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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 4 · Água de Juventa

A' nevoa

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N o fundo ceu annuviado pela garôa a lua sem brilho corria como a fugir. Fazia frio ; um vento agreste soprava transindo. Os lampeões irradiavam na bruma semelhando , á distancia, immensas aranhas d'ouro, adormecidas nas suas teias rútilas e o silencio só era perturbado por um fino correr d'agua nalgum vallo, entre as hervas . Os dois amigos , muito encolhidos nos pesados capotes, esperavam pacientemente o bond, resguardados pela ramagem frondosa d'uma mangueira. Era tarde ; nem uma casa aberta . Nos jardins os cães, soltos para a vigia, iam e vinham ligeiros, com o focinho de rasto, farejando as sombras ou arremettiam ferozes, pondo-se de pé d'encontro aos portões, aos

Á NEVOA arrancos , ladrando furiosamente á passagem d'alguem . Apitos trilavam de quando em quando . Luciano esfregava as mãos regeladas , resmungando indignado contra a demora do bond ; Paulo , resignado, assobiava baixinho um trecho de opera. Alargou -se subitamente pela rua deserta um pallido clarão- os dois olharam para a altura : o nevoeiro rasgára-se em uma aberta e a lua brilhava logo, porém, foi amortecendo a claridade como se a terra a sugasse e, de novo, espalhou-se a velada tristeza. Luciano fincou a bengala no tronco rugoso da mangueira e, firmando o hombro ao castão, disse de repente : -E a Sylvia ? -Estava justamente pensando nella . -Está divina ! Eis ahi uma que lucrou com o casamento . - Não , não é isso é que a viste em casa movendo-se livremente, desembaraçadamente no seu meio . Na rua é ainda a mesma achamboada, a mesma caipira que nos fazia sorrir com o seu acanhamento e com o inseparavel lencinho de rendas . Lembras-te do lencinho ? -Se me lembro ! E aquelle famoso chapeu que parecia um telhado coberto de pombas ? ... -Era um casal, não exageres .

NEVOA -E' que não o viste depois . -Vieram filhos ? - - Se vieram ! Riram alto. Luciano voltouse inopinadamente para a tréva da rua silenciosa- parecera-lhe haver ouvido o tilintar de um bond . Revoltou-se: Como diabo póde um homem vir habitar um bairro como este ! Parece que o Lourenço quer evitar os amigos . Estamos aqui ha mais de meia hora e nem signal de bond . - Meia hora, não digo : ha uns cinco minutos . Que queres? foi ella que o exilou n'este silencio para ter um pouco de roça e poder crear á vontade, coisa que lá embaixo os fiscaes não permittem. Já aqui dormi uma noite ... Ah ! meu amigo , acordei em plena bucolica : vaccas mugindo, ovelhas balando, aves de toda a casta acudindo ao milho e ella, admiravel de rusticidade, bella, meu amigo, verdadeiramente bella, de branco, os cabellos soltos , ainda humidos do banho, brilhando como as frescas ramagens molhadas de orvalho, alegre entre os animaes que a cercavam - um puro Ruysdaël. Lourenço olhava extasiado e sorria, o nosso Lourenço . Sahiu-nos um Melibéo esse que, durante tanto tempo, illudiu-nos com os seus ares magnificos de Petronio . E é isso, a divina Sylvia- uma mulher de interior. Em casa, vestida simplesmente,

NEVOA á vorsade, como ella diz, com os maravilhosos cabellos apanhados, um argolão de ouro no punho, os sapatinhos brancos , o avental e a sua graça esperta e solicita de caseira, é realmente encantadora e eu comprehendo que um homem se apaixone por ella, não um homem como eu que vivo das exterioridades artificiosas , mas um homem como o Lourenço, que degenerou em penate ; mas expõe-n'a ao grande sol das ruas ou á luz forte de um salão e has de ver como todo o encanto desapparece e a divina creatura fica reduzida a um trambolho, a anciar suffocada e a corar pudibunda. As sedas deformaram-n'a e o collete, que é o molde da elegancia , tira-lhe a flexibilidade , achata-a, torna-a hedionda . Sylvia é a mulher ideal para os que vivem a bradar contra os vicios do tempo que são as delicias da civilazação . Essa é a esposa, a mãe , a matrona que fazia o orgulho honesto de Roma , mas eu sou dos que preferem á fecunda Cybele, de entranhas possantes , a Venus esteril que atravessa a vida irradiando belleza e graça. Da mulher quero o sorriso limpido , quero os movimentos airosos , a palavra bem soante, o olhar luminoso e o perfume de flor que a fecundidade transforma em cheiro de fructa : o pomar é mais util mas o jardim é mais bello.

NEVOA A ineffavel bondade d'essa divina Lararia encanta quando não ha, para contrastar com ella, o caminhar esbelto e senhoril de uma mulher de raça, um geito de abrir e fechar o leque, um certo franzir e abotoar de labios, um dizer com o olhar o que não ficaria bem pronunciado pelos labios, um esquivar-se que não é mais que uma promessa, um nada com o aspecto de um mundo : a sciencia de estar, de sorrir, de trazer uma flôr, de traçar uma mantilha, de entregar os hombros nús ao manto , ao sahir do baile, de encetar uma palestra e até de contrariar uma intenção sem a brutalidade do amùo mas com a protelação de um sorriso . Eu entendo que a mulher devia estudar longamente, com exames , a arte de ser «feminina » como o homem estuda os differentes ramos da sciencia para embellezar o mundo, facilitar o convivio e suavisar a vida, dando ao seu semelhante todos os gosos e quasi o poder de um deus. Não sou dos que exigem da mulher a collaboração directa na acção social- o seu fim é compensar : o homem é uma utilidade como a Sciencia, a Mulher deve ser apenas Belleza como a Arte. O que eu exigiria d'ella seria uma educação completa que a habilitasse a ser ... mulher . -Alguma coisa como doutora... em en cantos .

Á NEVOA -Sim . A civilisação antiga, se assim posso dizer sem offensa ao Progresso, exigia da mulher o mesmo ou pouco menos do que exigia do homem : ella disputava na arena, ella celebrava nos templos, ella discorria nos porticos e até arrojava dardos como essa formosa virago que pelejou ao lado dos troyanos . Educava-se, emfim, creando aptidões para o meio e para o tempo em que vivia e hoje, que vêmos nós ? nem força nem belleza , nem agilidade nem graça, caricaturas de tudo; a bicycleta, que é, talvez, a reducção do plaustro, a petéca que é o aviltamento do disco . Ha uma coisa chamada «decencia » que obriga a misera mulher ás mais absurdas contrafacções ; se ri, porque é alegre, acham que não tem compostura ; se conversa sem o acanhamento que é a expressão externa da virtude, não em murmurio, mas fazendo vibrar o crystal da voz, pondo aqui, e alli, uma centelha de espirito , o fulgor de um commentario imprevisto, é pretenciosa ; se veste com propriedade e elegancia, é futil ; se se inclina, com especial sympathia, a um amigo da casa, é deshonesta ; de sorte que, para a sociedade banal que tanto escrupulisa, a verdadeira, a perfeita e unica mulher é a que gera sem descontinuar, com outonos certos como os da terra. Accendeu um charuto e continuou no mes

NEVOA mo tom preguiçoso : Eu sei que ha mulheres, como essa divina Sylvia, que nasceram para o lar e que, fóra do lar, longe do fogo de Hestia , são verdadeiras monstruosidades ; não me refiro a taes excepções que vêm directamente do tempo dos gynecêos- essas , se as deixassemos no esplendor da vida mundana, ficariam atordoadas como uma creança que se perdesse na multidão ; fallo das outras , das muitas que por ahi ha acalcanhadas pelas convenções absurdas e pelos maridos tyrannos . Fazem-me pena, com franqueza : lembramme as lindas garças que nasceram nas campinas verdes, entre flores e luz, á beira dos lagos limpidos onde banhavam as pennas claras e que se vêm, de repente, encerradas em prisões d'arame, com uma celha d'agua lodosa que lhes vae dando á plumagem nitida uma côr amarellada e suja . -Nem todos pensam como tu ... -Fingem não pensar, por hypocrisia egoista ... Todos os sères, todas as coisas , aspiram á Luz que é a manifestação da belleza radiante. Eu não admitto, não comprehendo que um homem prefira a uma mulher como a Olga uma simpleza como a filha d'aquelle teu amigo de Saquarema, que é a ultima palavra no genero « natureza» . Vê-se bem que d'aquelles flancos fecundos ha de rebentar uma fartura

Á NEVOA de Humanidade . Será uma estupenda machina de procrear mas nunca uma mulher- a gloria de ser mãe não vale a gloria suprema e ideal de ser bella. Entre uma exposição de aboboras e outra de camelias não hesito ; vou direito á segunda . - E a moralidade ? -Que moralidade ? a virtude, o exclusivismo conjugal? Meu amigo, não entremos n'esse assumpto melindroso. Eu começo por negar a moralidade convencional. Se é o acto que é immoral então combatamos o casamento por obsceno ; se não é o acto e sim a preferencia, n'esse caso o culpado é o marido que não soube impôr-se, que se deixou vencer por um concorrente . E tu acreditas na perfeita virtude que é a absoluta pureza d'alma ? essa desapparece com o primeiro namoro, ás vezes com a primeira boneca. Acceitemos o mundo com as suas imperfeições admiraveis - a Mulher é mais alguma coisa do que a carne que a gera, a Demeter fecunda, ella é a alegria do olhar, a seducção do espirito, o encanto mais delicado da vida. Se visses a divina Sylvia como eu a vi n'essa noite estupidamente tranquilla que passei n'aquella casa : á mesa, á luz do gaz protegida por alparluzes de porcellana, calculando o tempo da sahida das ninhadas emquanto o Lou

NEVOA renço lia, com muito interesse, uma revista financeira ... -E tu ? -Eu ? eu contemplava a lua e ouvia a voz monotona dos sapos que lá andavam pela horta . Francamente : chama-se a isso viver ? A mulher é um ornamento vivo para ser admirado e gozado. Lembro-me sempre de uma visita que fiz a certo banqueiro, grande collecionador de bronzes e de porcellanas . Passei uma hora deliciosa na sua sala onde ha verdadeiros primores e estava justamente contemplando a estatueta de um Buddha, de porcelanna dourada e decorada a esmaltes quando a senhora appareceu ... Imagina um elephante no Parthenon entre os deuses, ao lado da Minerva de Phidias . O mesmo cavalheiro comprehendeu o disparate e, com habilidade, fez sahir a creatura incongruente a pretexto, talvez , de dar uma vista d'olhos á mesa e aos vinhos . Agora imagina o effeito que produziria entre aquellas magnificencias, que valem duas centenas de contos, uma linda e graciosa mulher como a explendida, a decorativa Lucia ! Um pequenino foco appareceu ao longe, sumindo por vezes e, ao tinir da campainha, os dois que ainda hesitavam , adiantaram-se vagarosamente. Luciano, de cabeça baixa,

NEVOA riscando a terra com a bengala, exclamou, de repente . -E' verdade : garantiram-me que vae casar. - Quem? Lucia ?! -Sim , e - o que é verdadeiramente extraordinario : - por amor . - Por amor ! uhm ... não creio . Lucia é uma mulher saturada de civilisação : aos dez annos marcava cotillons em Petropolis, aos doze inaugurou suas quintas-feiras . Conheço-a d'esse tempo : é uma super-femina, meu amigo , e o amor é um instincto rudimentar : só os simples amam. O que nós outros, por euphemismo pudico, chamamos amor é alguma cousa como um sport elegante- simples jogo de prazer, uma partida marcada a beijos, que termina n'um delirio rapido, sem resultado effectivo para a Humanidade. Amar é imaginar o real e nós ... realisamos o imaginario . Os lenhos aryanos, de cujo attricto saltava a centelha sagrada, são e hão de ser, por todo o sempre, o symbolo d'alliança amorosa transmittindo o lume que perpetúa o explendor da vida . Nós, os civilisados, queremos uma luz mais bella, mais prompta e mais fatigante e buscamos a electricidade. A lampada de Edison está para o fogo dos aryas como a nossa paixão está para o verdadeiro amor. Posso lá acreditar que Lucia ... Quem é o noivo ?

Á NEVOA - O Paiva. Paulo ficou um momento pensativo, por fim disse vagarosamente : -E' um bello homem é e forte. Emfim ... a existencia d'alma feminina só se demonstra por ... absurdos . E' até capaz de dar uma excellente mãe de familia . -Da especie da Sylvia . -Ou peior. Como o bond vinha perto aproximaram-se da linha e Luciano sussurou : - Deixa lá, homem... apezar de todos os progressos o coração conserva-se irreductivelmente fiel aos primeiros principios . -Não é o coração, enganas-te ... Mas o bond passava e os dois, rindo, tomaram-n'o d'assalto .

CONFIDENCIA

Água de Juventa

Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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