Universo da obra
Universo da obra
sol começava a luzir nas folhas humidas, polvilhando d'ouro o azul dos montes quando Soeiro atravessou o jardim areado , relvado de novo, com flores moças, d'aquella noite, ainda entre-fechadas e timidas . A sala de jantar tinha todas as portas abertas á aragem da manhan ; os canarios cantavam estridulamente nas suas gaiolas douradas, que oscillavam entre as ramas entrelaçadas das ipoméas e dos jasmineiros do terraço . O Luiz, com o seu comprido avental branco sem a mais leve nodoa, espanava, com serenidade, os pratos preciosos que ornavam as paredes côr de malva e o jardineiro, o robusto e atarracado Mendo, ia e vinha descalço, abarcando as tinas de pandanos e de lataneas ,
HORTENSIA dispondo-as , com symetria, entre os moveis, para dar á sala a frescura e o verdor agradavel d'um horto . Ao vêrem-no, os creados detiveram-se, perfilando-se com uma saudação murmurada. Soeiro parou, olhando vagameute a sua sala, os seus moveis esculpidos, sobre-carregados de crystaes e pratas que rebrilhavam por traz dos limpidos vidros esmerilhados, as suas velhas faianças preciosas como se tudo visse, examinasse, avaliasse com o interesse de um comprador, não como dono que conhecia a historia de cada um d'aquelles objectos adquiridos em lentas pesquizas, por bom preço, nos leilões ou nas casas dos revendedores . Como os creados voltassem ao serviço, indeciso, bocejando, pousou o chapeu e a bengala sobre a mesa e caminhou até o terraço cujo ladrilho, vermelho e branco, conservava ainda a humidade da lavagem e alli quedou, a olhar o liquido pennacho do repucho que sussurrava, pulverisando o ar com uma nevoa translucida . Sentia-se amollecido, atordoado d'aquella noite de tanto esplendor e ruido que lhe adensára mais no espirito as duvidas que tinha sobre aquella admiravel mulher, cuja posse elle vinha docemente, vagarosamente, saboHORTENSIA reando em sonhos como se se quizesse dirigir para a fellcidade, passo a passo, por um caminho discreto de sombra e silencio, afastando ramos finos, até o momento ancicso de a surprehender já sua, toda sua, a sorrir , linda e languida, ainda coroada de flores, com o veu ainda a abrumar-lhe o rosto . Nem ella mesma sabia d'aquelle amor - nunca lh'o demonstrára, sempre reservado, á distancia, deixando-a livre com os seus instinctos para poder analysal-a, espreital-a, estudar-lhe a alma, com vagar e astucia, decifrar o enigma d'aquelle eterno sorriso. Tirou do bolso o carnet, abriu-o e, na calligraphia feia e trémula que o enchia, logo notou as letras deseguaes, traçadas vagarosamente por aquelles dedos afilados e mais brancos e macios que as petalas dos lyrios , compondo desgraciosamente o gracioso nome de Hortensia. Encostou-se á balaustrada, sempre a olhar as letras d'aquelle nome adorado de mulher e de flor ; esteve a fital-as como se as quizesse interpretar, uma a uma, ou nellas descobrir alguma cousa, um leve , fugidio vestigio da mão delgada que as traçára . Voltou-se, porém, e, de novo, relanceou a sua sala onde tudo resplandecia e o silencio só era interrompido pelo trillar dos canarios ou , nos dias quentes, á hora mais incendida, por
HORTENSIA alguma abelha voluvel que esvoaçava, pousando um minuto nalgum florão, logo sahindo a zumbir, para o seu doce trabalho . Caminhou para a mesa, tomou o chapéu e a bengala e, vagarosamente, vergado, seguindo pelo esparto do corredor, chegou aos seus aposentos, a cuja porta o impassivel François , muito grave, esperava immovel como uma sentinella . Entrou e, emquanto o creado, sem rumor e sem fallas, o ia despindo, descalçando, offerecendo-lhe o robe de chambre, as fofas sandalias de felpas de linho, revia-se ao espelho desconsoladamente, achando-se pallido, com olheiras , a pelle lustrosa como repassada em oleos , desfigurado , abatido por aquella noite de agitação e excessos . François murmurou uma pergunta sobre o banho - se o queria morno ou frio ? - Frio , disse, estirando-se no canapé de couro diante do leito antigo, de pau santo, largo e raso , com retorcidas columnas ennastradas de crespas folhagens, toldado pelo docel de damasco côr de morango, com arrepanhadas, pregas que se engelhavam pesadas aos lados da cabeceira alta, onde a almofada alvejava , destacando-se, da colcha d'um verde d'agua , como uma duna á beira de uma praia . Quieto, deixando errar o espirito, lá tornou á mulher admiravel , á divina Hortensia, toda
HORTENSIA carnal, rescendendo a amor, exhalando volupia, se sorria, se fallava, se caminhava ; mesmo na immobilidade, quando apenas se lhe notava a ondulação do collo arfante, branco e cheio, os olhos prendiam-se n'ella com o extase soffrego de um goso material . Dava-lhe a impressão alvoroçante de uma deusa lasciva que exigia sacrificios impuros , como a Mylitta asiatica. Nos salões , nas ruas via-a sempre seguida de um cortejo de admiradores que a acclamavam triumphalmente, enaltecendo-lhe a belleza e o espirito, sorvendo o ar que o seu aróma perfumava, procurando vêr a ponta delicada do seu pequenino pé travesso que ariscamente apparecia, como espiando, a medo por entre as rendas da fimbria da saia farfalhante, lambendo-lhe as curvas fortes com olhares lubricos, estremecendo se ella voltava para os seus rostos a luz azul das suas pupillas magicas, se lhes sorria com todo o sangue á beira dos labios humidos . Não, não era aquella a mulher que lhe convinha-tinha-a como um sonho, não a acceitava na realidade. Servia para logradouro da imaginação - que o seu espirito a gozasse mas , para a calma da vida, achava-a perturbadora e incommoda com a sua formusura, com a sua vaidade, com o seu estouvamento .
HORTENSIA Sabia-se forte , havia de querer dominar, impondo-se pela belleza, ameaçando sempre com a sua carne joven e appetecida, fazendo menção de desnudar-se para offerecer-se em represalias crueis. Não ! toda a sua vida remansada de homem methodico seria revolvida, ficaria toldada como agua de um lago sereno e limpido que, subitamente, uma convulsão agita e turva, fazendo subir á tona toda a vasa rebalsada. Adorava-a , repellindo-a por julgal-a incoinpativel com a sua norma de viver, com as suas idéas egoisticas sobre a felicidade . Com ella vêr-se-hia sempre cercado de receios , o silencio e a ordem desappareceriam d'aquella casa onde eram tão dôces os dias e as noites tão repousadas e sua alma, que nenhum cuidado visitava, encher-se-hia de cuidados , talvez de coleras ciumentas . Nunca mais poderia receber com franqueza os amigos predilectos porque todos, ignorando o seu amor, á mesa do jantar ou nos cavacos nocturnos, emquanto o Nunes, sempre a recordar scherzos e sonatas, fazia soar o piano, fallavam com exaltados elogios e commentarios picantes, desnudando e apontando os encantos d'aquella virgem magnifica, amadurecida precocemente, que ardia por amar e pelo amor. As palavras desprendiam-se-lhe
HORTENSIA dos labios voluptuosamente como se viessem em beijos, o seu olhar parava e adormecia no rosto dos interlocutores com a fixidez de duas estrellas que brilham. Soeiro imaginava-a alli, caminhando airosamente pelas salas e pelos corredores onde a noite jámais encontrára uma mulher. Imaginava-a naquelle placido aconchego onde encerrava, com egoismo e serenidade, a vida sem sobresaltos e via tudo mudado : o rumor em vez do silencio, a desconfiança em vez da tranquillidade espiritual que todos lhe invejavam.. Não, não era a mulher que lhe convinha ; ia preterir toda a felicidade pela incerteza d'um sonho, por uma phantasia, um capricho inconfessavel, quasi obsceno . E conservaria a esposa a encantadora plastica e a graça insinuante da donzella ? O que elle via era a amazona astuciosamente armada para a lucta, compondo ciladas habeis para conquistar um marido ; depois da victoria, despidas as armas que tanto luziam, seria ella a mesma ? não, por certo . Havia belleza, não negava, mas havia tambem artificios que desappareceriam na manhan seguinte á noite do casamento e o encanto de Meluzina havia de mostrar- se fatalmente como se mostrou a Raymond, na torre
HORTENSIA alta do castello do Poitou, quando elle, curioso de vêr a mulher na nudez e na verdade, espiou pela frincha e deu com a retorcida serpente que, ao sentil-o, silvou e partiu pelos ares nocturnos, desapparecendo para nunca mais . Não, não ... elle bem sentia a serpente sob a illusão da Belleza. Demais era um corpo cubiçado, profanado por todos os olhares, gozado pela imaginação de quantos o viam ; era a amante ideal de todo aquelle mundo futil que a rodeava zumbrido, soprando-lhe para a vaidade o incenso dos louvores. Elle mesmo não a amava, desejava-a- não ia para ella levado por uma sympathia, mas attrahido por uma sensação. Taes amores são como os confeitos- que, sob um doce revestimento que logo se dilue, encerram a amendoa amarga e, não raro, venenosa . Occorreram-lhe, então, as palavras perversas do Lino, sempre dicaz e a sua singular e anecdotica analogia. «Para elle, Hortensia não era mais que um apperitivo fino. Contou que certo sybarita pobre tinha sempre á mesa uma lasca de presunto e illudia-se com o arôma de sorte que, mastigando o pão secco e a carne insipida, tinha a sensação delicada de estar saboreando fêbras do fiambre que os
HORTENSIA olhos contemplavam com resignada gula e o olfacto ia chupando, aos sorvos, para temperar, na imaginação, o almoço e o jantar mesquinhos . Aquillo era uma mulher para a idéa, um «modelo» para o espirito-guardava-se-lhe na memoria a belleza e, com ella, podia a gente sentar-se á mesa mais parca porque teria o doce engano de estar saboreando aquelle manjar delicado» . E riu maliciosamente, arripiando os bigodes atrevidos . Subitamente Soeiro estremeceu-pareceulhe ter ouvido a voz macia e preguiçosa da moça, repetindo-lhe, num tom de queixume, as palavras que lhe dissera naquella tarde tristonha, doentia, em que a vira na varanda, toda de branco e pallida, com os cabellos muito louros atidos numa grossa trança que lhe escorregava pelo collo alto como uma torrente de lava chammejante que rolasse por uma collina : «Eu bem sei que me julgam vaidosa e até mais do que isso... mas ... que culpa tenho eu de ser assim ?» Ser assim ... Com tal phrase ella referia-se á belleza, á graça, a todo o encanto da sua pessoa divina, a toda a seducção do seu corpo, a toda a doçura enervante da sua voz, traduzindo em musica os pensamentos ligeiros da sua cabecinha estroina . Ser assim ... E se ella fosse honesta, pura, formosa mas
HORTENSIA sem culpa !? sim, se fosse innocente, apezar d'aquellas apparencias languidas ? A porta abriu-se de leve e François appareceu com o jupon no braço . - Já vou, disse Soeiro. O creado esgueirou-se e elle, espreguiçando-se, estrincando os dedos, deixou escapar um sincero : «Coitada ! » E, de novo, voltou aos seus pensamentos : Quem sabe se não está alli uma victima da propria belleza? Eu mesmo que razões tenho para julgal-a impura? Até hoje, apezar de todos os meus cuidados, só consegui descobrir nella a creança , uma alma infantil que brinca sem comprehender a puberdade em que entrou . Pobresinha ! Decididamente a mulher precisa da malicia para affectar innocencia - a ingenuidade é prejudicial porque é franca-é como uma nudez : encantadora para os que nella vêm a innocencia, mas desfaçatez obscena para os que a tomam por descaramento insolito. E é o que ella é, a pobre Hortensia-uma ingenua , uma victima dos paes que a lançaram nos salões sem os cuidados e os conselhos previos , de sorte que , a todo o momento, é preciso que uma mão amiga a esteja arredando do perigo como se afasta uma creança do tumulto onde fica errando deslumbrada ea rir, sem imaginar que a morte a rodeia e atHORTENSIA trahe com o mesmo deslumbramento que a fascina e atordoa . Pobre Hortensia ! Encolheu os hombros e, mollemente, fatigado, seguiu nas surdas sandalias pelo corredor sombrio, caminho do banheiro e, pela primeira vez , achou triste o silencio d'aquella casa tão rica, tão atulhada e tão deserta .
A LINGUA PORTUGUEZA
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