Universo da obra
Universo da obra
EPITHALAΜΙΟ A BRIO os olhos e logo todo o seu dia da vespera , atordoado e novo , encheu-lhe o cerebro como uma grande e forte levada a que se houvesse corrido a comporta e se arrojasse violentamente, espraiando-se desimpedida e solta. Devassou a camara larga e rica, com um mobiliario fino que rebrilhava aos toques do sol, em filetes e em nimbos , faiscando nos espelhos, dourando os rebordos das grandes peças de imbuia que ainda cheiravam a colla e a vernizes . O soalho era todo um tapete com grandes flores abertas e retorcidas ramas graciosas . A um canto, um terno de damasco côr de morango : o divan, pequenino e baixo como um throno nupcial e duas poltronas largas , am
EPITHALAMIO plas , fofas , onde o corpo afundava como em um ninho agazalhado e macio . As cortinas de rendas aflavam de leve como numa respiração e, por todos os cantos, appareciam flores e fitas em laços ; um grande ramo de cravos brancos com canutilhos tremulos rescendia num vaso de Sèvres, outros jaziam abandonados no marmore raiado do lavatorio, na almofada do psyché, fanados, morrendo naquelle ambiente morno . O cortinado , que encerrava o leito, estava todo entrelaçado de fitas e de torsaes de flôres de laranjeira . O rumor da rua chegava surdamente , abafado, como se toda a vida corresse vagarosa, silenciosa, para não interromper aquelle primeiro somno nupcial. Elle pensava ; a seu lado, no mesmo leito forrado de seda, um corpo jazia encolhido e immovel . Voltou-se e o seu olhar deteve- se naquelle vulto de mulher cujos cabellos douravam a almofada- fartos , d'um brilho quente , tão finos que o seu halito os arripiava. Olhando via o relevar e o abaixar macio d'aquelle corpo que respirava dormindo : era ella, a desejada Eulina, a sua sonhada noiva . Ella alli estava, aquella que elle tantas vezes desejara nas suas noites solitarias, evocando-lhe o perfil , toda a sua graça viva de virgem quando, recolhendo á casa vagarosamente, ainda a
EPITHALAMIO ouvir, como um echo, o leve murmurio das suas mimosas récriminações ciumentas , sentindo ainda o aroma que lhe transmittira no apertado adeus a sua pequenina mão, com uma flor que ella tirara do collo para offerecer-lhe . Deitado , insomne, com que ancia contava elle os dias que o separavam d'aquelle divino momento em que sós, elle e ella, na casa que ia sendo vagarosamente, caprichosamente preparada, longe de todo o bulicio, num recanto novo de bairro, quasi isolada como para maior segredo e liberdade, pudesse sentir o sabor d'aquella bocca vermelha . Tinha-a alli , sua , toda sua e para o sempre ! Afinal, toda aquella ancia desfizera-se na desillusão : que era o sonho ? uma mulher . Todos os seus pensamentos , todos os seus extases, todo o seu longo e ardente desejar alli estavam naquelle desenganó material e commum . Voltou rapidamente a cabeça e ficou um instante a olhar o corpo encolhido e immovel . Que havia nelle de superior aos outros corpos , tantos ! cujo calor, cujo aroma elle havia sentido e aborrecido com tedio ? Eram as mesmas as curvas , era a mesma a alvura da carne, era o mesmo o brilho fulvo dos cabellos, era o mesmo o lento alongar de membros , era o
EPITHALAMIO mesmo o estremecer das carnes , o mesmo o negar, o mesmo o ceder- vêr uma era vêr todas. O que nellas differia era apenas a exterioridade falsa, a apparencia enganadora, a originalidade da seducção- nesta o arranco brutal, naquella a languidez, um cerrar d'olhos mimoso, um carminar de faces, um sorrir meigo e pudico, por fim um abandono passivo de escrava humilde ; em outra sempre um tremer, um esquivar-se, um pedir choroso e risonho, ainda em outra a inercia da terra que se deixa lavrar insensivelmente ; na virgem o medo, o terror innocente do desconhecido ... que mais? era aquillo, aquillo só , falsas expressões externas d'uma mesma banalidade ephemera . O que torna a vida aprazivel é justamente a variedade que dá a illusão do novo e como poderia elle viver eternamente jungido áquella mulher que já lhe parecia um encargo, um tropeço na vida que elle sempre levara facil e contente, variada e a rir ? Como poderia ella descobrir encantos diarios que lhe dessem o imprevisto indispensavel á manutenção do desejo ? O amor é um puro instincto no bruto, no homem o amor é uma esthesia. E elle havia de viver, até quando ? repetindo aquella mesma scena como o enfermo que não pode ir além
EPITHALAMIO da diéta e, no regimen em que vive, mais deseja os acepipes que cheiram , as finas iguarias dos banquetes, os pratos artisticamente combinados dos jantares finos . Elle, então , que fôra sempre um caprichoso, que, nos hoteis , exigindo flores á mesa, levava a reler os menus com vagar, num antegosto lento e saboreado e compunha receitas de saladas, buscando ingredientes como um poeta rebuscaria rimas para um poema. Teria elle forças para manter perpetuamente o juramento que lhe fizera, se já se sentia attrahido pelo passado que procurava reivindical-o ? Todas as lindas creaturas que apertára nos braços nas suas noites delirantes - umas louras , outras morenas, passando e fugindo como sonhos que se não deixassem sentir muito tempo para não crear o enfaro, revoavam em nevoa nas suas reminiscencias, falavam-lhe com a voz subtil que se ouve a sonhar, desfaziam-se, recompunham-se, riam, torvelinhavam como as visões indecisas e fluidas do somno que se esvaem a um leve voltar no leito e raramente tornam, amedrontadas talvez . E era toda a sua vida que se havia de modificar por imposição dos deveres do cavalheirismo e da honra. Ainda na vespera, áquella hora , já o seu creado lhe havia servido o café e elle, com todas as janellas abertas, recebendo
EPITHALAMIO o sol do azul e o ar puro dos campos que por além se estendiam, verdes e deleitosos, com casebres de palha e gados como uma tela, só, agasalhado no robe de chambre, o charuto a arder, desfiando uma fina espiral de fumo , lia os jornaes , informando-se do mundo, conhecendo toda a historia da vespera, desde os combates em Tien-Tsin, á margem do Pei-ho , nas raias do imperio amarello até o assalto a um poleiro , a dois passos do seu jardim, numa chacara cujas arvores lhe entaipavam um trecho de paisagem . Toda essa liberdade feliz alli estava, sentia-a subjugada por aquelle corpo immovel, era a sua propria alma que jazia captiva, para o sempre, irremissivelmente . Ella acordára e, d'olhos abertos , grandes e lindos olhos azues , meigos como os d'uma creança, com mêdo de que elle desse pelo seu despertar, conservava-se quieta, immovel, batendo as palpebras, pensando . Era aquillo ! ... Ella não ignorava de todo o mysterio nupcial - a sua propria carne lh'o fôra desvendando aos poucos em suaves iniciações de sonho , adivinhára ainda alguma coisa mas nunca pensára que fosse tão rispida a verdaEPITHALAMIO de, tão cruel e brutal como um crime . Era aquillo o amor ! Toda a sua delicada esperança reduzira-se a um desacato, a um como assalto selvagem , no qual os mesmos beijos eram como punhadas que a maguavam doridamente na bocca e nos olhos . Sentia- se molle, quebrantada como se sahisse d'uma lucta violenta. Tremiam-lhe os labios seccos, um frio passava-lhe ao longo da espinha arripiadamente , a espaços ; tinha as pernas dormentes, pensava em estendel-as , tirando-as d'aquella posição contrafeita ; mas elle alli estava, elle, o cruel, o máo ; sentia-o perto, espreitando-a e escondia-se quietamente num fingido somno, refugiava-se naquella humildade , apavorada . Com que mêdo ella o vira caminhar no quarto onde apenas ficára uma lamparina sob a campana azul, vigiando como a lampada perenne das capellas . Com que mêdo ella o sentira no leito, agazalhando-se delicadamente como se lhe não fosse permittido ainda approximar-se, temendo alguma sorpreza : a repulsa, a ameaça, um grito que alarmasse toda a casa. Com que mêdo ella ouvira o seu appello tremulo e logo sentira a sua mão gelada que a buscava, seguindo-lhe os contornos do corpo virgem .
EPITHALAMIO . Oh ! a vergonha d'aquelle instante, o assombro, a agonia e, ao mesmo tempo, o ferver do desejo naquelle momento tremendo ! ... Que haveria no amor além d'aquella inenarravel tortura ? Por que não se deixara ella ficar na pureza com os seus idyllios immaculados e incruentos do sonho ? Um instante, como se a alma a houvesse abandonado, ficou como vasia, sem vida espiritual, alheia a tudo, d'olhos muito abertos , parados, com uma nuvem a empannal-os ; um suspiro que lhe subio do peito reanimou-a pelo terror- conteve-o. Pouco a pouco, porém, como se um calor a fosse envolvendo, o corpo se lhe foi aquecendo, o coração poz-se a bater com força, vagos frémitos esfusiavam-lhe a flor da carne . Elle ! sim , elle alli estava e era d'ella, só d'ella, para a eternidade ! outra não o teria , jámais ! E, como o pensamento febril creasse instataneos delirios, ella mergulhou anciosamente o olhar na mocidade d'aquelle homem que lhe pertencia e ficou como a debater-se em sombras, querendo descobrir as outras, as que elle amára, as que elle beijára, as que elle maguara com aquella irrefreavel violencia, subjugando, martyrisando e ameigando . Teria elle jurado a alguma outra o que lhe havia jurado, a ella ? não !
EPITHALAMIO Uma suave sensação de afago passou-lhe pelas faces finas, aflorou-lhe a nuca e ella lembrou-se do contacto do rosto amado e por todo o seu corpo foi então uma deliciosa caricia , um como bater de sol. Abriram-se-lhe os labios humidos, os olhos pararam extasiados e, esquecida do soffrimento , ia-se insensivelmente, irresistivelmente entregando ao sonho . De vagar, como uma cobra que se desentorpece, desenroscando-se ao sol, foi esticando as pernas , repuxou a colcha e logo sentio que elle se movia tambem, vagaroso . Estremeceu sorrindo e sorria quando ouvio a voz que a chamava com doçura , interrogando-a sobre a noite . Conservou-se calada, sem querer render-se ao carinho voluptuoso que a attrahia mas, á insistencia da voz, teve de responder- que dormira bem ; e elle ? Não teve resposta mas sentio o braço que se lhe insinuava sob o corpo , colhendo-o, buscando-a. Voltou-se languida , olharam-se e ella vio-lhe os olhos amortecidos e elle vio-lhe os olhos envergonhados . Ao vêl-o sahir, animou- se a deixar o leito, sacudindo as cobertas, linhos alvos e seda rosea e, afundando os pés nús na felpa espes
EPITHALAMIO sa do pellego, ficou a mirar-se ao espelho, toda branca na sua camisola de noiva, os cabellos rebrilhando ao sol que entrava pelos vidros acanellados de uma janella. As suas sandalias alli estavam juntas como dous vehiculos mimosos que a deviam conduzir ; no respaldo de uma cadeira antiga, incrustrada a marfim, dobrava-se o penteador de surah . Hesitava , braços cruzados, encolhida como se estivessę á beira d'uma agua muito fria, temendo affrontal-a, buscando coragem para o mergulho . Resolveu-se, por fim, e, ligeira, numa corridinha infantil, foi dar volta á chave , isolando-se : elle lá estava, no banho . Só então, certa de que ninguem a veria, adiantou -se airosa e, pondo-se diante do es . pelho que a reflectia da cabeça aos pés , procurou vêr se no rosto alguma coisa annunciava a sua transfiguração : a bocca parecia mais vermelha, talvez da pressão dos beijos ; os olhos pareciam maiores, talvez do espanto ; o collo parecia mais alto , mais cheio, talvez da angustia. E lá fóra esperavam-na com maliciosa curiosidade, commentavam, com certeza, a sua demora. Que horas seriam ? A pendula de bronze lá estava sobre o pequenino chiffonnier de páo rosa- dez horas . Juntou as mãos num espanto : Deus do céu ! tão tarde ! estavam todos de pé ... Como :
EPITHALAMIO havia de ser ?! ficou a pensar, sorrindo, e todos os seus dentinhos, em claros renques , brilharam no espelho . Como havia de ser ? Sentio um arripio e, acolhendo-se junto ao leito , no pellego , ficou a imaginar os disfarces de que se serviria para mentir á verdade, para illudir a curiosidade que a esperava . Deu d'hombros com indifferença ... não era a primeira ! e, calçando as sandalias, sentio a maciez e o aconchego do almofadado e , já esquecida de tudo, viveu um momento para aquelle gozo , arregaçando, com faceirice, a camisola para admirar os pésinhos brancos naquelle estojo de seda e ouro. Sahio, então, travessamente pela camara a olhar, a examinar os objectos, a admirar aquelles arranjos que ella mesma dirigira, revendo tudo, com o pensamento nelle . Estaria elle satisfeito ? elle, tão exigente , que vivia a falar sempre em Arte com um conhecimento raro . Estaria satisfeito ? Lembrouse, então, dos quadros , dos bronzes, dos marmores, dos estofos , das armas que elle trouxera . O gabinete era alli ao lado - lá estava a porta defendida apenas por um reposteiro . Elle deixara as janellas abertas, ella sentia o sol a illuminar todo aquelle admiravel interior. Abandonou as sandalias e , pés nús, timida, camiEPITHALAMIO nhou vagarosamente com o coração sobresaltado . Colhendo o reposteiro, afastou-o e pozse a olhar deslumbrada e orgulhosa. O sol enchia o aposento de uma luz geral e alegre que fazia realçar todo aquelle conjuncto rebuscado de damascos e metaes , marmores e madeiras todas escuras e severas , o ouro das molduras e os livros muito ordenados , todos com as lombadas vermelhas, com ferros . simples, nas altas estantes negras . A mesa solida sobre pés retorcidos, com pregaria e entalhes , as cadeiras de couro taxeado , o espaldar aprumado e alto , obrigando a attitudes graves , um grande sofá, veneravel reliquia tradicional dos seus que elle acceitára do sogro com muitos louvores ao trabalho e ao gosto respeitoso da familia que vinha trazendo do passado, através das gerações, aquelle movel reforçado e solemne . Alli ella, em pequena, brincara com as amigas : baptisados de bonecas , comedias infantis da vida que apenas sentia . As suas companheiras , que o destino espalhara, umas conservavam-se ainda solteiras , outras , casadas, já tinham filhos ; umas viviam longe, em fazendas, a Emilia lá estava na Europa, a Candida ... nem lhe falavam d'ella . Vagamente lhe haviam chegado os rumores d'um escandalo : que ella deixara o marido , que andava perdida ... Lá estava o velho
EPITHALAMIO amigo que as acolhera creanças , lá estava como remoçado na companhia d'aquelles alegres quadros , d'aquellas luzentes armas que fulguravam em panoplia na parede , d'aquelles bronzes , d'aquelles marmores . De repente, num augulo , uma mancha muito clara chamou-lhe a attenção - apertou os olhos e, para ver melhor, adiantou-se, inclinou o busto, atreveu um passo no gabinete, por fim, resolutamente , atravessou-o em pontas de pés e lá foi vêr de perto e poz-se a rir ao dar com um menino , um rechonchudo menino nú , os cabellinhos encaracolados , rindo, rindo contente, com um ninho nas mãesinhas gordas como a mostral-o e, ella, diante d'aquelle riso da pedra esqueceu tudo e enlevada, enternecida, ficou sorrindo, não da graça ingenua da figura, mas da belleza, da innocencia, da travessura da creança que parecia vir de um sonho, accentuando-se pouco a pouco linda, meiga e viva como se viva fosse . Em torno , o sol da manhan rebrilhava e aquecia e ella sorria ao marmore de sombra.
- VIUVAS
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