Universo da obra
Universo da obra
N o fundo ceu annuviado pela garôa a lua sem brilho corria como a fugir. Fazia frio ; um vento agreste soprava transindo. Os lampeões irradiavam na bruma semelhando , á distancia, immensas aranhas d'ouro, adormecidas nas suas teias rútilas e o silencio só era perturbado por um fino correr d'agua nalgum vallo, entre as hervas . Os dois amigos , muito encolhidos nos pesados capotes, esperavam pacientemente o bond, resguardados pela ramagem frondosa d'uma mangueira. Era tarde ; nem uma casa aberta . Nos jardins os cães, soltos para a vigia, iam e vinham ligeiros, com o focinho de rasto, farejando as sombras ou arremettiam ferozes, pondo-se de pé d'encontro aos portões, aos
Á NEVOA arrancos , ladrando furiosamente á passagem d'alguem . Apitos trilavam de quando em quando . Luciano esfregava as mãos regeladas , resmungando indignado contra a demora do bond ; Paulo , resignado, assobiava baixinho um trecho de opera. Alargou -se subitamente pela rua deserta um pallido clarão- os dois olharam para a altura : o nevoeiro rasgára-se em uma aberta e a lua brilhava logo, porém, foi amortecendo a claridade como se a terra a sugasse e, de novo, espalhou-se a velada tristeza. Luciano fincou a bengala no tronco rugoso da mangueira e, firmando o hombro ao castão, disse de repente : -E a Sylvia ? -Estava justamente pensando nella . -Está divina ! Eis ahi uma que lucrou com o casamento . - Não , não é isso é que a viste em casa movendo-se livremente, desembaraçadamente no seu meio . Na rua é ainda a mesma achamboada, a mesma caipira que nos fazia sorrir com o seu acanhamento e com o inseparavel lencinho de rendas . Lembras-te do lencinho ? -Se me lembro ! E aquelle famoso chapeu que parecia um telhado coberto de pombas ? ... -Era um casal, não exageres .
NEVOA -E' que não o viste depois . -Vieram filhos ? - - Se vieram ! Riram alto. Luciano voltouse inopinadamente para a tréva da rua silenciosa- parecera-lhe haver ouvido o tilintar de um bond . Revoltou-se: Como diabo póde um homem vir habitar um bairro como este ! Parece que o Lourenço quer evitar os amigos . Estamos aqui ha mais de meia hora e nem signal de bond . - Meia hora, não digo : ha uns cinco minutos . Que queres? foi ella que o exilou n'este silencio para ter um pouco de roça e poder crear á vontade, coisa que lá embaixo os fiscaes não permittem. Já aqui dormi uma noite ... Ah ! meu amigo , acordei em plena bucolica : vaccas mugindo, ovelhas balando, aves de toda a casta acudindo ao milho e ella, admiravel de rusticidade, bella, meu amigo, verdadeiramente bella, de branco, os cabellos soltos , ainda humidos do banho, brilhando como as frescas ramagens molhadas de orvalho, alegre entre os animaes que a cercavam - um puro Ruysdaël. Lourenço olhava extasiado e sorria, o nosso Lourenço . Sahiu-nos um Melibéo esse que, durante tanto tempo, illudiu-nos com os seus ares magnificos de Petronio . E é isso, a divina Sylvia- uma mulher de interior. Em casa, vestida simplesmente,
NEVOA á vorsade, como ella diz, com os maravilhosos cabellos apanhados, um argolão de ouro no punho, os sapatinhos brancos , o avental e a sua graça esperta e solicita de caseira, é realmente encantadora e eu comprehendo que um homem se apaixone por ella, não um homem como eu que vivo das exterioridades artificiosas , mas um homem como o Lourenço, que degenerou em penate ; mas expõe-n'a ao grande sol das ruas ou á luz forte de um salão e has de ver como todo o encanto desapparece e a divina creatura fica reduzida a um trambolho, a anciar suffocada e a corar pudibunda. As sedas deformaram-n'a e o collete, que é o molde da elegancia , tira-lhe a flexibilidade , achata-a, torna-a hedionda . Sylvia é a mulher ideal para os que vivem a bradar contra os vicios do tempo que são as delicias da civilazação . Essa é a esposa, a mãe , a matrona que fazia o orgulho honesto de Roma , mas eu sou dos que preferem á fecunda Cybele, de entranhas possantes , a Venus esteril que atravessa a vida irradiando belleza e graça. Da mulher quero o sorriso limpido , quero os movimentos airosos , a palavra bem soante, o olhar luminoso e o perfume de flor que a fecundidade transforma em cheiro de fructa : o pomar é mais util mas o jardim é mais bello.
NEVOA A ineffavel bondade d'essa divina Lararia encanta quando não ha, para contrastar com ella, o caminhar esbelto e senhoril de uma mulher de raça, um geito de abrir e fechar o leque, um certo franzir e abotoar de labios, um dizer com o olhar o que não ficaria bem pronunciado pelos labios, um esquivar-se que não é mais que uma promessa, um nada com o aspecto de um mundo : a sciencia de estar, de sorrir, de trazer uma flôr, de traçar uma mantilha, de entregar os hombros nús ao manto , ao sahir do baile, de encetar uma palestra e até de contrariar uma intenção sem a brutalidade do amùo mas com a protelação de um sorriso . Eu entendo que a mulher devia estudar longamente, com exames , a arte de ser «feminina » como o homem estuda os differentes ramos da sciencia para embellezar o mundo, facilitar o convivio e suavisar a vida, dando ao seu semelhante todos os gosos e quasi o poder de um deus. Não sou dos que exigem da mulher a collaboração directa na acção social- o seu fim é compensar : o homem é uma utilidade como a Sciencia, a Mulher deve ser apenas Belleza como a Arte. O que eu exigiria d'ella seria uma educação completa que a habilitasse a ser ... mulher . -Alguma coisa como doutora... em en cantos .
Á NEVOA -Sim . A civilisação antiga, se assim posso dizer sem offensa ao Progresso, exigia da mulher o mesmo ou pouco menos do que exigia do homem : ella disputava na arena, ella celebrava nos templos, ella discorria nos porticos e até arrojava dardos como essa formosa virago que pelejou ao lado dos troyanos . Educava-se, emfim, creando aptidões para o meio e para o tempo em que vivia e hoje, que vêmos nós ? nem força nem belleza , nem agilidade nem graça, caricaturas de tudo; a bicycleta, que é, talvez, a reducção do plaustro, a petéca que é o aviltamento do disco . Ha uma coisa chamada «decencia » que obriga a misera mulher ás mais absurdas contrafacções ; se ri, porque é alegre, acham que não tem compostura ; se conversa sem o acanhamento que é a expressão externa da virtude, não em murmurio, mas fazendo vibrar o crystal da voz, pondo aqui, e alli, uma centelha de espirito , o fulgor de um commentario imprevisto, é pretenciosa ; se veste com propriedade e elegancia, é futil ; se se inclina, com especial sympathia, a um amigo da casa, é deshonesta ; de sorte que, para a sociedade banal que tanto escrupulisa, a verdadeira, a perfeita e unica mulher é a que gera sem descontinuar, com outonos certos como os da terra. Accendeu um charuto e continuou no mes
NEVOA mo tom preguiçoso : Eu sei que ha mulheres, como essa divina Sylvia, que nasceram para o lar e que, fóra do lar, longe do fogo de Hestia , são verdadeiras monstruosidades ; não me refiro a taes excepções que vêm directamente do tempo dos gynecêos- essas , se as deixassemos no esplendor da vida mundana, ficariam atordoadas como uma creança que se perdesse na multidão ; fallo das outras , das muitas que por ahi ha acalcanhadas pelas convenções absurdas e pelos maridos tyrannos . Fazem-me pena, com franqueza : lembramme as lindas garças que nasceram nas campinas verdes, entre flores e luz, á beira dos lagos limpidos onde banhavam as pennas claras e que se vêm, de repente, encerradas em prisões d'arame, com uma celha d'agua lodosa que lhes vae dando á plumagem nitida uma côr amarellada e suja . -Nem todos pensam como tu ... -Fingem não pensar, por hypocrisia egoista ... Todos os sères, todas as coisas , aspiram á Luz que é a manifestação da belleza radiante. Eu não admitto, não comprehendo que um homem prefira a uma mulher como a Olga uma simpleza como a filha d'aquelle teu amigo de Saquarema, que é a ultima palavra no genero « natureza» . Vê-se bem que d'aquelles flancos fecundos ha de rebentar uma fartura
Á NEVOA de Humanidade . Será uma estupenda machina de procrear mas nunca uma mulher- a gloria de ser mãe não vale a gloria suprema e ideal de ser bella. Entre uma exposição de aboboras e outra de camelias não hesito ; vou direito á segunda . - E a moralidade ? -Que moralidade ? a virtude, o exclusivismo conjugal? Meu amigo, não entremos n'esse assumpto melindroso. Eu começo por negar a moralidade convencional. Se é o acto que é immoral então combatamos o casamento por obsceno ; se não é o acto e sim a preferencia, n'esse caso o culpado é o marido que não soube impôr-se, que se deixou vencer por um concorrente . E tu acreditas na perfeita virtude que é a absoluta pureza d'alma ? essa desapparece com o primeiro namoro, ás vezes com a primeira boneca. Acceitemos o mundo com as suas imperfeições admiraveis - a Mulher é mais alguma coisa do que a carne que a gera, a Demeter fecunda, ella é a alegria do olhar, a seducção do espirito, o encanto mais delicado da vida. Se visses a divina Sylvia como eu a vi n'essa noite estupidamente tranquilla que passei n'aquella casa : á mesa, á luz do gaz protegida por alparluzes de porcellana, calculando o tempo da sahida das ninhadas emquanto o Lou
NEVOA renço lia, com muito interesse, uma revista financeira ... -E tu ? -Eu ? eu contemplava a lua e ouvia a voz monotona dos sapos que lá andavam pela horta . Francamente : chama-se a isso viver ? A mulher é um ornamento vivo para ser admirado e gozado. Lembro-me sempre de uma visita que fiz a certo banqueiro, grande collecionador de bronzes e de porcellanas . Passei uma hora deliciosa na sua sala onde ha verdadeiros primores e estava justamente contemplando a estatueta de um Buddha, de porcelanna dourada e decorada a esmaltes quando a senhora appareceu ... Imagina um elephante no Parthenon entre os deuses, ao lado da Minerva de Phidias . O mesmo cavalheiro comprehendeu o disparate e, com habilidade, fez sahir a creatura incongruente a pretexto, talvez , de dar uma vista d'olhos á mesa e aos vinhos . Agora imagina o effeito que produziria entre aquellas magnificencias, que valem duas centenas de contos, uma linda e graciosa mulher como a explendida, a decorativa Lucia ! Um pequenino foco appareceu ao longe, sumindo por vezes e, ao tinir da campainha, os dois que ainda hesitavam , adiantaram-se vagarosamente. Luciano, de cabeça baixa,
NEVOA riscando a terra com a bengala, exclamou, de repente . -E' verdade : garantiram-me que vae casar. - Quem? Lucia ?! -Sim , e - o que é verdadeiramente extraordinario : - por amor . - Por amor ! uhm ... não creio . Lucia é uma mulher saturada de civilisação : aos dez annos marcava cotillons em Petropolis, aos doze inaugurou suas quintas-feiras . Conheço-a d'esse tempo : é uma super-femina, meu amigo , e o amor é um instincto rudimentar : só os simples amam. O que nós outros, por euphemismo pudico, chamamos amor é alguma cousa como um sport elegante- simples jogo de prazer, uma partida marcada a beijos, que termina n'um delirio rapido, sem resultado effectivo para a Humanidade. Amar é imaginar o real e nós ... realisamos o imaginario . Os lenhos aryanos, de cujo attricto saltava a centelha sagrada, são e hão de ser, por todo o sempre, o symbolo d'alliança amorosa transmittindo o lume que perpetúa o explendor da vida . Nós, os civilisados, queremos uma luz mais bella, mais prompta e mais fatigante e buscamos a electricidade. A lampada de Edison está para o fogo dos aryas como a nossa paixão está para o verdadeiro amor. Posso lá acreditar que Lucia ... Quem é o noivo ?
Á NEVOA - O Paiva. Paulo ficou um momento pensativo, por fim disse vagarosamente : -E' um bello homem é e forte. Emfim ... a existencia d'alma feminina só se demonstra por ... absurdos . E' até capaz de dar uma excellente mãe de familia . -Da especie da Sylvia . -Ou peior. Como o bond vinha perto aproximaram-se da linha e Luciano sussurou : - Deixa lá, homem... apezar de todos os progressos o coração conserva-se irreductivelmente fiel aos primeiros principios . -Não é o coração, enganas-te ... Mas o bond passava e os dois, rindo, tomaram-n'o d'assalto .
CONFIDENCIA
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