, empurrou as persianas e debruçou-se. A rua estava deserta, ao sol ; lá muito em baixo, lampejando, o coupé diminuia, desapparecendo. A casa, immensa e quieta , parecia deserta. Então, arqueando os braços, com os dedos enclavinhados, dubrouse num langor, espreguiçando-se voluptuosamente e sorrindo com todos os dentinhos claros á flór dos labios sanguineos . Mas , um estalido fel-a voltar a cabeça com um susto de gazella arisca : o doutor estava em pé, á porta, e contemplava-a risonho . Ella baixou os olhos e elle, adiantando um passo, empurrou a porta e ia fechal-a á chave quando ella o reteve com um gesto. Correu á janella e, de novo, lançou um olhar á rua e alli teria ficado se elle, ancioso, não se resolvesse
PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO P a abraçal-a pela cinta , attrahindo-a. Ella murmurou : -Mas ... o senhor não tem medo ? -Medo de que? Deu volta ao ferrolho da janella e, adiantava-se, quando Clotilde , com um «ah ! » abafado, correu ao psyché e, tomando uma velha moldura de prata com o retrato de Luciana, em trajo de caça, de pé, risonha, destacando- se de um fundo sombrio de folhagens, escondeu-o, á pressa, em uma das gavetas e como o doutor, com uma voz surda e trémula, lhe perguntasse - «que era ?» ella, fitando-o e sentindo-lhe o halito quente, murmurou sorrindo : -E' a patrôa, coitada !
O FUTURO
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