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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 5 · Água de Juventa

Confidencia

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D EIXANDO - SE cahir mollemente na ottomana , Alice , enclavinhando os dedos que estalaram, derreou o busto salientando rijamente o collo, a contorcer- se com a graça preguiçosa e languida d'uma cobra . Como esticasse as pernas os pequeninos pés escaparam para o pellego fulvo, sahindo d'entre as rendas da saia, calçados em borzeguins de camurça, finos, esguios como dois focinhos de galgos. N'um movimento arrebatado atirou para traz os braços emmoldurando com elles a cabeça e, franzindo os olhos, trincando o labio, ficou a balouçar os pés como alheia a tudo , seguindo um sonho . A camara, conservada em meia luz, com os stores de bambú e as cortinas corridas, rescen

CONFIDENCIA dia ainda ao aroma do ultimo pivete queimado no defumador japonez . Só um raio de sol, descendo d'alto, em flecha, brilhava n'aquella penumbra elegante e voluptuosa fazendo reluzir a côxa de bronze d'uma esbelta Diana que parecia formar o salto para precipitar-se da columna, em seguimento da caça . De pé, junto ao piano aberto, Leónor folheava machinalmente um poema de SaintSaëns ; fóra, no jardim , ao sol, irritante, arripiadamente o jardineiro afiava o alfange e era esse o unico ruido que, aquella hora, amollentada e quente , atravessava o silencio adormecido do bairro fidalgo . Alice atroou a camara com um bocejo cavo e logo desatou a rir vendo o ar espantado, quasi reprehensivo, da amiga que se voltára. Desculpa-me. Estou com tanta preguiça ! E dobrou -se mais, deitou-se quasi, muito languida, d'olhos no tecto . -Se estás com somno dize, sem ceremonia. -Eu ? somno ? é coisa que não tenho. Estou molle, é sempre assim. A's vezes mettome aqui e fico horas e horas estendida no divan a olhar o tecto, os quadros, imaginando coisas ... -Por que não sahes? Encolheu os hombros e, como fosse escorregando, firmou-se em uma das mãos .

CONFIDENCIA - Queres que te diga? tenho preguiça ... Vestir-me, tomar o bond, ir por ahi fóra até á cidade com esse calor ... Fez um momo . Se eu podesse fazer tudo isso sem sentir garanto-te que ninguem me encontrava em casa. Queres saber? estou com um vestido em prova ha mais de quinze dias e não me sinto com animo de ir á costureira . Fui sempre assim, desde menina. O meu maior prazer era ficar estendida em uma cadeira ou na rede sonhando, fazendo castellos. Eu, é porque sou preguiçosa, senão havias de ver os lindos romances que eu faria. As idéas que tenhol o que eu imagino ! o que eu invento ! Ás vezes chego a desconfiar de mim, tenho medo de acabar louca, palavra. Desatou a rir, um riso infantil, alegre, vibrante, e, de repente, erguendo-se, poz-se diante da amiga fitando-a com um olhar que reluzia, malicioso e vivo. Passou-lhe um dos braços em torno do pescoço e, reclinando a cabeça sobre o seu hombro, disse-lhe : Olha, vou contar-te o meu segredo, é engraçado ; queres ouvil-o ? falla. A outra sorriu baixando o olhar sobre o rosto moreno, mirando enternecidamente os grandes olhos que a contemplavam com enlevo de amor. Queres ouvir ? -Sim; quero . -E promettes guardal-o ?

CONFIDENCIA -E' assim sério ? Ella sacudiu-se encolhendo os hombros e arrulhou : -Vamos tomar cerveja gelada? Está tão quente ... Não ... -Champagne ... ? Nada . Basta-me o teu segredo. - Estás ardendo em curiosidade, hein ? imaginas um pequenino romance... Fez-lhe uma caricia no rosto e logo, deixando-a, espichouse na ottomana, cruzou as pernas com ar estroina e disse : Tu sabes que o Zico foi meu namorado ? ... - Não sabia . -Pois foi . Amamo-nos muito- elle era preparatoriano e eu era uma menina de vestido curto. Bom tempo esse ! Elle deve ter ainda cartas minhas. Que cartas ! Quanto eu daria hoje para vêl-as . Apartamo-nos- eu fui com a mamãe para a Europa, elle ficou aqui : matriculou-se na Escola, apaixonou-se pela Elvira, deu em sportman : a remar, a jogar o cricket, a fazer armas ... esqueceu-me, emfim. Quando nos tornamos a ver era eu noiva e elle um rapaz sisudo, de grandes bigodes, muito cheio de sciencia e robusto como um hercules . Fallamo-nos sem emoção-elle deu-me senhora, eu correspondi com um dr. mas não pude conter-me e uma só das minhas gargalhadas

CONFIDENCIA destruiu todo o formalismo ceremonioso que me parecia ridiculo entre parentes . Zico , nos primeiros tempos do meu casamento, mostrou-se retrahido : tratava-me com reserva, parecia evitar-me e era um trabalho para arrancar-lhe uma palavra ; de repente começou a fazer-me a corte abertamente, escandalosamente, mas com muita gentileza e um chic captivante. E' por elle que eu sei o tempo das flores : as primeiras orchideas, os primeiros chrysanthemos, as primeiras violetas são sempre as que elle me offerece . Pensei , a principio, em demonstrar-lhe que não me agradavam nem convinham taes presentes e muito menos os formidaveis apertos de mão com que correspondia aos meus , mas ... para que zangar-me ? demais não imaginas como elle é ornamental- á mesa, no salão ; e inventivo, gracioso e alegre como nenhum outro. Passa-se com elle uma noite encantadora e se é admiravel interpretando Chopin ou Mendelssohn é incomparavel tocando uma valsa. Um perfeito homem. Tu precisas vêl-o , Leonor . Um 'dia- não sei como foi- distrahi-me e, irreflectidamente, correspondi ao seu aperto de mão. Então, abrindo muito os olhos grandes n'um tom de voz estranho, disse : Queria que visses a cara que elle fez, minha filha.

CONFIDENCIA Ficou atordoado e, durante toda a noite, andou pela casa como um homem que houvesse bebido . E nós é que somos nervosas, commentou a rir. Confesso-te que fiquei arrependida e jurei nunca mais repetir a brincadeira mas, no dia seguinte, nem eu mesma sei como foi . Elle sorriu, levou a minha mão aos labios ... Senti todo o sangue subir-me ao rosto ; fiquei irritada, frenetica, com vontade de chorar, de gritar, de romper com elle. Mas tudo passou : ao deitar-me pensei no caso e ri e agora estou tão habituada, que não ligo a menor importancia aos taes apertos de mão : acceito-os, retribuo-os naturalmente . A's vezes, porém, sabe Deus como me custa conter um grito ... --E elle ? -Elle ? sei lá ! Riu-se e ficou um momento em silencio , d'olhos no lustre que brilhava prismaticamente á luz viva do raio do sol obliquo . Achas que faço mal ? perguntou por fim . - Não sei ; isso é comtigo . Se não tens intenção ... - Como não tenho ? -Ahl tens ? - Certamente : eu faço isso para distrahir-me. E isso ... distrahe-te ? - Sim, distrahe-me. Baixou a cabeça e fiCONFIDENCIA cou um momento a repassar maciamente a mão pelo damasco da ottomana ; depois , n'uma voz resentida, um tanto trémula, continuou : Distrahe-me e eu preciso bem de distracções ; preciso de alguma coisa que me preoccupe, ou melhor : que me perturbe. Vivo muito só, muito triste e muito desilludida . -Como ? -Como ?! Olharam-se longamente e Alice sorriu com tristeza . Não se contendo mais exclamou com uma voz commovida : Como ?! Pois meu marido ... -Que tem? - Não viste então? é aquillo sempre, invariavelmente : o mesmo homem delicado , d'uma dintincção que me vexa, que me humilha, com mil cuidados que me revoltam. Não tem uma franqueza, não se permitte uma liberdade; eu sou para elle uma creança, uma... não sei que. A's vezes até ... hesitou um momento, pallida ; mas affirmou : é mesmo. Dando, porém , com os olhos de Leonor que ardiam de curiosidade, externou o seu pensamento : ... fico com vergonha ... lembro-me de meu pae. Eu vejo os outros maridos , não são assim . Afinal todos nós creamos um typo ideal de esposo, não é ? -Mas teu marido é um bello homem ; moço, nobre ...

CONFIDENCIA -E' ... é ... mas tem educação de mais. Leonor rompeu a rir da phrase ingenua e curvando-se : -e assim poude ver os lindos olhos de Alice marejados.- Então querias que elle fosse um grosseirão, um aspero ? ... - Não, isso não . Mas ... eu imaginava outra cousa. Teve um arfar que lhe encheu o collo farto e, endireitando-se, com um brilho de fogo nos grandes olhos muito abertos , asseverou : Pódes acreditar no que te vou dizer : meu marido não pensa um só minuto em mim; eu sei . Por mais que eu faça, recebe -me sempre com o mesmo beijo frio , com as mesmas palavras estudadas, com o mesmo sorriso paternal ; é imperturbavel, d'uma regularidade de automato . Se eu imagino uma toillete elle gaba-a com as mesmas palavras com que elogia o polme de ervilhas ou o molho do peixe. Chegou - se mais á amiga : Tu sabes que eu tinha fama no collegio de ser bem feita ? ... riram-se. Pois uma noite, depois do Lyrico, entrei para o quarto com a creada para despir-me ; elle pretextou não sei que para ir ao escriptorio. Despi-me, deitei-me, despedi a creada, mas a camisa era nova e affligia-me. Saltei da cama, fui ao armario, escolhi outra e estava núa, de pé, em plena luz, entre espelhos, quando ouvi passos e, logo em seguida, a voz de meu ma

CONFIDENCIA rido como n'um arripio : «Oh ! desculpe ... >> e encostou a porta para evitar, com certeza, o ar e ... o meu vexame ; depois , de fóra, paternal como sempre, aconselhou : «Não se exponha assim, Alice ; olhe que a noite está fria . Cuidado» . Ah ! Leonor, não sei como não chorei de raiva. Rubra então, transfigurada, com os olhos em fogo, declarou nervosa, evocadoramente : Não imaginas, quando Zico me aperta a mão, o prazer que eu sinto em olhar os dedos fundamente vincados em roxo pelos anneis . Tomou uma larga respiração e, agitando allucinadamente a cabeça, os braços rijos, estendidos ao longo do corpo, as mãos contrahidas, os olhos quasi fechados, as narinas soffregamente abertas, as palpebras palpitando em fremitos , ficou algum tempo mordendo os labios até deixar fugir por entre os cerrados dentinhos brancos arrancadamente, regosadamente :-Não imaginas, Leonor... é d'uma brutalidade ! - e molle, inerte , fllacida, abateu sobre a ottomana cançada e vencida, com a cabeça para traz , arquejando, estremecendo e sorrindo, como nos paroxismos d'um sonho voluptuoso.

ACÉDIA

Água de Juventa

Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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