Universo da obra
Universo da obra
E NCOSTADA á janella, olhando através dos vidros, ouvia o taralhar monotono de uma machina de costura, alli ao lado , além da parede enxameada de chromos : alguma pobre mulher que adiantava a tarefa, talvez com fome . Era, de certo, a magra, uma que costumava apparecer á porta do quarto, ao lado, quando ella subia, sempre desgrenhada, macilenta, com uns olhos negros muito grandes , pisados , o peito fundo como se a tysica o fosse cavando e dobrando. Devia ser ella... pobre mulher ! E todo aquelle immenso pardieiro era habitado por gente assim- homens amarellos , maltrapilhos, quasi todos em mangas de camisa , arrastando chinellas molles pelas esca
O PROTECTOR das lobregas, tresandando á maresia, a suor e á bebida . Ella, mais de uma vez , arrevessára ao passar por alguns que a olhavam com indifferença , soprando para o seu lado um halito nauseante. Creanças magras com camisas curtas, os ventres enormes, pandeados e duros , os gambitos nús e finos como espeques , os cabellos espalhados pelo rosto immundo, roendo codeas, aos saltos pelos corredores empastados de lôdo e uma velhinha encarquilhada, com um chale negro pela cabeça, que descia vagarosamente, gemendo, muito agarrada ao corrimão, parando, a espaços , para arquejar . Pois elle não achara outra casa mais aceiada para recebel-a ? A's vezes estremecia pensando na possibilidade de um incendio... Que seria d'ella se tal cousa acontecesse, naquelle velho predio, quasi tão velho como a cidade, com a madeira a esfarelar-se de podre, rangendo ao andar de uma creança como se todo o peso lhe fosse insupportavel? E se algum d'aquelles homens tão mal encarados fosse um assassino ? se a policia, procurando-o, varejasse a casa e levasse todos os moradores, ella inclusive, no mesmo rol, através das ruas, aos olhos da multidão ? Mais d'uma vez murmurara esses receios ao commendador- elle sorria, cruzando as
O PROTECTOR pernas , tomava-a ao collo, fazia-lhe festas com os grossos dédos sempre humidos, uns «brinquedos » imbecis que a irritavam -apertandolhe os labios , o nariz, fazendo-lhe cocegas na nuca e dizia-lhe : «Que se deixasse de tolices ; conhecia aquella gente, pobre mas séria eram pescadores , operarios ; descançasse . Alli podiam ficar á vontade, estavam longe do mundo, ninguem os conhecia. » Mas, sempre que galgava, ás pressas , os gastos degráos, através do fartum azedo d'aquella casa sordida e lugubre, ouvindo os ganidos dos petizes , os cantares guaiados das mulheres , o rouco pigarrear dos homens , todo o rumor confuso d'aquella colmeia sombria acudiam-lhe as mesmas idéas , os mesmos receios assaltavam -na e era a tremer que ella mettia a chave na fechadura , abrindo a porta e recuando, contendo a respiração ao bafio de môfo que vinha do aposento dos seus amores . Ella alli estava encostada a janella, olhando, com o rosto collado ao vidro, aquelles fundos que subiam para a montanha : velhos telhados cobertos de manchas, com herva nos beiraes ; pateos, negros como alfujas , onde luziam poças d'agua , janellas abrindo sobre interiores escuros onde parecia reinar uma noite eterna ; mulheres com as saias enroladas nos quadris , as grossas pernas núas , arrastando
O PROTECTOR os tamancos nas lages das áreas, em torno de tinas acoguladas de roupa e um velho tanoeiro rodando quintos, a bater aduellas com uma pressa de anciedade. Numa corda branquejavam camisas engommadas, saias escorridas , lenços que se balançavam em oscillações de flammulas . Para o alto era o casario trepando, monte acima, num atropello tumultuoso de rebanho assustado : predios esguios , casótas aсаçараdas, uma ruina com as vigas apparecendo como um negro esqueleto, paredes nuas subindo do muradal, fundos fuliginosos da antiga cosinha ; ao lado, um sobrado amarello com as paredes avelludadas de limo, laivos d'humidade e fendas sinuosas que coriscavam d'alto a baixo numa ameaça de desabamento e o céu quente, d'um azul forte, curvava-se maravilhoso sobre aquella miseria triste. Pobre gente ! Parecia-lhe impossivel que se pudesse viver assim como em um porão. Então, com um egoismo satisfeito, comparava a existencia abafada e miserrima d'aquella vermina humana que fervilhava resignadamente no lôdo á sua vida farta e mimosa, com requintes de luxo, derivando desembaraçada, risonha e facil no seu chalet á beira mar, com todo o sol a entrar-lhe pelas janellas, com a
O PROTECTOR brisa pura a refrescar-lhe os aposentos , portas abrindo sobre ladrilhos de pateos, sobre verdes grammados e canteiros floridos e , numa elevação, a que o commendador dava o nome pomposo de «outeiro» a «choça» de velhos troncos, com cipoaes trançados, por onde subiam enredadas trepadeiras e o jasmineiro abria as suas cheirosas flores . Era alli que ella gozava a doçura das tardes mornas quando as cigarras cantavam nas amendoeiras emquanto o marido, de branco, seguido do jardineiro , ia ordenando arranjos , detorando galhos seccos, quebrando velhas ramas , arrancando folhas murchas e a agua saltante e alegre do repuxo cantava , refrescando o ar . Um craveiro da India, com as suas flôres d'um amarello muito vivo, lembrava um candelabro de bronze acceso em muitas luzes e o flamboyant, que se encostava ao terraço, todo em flor, parecia copado de coral com abelhas que esvoaçavam em torno . Um sino dobrou vagarosamente- ella levantou os olhos e só então vio na montanha uma bandeira a debater-se com o vento rijo que soprava do mar. Un cheiro de cozinha subia enjoativo. Em baixo, num d'aquelles cacifros profundos, poz-se uma voz a gritar e latidos de cão romperam furiosos. Houve um fragoroso rolar de taboas como uma ruinaria
O PROTECTOR que desabasse e logo depois ganidos e pragas , berros obscenos e immundos . Ella não parecia ouvir, seguindo uma idéa que, por vezes, nas horas mais calmas , the pousava no espirito com a impertinencia teimosa de uma mosca. Encolheu os hombros e , d'olhos muito abertos , parados, fitos na montanha atravancada , ficou como esquecida , vendo , por vezes , ao alto , a desfraldada bandeira que espadanava desabridamente . Pensava no marido com o mesmo remorso que sentiria uma ladra que fosse, aos poucos , desviando em furtos , os bens de um amigo . Era um bello bomem, novo e forte, e amava-a . Sim , amava-a com um insaciavel ardor bem differente da sofrega e abrutalhada lascivia do amante. Franzio o sobr'olho, poz-se a remorder o labio. Mas quem era o culpado senão elle ? elle mesmo que levára o commendador á casa quando ainda moravam em S. Christovão, impondo-o como um amigo excellente, um protector leal e desinteressado a quem devia obsequios inestimaveis ? Ella nunca o vira antes d'aquelle dia funesto e quando o marido o apresentou , pouco depois da sua volta da Europa, achou-o ridiculo, com a lisa e reluzenta calva que elle afagava com volupia, passando, repassando por ella, da fronte L
O PROTECTOR á nuca, a mão curta e gorda, sardenta e felpuda. Que lhe dissera o marido para conter-lhe o riso ? pedira -lhe que o tratasse bem, com amizade ; e a sós , no leito, ainda insistira com interesse ganancioso : que o fosse aturando, era uma relação que servia - homem rico, sem familia , muito conceituado na sociedade e franco. Descreveu-lhe a casa rica, que elle habitava, poz-lhe diante dos olhos toda a sua fortuna em predios, em apolices, em acções de bancos e ainda a parte que tinha como commanditario em uma grande casa importadora . Vivia com dois creados e uma velha caseira ; lembrava-se de elle lhe haver vagamente falado em uma parenta, uma sobrinha que murchava no fundo de uma aldeia do Minho, que era tudo quanto restava da sua gente. Lamentou não terem um filho, elle seria o padrinho . Não foi elle mesmo que pedio ao commendador o obsequio de ir vendo se encontrava uma casa em Botafogo porque estava enfarado d'aquelle bairro industrial, onde a poeira suffocava e o fumo das fabricas mantinha sempre os ares toldados e não lhe cedera o commendador um dos seus predios - o chalet- sorrindo com superioridade ás suas objecções : «que não tinha dinheiro para um palacio como aquelle : que pedia luxo e trato » , accommodan
O PROTECTOR do-se logo , enconchado no servilismo, ás respostas do homem : «Que se deixasse de historias , fosse para a casa que elle não lhe mandaria os meirinhos á porta. Quanto ao mais havia de arranjar-se» . E não vira elle os olhares lubricos que o homem lhe lançára como a dizer que tudo quanto fazia era por ella, por ella só ? Não fôra elle mesmo que , a bem dizer, preparara a queda entregando a casa ao velho quando teve de seguir para Minas em commissão do ministerio ? Não lhe pedira insistentemente que a visitasse todos os dias, supprindo-a em toda e qualquer necessidade , acompanhando-a, distrahindo- a para que a pobresinha não se aborrecesse na solidão ? Sim , sim fôra elle o culpado ... por ingenuidade ? sorrio ironicamente, respondendo ao pensamento com um aceno negativo da cabeça . Não , não era possivel que elle acceitasse como provas de verdadeira, pura e desinteressada amizade aquelles presentes valiososjoias , vestidos , assignaturas do Lyrico e até offertas de dinheiro que elle fazia ostentosamente entregando-lhe, a rir, a gorda carteira para que se servisse á vontade. Não , elle não era tolo : sabia, sabia tudo, mas não lhe convinha romper porque a vida assim corria-lhe suave e dourada. Mesmo o
O PROTECTOR commendador ia assumindo na casa uns ares autoritarios e superiores ; á mesa, então, era até grosseiro ; falava de tudo - da carne, do vinho, da cosinheira, promettendo novos fornecimentos, a repellir os copos, oppondo- se a que ella bebesse aquella zurrapa. Lembrava uma coisa, outra . No jardim mandava mudar plantas , aparar a gramma mais rente, modificava o plano dos canteiros e o marido, que o acompanhava humildemente, ia concordando, applaudindo, chegando , muitas vezes, a curvar-se ao lado do jardineiro para apressar a execução das suas ordens e quando elle lá estava o marido tinha para ella outros cuidados mais mimosos, um certo respeito como se ella fosse, em verdade , um bem do commendador como a casa e os moveis que ornavam o salão principal. Não, elle sabia tudo, talvez, até, não ignorasse que era alli que elles se encontravam : fôra elle mesmo que preparara a sua queda, estava convencida : a trahida era ella . E um fluxo de sangue subio-lhe ao rosto, os olhos marejaram-se-lhe de lagrimas. Elle escolhera-a para aquelle fim e, quem sabe? talvez de accordo com o commendador que a vira em algum baile, ainda virgem, cheia de graça, com o esplendor da mocidade e appetecera a sua carne, o seu sorriso, o seu perfu
O PROTECTOR me , o seu amor. Miseravel !! E havia de viver com elle ? o melhor era abandonal-o d'uma vez . Deixou a janella e poz-se a passeiar pelo aposento com impaciencia . Ao lado , a machina de costura taralhava com furia ... Lá estava uma que vivia honradamente, escondendo a sua virtude como ella escondia a sua infamia . Ficou a ouvir ; o soalho tremia ás trepidações da machina. Um berro soturno reboou longamente- algum paquete que sahia . Faltava-lhe o ar, sentia-se como suffocada entre aquellas paredes ... E aquelle homem que não vinha ! Consultou o relogio : duas ho ras . Ah ! sim , era a hora da Bolsa . Mordeu-a o despeito, sentindo-se preterida pelo interesse . O idiota lá estava a multiplicar a fortuna sem lembrar-se d'ella. Era aquillo o seu inimigo : o dinheiro; por elle o marido entregava-a cynicamente, sem o menor escrupulo ; por elle o amante esquecia-a, deixava-a ficar naquelle hediondo pardieiro com a resignação de quem espera uma esmola . Deixou- se cahir em uma cadeira, cruzou as pernas e ficou a pensar. Um sorriso affloroulhe os labios á lembrança de certo rapaz que viajára a seu lado, no bond. Louro, elegante , distincto . Num momento , a uma volta mais forte , sentira o contacto ligeiro do seu joelho ; afas
O PROTECTOR tara-se com timidez e, olhando-o , vira-lhe a face fina , os bigodes frisados e os olhos azúes, muito meigos , d'uma languidez que amollecia como se d'elles sahisse um fluido de amor . Alteou-se-lhe vagarosamente o collo e um suspiro leve passou-lhe entre os labios cerrados . Mas na porta houve um como raspar ; poz- se de pé sobresaltada : a porta abrio-se e o commendador appareceu muito vermelho , suado , com o collete branco cheio de dobras . Bufou , deixando a cartola sobre uma cadeira : «Que calor!» Ella concordou : «Que estava horrivel ! » Elle poz-se a limpar a calva molhada . Era meão d'altura, gordo, o ventre pando, um papo molle que se lhe acaçapava sobre o collarinho, transbordando e tremendo ; bigodes grisalhos e os olhos pequeninos entre palpebras empapuçadas . Ella adiantou- se, tirando as luvas . --Então, que ha de novo ? Uff ! sacudio os braços e , curvando-se, atafulhou o lenço por dentro do collarinho, a enxugar-se. Decididamente não se póde viver nesta terra com o calor. Olhem p'ra isto ! e abrio o lenço encharcado . Não ha que vêr : vou passar o verão em Petropolis . Ella sussurrou sorprehendida . Em Petropolis ?! -Então ? posso lá com istol ? Não como, não durmo . Poz-se a sacudir as abas do casaO PROTECFOR co, passeiando . De repente, voltando-se : Porque não te pões á vontade ? Passivamente, humildemente, ella foi desafivellando o cinto, desabotoou o corpinho . Elle tirou o casaco, o collete e, em mangas de camisa, poz-se a bater no ventre mostrando as largas manchas de suor : Olhem p'ra isto ! estou alagado ... Desceu a cortina de chita - a luz tornou-se mais intima, mais doce. Pois é isto, não posso mais. Vou tomar casa lá em cima, nem que seja só para dormir. Ella levantou o olhar e fitou-o. Que estás olhando ? -Eu ? Elle adiantou-se e, enlaçando-a com o braço gordo e humido, attrahia-a. Pensas, talvez, que te vou deixar? descança, vais tambem . Hoje mesmo falo a teu marido. Vamos todos . Ella desprendeu-se-lhe do braço : -A meu marido ?! - Então ? Doido por isso anda elle ... e rio. Ella encarou-o e, com os labios tremulos, forçando um sorriso, perguntou : -Então elle sabe ? O commendador encolheu os hombros . Ella insistio : Mas sabe ? elle sabe ? -Ora essa ! que pergunta! Sei lá se sabe ... e desatou a rir . Que temos nós com isso ? se sabe, melhor para elle . Ella ficou de pé, immovel, olhando o amante, que ia abrindo o cortinado encardido . As
O PROTECTOR lagrimas formaram-se-lhe nos olhos e silenciosamente desciam-lhe pelas faces quando o commendador, que se sentára pesadamente á borda da cama, chamou-a : -Então ? Ella caminhou de vagar, d'olhos baixos . Vendo-a chorar, elle estendeu-lhe os braços, puxou-a, fel-a sentar-se no seu joelho e, carinhoso, interrogou-a : Que é isso ? que tens ? por que estás chorando ? Ella, então, levantando a cabeça, de olhos apertados como para espremer as lagrimas , exclamou : -Ah ! não , não hei de chorar ... Então o senhor pensa que não tenho vergonha ? Com que cara hei de eu hoje apparecer a meu marido , diga ? O commendador, d'olhos arregalados, fitou-a com espanto e ella, ainda chorosa , diante d'aquelle homem que a olhava com uma expressão tão comica contendo uma gargalhada que se denunciava por estremecimentos do rosto balofo e pelo brilho malicioso das pupillas , desatou a rir e, curvando-se, mergulhou o rosto no peito amplo e suado do amigo cujo ventre molle poz-se a tremer, sacudido por um riso surdo, até que duas gargalhadas explodiram ... e, no aposento contiguo, a machina taralhava furiosamente .
OS PAES
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