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Água de Juventa

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Água de Juventa

Capítulo 18 · Água de Juventa

Os paes

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M ANDA- O entrar, disse o barão ao creado que lhe annunciava o ferreiro . O gabinete, que abria para o terraço, recebendo, por duas largas portas , o ar puro e a luz viva do parque, era de gosto severo, com a sua mobilia macissa de jacarandá esculpido : immensos armarios atulhados de livros , cadeiras d'alto espaldar, com a pregaria a luzir nos rebordos de couro lavrado, quadros serios nas paredes sombrias e dois bustos, em bronze, de pensativos philosophos , sobre columnas negras . O barão , com o charuto ao canto da bocca, revolvia distrahidamente uns papeis, acamados na secretária, sob um pesado blóco de crystal, quando um homemsinho appareceu á

OS PAES porta, muito acanhado, a machucar o chapeu d'encontro ao peito. Moreno, a pelle gretada e côr de ferrugem contrastava com os cabellos hispidos , muito rentes, d'um amarello queimado, como se o fogo da forja, diante da qual elle passava os dias a malhar, desde as cinco da manhan até as ultimas luzes da tarde , lh'os houvesse tostado. As mãos rugosas, possantes, eram quasi negras . Vestia aceiadamente : calças e casaco de brim riscado, camisa de chita, e o pescoço , com o relevo das cordoveias turgidas e roxas, estava esganado pelo collarinho, que uma gravata esfiapada arrochava como um baraço . -Entre, disse o barão . O homem adiantou-se, curvado como ao peso d'um fardo , sem levantar os olhos . O titular puxou a porta, fechou-a á chave e, caminhando serenamente para a secretária, offereceu uma cadeira : -Sente-se . O ferreiro hesitou um instante, mas, a um gesto imperativo do barão , sentou-se, com os joelhos muito juntos, sempre a esmagar o chapeu . Então, meu caro snr. Bento, que se faz ? O homemsinho torceu-se na cadeira e , sorrindo, com a cara tisnada cheia de rugas, deu d'hombros . Houve um silencio entre os dois :

OS PAES o barão folheava os papeis, o ferreiro virava e revirava o chapeu nas mãos . Fóra, no terraço , os canarios cantavam , e um fresco murmurio d'agua tremia no silencio . Ora , vamos lá ao nosso caso, snr. Bento , disse o barão, consultando o relogio ; são dez horas, e eu hoje tenho de estar cedo na cidade . Está então resolvido ? O ferreiro poz-se a sacudir a cabeça, com um risinho velhaco . - Eh ... v. s.a sabe ... cá por mim, eu já disse o que é : a gente não tem tempo para andar com justiças. Assim como assim, o mal está feito ... ha de ser o que Deus quizer. Foi um máo passo, foi ; mas agora ... que se lhe ha de fazer ? Era a unica esperança da gente, não temos outra filha, e, v. s. sabe : ella, casada, com um bom marido, sempre era um auxilio . -E quem lhe diz que não ha de casar ? -Uhm... essas coisas sabem-se, por mais que se escondam. Não é lá pela mulher em si , que isso não lhe tira a virtude, cá no meu parecer, mas a honra, v. s.ª sabe, é, como quem diz - o rotulo . Sem isso ... é custoso -esticou o beiço meneando com a cabeça desoladamente . Eu , por mim, não fazia grande questão ,

OS PAES mas a mulher ... V. s.a sabe : um homem não é só e, em casa, quem governa é a mulher : ella é quem põe e dispõe . A filha atirou-se-lhe nos braços a chorar, contou-lhe a desgraça, e ella, que tem genio, fez um escarceu dos demonios- quiz ir logo á justiça, aos jornaes ; até falou em cá vir fazer um escandalo . Custei a contel-a, e disse-lhe : Olha lá, não te ponhas ahi a berrar ; para que hão de os outros saber ? Havemos de arranjar tudo pela melhor . O snr . barão é um homem de bem, eu vou ter com elle e falando é que a gente se entende. V. s . recebeu-me aqui assim, disse-me a coisa ao certo - que a verdade é que v. s.ª tem tanta culpa nisso como eu- e cá estou para a combinação, sem barulho, porque eu só quero o que é justo . A pequena é bonita, isso é ... e o moço ... que diabo ! ... Eu tambem fui rapaz. A gente foge-lhe , mas o diabo parece que se mette no meio ... Eu , por mim ... O barão interrompeu-o : -Mas , vamos lá saber, snr. Bento : que resolveu a sua senhora ? -Ella ... a dizer a verdade, está na mesma: diz que a pequena é menor e coisas , fala de leis que ouvio nomear e então acha que

OS PAES v. s.ª devia dar um poucochinho mais ... que a pequena, coitadita ... ! a gente com dinheiro na mão póde arranjar qualquer coisa, nem é preciso dizer o que houve, está bem visto ... mas o dinheiro ... v . s.ª sabe . - E então ? não lhe chegam os cinco contos? - Ella é que teima. Eu por mim, cá não tornava a maçar v. s. Estou aqui porque, emfim, sou o homem da casa. Ella tem sua razão , isso tem . A gente com dinheiro vê uma coisa, vê outra, faz sempre um negocio melhor. Eu não quero um vintem para mim, estou velho mas, para a casa e para o bocado, ainda o braço ha de dar... o que vier será para ella . Quando era perfeita, emfim... sempre havia esperança, que ha por lá rapazes que a querem , isso ha ... mas, v. s . sabe : são todos os mesmos , rezam pela mesma cartilha : rondam, rondam mas , se a mulher não está como Deus a fez , atiram-na p'r'ahi á tôa e vão - se ! Ella tem a carinha, que é bonita, isso é mas , v . s . sabe - é costume, é lei do mundo . A mulher para casar quer-se pura, como um fato novo . -Sim... sim ... mas resolvamos , snr. Bento . O senhor tem a sua officina, eu tenho o meu escriptorio, não podemos estar aqui a

OS PAES gastar palavras . Eu offereço um pequeno dote á sua filha, não lhe estou propondo um negocio . Sua senhora insiste na ameaça da denuncia, pois denuncie : os juizes hão de fazer justiça a quem a merecer. Todas as provas são contra a Maria- estão ahi os creados promptos a jurar que era ella quem provocava meu filho. Ora diga-me : que ia ella fazer todas as noites lá embaixo, aos aposentos do rapaz? Elle tinha o seu creado e a unica rapariga que entrava na sua sala de estudo, no seu dormitorio, era a Maria ... para que ? Demais quem poderá affirmar que ella era ainda pura quando o senhor a trouxe ? O ferreiro poz-se de pé e affirmou com segurança, estendendo a mão num gesto de juramento : a -Lá isso não ... tenha v. s . paciencia - eu garanto ! Oral o senhor ... Ella não dava um passo fóra de casa sem uma pessoa de confiança. V. s.ª póde tomar informações . Pois sim , mas isso não vem ao caso. - Não, mas a verdade deve-se dizer. Que ella veio para aqui pura isso ... Depois d'um silencio o barão continuou seccamente : -Pois é isto , meu caro snr. Bento : mantenho o que disse e nem mais um vintem.

OS PAES Se quer o dinheiro, elle aqui está- abrio uma das gavetas da secretária e tirou um pacote, desembrulhou-o mostrando as notas - se não quer ... encolheu os hombros com indifferença e, lentamente, poz-se a refazer o maço , prendendo-o com um elastico. Estou pelo que quizer. Se prefere a justiça, vamos á justiça : sua mulher que denuncie o crime, o meu advogado fará o que fôr conveniente e, no fim, veremos quem tem razão . O rapaz está longe. O ferreiro murmurou humildemente : -E' , eu sei : a pequena leu num jornal que elle embarcou para a Europa... e chorou, a coitada ... - Já vê o senhor. -Mas , eu já disse a v. s . que, por mim, isto já estava acabado . Assim como assim, não ha remedio mesmo . A questão é a mulher. Eu se repetisse a v . s . o que ella me diz ... sei lá ! A's vezes até parece maluca , palavra de honra ! Não sei quem foi que lhe metteu na cabeça uma historia de casamento que é, desde a manhãsinha até á noite , a mesma cantilena : que eu vá á policia, aos jornaes e conte tudo como se deu, porque, lá diz ella, um homem que perde uma moça é obrigado, por lei , a casar com ella ... -Tolice! resmungou desdenhosamente o barão sorrindo .

OS PAES -Pois é o que eu digo. Porque eu sou pelo que é justo, isso sou. Não tenho estudos mas sei vêr as coisas. Um moço como é o filho de v. s.ª, de bôa casa, rico, quasi a formar-se, não é para casar com uma pobresinha, filha de um ferreiro, que mal sabe assignar o nome . Isso não ! eu sou pelo que é justo ... Mas a mulher, v . s sabe, ellas quando teimam ... é pr'alli ! e ninguem as tira do proposito . A coitada é mãe ... E é por ser mãe que augmenta o preço ... ? -E' o que ella diz . Eu por mim já ando enfarado . Garanto a v. s . que não é por meu gosto que vivo mettido nisto. Sou um homem de trabalho e quem me tira os meus ferros tirame tudo . O barão ia e vinha lentamente, mordicando o bigode grisalho. De repente parando diante do ferreiro, disse : -Homem, acabemos com isto. Dou mais duzentos mil réis, serve ? O ferreiro , de cabeça baixa, retorcia as abas do chapeu . Tenho que fazer, não posso estar aqui a perder tempo. Pois, vá lá ! exclamou o Bento atirando o braço num gesto pródigo . Vá lá ! estamos aqui os dois a perder tempo e palavras. A mulher ha de cançar... e que fale. O que é justo éjusto.

OS PAES - Sabe escrever? perguntou vivamente o barão . -Eu, a dizer a verdade, faço p'r'ahi uns garranchos , mas entendem-se. Sei p'r'o gasto . E bamboleava- se . O barão estendeu um caderno de almasso sobre a pasta, tomou uma caneta, molhou a penna e entregou-a ao ferreiro . O homem deixou o chapeu na cadeira, sentou-se á secretária e, muito curvado, foi garatujando , letra a letra, o que o barão lhe dictava : «Recebi do snr. barão de Souzella a quantia de cinco contos e duzentos mil réis ... » O barão hesitou um momento, a remorder o bigode , preoccupado ; por fim, resoluto, proseguio : ... «pelos serviços prestados por minha filha Maria em sua casa . » Quando o ferreiro, com o rosto a luzir de suor, concluio a phrase, respirou desabafadamente, como alliviado . O barão tomou uma estampilha e collando-a, impoz : - Dacte e assigne . Concluido o penoso trabalho o ferreiro afastou- se da secretária esbaforido . O barão passou os olhos pelo papel e, tirando a carteira do bolso, puxou uma nota de duzentos mil réis que reunio ao pacote : Aqui tem, disse . E' bom contar . -Ora ! perdõe v. s .*... escusou-se o Bento . Não , senhor : conte. O homem, então ,

OS PAES cedendo, desembrulhou vagarosamente o pacote , abrio as notas e, salivando o grosso dedo encoscorado e encardido , foi contando de vagar, com verdadeiro goso, os olhos muito brilhantes e fitos nas grandes cedulas novas que estrallejavam . Sorrio ao barão, agradecido e guardando o maço, tomou o chapeu e inclinou-se com humildade estendendo timidamente a mão aspera. Mas o barão, antes de abrirlhe a porta, falou com muita gravidade : Meu caro snr. Bento, o papel que alli fica é um documento, entende o senhor ? O ferreiro aprumou - se formalisado : -Ora essa ! Perdõe v. s . mas eu sou um homem honrado - o que está feito, está feito . Nem precisava o papel, bastava a minha palavra . -Pois é isso . - Então , muito obrigado a v. s.a E ás ordens . Desculpe v. s. a maçada ... Eu se cá vim foi porque a mulher ... v. s.ª sabe ... Perfeitamente ... Adeus ! E aos recuões, ás zumbaias, o ferreiro sumio-se no corredor . O barão respirou largamente e, de pé no meio do gabinete, ficou um momento a pensar, carrancudo. Subitamente , ao explodir d'uma idéa, tirou o lenço do bolso e sacudio a pasta que reluzia sobre a secretária, depois caminhou vagarosamente para o terraço .

OS PAES O sol rebrilhava na folhagem, já as rosas pendiam languidas . Debruçou-se á balaustrada e olhava os fundos macissos de verdura quando, á sombra da grande araucaria, descobrio o ferreiro que a sorrir, recontava vagarosamente as notas levando, de instante a instante , o grosso dedo á bocca.

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Água de Juventa

Sinopse

Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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