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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 7 · Água de Juventa

Primeiro a obrigação

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E que tal é elle, Clotilde ? -Madame ainda não o viu ? Elle costuma vir aqui, aos domingos . Não é por ser meu noivo, mas é um bello rapaz : alto, espigado, moreno, com os cabellos muito negros , em cachos . Depois - muito sério, trabalhador. Os patrões adoram-no . E' o empre . gado de confiança da casa . -E' do commercio ? -E' cabelleireiro . Cabelleireiro ?! assim bonito ... E tu não tens ciume ? - Não , madame, Eugenio é um timido. Oh ! conheço-o bem ; creamo-nos juntos- é incapaz de ousar isto . Demais ... ama-me até á loucura .

PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO -E tu ? -Oh ! eu ... Se não o amasse ... sei lá ! Madame não imagina as propostas vantajosas que me tem sido feitas : eu era ainda menina e já recebia presentes. Eu é porque entendo que não ha dinheiro que valha a honra de uma rapariga. Isto é um preconceito caduco, já de todo esquecido mas ... que quer ? crearam-me com taes idéas e eu respeito-as como respeito a religião. Meu pae era d'uma severidade ! ... Serei uma simploria... deu d'hombros com indifferença. Ha quem diga que vivo a dar ponta-pés na fortuna, pois sim ... mas ninguem rirá das minhas flores de laranjeira nem do meu pobre Eugenio, quando elle fôr meu marido . Posso andar com a cabeça levantada. Suspirou : Mas o que eu tenho luctado ! Em casa do barão, por exemplo ... (isto eu digo á madame) não imagina o que soffril Eram os dois : pae e filho. A um rumor correu á janella e dubruçou-se : é o carro. -O coupé ? -Sim, madame. Mas vamos ... -Ah ! não me deixavam em paz com offertas de dinheiro- contos de reis !-e joias , vestidos de seda. O barão quiz até montar uma casa para mim ... - Quê ! aquelle velho ? ! ...

PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO - Velho ... se madame soubesse o que elle me propunhal Luciana desatou a rir, um riso alegre, crystallino, cheio de mocidade . E ria diante do espelho compondo os finos cabellos que esvoaçavam, quando o marido appareceu , muito grave, limpando os oculos . -Estás muito alegre, Luciana ... Historias de Clotilde. Tem sempre um caso novo para contar quando me vem vestir . Clotilde, d'olhos baixos, ia e vinha arranjando o toilette, pondo em ordem o psyché, recolhendo grampos , alfinetes, fitas , ferros de frisar, todos os pequeninos apetrechos de aformoseamento que se confundiam nos marmores dos moveis . - Olha, Luciana, dize á tua mãe que eu pretendia ir comtigo mas, infelizmente, tenho de responder amanhan ao discurso do Barros sobre o caso do arrendamento e preciso tomar umas notas . Além disso estou indisposto, máo estomago : uma pontinha de enxaqueca . Aquelles camarões não me fizeram bem . -Não , não foram os camarões ... E' que tu não descanças , Luiz : mal acabas de almoçar é logo para o trabalho. Nem sei mesmo como ainda não tiveste uma coisa séria . -E' preciso , filha . -Nem tanto . E fitando-o carinhosamente: Mas tu podias vir, tambem não é só a Po

PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO litica . Mamãe fica tão contente quando appareces . -Sim , mas hoje não é possivel. Não é vontade que me falta mas, primeiro a obrigação , bem sabes . -E jantar, ao menos-não pódes ? Lá janta-se ás sete horas . -Póde ser : se eu concluir o trabalho ... Todavia não me comprometto . Vê se queres alguma cousa. - Nào . Ia sahindo quando a mulher o chamou com meiguice : Olha, Luiz, faze um esforço : vae jantar, ao menos ; mesmo para eu não vir por ahi sósinha, á noite. Prometto sahir logo que queiras. Vaes ? - Pois sim , accedeu depois de pensar. Palavra ? Vou . - Olha lá : não nos sentamos á mesa sem tu chegares . -Pois sim . E foi-se vagarosamente, pensativamente , coçando a nuca. De novo sós, Luciana , já prompta, deu um olhar ao espelho e, tomando as luvas, muito direita, voltou a sorrir, pensando no barão . -E que lhe disseste, Clotilde ? - - A quem, madame ? Ao barão . -Ah ! foi uma campanhal Tive de ameaPRIMEIRO A OBRIGAÇÃO çal-o com a baroneza, ainda assim o homem continuou a perseguir-me : elle e o filho . O filho é doente , como a senhora sabe : tem uma molestia d'olhos, anda sempre com umas lagrimas muito compridas pela cara e madame não imagina como era ridiculo aquelle chorão , muito magro, mal se aguentando nas pernas bambas , a limpar os olhos amarellos e a pedir-me beijos, pelos cantos . Um dia zangueime de veras e perguntei-lhe se não sabia que eu era donzella ? pois soubesse . Elle ficou a olhar-me espantado e, a chorar com a molestia e a tremer como se estivesse com sezões, perguntou-me - se eu queria casar com elle . Luciana explodiu a rir diante do espelho . -E tu ? -Ora , madame ... pois eu sou alguma tôla ? Para livrar-me de taes importunos deixei a casa, bem contrariada porque a baroneza é uma excellente senhora, coitada ! -E aqui ? perguntou Luciana, com malicia ... o nosso doutor... Falla com franqueza . Clotilde fez uma cara de espanto e, entre séria e risonha, murmurou : -Nossa Senhora ! Madame quer saber ? eu até tenho medo de olhar para elle. Trata a gente tão de resto ... -Pois sim ... vae-te fiando, disse a rir. Desceu o veu, tomou a carteira , fez ainda uma

PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO volta como á procura de alguma cousa e decidiu- se . Bem . Olha : se a costureira vier não te esqueças do meu recado : os figurinos estão na minha escrevaninha, em cima; as rendas estão no chiffonier . -Sim , madame . Luciana atravessou a galeria, d'uma luz doce, velada pelos stores de linho e bateu á porta do gabinete, onde o marido trabalhava : -Até logo, Luiz. Não faltes, sim ? Sim . - - Até logo . -Até logo . Desceu a escada vagarosamente . Clotilde, de cima, acompanhava-a com o olhar, sorrindo. Ella voltou -se : - Adeus . E vê lá a costureira . -Vá descançada, madame. Os passos de Luciana soaram no vestibulo de marmore . Clotilde, encostada ao balaustre da escada, sob a clara-boia de vidros polychromicos, com uma luz azul descendo-lhe da cabeça aos hombros como um fino manto diaphano, olhava um fresco mural, mordendo preoccupadamente o labio . O rapido rodar do carro tirou-a d'aquella preoccupação enlevada ; deu d'hombros,n'uma resolução e, vagarosamente, depois de lançar um olhar á porta do gabinete, voltou á camara e pôz- se a arranjar as gavetas , a pendurar as roupas, a esticar os tapetes engelhados . A's

PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO vezes detinha-se e ficava a pensar, immovel, de olhos perdidos mas logo sorria despreoccupada e contente . A camara rescendia á verbena. Parou diante do espelho , a mirar-se ; tomou o pente de tartaruga loura e alisou os cabellos dourados , perfumou as mãos, as faces , o pescoço . Viu-se, reviu-se ao psyché, de frente, correndo a mão pelo avental ; de flanco, tufando as rendas dos hombros e sorria, satisfeita com as suas côres de saúde, com o brilho humido dos seus olhos verdes . Foi á janella, empurrou as persianas e debruçou-se. A rua estava deserta, ao sol ; lá muito em baixo, lampejando, o coupé diminuia, desapparecendo. A casa, immensa e quieta , parecia deserta. Então, arqueando os braços, com os dedos enclavinhados, dubrouse num langor, espreguiçando-se voluptuosamente e sorrindo com todos os dentinhos claros á flór dos labios sanguineos . Mas , um estalido fel-a voltar a cabeça com um susto de gazella arisca : o doutor estava em pé, á porta, e contemplava-a risonho . Ella baixou os olhos e elle, adiantando um passo, empurrou a porta e ia fechal-a á chave quando ella o reteve com um gesto. Correu á janella e, de novo, lançou um olhar á rua e alli teria ficado se elle, ancioso, não se resolvesse

PRIMEIRO A OBRIGAÇÃO P a abraçal-a pela cinta , attrahindo-a. Ella murmurou : -Mas ... o senhor não tem medo ? -Medo de que? Deu volta ao ferrolho da janella e, adiantava-se, quando Clotilde , com um «ah ! » abafado, correu ao psyché e, tomando uma velha moldura de prata com o retrato de Luciana, em trajo de caça, de pé, risonha, destacando- se de um fundo sombrio de folhagens, escondeu-o, á pressa, em uma das gavetas e como o doutor, com uma voz surda e trémula, lhe perguntasse - «que era ?» ella, fitando-o e sentindo-lhe o halito quente, murmurou sorrindo : -E' a patrôa, coitada !

O FUTURO

Água de Juventa

Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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