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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 6 · Água de Juventa

Acédia

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uivo de um cão, voz unica e melancolica no silencio, abalou-o, tirando-o violentamente do abatimento em que cahira . A sala, d'alvas paredes núas, caiadas de fresco , com uma velha mesa ao centro e algumas cadeiras toscas, forradas de palha de milho, em trança, estava alumiada por uma candeia suspensa a um portal. A luz tremia fazendo dançar tremulamente as sombras alongadas . Em frente estendia-se o corredor muito negro onde grandes ratos chiavam ás correrias , rebuscando migalhas . O seu quarto ficava á esquerda, pobre e ermo como uma cella : a cama, a mesinha de cabeceira, um sofá cuja palha escura e fllacida afundava em concavos, e uma estante de pi

ACÉDIA nho onde se amontoavam desordenadamente livros e jornaes . Na parede, acima do leito, uma cruz negrejava . Devia ser noite alta e elle ainda alli estava com uma vela a arder, os cotovellos fincados na mesa, a cabeça pendida sobre as mãos, diante da Biblia aberta. Era moço e robustolargos hombros , pescoço forte, muito sangue a rosar-lhe as faces escanhoadas . Desde que chegára áquelle miseravel logarejo, entre montes, com uma população mesquinha de sertanejos, ruas estreitas, desertas, entre fendidos muros de taipa, com o matto a crescer, desimpedido e viçoso, e um grande rancho á beira da estrada onde pernoitavam os que vinham em lentas jornadas do mais fundo sertão comboiando gados, sacudira d'alma toda a alegria, tornando-se taciturno e tristonho . Encerrado na casinha que alugára, a dois passos da egreja, no largo que um corrego barrento atravessava e onde, dia e noite , animaes soltos pastavam, porcos fossavam o lodo grunhindo de gozo e urubús ennegreciam esvoaçando em abaladas á approximação de alguem ou fugindo aos saltinhos desconfia. dos , alheiou-se do mundo, pensando apenas em Deus e no sagrado ministerio a que se votára. Um velho negro fazia-lhe todo o ser

ACÉDIA viço domestico- varria a casa, espanava os livros , arranjava-lhe a comida, enchia, com agua da cacimba, a grande talha que refrescava á sombra d'uma latada de maracujás . Ninguem o procurava ; mesmo na egreja, depois da missa, raras eram as mulheres que ousavam ir beijar-lhe a mão, á sacristia : as velhas tinham-n'o como uma creança que não infundia respeito , «um c'roinha» , diziam com desprezo ; as raparigas continham-se retrahidas de pudor por o verem tão moço e , comparando-o com o finado vigario, que mal podia levantar a hostia nas mãos trémulas, ainda mais se encolhiam . Os homens davam d'hombros , com indifferença, quando o viam passar lentamente , de cabeça baixa, muito cozido com as paredes de taipa como se receiasse os grandes bois que levantavam para elle os mansos olhos melancolicos . O velho negro era interrogado nas lojas, nos ranchos, sobre a vida recatada do moço padre . Certas senhoras mais curiosas , mostrando- se penalisadas d'aquelle « encerro » , chamavam o negro, seduziam-n'o com presentes, forçavam-n'o a sentar- se- queriam saber «quem lavava para elle, quem o visitava, se recebia cartas, como vivia ? » e o negro, sorrindo, encolhia os hombros, coçando a carapinha e ia dizendo - «que a roupa quem le

ACÉDIA vava era sá Emerenciana, elle mesmo levava a suja e trazia a limpa ; lá não ia ninguem. De tempos a tempos seu Firmiano levava cartas mas , quasi sempre, eram só jornaes e seu vigario, quando estava em casa, era sempre com o livro na mão ou escrevendo . A's vezes, de noite , elle acordava e via luz na sala - era seu vigario estudando » . Effectivamente, o livro era o companheiro unico do padre, que nem mesmo com o famulo conversava, fazia muito quando correspondia á sua saudação humilde. O sacristão , revoltado com a frieza do vigario, que não dava attenção ás suas tagarellices e maledicencias, vingava-se espalhando, com desprezo, «que elle nem latim sabia, que engrolava tudo, era uma vergonha. Aquillo o que tinha era ronha ... haviam de vêr o santinho ! » Depois do jantar, já noitinha, estava o vigario muito embebido na leitura, sem mesmo dar pelo negro que ia e vinha guardando a louça, quando bradaram fóra com atroantes pancadas na porta. Levantou a cabeça e, como batessem de novo, com desusada violencia, fez signal ao negro para que fosse vêr quem era e , recostando-se, os braços cruzados, ficou á espera, entediado : «De certo alguem que

ACÉDIA morria por aquelles alcantis desertos ou no fundo d'alguma grota, sem uma luz ao menos» . E logo se poz de pé, sacudiu a batina como a preparar-se para a santa missão . Mas o negro reappareceu com um pesado maço de jornaes e duas cartas, dizendo que uma tinha recibo » . Havia uma registrada. Tomou da penna, com ancia, garatujou o nome e, apalpando o envellope, sentiu-o cheio ; rasgou-o e, abrindo a larga folha de papel, cahiram de dentro , sobre a mesa escura, embrulhados n'um retalhinho de filó , dois alvos botões de flores de laranjeira, unidos pela mesma haste. Tomou-os entre os dedos, mirou-os , cheirou-os e, sem comprehender aquelle presente estranho, chegou-se mais á vela que ardia e, curvando-se, poz-se a lêr a carta . Era da mãe . As letras trémulas, d'um grande talhe incerto, enchiam as quatro paginas . Queixas : que elle bem podia tirar meia hora para escrever umas linhas, dizendo como ia, que tal era a parochia, como fora recebido pela gente. Depois noticias : da terra, a sua terra, dos conhecidos - mudanças, nascimentos, baptisados, mortes, casamentos. Entre os casamentos o da Rosaura, do Bambual-e uma descripção minuciosa da festa e da noiva que estava muito linda !

ACÉDIA Ella lembrára-se d'elle e mandava-lhe aquelles botões e aquelle pedacinho de véo para que nas suas orações elle pedisse por ella a Deus , que a fizesse feliz . Tremiam-lhe as mãos , os olhos ficaram-lhe como duas brazas ; releu a parte que se referia ao casamento. O noivo era o Fabregas, conhecia-o : um gordo, negociante de ferragens , estabelecido perto do mercado . Passou á outra carta : felicitações de um amigo do seminario . Ia desatar o maço de jornaes quando os seus olhos foram attrahidos pelos pequeninos botões de flores de larangeira vincados pelos dentinhos da Rosaura. Sentou- se e, tomando-os nos dedos, ficou a contemplal-os e o seu espirito voou longe, muito longe, vencendo o tempo e o espaço. Ah ! a linda e alegre cidade em que nascera, com os relevos suaves das suas collinas verdes onde casinhas de colonias alvejavam brilhando ao sol entre cafesaes escuros ; com as suas ruas largas, compridas e direitas, de predios novos e palacetes com jardins grammados e aléas sinuosas, cobertas de cascalho, alegres com o fresco ruido d'agua dos repuchos ; com a grande egreja de duas torres, a cadeia entre paineiras altas, o mercado sempre farto, regorgitando de verdura e de fructas ; a estação , de tijollos vermelhos, onde , á hora azafamada dos trens, era uma alegria,

ACÉDIA um movimento como de festa- um ire vir de trolys e carrocinhas, um affluir de gente, os jornaes que chegavam, colonos que desembarcavam em turmas- os homens corados, robustos , com arcas ás costas, cachimbos fumegando entre as barbas ruivas, as mulheres com os filhos pela mão, trouxas á cabeçaumas muito louras, d'um fulvo quente, outras morenas , queimadas, as saias enrodilhadas nas cintas grossas, deixando ver os rijos sapatos d'homem muito largos , desbocados nas canellas finas ; e algaraviavam sentadas nas trouxas , nas arcas, pelas barrancas, dilatando a vista curiosa pela cidade que alvejava entre pomares e bambuaes, procurando no horizonte azul as grandes culturas ricas . A's vezes, quando chegava da capital o соronel Meira, lá ia a banda de musica recebel-o e era um estralejar de foguetes durante todo o dia ; á noite baile na casa da Camara . O povo juntava-se no largo e, em torno dos taboleiros de doces, rapazes e raparigas, aproveitando a musica, dançavam ás chufas, ás gargalhadas . E no tempo das feiras ! Tres dias grandes de feriado e pagode. Lá ia elle, desde cedo, correr as tendas , admirar os objectos expostos, ouvir os pregões, as cantigas dos violeiros ou acompanhar a sorte dos jogadores em torno das roletas e dos «jaburús » . No

ACÉDIA meio da praça os cavallinhos de páo giravam ao som de um realejo : o cosmorama numa barraca toda embandeirada- á porta, de pé num banco, a bradar, rouco, um homem annunciava prodigios- o que engulia espadas, o que comia fogo e uma moça que se deitava e dormia entre dois tigres d'Africa . Ceguinhos esmolavam cantando, outros tocavam sanfonas . Elle ia d'uma á outra barraca, parava a olhar, a ouvir ; ás vezes chegava até á cortina- lá dentro riam, uma voz fanhosa resmungava, guinchava, estralavam palmas, era depois um alarido até que uma sineta soava repetidas vezes e o povo sahia apertadamente, ainda sorrindo, commentando os prodigios , maravilhado . De repente um vozeirão atroava- era a creançada que desembocava no largo acompanhando o palhaço negro, vestido de vermelho, com uma carapuça de baeta, guizalhando um pandeiro, de pé no lombo d'um cavallo lerdo, que percorria a cidade, annunciando a funcção da noite. E lá ia elle tambem, a correr, juntar-se á garotada e, até o palhaço recolher ao circo, seguia-o fazendo côro : «A mulata é bonita ? » «E' sim sinhô ?» «E' macota no sarilho ?» «E' sim sinhô ! ... » E o collegio, no caminho do «Monte Alegre» , perto da ribeira, com o seu grande re

ACÉDIA creio todo ensombrado de bambús e o pomar cercado de espinheiros ... O João Meirelles, o Passos , o velho Dioclecio a esmoer latim e a fungar pitadas, sempre com o baralho de cartas no bolso da rabona sebosa ; o Mendonça, cheio de conhecimentos , contrariando irritadamente a opinião de todos , a esputar injurias sobre a cidade «uma tapera onde o lodo das ruas só era comparavel á podridão das almas » , a escrever para o «Baluarte » formidaveis artigos sobre pronomes e gallicismos nos quaes sempre colleavam perfidamente allusoes azedas ao Torquato collector e ao nariz monstruoso do Simeão da botica . Lá andavam os candidos botões entre os dedos do moço padre. Vinham de Rosaura ... E Rosaura ? Amores de infancia... e teriam sido amores ? Ella , mais nova do que elle tres annos, era quasi uma moça-já se lhe ia sentindo o collo em dois botões que atesavam o corpinho , o vestido descera-lhe até o cano da botina e a mãe, quando a levava á egreja, tinha-a sempre perto, resmungando, repuxando-a se ella se punha a olhar para a porta da sacristia onde se juntavam os rapazes . Fôra pelo S. João , em «Monte Alegre» . Frio agreste de junho, bruma de não se vêr o caminho . Elle lá estava e ella... ultima noite -

ÁCÉDIA de vida, primeira noite de amor ! ... depois nunca mais : o seminario , a tonsura, a primeira missa e aquelle degredo, ainda assim por empenho . Brincavam ; como o frio crescia só as creanças ousavam chegar á varanda para olhar a fogueira crepitante. Elle debruçou-se á grade e sentiu-a tão loura, cheirando a flores , com os cabellos soltos dourando-lhe as espaduas como um manto de santa. O frio fez com que se approximassem . As creanças saltavam no terreiro, aos gritos e elles, mudos, apertadinhos, sem animo de voltar o rosto, olhavam . De repente, tiritando, ella disse como em segredo : «Que frio ... » e, retirando uma das mãos debaixo do capotinho : «olha aqui » ; entregou-lh'a- elle sentiu- a morna e conservou-a para aquecel-a, talvez , apertou -a ; ella estremeceu, fez menção de querer deixal-o ; elle , então , pediu-lhe que ficasse e olharam-se. Uma grande chamma subiu da fogueira avermelhando a varandauma lufada de ar quente acariciou-os e os dois , corados, gozando aquelle bafejo affagante , não se moveram . Por fim ella murmurou d'olhos baixos : «Você vae ser padre, Americo... » Elle negou, pediu um juramento : se ella prometesse elle não se ordenaria . Ella insistiu sorrindo : «Se é tua mãe que quer ... » -Você promettendo, Rosaura .

ACÉDIA -Eu, por mim, prometto ... - Jura por Deus . - Juro ! As mãos apertaram-se vivamente, mas uma das creanças, rolando perto da fogueira , rompeu a chorar e os velhos acudiram chamando todos para dentro . Viram-se ainda depois, renovaram os juramentos mas elle teve de partir e lá foi ... E alli estava, padre e ella nos braços de outro, do Fabregas, lá longe, entre os palmares verdes da sua cidade. Alli estavam apenas os botões com as marcas fundas dos seus dentinhos ... e elle havia de pedir a Deus que a fizesse feliz ? Se ainda, com o prestigio do coronel Meira, pudesse ser transferido para a sua cidade , a sua linda cidade ... Rosaura ! Ficou como num extase , a esmagar os botões nupciaes sem sentir, vendo a linda menina agasalhada no capotinho cinzento , a tremer de frio, a offerecer-lhe a mão ... Era um delirio . Arrancou-se d'alli frenetico , entrou no quarto mas, levantando a vela, deu com a cruz negra abrindo os braços na parede núa . Era aquella a sua amada, unica, verdadeira e eternal ... a outra lá estava, longe, para o sempre perdida, para o sempre ! De novo fitou a cruz e pareceu lhe que ella tremia, crescendo, pareceu-lhe que se agitava como se quizesse desprender-se da parede .

ACÉDIA Ficou livido, a olhar, e a sua sombra immensa tremia ao longo do soalho, e na parede ao lado da cruz sinistra. Tomou , ao acaso, um livro na estante e fugiu para a sala assombrado ; examinou-o á luz : era a Biblia . Sentou-se e , apoiando a fronte na mão , poz-se a folhear lentamente ; deteve-se com um suspiro e seus olhos entraram como por uma floresta de encanto : Osculetur me osculo oris sui : quia meliora sunt ubera tua vino ... Os versiculos animavam -se e elle via a moça, não morena como a do Cantico , mas loura como a do seu idylio unico, á luz d'um grande fogo que ardia , estender-lhe os braços, chegar a bocca á sua bocca, envolvel-o na luz macia dos seus cabellos finos, trémula de amor, de timidez e de ... Um calor subiu-lhe do coração, todo elle arripiou- se nervosamente e o perfume de Rosaura encheu todo o ambiente triste : Quam pulchra es, amica mea, quam pulchra es ! Oculi tui columbarum absque eo, quod intrinsecus lalet. Capilli tui sicut greges caprarum quæ ascenderunt de monte Galaad. O uivo de um cão , voz unica e melancolica no silencio , abalou-o, tirando-o violentamente do abatimento em que cahira .

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Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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