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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 12 · Água de Juventa

Trecho de carta

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N ÃO ha grande homem para o seu creado particular, e eu accrescento, com segurança : nem para a mulher. A superioridade dos predestinados é uma pura illusão que se esvai mais depressa do que um leve fumo que o vento esgarça e espalha no ar. O homem é o mesmo, poeta ou pastrano - o que d'elle fica, quando a nossa fragilidade cede, é a bruteza animal : o ser divino que imagináramos rebaixa-se á materialidade vil . Os mesmos deuses olympicos, quando desciam do Ether, trazidos por uma forte necessidade de amor, e buscavam as mulheres da terra, deixavam no Zodiaco a superessencia e , só ardor, e só mollicie, estendiam os braços robustos por entre a folhagem retendo nym

TRECHO DE CARTA phas ou perseguindo lascivamente as moças de Ceres, que ceifavam . Quem os visse não os tomaria pelos numes que accumulavam as nuvens tempestuosas e disparavam os raios fulminantes ou, em plaustros, tirados por fulvos leões domados , realizavam prodigios com um leve mover do thyrso a que logo respondia o som airoso dos córos sagrados . Tu estás em crise de «intellectualismo » , acredita . Se é verdade que amas, com a alma apenas , a esse lindo Arnaldo, poeta e musico, -que tão bem me pareceu com a sua candida reserva de maneiras e a sua doce voz de um timbre quasi feminino, ainda puro, sem hypocrisia-(creio que foi o teu marido quem o introduzio no nosso mundo, que tanto estraga as almas com suas exigencias de elegancia e galanteria)-que tão suavemente diz os seus versos e com tão puro estylo interpreta Chopin e Schumann , deixa-te estar nesse amor contemplativo- goza-o de longe, com o espirito apenas : faze com elle o que se faz com uma flor rara a que se aspira o aroma de perto, mas sem tocal-a para que se não fane . Lembras-te que me disseste que um dia bebeste extracto de jasmins ?- foi o perfume que te tentou. Que sentiste ? gosto d'alcool... nada mais .

TRECHO DE CARTA A minha frenetica Heloisa deu-me, ha dias, um grande e forte exemplo que, talvez, te aproveite na situação em que estás. Iamos as duas pelo jardim-ella á frente, eu mais retardada, lendo uma carta em que o Alfredo se desculpava de não poder vir no proximo sabbado. De repente, uma viva exclamação da pequena tirou-me a attenção da leitura. Heloisa, muito vermelha, com os dedinhos esticados , mostrava-me qualquer coisa que os manchava. «E' uma violeta, disse. Não imaginas como cheirava. Colhi-a e, pensando que, se a espremesse, faria exhalar-se mais intensamente o aroma, esmaguei-a e ... já não cheira . Por que ? » «Mataste-a, minha filha e a alma, que era o perfume, lá se foi para onde vão as almas. Foi tudo quanto pude dizer á creança . » O ideal é como o aroma da violeta- para que dure é necessario que a gente deixe a flôr intacta e tu , minha amiga, queres justamente fazer o que fez Heloisa. Continúa a admirar o teu artista se o queres amar sempre, com esse amor que sublimas porque, no dia em que cederes , todo o sonho se desvanecerá e ficarás apenas com o homem ... que não differe do teu jardineiro, como Heloisa ficou com os dedinhos maculados pela borra escura do que fôra uma violeta .

TRECHO DE CARTA Uma de minhas amigas de infancia, romantica como tu, senão mais, apaixonou-se tambem , allucinadamente, por um poeta lyrico, autor de um livro sentimental que muitas lagrimas nos fazia correr dos olhos quando , juntas , o liamos á sombra das velhas mangueiras . Casada com um official de marinha, dos mais distinctos da nossa armada e que fôra verdadeiramente amado pela infeliz, achou-se só quando o marido sahio para um cruzeiro de mezes , com uma turma de aspirantes, e veiolhe, de novo, a paixão dos versos tristes até que , um dia,-e foi em minha casa (sempre as malfadadas recepções !) que se realizou o sonho d'aquella cabecinha louca : o acaso approximou-a do poeta. Como já havia o preparo moral-ou immoral-em poucos instantes o grande lyrico avassalou o coração da minha pobre amiga e ... A misera- disse -me ella mesma- dias antes da desejada entrevista soffreu horrivelmente com a idéa de parecer indigna aos olhos d'aquelle homem admiravel, cujo nome todos os jornaes exaltavam em louvores magnificos. Construira a residencia do seu idolo com os proprios versos da «Saudade» , a incomparavel Elegia em que vem descripto o celebre retiro : um canto de mysterioso silencio, recatado em densa folhagem

TRECHO DE CARTA florida, com as finas aguas de uma ribeira murmurando em torno e aves pacificas e familiares cantando e tecendo ninhos por entre os ramos das arvores copadas . Via-o na penumbra pensativa do seu gabinete de trabalho, com a mesa, como um altar, carregada de flores , compondo versos eternos com a mesma facilidade natural com que um deus crearia mundos resplandecentes . Como havia de falar, de corresponder, com a sua linguagem chan e balba, aos soberbos alexandrinos sonoros, mostrar o seu corpo áquelles olhos acostumados a contemplar os astros , beijar aquella bocca que dizia tão perfeitas palavras ? Foi a tremer, como se caminhasse para o supplicio , mais vergonhosa da sua ignorancia do que do crime que ia commetter, que se dirigio para o «sylvestre retiro» . Ah ! o «sylvestre retiro ... ! » Entrou pallida, as mãos frias, tremendo e , quando o grande homem a recebeu com um beijo de satyro fazendo- a sentar-se na mesma cadeira em que costumava ficar horas e horas compondo estrophes immortaes, ella mal teve tempo de olhar as paredes nuas , os moveis de uma vulgaridade pauperrima ... o fino artista, o poeta subtil portou-se com verdadeira brutalidade . Ao deixar aquella casa banal, desar

TRECHO DE CARTA ranjada e obscura, onde só vira desmantelo e pó, a misera trazia o coração torturado e, por que não dizel-o ? verdadeiro asco . Dirás que o poeta era um sensual- não , filha ; era simplesmente um homem . Se amas em Arnaldo o homem, procede como entenderes não me quero dar ares de moralista , porque tenho que tal papel é sempre ridiculo, mas se amas em Arnaldo o «espiritual» , a «alma» como disseste, evita o encontro para que não despertes na realidade mesquinha . Lembra-te do caso de Heloisa : a materia é, em todos , a mesma. Vaes commetter um duplo crime : o de adulterio e o de iconoclastia - contra a honra e contra o ideal , evita-os, se tens força. Ainda outro exemplo : (faço a minha moralidade á maneira de Montaigne) . Em certo cantinho do interior do meu Estado alguem , a quem o caso interessava, annunciou, com alvoroço , que descobrira, no fundo de uma lapa, uma figura de pedra que chorava-e logo se disse que era uma santa. Tão depressa espalhou-se a noticia como se moveu a miseria enferma de todos aquelles recantos sertanejos . Carros com entrevados e cegos, liteiras , redes com febrentos e immensos hydropicos arquejantes , cardiacos anciados, bandos de leprosos , caravanas hediondas de tysicos e pelas

TRECHO DE CARTA estradas e caminhos de valle e monte, dia e noite, era um tumultuar de gente como nas retiradas tristes dos annos de secca . Em torno da lapa arranchava-se o povaréo gemente e todos, correndo á imagem , ajoelhados, as mãos estendidas , recebiam uma gotta de lagrima com que reaccendiam os olhos , saravam as ulceras , destravavam as paralysias , apagavam as febres , reabriam a fala e os milagres eram apregoados ao som de canticos e tantas e tão generosas foram as esmolas que, em dois annos, houve dinheiro para levantarse uma capella . Certa noite , porém, um homem que viera de longe, com grande angustia, sem paciencia para esperar a manhan, foi direito á lapa implorando, baixinho, a misericordia da santa. O povoado dormia sob o céu estrellado, fogos alumiavam lividamente as barracas . Entrando no santuario agreste , como só no fundo, junto do altar, resplandeciam lampadas e cirios , o penitente, protegido pela sombra , ajoelhou-se e rezava quando vio um homem apparecer por entre as pedras da abobada , retirar a cabeça da imagem para ajustar-lhe um tubo á nuca e logo a agua entrou a escorrer em fios dos grandes olhos da figura . O penitente , que sorprehendêra a fraude

TRECHO DE CARTA infame, em vez de calar-se, sahio a contar o que vira e, na luz primeira da manhan, seguiram todos , em amontoada balburdia, para a furna , examinaram a imagem para cuja cabeça esfiava um filete d'agua canalisada e logo rompeu o tumulto, aos brados de ameaça contra o mystificador . Mas um grande velho tremulo, com as barbas esvoaçando ao vento, levantou-se no carro em que jazia e, d'olhos erguidos, agitando os magros e compridos braços, falou : «Por que havia esse homem de ir á lapa em hora impropria ? Nós todos que aqui estamos, uns já curados , outros melhorando, sem falar dos sãos que voltaram ás suas terras, devemos o beneficio á santa da pedra. Uns, que não andavam , já vão sós, por seus pés ; outros que não falavam louvam a bemdita imagem ; eu mesmo começava a rever o céu e a terra e, ail de mim , reentro na escuridão, perdida a esperança de olhar o meu campo e os netinhos que por elle correm e que eu não conheço. Maldito seja o que vio e falou ! Maldito seja o perverso ! Não era a santa nem eram as suas lagrimas que nos curavam, era então a mesma fé que elle matou . Maldito seja o que vio e falou ! » E todos que ouviram as palavras lamentosas do velho levantaram vozes de maldição . E queres saber sobre quem recahio a furia dos

TRECHO DE CARTA infelizes ? sobre o denunciante que matára a illusão . Cuidado com o teu amor... que elle não seja como o penitente. Não te approximes do sonho- a realidade sempre desillude. As lagrimas da santa curavam como impressionam os versos do teu Arnaldo- não chegues perto porém - darás com a desillusão. Não queiras perder a fé que no teu caso é o ideal ... E adeus . Não te recommendo que destrúas esta carta porque é de teu interesse que d'ella não fique uma virgula . A culpa não é tua : és impaciente, nervosa e tens imaginação ... o maior culpado é o teu marido que te deu uma rival na tal ponte que anda a construir sobre o rio dos Judios . Esses engenheiros que ........... .. O final da curiosa carta perdeu-se... о mesmo destino tiveram, com certeza, os conselhos da matrona (o estylo é ... a mulher) que tão adocicada, perfumadamente a compoz .

EPITHALAMΙΟ

Água de Juventa

Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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