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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 15 · Água de Juventa

Sonhos

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A o entrar, com uma assustada vivacidade, ainda commovida e agitada das emoções d'aquellas horas tão curtas, sentindo ainda uns arripios de goso phosphorejarem-lhe á flór da pelle, fogosamente passeiada por aquelles labios adorados deixando , onde tocavam, um fervor de beijos que pareciam ter ficado, vivos e quentes, escaldandoThe a carne, foi logo para os seus aposentos , fechando-se , com receio de que a esperta creada apparecesse e, com a longa pratica que tinha de mulheres, despindo-a, logo descobrisse nas suas brancas espaduas e no seu collo turgido, onde os pequeninos seios, abotoados em bico roseo, conservavam ainda a resistencia virginal, algum vestigio d'aquella

SONHOS bocca allucinada que andára como a querer arrancar-lhe a vida, sorvendo-a, sugando-a pelos poros . Mesmo no ajustar do collete , no abotoar do corpinho devia haver enganos denunciadores porque elle, a rir , desageitado e tremulo, puzera uma tão estouvada pressa, que tudo devia estar em desordem facil de ser constatada por quem era tão habil e cuidadosa no vestir e ainda a vestira naquella manhan, observando, com intenção, talvez, todos os geitos , as minimas dobras e arrepanhos da cambraia e da seda para certificar-se, ao despil-a, da sua virtude ou sorrir maliciosamente do seu primeiro peccado . Vendo- se ao espelho alto achou-se mais bella, com côres mais vivas nas faces, um brilho mais scintillante nos olhos e ficou a rir, recordando peripecias d'aquella manhan tão cheia de sorprezas para a sua alma ingenua e de gosos tão novos para a sua carne honesta : assaltos lascivos que a faziam rir, contorcida , rebolcando-se no largo leito , a debater-se numa afflicção deliciosa, fugindo áquellas mãos nervosas e áquelles beijos loucos . Começou a despir-se ligeira, com a pressa saltitante e trefega d'um passarinho que se espanneja e sacóde nagua, batendo tremula

SONHOS mente as azas, arrufando as pennas . Em camisa , espesinhando a roupa, correu para a cama, atirou-se de costas e, estirada, as pernas cruzadas , ainda com as botinas que lhe comprimiam a carne roliça que transparecia nas meias abertas , os braços em curva na almofada, como um reverbéro á cabeça muito loura , ficou a scismar, arrependida d'aquelle crime ingrato e anciosa pelo dia do futuro encontro e dos novos delirios . Mas as horas corriam- resolveu, então, chamar a creada : abrio a porta, tocou a campainha e, quando Dolores appareceu, toda assustada, estranhando que ella se houvesse despido só , pretextou uma vertigem - «subira as escadas a correr, com a vista turva, tonta ; nem mesmo se lembrára de chamar, fôra arrancando tudo» ; e mostrou a roupa em amontoado abandono pelo chão , nos tapetes, atirada a esmo na ancia do soffrimento. Descançára, estava melhor ; ficára-lhe apenas um atordoamento . A creada, sem dizer palavra, foi recolhendo as peças do vestuario e ella, da cama, olhava, ainda receiosa de que alguma cousa d'elle houvesse ficado para denuncial-a -o seu perfume , talvez, que ella bem o sentia nas mãos , na bocca, como um sabor, e subindo-lhe de todo o corpo , em effluvios .

SONHOS Que differença entre elle e o marido ! Um claro, esbelto, com tão lindos olhos, d'um verde transparente, os cabellos muito louros, as mãos brancas e finas ; o outro pesado e gordo, com banhas flaccidas , moreno, a pelle aspera e viscosa , uma voz molle passando-lhe através das barbas negras como uma agua grossa e lodosa que rola vergando as hervas - d'um pantanal, sempre com o sarrido d'asthma e a tosse . Quando desceu para jantar, depois d'uma ablução ligeira, perfumada a feno, de branco, os lindos cabellos em bandós , á antiga, com uma penca de angelicas no seio, o marido, que discutia finanças , no terraço, entre dois amigos bojudos, recebeu-a risonho, com ar de triumpho, mirando-a toda, a gozal-a, e ella com a sua compostura recolhida e modesta de educanda, inclinou-se , offerecendo-lhe a fronte por onde a grossa barba roçou, aspera e dura . Os amigos , que eram da intimidade, gabaram-lhe o esplendor de saúde affirmando que aquelles ares puros da serra e aquellas aguas que brotavam das pedras , entre folhas, pelos verdes cantos dos bosques, haviam de lhe ser mais uteis do que todas as drogas que ella andára a ingerir na cidade . Aquillo sim é que era viver. Quando tivera ella lá em baixo aquella encantadora sorpreza de receber visiSONHOS tas de borboletas na sua propria camara ? d'isso só alli na serra . Ella sorria . A' mesa a conversa encaminhou-se para as festas que se preparavam : o cottillon do Club , a garden-party do ministro russo e o baile na legação japoneza, do qual já se diziam maravilhas- que a senhora do ministro , a elegante madame Kádura traria os trajos tradiccionaes do seu paiz e um dos amigos rosnou : que ouvira falar em certos vinhos preciosos , d'uma ilha celebre do grande imperio, que alcançavam grandes preços, mesmo em Tokio . A palestra aquecia-se- romperam as indiscrições dos fins de jantar : casos da vida elegante , cochichos maliciosos . Um dos amigos , medico , a proposito da influencia irresistivel que certo secretario de legação, homem feio e grosseiro, exercia sobre algumas senhoras da alta roda, falou do dominio imperativo da vontade de uns tantos privilegiados sobre creaturas frageis . «Ha homens tão poderosos que, com um simples olhar, seriam capazes de arrastar ao crime a propria Penelope .>> O commendador protestou escandalizado , o medico, então, para o convencer, referio um caso de sua clinica : « Certa dama que, depois de haver sido, por elle, tratada pelo hypnotismo , ficára de tal modo escravizada á sua vontade, que elle, ao sahir, sempre se voltava

SONHOS com medo de que ella o fosse acompanhando . » Riram . E foi então um longo citar de casos e de nomes : Madame F.; a menina L.; a mulher de fulano ; a filha de sicrano ; esta que, durante as crises , cantava, com uma voz admiravel e recitava Musset ; aquella que ficava dias a dormir, numa immobilidade de morte ; outra que prophetizava ; uma, somnambula, que errava, pela casa, á noite, sem esbarrar em um movel, d'olhos abertos , mas cegos . Foi então que o commendador, um tanto excitado, lançando um olhar malicioso á mulher, disse : - Eu tambem posso contar alguma coisa ; e, com intenção, explicou : conheço certa senhora que, a sonhar, é a coisa mais engraçada d'este mundo. Quem é ? perguntaram os dois . O commendador fitou a mulher que descascava tranquillamente uma pêra. Oral quem ha de ser !? Todos voltaramse para Dulce . -Fala- se de mim ? - De quem ha de ser ? -Não sei porque ... tornou com risonha indifferença . -Ah ! não sabes ...? sei eu. E fitando-a , com os cotovellos na mesa, o calice de Porto entre os dedos : E se eu disser ?! não te zangas ?

SONHOS -Zangar-me ? eu ... ! encolheu os hombros . Não me zango assim . Pois então lá vai ... Virou o vinho d'um trago e dirigio-se aos amigos : Sejam testemunhas de que eu vou falar com o consentimento d'ella ... sem isso eu não seria capaz de quebrar o sello do segredo . - Eu não tenho segredos ... - Ah ! para mim não os tem, nem os teria, mesmo que quizesse, garantio com um vozeirão e certeza . Pois ahi vai o caso . Os dois amigos sorriam attentos, no antegosto d'aquella confidencia . O commendador, voltando- se todo na cadeira, encarou de frente a mulher : Então decididamente não danças mais com o Braulio ? e desatou a rir com estrondo . Ella olhava-o impassivel. Vamos lá, responda. Não danças mais com o Braulio ? - Por que me faz esta pergunta ? Por que ? porque tu mesma juraste á tua amiga Clotilde que nunca mais dançavas com tal sujeito, e olha que o caso é para felicitações . - Pois não ! concordaram os dois . - Eu ouvi tudo, minha amiga. E nota que não andei a escutar pelas portas : estava tranquillamente deitado, quasi a dormir, quando começaste a resmungar e depois a tagarellar , que foi um gosto. E pensas que só sei que o

SONHOS Braulio foi posto á margem por insupportavel ? sei muitas cousas mais, sei toda a tua vida, dia por dia, hora por hora. Ella empallideceu e o marido repetiu: Sei tudo! E, afagando-a, ajuntou : Tenho em ti mesma um espião que me conta tudo . Basta que durmas para que eu saiba o que fizeste durante o dia : onde andaste, com quem conversaste, até as continhas que foste deixando ahi por essas lojas . D'olhos muito abertos, livida, Dulce fitava o marido triumphante . Um dos amigos, sentindo o peso do silencio, murmurou : -E' curioso, pois não ... E' muito curioso ! ... -E é isso todas as noites, não falha. Eu ja lhe acho graça e estou tão acostumado , que não durmo sem a costumada exposição que me faz a senhora minha mulher. -De sorte que, disse o medico, é como se ella lhe fizesse todas as noites a leitura do seu diario . Exactamente . Dulce mantinha-se calada, brincando com um raminho de violetas , sentindo o coração crescer-lhe no peito, tremendo, sem animo de levantar os olhos para o marido, que ria. Depois do cognac passaram ao terraço que o luar prateava. Emquanto os homens falavam ferindo ligeiramente assumptos varios, ella, debruçada á grade, olhando

SONHOS o jardim, pensava nas palavras terriveis do marido . «Sim, tudo quanto elle dissera era verdade . Aquillo com o Braulio ... ella só falára á Clotilde ... portanto elle soubera por ella mesma, que lh'o dissera na inconsciencia do somno . Assim, antes de amanhecer, elle ouviria da sua propria bocca a narração minuciosa de todos os episodios infames d'aquelle dia : a sua ida ao cottage, a entrevista com o amante, os beijos que trocaram, tudo quanto, no delirio d'um primeiro encontro, haviam praticado. E elle ? Oh ! conhecia-lhe a furia ciumenta ... ! Como havia de ser ? Como havia ella de dormir a seu lado ? Não ! passaria a noite em claro, uma, duas, tres, sempre, se preciso fosse ; deixar-se-ia morrer exgottada pelas vigilias, preferivel á morte violenta e dolorosa a punhal ou a tiro, porque tinha certeza de que elle a mataria . » Tremia e, apezar do frio da noite, estava alli ao relento tão insensivel como aquellas figuras de marmore, núas, que branqueavam na quietação do luar, entre as moutas escuras . Subito, porém , numa necessidade de ficar só , de pensar, pretextando uma dorsinha de cabeça , pedio licença e retirou-se. Subio para os seus aposentos seguida de Dolores , e , deu toda a luz ao gaz, despio- se e, com um leve penteador de surah, recostou

SONHOS se derreadamente na espreguiçadeira, com um romance . Quando se achou só não poude conter o pranto e, a soluçar, toda fria e arripiada de medo , olhava para o leito alvo como se fosse um altar de immolação . « Que horror ! meu Deus . Que horror ! E é verdade que eu falo á noite , já mamãe me dizia e Lucia ria de mim . Elle não mentio . Em solteira eu contava tudo ... E esse homem é capaz de matar- me ! » Foi á janella, abrio-a sobre a noite luminosa e quieta vendo , ao longe, como uma paizagem a carvão, o bosque negro sobre o fundo alvacento do luar. «Se fugisse?! mas como ? para onde ? só se fosse para o cottage, mas era tão longe, ao fim de um caminho tão deserto e áquella hora Bruno estava no Club. Deus do céu ! que ia ser d'ella, tão só, com aquelle homem que vivia a espreital-a, que tinha sempre uma observação a fazer, á volta dos bailes, por isto ou por aquillo - uma conversa mais longa, duas valsas com o mesmo cavalheiro ... Que ia ser d'ella ?>>> Um cheiro suave de jasmins embalsamava o ar e, de longe, numa dôce surdina, vinham sons de instrumentos , tão leves como aquelle aroma disperso na noite- era a orchestra do Club . «O que é preciso é que eu não durma .

SONHOS Passarei a noite aqui na cadeira, lendo e amanhan ... Amanhan desço com elle, a pretexto de vêr mamãe e ... abro-me com ella, digo-lhe tudo, peço-lhe que me salve ... Mas , que loucura ! Onde tinha eu a cabeça ? E é só á noite que eu sonho e falo ... é só á noite ... por que ? de dia, não . Levantou os olhos para o céu ; uma coruja atravessou os ares chirriando , o coração bateu-lhe com mais força e celeridade num presentimento de morte . Romperam vozes no jardim : «Até amanhan . Adeus ! Respeitos ! ... » eram os amigos que partiam . Sentio todo o sangue fugir-lhe, as pernas dobravam-se-lhe, de novo the subiram lagrimas aos olhos . Agarrou a cabeça a mãos ambas apertando-a com frenesi e, por entre os dentes cerrados, numa voz surda, poz-se a dizer : «Mas , meu Deus ! eu estava loucal eu estava louca ! » Conteve-se, de repente, ouvindo o pigarro do marido ; correu para a cadeira, com o romance e estirou-se a ler. Elle entrou vagaroso e vendo-a, muito sisuda, deteve- se á porta, perguntando : Estás zangada ? Ella teve uma inspiração instantanea e conservou-se immovel, d'olhos no livro, séria. Elle adiantou-se, insistindo : Estás zangada ? - Ah ! não , hei de estar muito satisfeita ... se lhe parece. E encarou-o com severidade : :

SONHOS Pois o senhor acha decente o que fez ? humilhar- me em presença d'aquelles homens, como me humilhou ? Amanhan toda a cidade saberá que eu conto, em sonhos, tudo quanto faço e que o senhor, curioso de detalhes, querendo informar-se da minha vida, porque, certamente , desconfia de mim , véla até tarde, como um tyranno, para ouvir o que digo ... e todos rirão de nós, mais do senhor que de mim . Algum d'elles já lhe fez confidencias escancarando a sua alcova para a devassa ridicula a que o senhor sujeitou a nossa intimidade ? não ! é que preza, talvez, mais a sua casa e respeita , como deve, a sua familia . Elle passeiava cabisbaixo, alizando a barba negra e dura. Eu sei que falo quando durmo , sei : já em solteira era assim, muitas vezes mamãe levantava-se para acordar-me : sonhava com as minhas leituras , com as minhas palestras, com os meus brinquedos e nunca mamãe andou a repetir as palavras que eu pronunciava na irresponsabilidade do somno ... O senhor não : escolheu-me para assumpto ridiculo da palestra, sujeitou-me ás gargalhadas dos seus amigos e ao riso dos creados. Fez muito bem . Eu , francamente, sempre pensei que o respeito que se deve a uma senhora não consistia apenas em não injurial-a e em lhe não bater ... estava enganada - o homem póSONHOS de fazel-a corar tanto que o sangue lhe rebente das faces ... e desatou a chorar . Elle ajoelhou-se arrependido, tomou-lhe as mãos e, beijando-as, beijando-lhe os cabellos , poz-se a pedir perdão, confessando que fôra uma tolice, «um pouco mais de vinho ... » -Sim , sim ... mas, que diabo ! não fôra com intenção de offendel-a... até lhe pedira licença. Bem percebera que ella se havia retirado maguada, elle quizera acompanhal-a, mas ... com aquelles homens lá em baixo ... Eram aguas passadas ... E levantou-a, apertando-a nos braços, raspando-lhe o rosto fino e molhado de lagrimas com a barba negra e dura. Deita-te, anda ! e não se fala mais nisso . Foi uma tolice, foi, confesso, mas não se fala mais nisso . Põe-te á vontade e nada de choros . Sentes alguma cousa ? dóe-te a cabeça ? não ... melhor. Tu o que estás é nérvosa . -Ah ! não hei de estar ... Nem eu sei mesmo como não tive aqui um ataque . E, despindo o penteador : Quem é que liga importancia a sonhos ? só um homem como o senhor ... -E quem te disse que eu ligo importancia a sonhos ? não ligo tal... falei por falar... Tolices . Mas , deita-te. Diminuio o gaz. Queres que apague ? fechou-o e, á luz branda e rosea da lamparina, dirigio-se para a cama

SONHOS onde a mulher já se havia agazalhado, e pensava : «Que faria elle se a ouvisse . Não , o melhor mesmo era conservar-se acordada- dormiria durante o dia . » Quando o sentio no leito, ouvindo o sarrido d'asthma, estremeceu . Um brilho fino e acerado do biseau do espelho deu-lhe a fria impressão d'uma lamina mortal !- encolheuse com um grande medo, combatendo o somno . Sentio que o braço do marido se lhe ia insinuando sob as costas , soergueu-se de leve. Despertou sacudida e, sentando-se, estremunhada , deu com o marido a miral-a e logo , com terror, comprehendeu que sonhara e que tudo dissera. Passando então as mãos pelos olhos , como a limpal-os d'uma visão, exclamou : - Que horror ! Que horror de sonho ... Ε' isto ... quando estou nervosa ... E, voltandose para elle : Eu falei ? Que disse eu ? Elle coçava vagarosamente o peito largo e respondeu : -Tolices ... Tolices ... Mas dorme , descança . Instantes depois, no silencio, aconselhou : O que tu deves é deixar essas leituras de romances francezes . E ella , comprehendendo a allusão , acolhendo-se ao seu peito, fazendo-se pequenina junto d'elle, murmurou :

SONHOS -Eu , ás vezes, sonho cada extravagancia ... E tu ainda dizes que eu conto a minha vida... -Pois sim, pois sim... não se fala mais nisso . E dorme que estás nervosa ... e meigamente , a offegar com a asthma, poz-se a amimar-lhe a cabecinha loira .

CORAM

Água de Juventa

Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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