Universo da obra
Universo da obra
A o entrar, com uma assustada vivacidade, ainda commovida e agitada das emoções d'aquellas horas tão curtas, sentindo ainda uns arripios de goso phosphorejarem-lhe á flór da pelle, fogosamente passeiada por aquelles labios adorados deixando , onde tocavam, um fervor de beijos que pareciam ter ficado, vivos e quentes, escaldandoThe a carne, foi logo para os seus aposentos , fechando-se , com receio de que a esperta creada apparecesse e, com a longa pratica que tinha de mulheres, despindo-a, logo descobrisse nas suas brancas espaduas e no seu collo turgido, onde os pequeninos seios, abotoados em bico roseo, conservavam ainda a resistencia virginal, algum vestigio d'aquella
SONHOS bocca allucinada que andára como a querer arrancar-lhe a vida, sorvendo-a, sugando-a pelos poros . Mesmo no ajustar do collete , no abotoar do corpinho devia haver enganos denunciadores porque elle, a rir , desageitado e tremulo, puzera uma tão estouvada pressa, que tudo devia estar em desordem facil de ser constatada por quem era tão habil e cuidadosa no vestir e ainda a vestira naquella manhan, observando, com intenção, talvez, todos os geitos , as minimas dobras e arrepanhos da cambraia e da seda para certificar-se, ao despil-a, da sua virtude ou sorrir maliciosamente do seu primeiro peccado . Vendo- se ao espelho alto achou-se mais bella, com côres mais vivas nas faces, um brilho mais scintillante nos olhos e ficou a rir, recordando peripecias d'aquella manhan tão cheia de sorprezas para a sua alma ingenua e de gosos tão novos para a sua carne honesta : assaltos lascivos que a faziam rir, contorcida , rebolcando-se no largo leito , a debater-se numa afflicção deliciosa, fugindo áquellas mãos nervosas e áquelles beijos loucos . Começou a despir-se ligeira, com a pressa saltitante e trefega d'um passarinho que se espanneja e sacóde nagua, batendo tremula
SONHOS mente as azas, arrufando as pennas . Em camisa , espesinhando a roupa, correu para a cama, atirou-se de costas e, estirada, as pernas cruzadas , ainda com as botinas que lhe comprimiam a carne roliça que transparecia nas meias abertas , os braços em curva na almofada, como um reverbéro á cabeça muito loura , ficou a scismar, arrependida d'aquelle crime ingrato e anciosa pelo dia do futuro encontro e dos novos delirios . Mas as horas corriam- resolveu, então, chamar a creada : abrio a porta, tocou a campainha e, quando Dolores appareceu, toda assustada, estranhando que ella se houvesse despido só , pretextou uma vertigem - «subira as escadas a correr, com a vista turva, tonta ; nem mesmo se lembrára de chamar, fôra arrancando tudo» ; e mostrou a roupa em amontoado abandono pelo chão , nos tapetes, atirada a esmo na ancia do soffrimento. Descançára, estava melhor ; ficára-lhe apenas um atordoamento . A creada, sem dizer palavra, foi recolhendo as peças do vestuario e ella, da cama, olhava, ainda receiosa de que alguma cousa d'elle houvesse ficado para denuncial-a -o seu perfume , talvez, que ella bem o sentia nas mãos , na bocca, como um sabor, e subindo-lhe de todo o corpo , em effluvios .
SONHOS Que differença entre elle e o marido ! Um claro, esbelto, com tão lindos olhos, d'um verde transparente, os cabellos muito louros, as mãos brancas e finas ; o outro pesado e gordo, com banhas flaccidas , moreno, a pelle aspera e viscosa , uma voz molle passando-lhe através das barbas negras como uma agua grossa e lodosa que rola vergando as hervas - d'um pantanal, sempre com o sarrido d'asthma e a tosse . Quando desceu para jantar, depois d'uma ablução ligeira, perfumada a feno, de branco, os lindos cabellos em bandós , á antiga, com uma penca de angelicas no seio, o marido, que discutia finanças , no terraço, entre dois amigos bojudos, recebeu-a risonho, com ar de triumpho, mirando-a toda, a gozal-a, e ella com a sua compostura recolhida e modesta de educanda, inclinou-se , offerecendo-lhe a fronte por onde a grossa barba roçou, aspera e dura . Os amigos , que eram da intimidade, gabaram-lhe o esplendor de saúde affirmando que aquelles ares puros da serra e aquellas aguas que brotavam das pedras , entre folhas, pelos verdes cantos dos bosques, haviam de lhe ser mais uteis do que todas as drogas que ella andára a ingerir na cidade . Aquillo sim é que era viver. Quando tivera ella lá em baixo aquella encantadora sorpreza de receber visiSONHOS tas de borboletas na sua propria camara ? d'isso só alli na serra . Ella sorria . A' mesa a conversa encaminhou-se para as festas que se preparavam : o cottillon do Club , a garden-party do ministro russo e o baile na legação japoneza, do qual já se diziam maravilhas- que a senhora do ministro , a elegante madame Kádura traria os trajos tradiccionaes do seu paiz e um dos amigos rosnou : que ouvira falar em certos vinhos preciosos , d'uma ilha celebre do grande imperio, que alcançavam grandes preços, mesmo em Tokio . A palestra aquecia-se- romperam as indiscrições dos fins de jantar : casos da vida elegante , cochichos maliciosos . Um dos amigos , medico , a proposito da influencia irresistivel que certo secretario de legação, homem feio e grosseiro, exercia sobre algumas senhoras da alta roda, falou do dominio imperativo da vontade de uns tantos privilegiados sobre creaturas frageis . «Ha homens tão poderosos que, com um simples olhar, seriam capazes de arrastar ao crime a propria Penelope .>> O commendador protestou escandalizado , o medico, então, para o convencer, referio um caso de sua clinica : « Certa dama que, depois de haver sido, por elle, tratada pelo hypnotismo , ficára de tal modo escravizada á sua vontade, que elle, ao sahir, sempre se voltava
SONHOS com medo de que ella o fosse acompanhando . » Riram . E foi então um longo citar de casos e de nomes : Madame F.; a menina L.; a mulher de fulano ; a filha de sicrano ; esta que, durante as crises , cantava, com uma voz admiravel e recitava Musset ; aquella que ficava dias a dormir, numa immobilidade de morte ; outra que prophetizava ; uma, somnambula, que errava, pela casa, á noite, sem esbarrar em um movel, d'olhos abertos , mas cegos . Foi então que o commendador, um tanto excitado, lançando um olhar malicioso á mulher, disse : - Eu tambem posso contar alguma coisa ; e, com intenção, explicou : conheço certa senhora que, a sonhar, é a coisa mais engraçada d'este mundo. Quem é ? perguntaram os dois . O commendador fitou a mulher que descascava tranquillamente uma pêra. Oral quem ha de ser !? Todos voltaramse para Dulce . -Fala- se de mim ? - De quem ha de ser ? -Não sei porque ... tornou com risonha indifferença . -Ah ! não sabes ...? sei eu. E fitando-a , com os cotovellos na mesa, o calice de Porto entre os dedos : E se eu disser ?! não te zangas ?
SONHOS -Zangar-me ? eu ... ! encolheu os hombros . Não me zango assim . Pois então lá vai ... Virou o vinho d'um trago e dirigio-se aos amigos : Sejam testemunhas de que eu vou falar com o consentimento d'ella ... sem isso eu não seria capaz de quebrar o sello do segredo . - Eu não tenho segredos ... - Ah ! para mim não os tem, nem os teria, mesmo que quizesse, garantio com um vozeirão e certeza . Pois ahi vai o caso . Os dois amigos sorriam attentos, no antegosto d'aquella confidencia . O commendador, voltando- se todo na cadeira, encarou de frente a mulher : Então decididamente não danças mais com o Braulio ? e desatou a rir com estrondo . Ella olhava-o impassivel. Vamos lá, responda. Não danças mais com o Braulio ? - Por que me faz esta pergunta ? Por que ? porque tu mesma juraste á tua amiga Clotilde que nunca mais dançavas com tal sujeito, e olha que o caso é para felicitações . - Pois não ! concordaram os dois . - Eu ouvi tudo, minha amiga. E nota que não andei a escutar pelas portas : estava tranquillamente deitado, quasi a dormir, quando começaste a resmungar e depois a tagarellar , que foi um gosto. E pensas que só sei que o
SONHOS Braulio foi posto á margem por insupportavel ? sei muitas cousas mais, sei toda a tua vida, dia por dia, hora por hora. Ella empallideceu e o marido repetiu: Sei tudo! E, afagando-a, ajuntou : Tenho em ti mesma um espião que me conta tudo . Basta que durmas para que eu saiba o que fizeste durante o dia : onde andaste, com quem conversaste, até as continhas que foste deixando ahi por essas lojas . D'olhos muito abertos, livida, Dulce fitava o marido triumphante . Um dos amigos, sentindo o peso do silencio, murmurou : -E' curioso, pois não ... E' muito curioso ! ... -E é isso todas as noites, não falha. Eu ja lhe acho graça e estou tão acostumado , que não durmo sem a costumada exposição que me faz a senhora minha mulher. -De sorte que, disse o medico, é como se ella lhe fizesse todas as noites a leitura do seu diario . Exactamente . Dulce mantinha-se calada, brincando com um raminho de violetas , sentindo o coração crescer-lhe no peito, tremendo, sem animo de levantar os olhos para o marido, que ria. Depois do cognac passaram ao terraço que o luar prateava. Emquanto os homens falavam ferindo ligeiramente assumptos varios, ella, debruçada á grade, olhando
SONHOS o jardim, pensava nas palavras terriveis do marido . «Sim, tudo quanto elle dissera era verdade . Aquillo com o Braulio ... ella só falára á Clotilde ... portanto elle soubera por ella mesma, que lh'o dissera na inconsciencia do somno . Assim, antes de amanhecer, elle ouviria da sua propria bocca a narração minuciosa de todos os episodios infames d'aquelle dia : a sua ida ao cottage, a entrevista com o amante, os beijos que trocaram, tudo quanto, no delirio d'um primeiro encontro, haviam praticado. E elle ? Oh ! conhecia-lhe a furia ciumenta ... ! Como havia de ser ? Como havia ella de dormir a seu lado ? Não ! passaria a noite em claro, uma, duas, tres, sempre, se preciso fosse ; deixar-se-ia morrer exgottada pelas vigilias, preferivel á morte violenta e dolorosa a punhal ou a tiro, porque tinha certeza de que elle a mataria . » Tremia e, apezar do frio da noite, estava alli ao relento tão insensivel como aquellas figuras de marmore, núas, que branqueavam na quietação do luar, entre as moutas escuras . Subito, porém , numa necessidade de ficar só , de pensar, pretextando uma dorsinha de cabeça , pedio licença e retirou-se. Subio para os seus aposentos seguida de Dolores , e , deu toda a luz ao gaz, despio- se e, com um leve penteador de surah, recostou
SONHOS se derreadamente na espreguiçadeira, com um romance . Quando se achou só não poude conter o pranto e, a soluçar, toda fria e arripiada de medo , olhava para o leito alvo como se fosse um altar de immolação . « Que horror ! meu Deus . Que horror ! E é verdade que eu falo á noite , já mamãe me dizia e Lucia ria de mim . Elle não mentio . Em solteira eu contava tudo ... E esse homem é capaz de matar- me ! » Foi á janella, abrio-a sobre a noite luminosa e quieta vendo , ao longe, como uma paizagem a carvão, o bosque negro sobre o fundo alvacento do luar. «Se fugisse?! mas como ? para onde ? só se fosse para o cottage, mas era tão longe, ao fim de um caminho tão deserto e áquella hora Bruno estava no Club. Deus do céu ! que ia ser d'ella, tão só, com aquelle homem que vivia a espreital-a, que tinha sempre uma observação a fazer, á volta dos bailes, por isto ou por aquillo - uma conversa mais longa, duas valsas com o mesmo cavalheiro ... Que ia ser d'ella ?>>> Um cheiro suave de jasmins embalsamava o ar e, de longe, numa dôce surdina, vinham sons de instrumentos , tão leves como aquelle aroma disperso na noite- era a orchestra do Club . «O que é preciso é que eu não durma .
SONHOS Passarei a noite aqui na cadeira, lendo e amanhan ... Amanhan desço com elle, a pretexto de vêr mamãe e ... abro-me com ella, digo-lhe tudo, peço-lhe que me salve ... Mas , que loucura ! Onde tinha eu a cabeça ? E é só á noite que eu sonho e falo ... é só á noite ... por que ? de dia, não . Levantou os olhos para o céu ; uma coruja atravessou os ares chirriando , o coração bateu-lhe com mais força e celeridade num presentimento de morte . Romperam vozes no jardim : «Até amanhan . Adeus ! Respeitos ! ... » eram os amigos que partiam . Sentio todo o sangue fugir-lhe, as pernas dobravam-se-lhe, de novo the subiram lagrimas aos olhos . Agarrou a cabeça a mãos ambas apertando-a com frenesi e, por entre os dentes cerrados, numa voz surda, poz-se a dizer : «Mas , meu Deus ! eu estava loucal eu estava louca ! » Conteve-se, de repente, ouvindo o pigarro do marido ; correu para a cadeira, com o romance e estirou-se a ler. Elle entrou vagaroso e vendo-a, muito sisuda, deteve- se á porta, perguntando : Estás zangada ? Ella teve uma inspiração instantanea e conservou-se immovel, d'olhos no livro, séria. Elle adiantou-se, insistindo : Estás zangada ? - Ah ! não , hei de estar muito satisfeita ... se lhe parece. E encarou-o com severidade : :
SONHOS Pois o senhor acha decente o que fez ? humilhar- me em presença d'aquelles homens, como me humilhou ? Amanhan toda a cidade saberá que eu conto, em sonhos, tudo quanto faço e que o senhor, curioso de detalhes, querendo informar-se da minha vida, porque, certamente , desconfia de mim , véla até tarde, como um tyranno, para ouvir o que digo ... e todos rirão de nós, mais do senhor que de mim . Algum d'elles já lhe fez confidencias escancarando a sua alcova para a devassa ridicula a que o senhor sujeitou a nossa intimidade ? não ! é que preza, talvez, mais a sua casa e respeita , como deve, a sua familia . Elle passeiava cabisbaixo, alizando a barba negra e dura. Eu sei que falo quando durmo , sei : já em solteira era assim, muitas vezes mamãe levantava-se para acordar-me : sonhava com as minhas leituras , com as minhas palestras, com os meus brinquedos e nunca mamãe andou a repetir as palavras que eu pronunciava na irresponsabilidade do somno ... O senhor não : escolheu-me para assumpto ridiculo da palestra, sujeitou-me ás gargalhadas dos seus amigos e ao riso dos creados. Fez muito bem . Eu , francamente, sempre pensei que o respeito que se deve a uma senhora não consistia apenas em não injurial-a e em lhe não bater ... estava enganada - o homem póSONHOS de fazel-a corar tanto que o sangue lhe rebente das faces ... e desatou a chorar . Elle ajoelhou-se arrependido, tomou-lhe as mãos e, beijando-as, beijando-lhe os cabellos , poz-se a pedir perdão, confessando que fôra uma tolice, «um pouco mais de vinho ... » -Sim , sim ... mas, que diabo ! não fôra com intenção de offendel-a... até lhe pedira licença. Bem percebera que ella se havia retirado maguada, elle quizera acompanhal-a, mas ... com aquelles homens lá em baixo ... Eram aguas passadas ... E levantou-a, apertando-a nos braços, raspando-lhe o rosto fino e molhado de lagrimas com a barba negra e dura. Deita-te, anda ! e não se fala mais nisso . Foi uma tolice, foi, confesso, mas não se fala mais nisso . Põe-te á vontade e nada de choros . Sentes alguma cousa ? dóe-te a cabeça ? não ... melhor. Tu o que estás é nérvosa . -Ah ! não hei de estar ... Nem eu sei mesmo como não tive aqui um ataque . E, despindo o penteador : Quem é que liga importancia a sonhos ? só um homem como o senhor ... -E quem te disse que eu ligo importancia a sonhos ? não ligo tal... falei por falar... Tolices . Mas , deita-te. Diminuio o gaz. Queres que apague ? fechou-o e, á luz branda e rosea da lamparina, dirigio-se para a cama
SONHOS onde a mulher já se havia agazalhado, e pensava : «Que faria elle se a ouvisse . Não , o melhor mesmo era conservar-se acordada- dormiria durante o dia . » Quando o sentio no leito, ouvindo o sarrido d'asthma, estremeceu . Um brilho fino e acerado do biseau do espelho deu-lhe a fria impressão d'uma lamina mortal !- encolheuse com um grande medo, combatendo o somno . Sentio que o braço do marido se lhe ia insinuando sob as costas , soergueu-se de leve. Despertou sacudida e, sentando-se, estremunhada , deu com o marido a miral-a e logo , com terror, comprehendeu que sonhara e que tudo dissera. Passando então as mãos pelos olhos , como a limpal-os d'uma visão, exclamou : - Que horror ! Que horror de sonho ... Ε' isto ... quando estou nervosa ... E, voltandose para elle : Eu falei ? Que disse eu ? Elle coçava vagarosamente o peito largo e respondeu : -Tolices ... Tolices ... Mas dorme , descança . Instantes depois, no silencio, aconselhou : O que tu deves é deixar essas leituras de romances francezes . E ella , comprehendendo a allusão , acolhendo-se ao seu peito, fazendo-se pequenina junto d'elle, murmurou :
SONHOS -Eu , ás vezes, sonho cada extravagancia ... E tu ainda dizes que eu conto a minha vida... -Pois sim, pois sim... não se fala mais nisso . E dorme que estás nervosa ... e meigamente , a offegar com a asthma, poz-se a amimar-lhe a cabecinha loira .
CORAM
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