Universo da obra
Universo da obra
I Milkau cavalgava molemente o cansado cavalo que alugara para ir do Queimado à cidade do Porto do Cachoeiro, no Espírito Santo.
Os seus olhos de imigrante pasciam na doce redondeza do panorama. Nessa região a terra exprime uma harmonia perfeita no conjunto das coisas: nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente, nem a serra se compõe de grandes montanhas, dessas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e atraem como inspiradoras de cultos tenebrosos, convidando à morte como um tentador abrigo... O Santa Maria é um pequeno filho das alturas, ligeiro em seu começo, depois embaraçado longo trecho por pedras que o encachoeiram, e das quais se livra num terrível esforço, mugindo de dor, para alcançar afinal a sua velocidade ardente e alegre. Escapa-se então por entre uma floresta sem grandeza, insinua-se vivaz no seio de colinas torneadas e brandas, que parece entregarem-se complacentes àquela risonha e única loucura... Elas por sua vez se alteiam graciosas, vestidas de uma relva curva que suave lhes desce pelos flancos, como túnica fulva, envolvendo-as numa carícia quente e infinita. A solidão formada pelo rio e pelos morros era naquele glorioso momento luminosa e calma. Sobre ela não pairava a menor angústia de terror.
Absorto na contemplação, Milkau deixava o cavalo tomar um passo indolente e desencontrado; a rédea caía frouxa sobre o pescoço do animal, que balançava moroso a cabeça, baixando de quando em quando as pálpebras pesadas e longas sobre os olhos viscosos. Tudo era um abandono preguiçoso, um arrastar lânguido por entre a tranquilidade da paisagem. Os humildes ruídos da natureza contribuíam para uma voluptuosa sensação de silêncio. A aragem mansa, o sussurro do rio, as vozezinhas dos pequeninos insetos ainda tornavam mais sedativa e profunda a inquebrantável imobilidade das coisas. Interrompia-se ali o ruído incessante da vida, o movimento perturbador que cria e destrói; o próprio sol nascente vinha erguendo-se repousado na calmaria da noite, e os seus raios não tinham ainda a potência de alvoroçar as entranhas da terra sossegada. Milkau caía em longa cisma, funda e consoladora. Quem não esteve em repouso absoluto não viveu em si mesmo; no turbilhão a sua boca proferiu acentos que não percebia; hoje, sereno, ele mesmo se espanta do fluido perturbador que emanava dos seus nervos doloridos e maus. As eternas, as boas, as santas criações do espírito e do coração são todas geradas nas forças misteriosas e fecundas do silêncio...
Na frente do imigrante vinha como guia um menino, filho de um alugador de animais no Queimado. O pequeno, muito enfastiado daquela viagem e do companheiro, deixava-se conduzir pelo seu velho cavalo. Umas vezes, soltava uma palavra que ficava morta no ar; outras, para se expandir, resmungava como animal, esporeava-o e o fazia galopar descompassado e arquejante. Milkau nesses momentos atentava no menino e se compungia diante da trêfega e ossuda criança que era essa, rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dor surda e inconsciente das espécies que nunca chegam a uma florescência superior, a uma plena expansão da individualidade. E o viajante saía da contemplação, surgia do fundo dos seus pensamentos, e chamando a si o pequeno:
– Então, vens sempre ao Cachoeiro?
– Ah!... – disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana... – Venho sempre quando há freguês; ainda anteontem vim, mas desde muito não chegava ninguém da Vitória. Também choveu tanto estes dias!...
– De que gostas mais: de tua casa ou da cidade?
– Da cidade, nhor sim.
– Teu serviço em casa de teu pai é só acompanhar os passageiros para o Cachoeiro? – continuou Milkau no seu interrogatório, que despertava e alegrava a criança.
Esta respondeu-lhe agora prontamente:
– Ah! Nhor não!
– Que fazes então?
– A gente ajuda o pai... Às vezes, de madrugadinha, vamos para a pescaria levantar a rede. Hoje, antes do patrão chegar, estávamos já de volta... Também foi só cocoroca e um pinguinho... Só quatro... O rio está escasso. Seu Zé Francisco diz que é porque a água está fria, mas tia Rita diz que agora é tempo de lua e a mãe-d’água não deixa o peixe sair. O melhor é pescar com bombas; mas o subdelegado não consente e a gente tem que se cansar por nada.
– Aí no Queimado vocês não têm carne?
– Ah! Nhor sim, carne-seca na venda do pai, mas é para a freguesia. Nós comemos peixe, e, quando falta, a gente bebe mingau...
Continuavam a marchar pela estrada adentro. A paisagem não variava no desenho; apenas o sol começava a incendiar o espaço. Milkau fitava com bondade o pequeno guia; este sorria agradecido, abrindo os lábios descorados, mostrando os dentes verdes e pontiagudos, como afiada serra; mas o rosto macilento se esclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça.
– Quanto falta para chegarmos, meu filho? – perguntou ainda o viajante.
– Mais da metade do caminho; ainda não se avista a Fazenda da Samambaia, e de lá à cidade é o mesmo que para o Queimado.
– Tu voltas logo para casa, ou queres descansar um pouco? Fica até à tarde...
– Oh! patrão... O pai diz que eu volte já; hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha, após tratar dos animais, consertar a rede que a canoa de seu Zé Francisco arrebentou esta madrugada; e nós vamos à noite, antes da lua aparecer, deitar a rede, porque hoje, se a água estiver quente, é noite de peixe... O pai disse.
O imigrante compadecido testemunhava naqueles nove anos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseráveis. O pequeno, animado pela conversa, alinhava-se garboso no velho cavalo, empunhava as rédeas com firmeza, fincava as pernas de esqueleto e punha o animal num trote esperto. Milkau acompanhava instintivamente essa atividade, e os dois, assim, fugitiva ligação da piedade e da miséria, avançavam pelo caminho afora.
Pouco tempo depois, numa curva da estrada, o menino apontou para diante e voltando-se disse ao companheiro:
– Estamos na Samambaia.
Lá no alto da colina um casarão pardacento misturava-se à bruma azul-acinzentada do longe, e, à medida que Milkau prosseguia, o horizonte se ia estreitando, o morro na frente tapava a estrada, e parecia que esta, estirando-se num esforço, ia morrer sobre ele. Os viajantes margeavam ora o cafezal plantado na encosta das colinas, ora a roça de mandioca na baixada. A terra era cansada e a plantação, medíocre; ao cafezal faltava o matiz verde-chumbo, tradução da força da seiva, e coloria-se de um verde-claro, brilhando aos tons dourados da luz; os pés de mandioca finos, delgados, oscilavam, como se lhes faltassem raízes e pudessem ser levados pelo vento, enquanto o sol esclarecia docemente o grande céu e o ar era cheio dos cantos do rio e das vozes dos pássaros, que prolongavam a ilusão da madrugada. Sentia-se, ao contemplar aquela terra sem forças, exausta e risonha, uma turva mistura de desfalecimento e de prazer mofino. A terra morria ali como uma bela mulher ainda moça, com o sorriso gentil no rosto violáceo, mas extenuada para a vida, infecunda para o amor.
Milkau e o guia chegaram a uma porteira que fechava a estrada no trecho em que esta cortava as terras da Samambaia. O menino empurrou a cancela e com uma das mãos foi abrindo-a, enquanto ela rangia com um grito agudo. Milkau passou, e atrás dele uma pancada surda cerrou a estrada. Esta, logo ao penetrar nas terras da fazenda, descrevia uma curva que abraçava o vale e se aproximava da barranca do rio. O caminho barrento, pegajoso e úmido, cheio de sulcos de carro de boi, desprendia um cheiro de lama e estrume. Da estrada pelo morro acima o terreno era inculto, coberto de mata-pasto crescido, e sobre ele viam-se bois agitando com o movimento inquieto das cabeças a sineta que traziam ao pescoço, bufando e cantando insofridos a erva. Desenhava-se sob a pele dos pobres animais a rija ossadura. Faziam-lhes companhia aves de mau agouro, anuns que trepavam nas suas costas de esqueletos, piando como pássaros da morte.
Quando Milkau se viu em frente à casa, largou esquecidas as rédeas do cavalo e pôs-se a mirar em torno. O casarão, à vista agora, era grande e acachapado, com uma imensa varanda em volta, sem janelas, e para onde se abriam as desbotadas portas do interior. Fora branco, mas estava enegrecido, com uma cor parda e desigual; aqui e ali o bolor sobre as paredes traçava estranhas e disformes visagens; da varanda descia uma escada de madeira já com falta de degraus e com os corrimãos arrancados; na frente, crescia livre a erva com touceiras de mato rasteiro, apenas cortado pelas picadas que levavam da estrada e de outras direções à casa de vivenda. Ao lado, uma capela, havia muitos anos fechada, guardando no seu silêncio a voz da devoção, que por ali passara, transformada em ignorado e misterioso relicário de antigas imagens de santos, talvez belezas ingênuas de uma arte primitiva, simples e religiosa. E dentro da igrejinha, velados pelas divindades enclausuradas, jaziam no chão sagrado os túmulos de senhores e de escravos, igualados pela morte e pelo esquecimento...
O cavalo de Milkau continuava a passo, o guia bocejava indiferente e, erguendo uma perna, alçava-a sobre a sela num gesto de resignação. Voltando-se para a casa, viu um vulto que chegava à soleira da varanda, reconheceu-o e disse vagarosamente ao companheiro:
– Lá está seu Coronel Afonso.
Milkau cumprimentou, tirando cortesmente o chapéu; o homem lá no alto correspondeu, erguendo indolente o sombreiro de palha. O dono da fazenda, de pés nus, calça de zuarte, camisa de chita sem goma, parecia, com a barba branca, muito velho, atestando na alvura da tez a pureza da geração. A fisionomia era triste, como se ele tivesse consciência de que sobre si recaía o peso do descalabro da raça e da família; o olhar, turvo, apagado para os aspectos da vida como o de um idiota; o esgotamento das suas faculdades, das emoções e sensações era completo e o reduzira a uma atitude miseranda de autômato. Mas, ainda assim, ele representava a figura humana, a mesma vida superior envolta na queda das coisas, arrastada na ruína geral. E não há quadro mais doloroso do que este em que a ação do tempo, a força da destruição não se limita somente às tradições e aos inanimados, mas envolve no descalabro as pessoas, e as paralisa e fulmina, fazendo delas o eixo central da morte e aumentando a sensação desoladora de uma melancolia infinita.
Quase à beira do caminho estava a casa do forno, onde se preparava a farinha. Era um velho barracão coberto de telha carcomida e negra, sobre a qual um limo verde crescia, qual espessa e microscópica floresta. No interior estava armada a bolandeira, como uma sobrevivência das antigas moendas, e ao lado a roda onde no tempo do serviço se ralava a mandioca. Havia também dois tachos em que se mexia a farinha pelo processo rudimentar das pás. Eram de cobre e destoavam do resto da engenhoca. Milkau notou, além disso, no grande desleixo da casa abandonada, restos de maquinismos espalhados pelo chão, tubos, caldeiras, rodas dentadas, atestando ter havido ali uma instalação melhor, que o homem, caindo de prostração em prostração, perdendo todo o polido de uma civilização artificial, abandonara agora em sua decadência, para se servir dos aparelhos primitivos que se harmonizavam com a feição embrutecida do seu espírito.
Milkau prosseguia pela estrada, abrangendo ainda com os olhos o quadro dessa triste fazenda. O vulto do coronel ficava imóvel na soleira da escada, presidindo com o olhar pasmado ao desmoronar silencioso daqueles restos de cultura, esperando na lúgubre atitude do inconsciente a lenta invasão do mato, que numa desforra triunfante vinha vindo, circunscrevendo, apertando o homem e as coisas humanas...
Os viajantes continuavam a mover-se dentro daquela paisagem onde as forças da vida parecia estarem paralisadas e onde tudo tinha a fixidez e a perfeição da imobilidade, quando, quebrando o caminho à direita, eles enfrentaram quase subitamente com um rancho de moradores. Era um pardieiro armado em cruz, coberto de palha, cujas línguas se projetavam desordenadas da cumeeira. O pequeno guia adiantou-se para a casa, instintivamente, como movido por longo hábito. À porta do rancho um velho cafuzo com os olhos nevoados fitava vagamente o espaço, encostado ao moirão: apenas trajava uma usada calça, o tronco estava nu, e sob a pele ressequida desenhava-se a envergadura de um esqueleto de atleta; sobre o dorso, como em moribundo cepo de árvore, crescia uma penugem branca encaracolada, que subia até ao queixo e formava uma rasteira barba. A sua postura era de adoração rudimentar, de um nunca terminado pasmo diante do esplendor e da glória do mundo.
No batente da porta sentava-se uma mulata moça. Toda ela era a própria indolência. Os cabelos não penteados faziam pontas como chifres, a camisa suja caía à toa no colo descarnado, e os peitos de muxiba pendiam moles sobre o ventre; em pé, ao seu lado, um negrinho vestido apenas de um cordão ao pescoço, donde se dependuravam uma figa de pau e um signo de Salomão, mirava embasbacado os cavaleiros que se achegavam ao tijupá.
Milkau cumprimentou o grupo, que sem o menor alvoroço o deixava aproximar-se. Apenas o velho disse, respondendo à saudação:
– Se apeie, moço.
– Não, obrigado. Quero chegar cedo...
– Eh! Meu sinhô, daqui ao Cachoeiro é um instantinho. Olhe só... Vencendo duas curvas do rio, está-se na cidade...
Depois o velho, como se refletisse um momento e sentisse despertar em si uma ânsia de comunicabilidade, insistiu com Milkau para que se apeasse. O guia não esperou mais, pulou da sela, e, abandonando o seu cavalo, segurou pelo freio o do viajante, enquanto este punha o pé em terra e bocejava numa satisfação de repouso.
O estrangeiro apertou a mão calosa e áspera do velho, que abriu os lábios numa rude expressão de riso, mostrando as gengivas roxas e desdentadas. A cafuza não se mexeu; apenas, mudando vagarosamente o olhar, descansou-o, cheio de preguiça e desalento, no rosto do viajante. A criança acolheu-se a ela boquiaberta, com a baba a escorrer dos beiços túmidos.
Da porta Milkau via claramente o interior da habitação. A cobertura era alta no centro e pendia em declive tão rápido para os lados que nas extremidades um homem não podia ficar em pé; a mobília miserável e simples compunha-se de uma rede cor de urucu armada num canto, de outra dobrada em rolo e suspensa num gancho, uma esteira estendida no chão de soque, dois banquinhos rasteiros, um remo, molhos de linha de pescar e alguns pobres instrumentos de lavoura. Uma pequena divisão de palha, como que um biombo fixo, separava um dos cantos da peça, formando um quarto, onde se viam uma esteira e uma espingarda. No fundo, a porta abria para uma clareira do mato, na qual uma touça de bananeiras se multiplicava, e junto a essa porta pedras negras, que se misturavam a restos de tições apagados, indicavam a cozinha.
– Mora aqui há muito tempo? – perguntou Milkau.
– Fui nascido e criado nessas bandas, sinhô moço... Ali perto do Mangaraí. – E, tateando o espaço, estendia a mão para o outro lado do rio: – Não vê um casarão lá no fundo? Foi ali que me fiz homem, na fazenda do Capitão Matos, defunto meu sinhô, que Deus haja!
O estrangeiro, acompanhando o gesto, apenas divisava ao longe um amontoado de ruínas que interrompia a verdura da mata.
E a conversa foi continuando por uma série de perguntas de Milkau sobre a vida passada daquela região, às quais o velho respondia gostoso, por ter ocasião de relembrar os tempos de outrora, sentindo-se incapaz, como todos os humildes e primitivos, de tomar a iniciativa dos assuntos. Ele contou por frases gaguejadas a sua triste vida, toda ela um pobre drama sem movimento, sem lances, sem variedade, mas de quão intensa e profunda agonia! Contou a velha casa cheia de escravos, as festas simples, os trabalhos e os castigos... E na tosca linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua turva recordação.
– Ah, tudo isto, meu sinhô moço, se acabou... Cadê fazenda? Defunto meu sinhô morreu, filho dele foi vivendo até que Governo tirou os escravos. Tudo debandou. Patrão se mudou com a família para Vitória, onde tem seu emprego; meus parceiros furaram esse mato grande e cada um levantou casa aqui e acolá, onde bem quiseram. Eu com minha gente vim para cá, para essas terras do seu coronel. Tempo hoje anda triste. Governo acabou com as fazendas, e nos pôs todos no olho do mundo, a caçar de comer, a comprar de vestir, a trabalhar como boi para viver. Ah! Tempo bom de fazenda! A gente trabalhava junto, quem apanhava café apanhava, quem debulhava milho debulhava, tudo de parceria, bandão de gente, mulatas, cafuzas... Que importava feitor?... Nunca ninguém morreu de pancada. Comida sempre havia, e quando era sábado, véspera de domingo, ah! meu sinhô, tambor velho roncava até de madrugada.
E assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres de ontem, da sua vida congregada, amparada na domesticidade da fazenda, com o desespero do isolamento de agora, com a melancolia de um mundo desmoronado.
– Mas, meu amigo – disse Milkau, – você aqui ao menos está no que é seu, tem sua casa, sua terra, é dono de si mesmo.
– Qual terra, qual nada... Rancho é do marido de minha filha, que está aí sentada, terra é de seu coronel, arrendada por dez mil-réis por ano. Hoje em dia tudo aqui é de estrangeiro, Governo não faz nada por brasileiro, só pune por alemão...
Num estremecimento, o preto velho, com o olhar perdido no vácuo, a mão estendida fazendo gestos tardos e incertos, prosseguia no seu monólogo:
– Vosmecê vai ficar aqui? Daqui a um ano está podre de rico. Todos os seus patrícios eu vi chegar sem nada, com as mãos abanando... E agora? Todos têm uma casa, têm cafezal, burrada... De brasileiro Governo tirou tudo, fazenda, cavalo e negro... Não me tirando a graça de Deus...
E os seus olhos tristes obscureceram-se. A névoa que os cobria tornou-se mais densa, como que sobrecarregada agora da pesada visão da conquista da terra pátria pelos bandos invasores.
Seguiu-se um opressivo silêncio. Milkau recolhia o eco daquele queixume de eterno escravo, daquela mal definida resignação dos esmagados. Havia alguma coisa de aleijão nesse protesto, e a incapacidade de uma expressão livre e elevada fazia crescer a angústia. O velho continuava meneando a cabeça e resmungando um choro. A figura da filha, de uma indolência sinistra, dava maior opressão a tudo... Milkau sentia um estrangulamento, como se o peso de toda a responsabilidade da sorte daquela gente caísse também sobre ele. Lá dentro de si mesmo batia-se em vão para encontrar a claridade de um sentimento, a liquidez de uma palavra consoladora. Nada achou. Num gesto contrafeito despediu-se.
– Adeus, até à vista, meu velho.
O preto abanou-lhe a mão. Os outros da família ficaram quietos, apatetados.
Milkau caminhava pela grande luz da manhã, agora de todo inflamada. Os ventos começavam a soprar mais espertos e como que agitavam as almas das coisas, arrancando-as do torpor para a vida. O rio descia em direção contrária à marcha dos viajantes, e esses movimentos opostos davam a impressão de que toda a paisagem se animava e docemente ia desfilando aos olhos do cavaleiro. A fazenda, lá no alto, sumia-se no fundo do longínquo horizonte, o imigrante notava o manso desenrolar do panorama, como o de fitas mágicas: casas de moradores, homens, tudo ia passando, rolando mansamente, mas arrastado por uma força incessante que nada deixava repousar.
A estrada se alargava, outras vinham aparecendo, desconhecidas, infinitas e incertas, como são os caminhos do homem sobre a terra. A brisa fresca encanava-se pelas duas ordens fronteiras de colinas paralelas ao rio e trazia ao encontro do viajante um mugido sonoro de cascata. O rolar do Santa Maria batendo sobre as pedras amontoadas, despedaçando-se como um louco nas lajes, aumentava; e as suas águas revoltas, espumantes, recolhiam e reverberavam a luz do sol, como um vacilante espelho. Milkau ao longe, na mata ainda fumegante de névoas, uma larga mancha branca. Na frente o guia, estendendo o braço, gritou-lhe: – Porto do Cachoeiro.
Milkau, como se despertasse, respirou sôfrego, o corpo se lhe agitou e estremeceu nessa ânsia de quem penetra na terra desejada; mas o sangue em alvoroço saudou a aparição do povoado; os nervos, a vontade transmitiam um fluido ativo ao lerdo animal, que, ao sopro da viração, ao contato dos lugares próximos à cidade, fim das suas jornadas, também se transformou em vida; e agora, de narinas escancaradas, bufando, sacudia as crinas, relinchava asperamente, mordia o freio, curvava o pescoço e acelerava brioso o passo.
Então, de uma pequena elevação que ia galgando, Milkau, o olhar espraiado na paisagem, dominava a povoação apertada entre a montanha e o Santa Maria. Cheia de luz, com sua casaria toda branca, em plena glória da cor, da claridade e da música feita dos sons da cachoeira, represa do férvido rio que se liberta em franjas de prata, a cidadezinha era naquele delicioso e rápido instante a filha do sol e das águas.
Os viajantes continuavam apressados; as primeiras casas iam chegando: eram pobres habitações, como soltas na estrada para saudarem alvissareiras os viandantes. Mirando-as atentamente, Milkau observou que essas casas eram moradas de gente preta, de raça dos antigos escravos, e adivinhou-os batidos pela invasão dos brancos, mas ainda assim procurando os derradeiros e longínquos raios de calor humano, e deitando-se à soleira das cidades, para eles estrangeiras e proibidas.
Os viajantes desceram a rampa e foram ter a uma porteira, que o pequeno, tomando a frente, escancarou para dar passagem a Milkau. Entravam agora mais devagar na cidade.
– Onde se apeia, patrão? – perguntou solícito o guia.
– Em casa do Sr. Roberto Schultz. Conhece?
– Ah! nhor, sim, quem não sabe?... O maior sobrado da cidade... Domingo passado levei também um moço para lá.
Os cavalos arfavam, dando à marcha fatigada uma sensação de movimentos irregulares, como se descessem com medo montanhas pedregosas; uma espuma abundante ensopava-os, e, abandonados de rédeas, iam tropeçando nas pedras soltas da rua. Os olhos de Milkau tinham os estremecimentos das passagens bruscas dos panoramas contrários; não possuíam fixidez nem calma para precisar qualquer observação, apenas guardavam na retina inconsciente a vaga sensação de uma cidadezinha alemã no meio da selva tropical. Ao espírito do imigrante desceu uma confusa e tênue recordação de outros tempos, ao entrever essa população toda branca, e ao sentir a irradiação do sol batendo sobre as cabeças das crianças, como refulgentes chapas de ouro.
Chegados a um grande sobrado, o guia pulou lesto do cavalo e ajudou Milkau a apear; despediram-se como bons amigos, e, enquanto o viajante penetrava na loja, o menino voltava com os animais. O armazém de Roberto Schultz era vasto. Tinha quatro portas de frente, e as mercadorias inúmeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulência. Ali se negociava em tudo, em fazendas, em vinhos, em instrumentos de lavoura, em café; era um desses tipos de armazém de colônia, que são uma abreviação de todo o comércio e conservam, na profusão e multiplicidade das coisas, certo traço de ordem e harmonia. A loja àquela hora já estava cheia de gente, e Milkau, para chegar até ao balcão, foi desviando os fregueses ali amontoados em pé, todos indecisos, pesados, brancos e tardos alemães.
Disseram a Roberto que havia um viajante à sua procura, e imediatamente Milkau foi conduzido ao escritório, onde um homem taurino e barbado o recebeu. O imigrante entregou-lhe uma carta de apresentação, que ele principiou a ler, interrompendo-se de vez em quando para fitar o recém-chegado. Dos olhos deste baixava uma claridade suave, uma calma dominadora, que perturbava o velho negociante, ora a ler, ora a mirar pensativo e aborrecido. Afinal, dobrou vagaroso a carta e pôs-se a tamborilar na secretária.
– Então – disse por dizer, – vem com a ideia de ficar aqui?
Milkau afirmou essa resolução. Roberto começou a aconselhá-lo a que não se decidisse antes de ver bem as coisas por si.
– Isto aqui é triste e enfadonho. Vai-se aborrecer, afianço-lhe... Talvez fosse melhor ir para Rio ou São Paulo. Aí, sim, são os grandes centros de comércio, onde acharia um emprego com facilidade. A colônia é um engano; noutro tempo ganhava-se algum dinheiro, porém agora os negócios não marcham...
– Mas... – quis interromper Milkau.
Roberto não o atendia e continuava a arredá-lo, com as suas palavras, para longe do Cachoeiro.
– Na minha opinião, o senhor deve voltar hoje mesmo; nós estamos abarrotados de pessoal. Aqui em minha casa tenho gente demais, que vou despedir; em nenhuma casa de negócio da colônia o senhor se pode empregar. Que vale hoje o comércio com os impostos, com o câmbio, e com as contribuições da política?... porque nós aqui, apesar de estrangeiros, ou talvez por isso mesmo, somos os que sustentamos os partidos do Estado. As eleições não tardam, por aí já devem vir os chefes da Vitória, temos de hospedá-los, dar festas, arranjar eleitores; ora, tudo isso nos vai empobrecendo: o que se ganha é uma miséria para esses extraordinários...
– Mas eu não vim com destino ao comércio – afirmou decisivo o viajante.
– Como? Vem com o plano de ir para o café?...
E Roberto não ocultou a surpresa de ver um colono naquele imigrante tão bem-vestido para um simples cultivador.
– Ah! Isto é outra coisa – continuou o negociante agora amável. – Não há nada como a lavoura; vá para o mato, arranje a sua colônia e daqui a pouco tempo está rico. Olhe, a nossa casa está às suas ordens, nós lhe fornecemos tudo de que precisar, e, quando puder, vá nos mandando café. É o costume aqui, nós nos pagamos em gêneros... o que é uma vantagem para o colono – acrescentou baixando ligeiramente o olhar. – Chegou em boa hora para arranjar um excelente prazo nas novas terras do Rio Doce, que se vão abrir aos imigrantes. O juiz comissário mandou pregar o edital para as medições e arrendamentos; o agrimensor, o Sr. Felicíssimo, está no Porto do Cachoeiro, de viagem para as terras. É um rapaz alegre, que sempre nos aparece por cá; ele, o senhor sabe, é freguês da casa e é do partido.
Milkau agradeceu os oferecimentos do negociante e dispunha-se a partir em busca de uma estalagem quando o outro reclamou:
– Não vale a pena ir para o hotel. Aqui fica melhor; temos muitos cômodos para hóspedes, como é de uso... Depois, o senhor me pode ser útil agora, fazendo companhia a um moço chegado anteontem e também de família importante... Imagine: filho do General Barão von Lentz... O rapaz, porém, anda triste e sorumbático. Não sei o que será... Talvez vergonha de ter imigrado... Ah! esses rapazes...
E, sorrindo malicioso, ergueu-se, pedindo a Milkau que o acompanhasse. Este quase ia arrebatado no meio de agrados e cortesias devidas a um futuro freguês. Ambos atravessaram para o outro lado do balcão, dirigindo-se à escada do sobrado. Os olhos de Milkau deslumbraram-se à luz da manhã alegre e viva. À porta da loja uma velha de nariz adunco, de rosto de pergaminho franzido, chegava montada em sua mula e entre dois alforjes suspensos dos ganchos da cangalha. Na rua passava uma tropa de burros carregados de canastras de café e repicando campainhas.
No quarto em que entraram Roberto e Milkau, um moço, que estava a escrever, levantou-se para saudá-los.
Trago-lhe um companheiro – anunciou o dono da casa; – este patrício, que se deseja estabelecer no Rio Doce...
Voltando-se para Milkau, repetiu-lhe que estivesse como em sua casa e perguntou-lhe pela bagagem. O outro explicou-lhe que vinha tudo pela canoa, devendo chegar à noite. Roberto deixou os novos imigrantes.
– Pode continuar o seu trabalho – disse Milkau delicadamente.
– Não, o que eu estava a fazer não é urgente... Apenas matava o tempo.
E os dois se puseram a conversar sobre coisas vagas, sobre a viagem, o tempo, a natureza. E enquanto se entretinham, Milkau admirava a mobilidade da fisionomia do jovem von Lentz e não se cansava de observar o fulgor de seus olhos fulvos, dominando o rosto sem barba, cujas linhas eram acentuadas e fortes, e se projetavam de uma cabeça ampla, roliça como a de um patrício romano. Mas de par com esse súbito entusiasmo pela expressão cultural daquela jovem figura, Milkau sentia-se constrangido por ter encontrado naquelas paragens estranhas e remotas um filho de general alemão, um ser privilegiado na sua pátria, como um evadido do seu próprio e grande mundo, que viera sepultar sem dúvida no mistério das colônias uma parcela de angústia, de desespero e de desilusão...
Daí a momentos os dois novos se achavam na grande sala de almoço dos empregados do armazém e tomavam lugares à mesa. A sala era desguarnecida; as paredes, simplesmente caiadas, não tinham o menor enfeite, os criados serviam, automáticos como soldados, ao regimento de caixeiros que comiam silenciosos. Em todas as fisionomias daqueles homens tão diferentes, alguns, velhos de pele enrugada, outros, moços de perpétua adolescência, via-se estampado o pensamento único de cumprir o dever prático, de caminhar para a frente no conjunto harmônico de um só corpo. Milkau lia naquele ajuntamento de alemães o caráter camponês e militar que fundou a obediência e a tenacidade na sua raça e reduziu tudo o que podia ter de beleza, de elevação moral, à monotonia de um precipitado único. Onde estava a Alemanha sagrada, a pátria do individualismo, o recanto suave do gênio livre? perguntava a si mesmo Milkau no sussurro regular do almoço, contemplando o esquadrão de homens louros; e refletindo sobre a alma alemã, pensava que talvez somente se pudesse explicar a incógnita dessa alma pelas imagens e expressões incertas da vaga e simbólica metafísica. Quem sabe, continuava quase em sonho; quem sabe não foram um dia dois espíritos que se encontraram disparatados em um mesmo corpo, um servil à matéria, ambicioso, cúpido, procurando absorver o outro que voava docemente, e pairava sempre no alto, zombando de tudo, de homens e deuses, gerando puramente, sem conjunções torpes, nas regiões plácidas do ideal, as figuras da poesia e do sonho. E quem sabe como foi longo e pertinaz o combate entre as duas forças!... Mas houve um momento em que o demônio da terra venceu o espírito de beleza e de liberdade, e o corpo aí está hoje sossegado, sem ânsias, sem lutas, qual uma massa de escravos, a devorar os últimos restos do gênio do passado, divino alimento donde brota essa luz que ainda o ilumina na sua lúgubre e devastadora marcha sobre a terra...
Findo o almoço, os caixeiros saíram em ordem. Milkau e Lentz iam por último, vagarosamente, como hóspedes despreocupados. No quarto resolveram visitar a cidade; e quando daí a momentos passavam pelo armazém em direção à rua, Roberto os chamou.
– Está aqui exatamente o Sr. Felicíssimo, que segue depois de amanhã para o Rio Doce, a fim de fazer as medições.
Dizendo isso, indicava um moço magro, baixo e moreno, com o rosto talhado em triângulo, cheio de marcas de bexigas, uma chata cabeça de bacurau, em que os olhos negros cintilavam vivos e secos.
– O Sr. Milkau – continuou Roberto – acaba de chegar com o propósito de arrematar um lote de terras. Expliquei-lhe que neste momento o que há de melhor é o Rio Doce, e que o senhor me faria o favor de arranjar-lhe um prazo bem-situado.
– Pois não! – acudiu o agrimensor solícito e com um gesto de quem quer abraçar. – Sigo amanhã a me encontrar com uma turma que está em Santa Teresa; depois de amanhã bem cedinho nos pomos em marcha, e quando for lá pelas onze acampamos no porto do Ingá, no Rio Doce... Os senhores quando vão?
Lentz ficou embaraçado, e meio confuso respondeu:
– Para o campo?... Ainda não sei afinal o que farei na colônia... Dependo muito do Sr. Roberto...
O negociante coçou a cabeça e disse solene, em murmúrio, como se invocasse o testemunho dos mais:
– O Sr. von Lentz prefere uma colocação na cidade, no comércio... Mas o Sr. Felicíssimo é que pode dizer quanto isso é difícil...
As casas estão cheias, a ocasião é má... Esperemos, esperemos...
Felicíssimo perguntou a Milkau o dia da partida.
– É só para combinar tudo e quando chegar lá não haver demora. O negócio é fácil, o senhor requer um prazo, e o juiz comissário, que está agora para os lados do Guandu, despacha, mas não precisamos dele para fazer a medição. Na sua ausência estou autorizado a tudo, até mesmo a entregar os lotes aos colonos que os vão trabalhando... Entre nós as coisas não são feitas com luxo... Não temos formalidades... Tudo se arranja e legaliza depois. O que é preciso é pagar logo as custas...
Milkau interrompeu-o para se informar das distâncias.
– Daqui a Santa Teresa quantas léguas?
– Cinco. E de lá ao Rio Doce outras tantas. O senhor deve ir daqui até o alto de Santa Teresa, aí dormir e no dia seguinte tocar para o Rio Doce.
– É preciso um guia?
– Não... Estrada sem errada, e batida...
Roberto ofereceu-se para mandar guiar o imigrante por tropeiros que iam diariamente para essas bandas. Milkau agradeceu, dispensando o obséquio.
Deixando Roberto, saíram os três do armazém. Felicíssimo, que dizia não ter nada a fazer naquelas horas, propôs acompanhar os estrangeiros, dando assim expansão aos instintos de sua nativa e tranquila vadiagem.
Agora, o Porto do Cachoeiro abrasado de sol desvendava-se todo. A cidade era dividida em duas partes, que uma ponte ligava, mas podia dizer-se que só à margem esquerda era crescente, porque do outro lado as habitações se contavam, salteadas e raras. As casas daquela banda enfileiravam-se monótonas em frente ao rio, e nem um jardim quebrava a austeridade das moradas, nem um quintal margeava os caminhos, nem uma árvore sombreava as ruas. Pela primeira vez, porventura, nos trópicos, os habitantes de uma pequena cidade, como essa, não conheciam os prazeres do convívio dos animais domésticos, nem tinham a expansiva preocupação da cultura das plantas e das flores. Uma esterilidade rigorosa e sistemática estampava-se no perfil das casas, que eram apenas o abrigo de uma população de negociantes. Na rua, Milkau ia adivinhando a explicação moral daquela localidade, e uma impressão de angústia emanada da branca aridez da cidade o turbava, pois parecia-lhe que o bafo dos traficantes tinha matado a poesia, a graça daquele canto excepcional na natureza, onde eles haviam levantado as tendas da especulação. Felicíssimo ia pressuroso, contando os milagres da fortuna comercial daquela gente.
– Este sobrado aqui – dizia ele, apontando para uma casa esguia e igual às outras da rua – é de Frederico Bacher, chefe do partido da oposição; é o rival e o inimigo de Roberto. Chegou aqui sem nada; hoje, veja como está rico! E aqui são todos assim, todos têm muito dinheiro. Pode-se dizer que o comércio do Cachoeiro é mais forte do que o da Vitória... Ainda não se deu um caso de quebra... Esses alemães têm olho... Se fossem brasileiros, estava tudo arrebentado.
E o agrimensor continuava, nesse tom, a fazer o elogio das virtudes germânicas para o negócio, a economia, a facilidade de assimilação, a energia no trabalho, dando, como contraste a ela, as qualidades inferiores dos brasileiros, que ele se comprazia em proclamar, no gáudio de se mostrar, aos companheiros de passeio, justo e superior, e ao mesmo tempo com propósito lisonjeiro. Para se dar ar de importância e intimidade com os moradores, de instante a instante, deixava Milkau e Lentz na rua e penetrava pelos armazéns adentro, para trocar uma palavra com o dono da casa. Algumas vezes, conseguia arrastar do fundo das lojas até à porta os negociantes, com quem à vista dos novos tomava liberdades, dando-lhes palmadinhas nas costas, beliscões na barriga e dizendo-lhes injúrias por gracejo, ao que os alemães complacentes sorriam muito rubicundos, murmurando em tom de desculpa aos outros: – Esse Sr. Felicíssimo... Isso é um diabo...
Os três iam seguindo assim, despertando pelos gestos e pelas vozes altas do agrimensor a atenção da rua, mirados pelos tropeiros que descarregavam os animais e pelos fregueses que procuravam as lojas. Lentz não tinha o menor interesse em andar de casa em casa, à maneira fastidiosa e vulgar de Felicíssimo; e então, para se ver livre dessa obrigação enfadonha de correr passos de porta em porta, propôs que subissem a um dos morros que cercavam e abafavam ao mesmo tempo a cidade, e de lá desfrutassem a vista da região. Os outros concordaram e assim foram, guiados por Felicíssimo. Para galgar a montanha mais acessível, tiveram de passar além da ponte, por sobre a cachoeira cujos cavos borbotões os ensurdeciam; e os passos dos homens na ponte de madeira, em cima das águas que se quebravam embaixo, tinham vibrações sonoras e poderosas como se sobre ela passasse o pesado tropel da cavalaria. Do outro lado estava a montanha que se puseram a subir por uma vereda pedregosa e de cascalho solto, dando à marcha um movimento irregular e fatigante. Felicíssimo ia mais lépido, na frente, enquanto os outros, não acostumados ao calor, caminhavam dificilmente, alagados em suor. À proporção que eles subiam, morriam as vozes da cachoeira, vinham ao seu encontro o hálito perfumado das plantas montanhesas e o ar leve para lhes acalmar os ardores. A princípio, dentro do circuito dos morros, a perspectiva era estreita. Em cima, porém, eles dominavam a vasta região acidentada, e os olhos dos estrangeiros tiveram um delicioso instante de êxtase. O contorno arredondado das montanhas cobertas de uma relva basta, rente, fulgurante nas suas cores matizadas, o rio por entre os vales, o ar límpido e seco mantendo estável a atmosfera, a força da claridade desdobrando pelas colinas o panorama, a abóbada celeste de um imenso azul cobrindo docemente a terra, todo esse conjunto de luz, de cor, de traços dava à paisagem um aspecto total de grandeza e confiança.
Felicíssimo era o intérprete da região. Como perfeito sabedor, dava o nome às coisas e designava os lugares. Milkau estava sereno no alto da montanha. Descobrira a cabeça de um louro de ninfa, e sobre ela, e na barba revolta, a luz do sol batia, numa fulguração de resplendor. Era um varão forte, com uma pele rósea e branda de mulher, e cujos poderosos olhos, da cor do infinito, absorviam, recolhiam docemente a visão segura do que ia passando. A mocidade ainda persistia em não o abandonar; mas na harmonia das linhas tranquilas do seu rosto já repousava a calma da madureza que ia chegando.
Felicíssimo apontava em torno e ia designando os pontos do horizonte; os outros acompanhavam-lhe os gestos rápidos e, como em sonho, não podiam fixar os nomes bárbaros e estranhos que lhes feriam os ouvidos, mas se interessavam em guardar e acentuar as impressões que lhes vinham da região. Para o oriente era a terra do Queimado, cujo caminho se desenrola longo e sinuoso, ora numa planície descampada e risonha, ora por entre o verde de um mato raro, até a um pequeno grupo de casas que formam o porto do Mangaraí, à beira do Santa Maria, ali orgulhoso e folgado, com as águas desembaraçadas dos cachoeiros. Para o norte, para o sul, para o poente, as montanhas vão crescendo, amontoando-se como massas de pintura. Ali o Guandu, acolá Santa Teresa, duas regiões sombrias, que os colonos vão arrancando do silêncio misterioso da solidão. Sobre um vale cheio de sol um fio d’água cai longo e transparente como um grande véu de noiva. Para o poente, o Santa Maria margeia os cafezais, as casas de lavoura, e luta com as lajes negras que porfiam em retê-lo.
Milkau nesse panorama aberto lia a história simples daquela obscura terra. Porto do Cachoeiro era o limite de dois mundos que se tocavam. Um traduzia, na paisagem triste e esbatida do nascente, o passado, no qual a marca do cansaço se gravava nas coisas minguadas. Aí se viam destroços de fazendas, casas abandonadas, senzalas em ruínas, capelas, tudo com perfume e a sagração da morte. A cachoeira é um marco. E para o outro lado dela o conjunto do panorama rasgava-se mais forte, mais tenebroso. Era uma terra nova, pronta a abrigar a avalancha que vinha das regiões frias do outro hemisfério e lhe descia aos seios quentes e fartos; e ali havia de germinar o futuro povo que cobriria um dia todo o solo, e a cachoeira não dividiria mais dois mundos, duas histórias, duas raças que se combatem, uma com a pérfida lascívia, outra com a temerosa energia, até se confundirem num mesmo grande e fecundante amor.
Eles desceram da montanha; e entravam pela cidade, quando os armazéns se fechavam para reabrirem depois da hora do jantar. Nesse momento, via-se pelas ruas um movimento maior de gente que deixava as lojas e se recolhia às casas.
– Aqui – perguntou Lentz ao agrimensor, – quase todos são alemães?
– Sim, poucos brasileiros. No comércio, pode-se dizer, não há nenhum.
– Então, em que se ocupam os brasileiros do Cachoeiro? – indagou Milkau.
– Os que temos aqui são os do foro, os juízes, escrivães, meirinhos. Outros são também empregados públicos, coletor, agente de correio...
– E professores? – perguntou Lentz.
– Só um, porque a língua que se ensina por essas matas é o alemão, e os professores são alemães, exceto o da cidade... Padres também não temos, nem igreja, como devem ter reparado. Também não há necessidade, porque raros são aqui os católicos, e para os protestantes há três pastores nas capelas do Luxemburgo, Jequitibá e Altona... Os católicos do município são o povo do Queimado, do Mangaraí e outros pontos, onde está hoje a gente antiga da terra.
Felicíssimo continuava a dar notícias do lugar; os outros ouviam-no em silêncio, e a conversa foi assim espreguiçando até chegarem à porta da casa de Roberto. O agrimensor despediu-se, prometendo voltar no dia seguinte para os acompanhar em novas excursões.
Depois do jantar, que tinha corrido como o almoço, os dois novos subiram ao quarto, incapazes de sair à rua e de se ir meter às primeiras horas da noite na fábrica de cerveja, na outra margem do rio, como era o costume ali. Milkau estava fatigado da viagem e do passeio do dia. Lentz sentia-se esbraseado e abalado pela emoção vinda do encontro com o seu recém-chegado patrício, que, por motivos dele não percebidos, já tanto o seduzia e o prendia.
Sentaram-se os dois junto à janela aberta. A calma da tarde imobilizava as coisas, dando-lhes a tranquilidade, o repouso e a fixidez das pinturas. Nessa hora a natureza excedia-se a si mesma, tomando a expressão serena da arte. Os primeiros perfumes dos matos da redondeza desciam para embalsamar o panorama, e sombras leves vinham envolvendo o mundo. Os dois imigrantes contemplavam em silêncio, e uma saudade estranha, segredando-lhes, explicava o mistério dos quadros sonhados e nunca vistos, a nostalgia de ilusões que ali se realizavam agora...
– Parece que já vi este quadro em algum lugar – disse Milkau, cismado.
– Mas não, este ar, este conjunto suave, este torpor instantâneo, e que se percebe vai passar daqui a pouco, é seguramente a primeira vez que conheço.
– E por quanto tempo aqui ficaremos? – disse o outro num bocejo de desalento; e o seu olhar pairava preguiçosamente sobre a paisagem.
– Não meço o tempo – respondeu Milkau – porque não sei até quando viverei, e agora espero que este seja o quadro definitivo da minha existência. Sou um imigrado, e tenho a alma do repouso; este será o meu último movimento na terra...
– Mas nada o agita? Nada o impelirá para fora daqui, fora desta paz dolorosa, que é uma sepultura para nós?
– Aqui fico. E se aqui está a paz, é a paz que procuro exatamente... Eu me conservarei na humildade; em torno de mim desejarei uma harmonia infinita.
– É então por isso que vai para o mato? Não seria melhor ficar aqui no comércio?
– Não. Procuro uma vida estável e livre, e o comércio é torturado pela avidez e ambição... Além disso, penso que o trabalho digno do homem é a lavoura nos países novos e férteis como este, e a indústria no velho continente. O comércio não me atrai, com suas formas grosseiras, seus estímulos baixos, sua posição intermediária na sociedade. Não me sinto solicitado senão por coisas mais simples e aproximadas da situação do futuro. O senhor persiste em se dedicar aos negócios?
– Não sei bem o que faça... Estou indeciso, irresoluto. Penso que, se o comércio pode ser um meio de fortuna e de dar vazão às ânsias de jogador que há em cada homem, é também um caminho baixo e vil. Estou indeciso; e não fosse o medo do tédio da mata e da morte da agitação, eu talvez me abalançasse a ir trabalhar na lavoura.
A cidade estava iluminada frouxamente, com espaços longos de sombra, mas em outros pontos as luzes da rua e das casas caíam sobre as águas do rio, que as multiplicavam em seu espelho trêmulo. Lentz se calara. Perdia-se na noite o seu olhar, como em uma grande cisma; o seu rosto não tinha serenidade, as linhas estavam perturbadas, dando à fisionomia uma expressão de rancor e de inquietação. Parecia que dentro dele, num monólogo íntimo e doloroso, se prolongava a queixa contra o destino, e ele se debatia em vão, dentro dos muros fechados da sua sorte, num esforço de ave ferida para pairar nas regiões do seu sonho. Milkau apiedou-se daquele silêncio aflitivo e, deixando-se levar pelos bons impulsos da sua confiança abundante, disse ao jovem companheiro:
– Por que não iremos trabalhar no Rio Doce? O senhor talvez se ache aí mais feliz e mais independente. Podemos requerer um mesmo prazo, e, como não temos família, faremos uma sociedade e nos auxiliaremos mutuamente... E se se arrepender, poderá partir, que me não queixarei de ficar só, pois esse é ainda até agora o meu destino...
Essas palavras eram brandas e boas, e foram ditas com muita pureza de coração. Pelos lábios de Lentz passou um sorriso tão suave como franjas de um lago manso em que rapidamente se transformaram as fúrias de mar revolto, que era pouco antes a sua alma.
– Sim, veremos... Eu lhe agradeço muito... Por que não?... – murmurou numa emoção que, por orgulho, procurava domar.
Milkau regozijou-se, na perspectiva de ter um companheiro precisando de amparo e conforto no exílio. E também se alegrava por si mesmo, porque sentia os seus instintos de comunicação espraiar-se no convívio daquele rapaz, que lhe parecia tão inteligente, e cujos desígnios revelavam pelo menos uma alma em aspiração. Todavia não quis de um modo brusco e imprevisto decidir a sorte do outro imigrante pela sua. Esperava que ele refletisse mais, antes de se determinar a acompanhá-lo. Em Lentz o que predispunha a aceitar a companhia de Milkau era a indecisão em que estava de se abandonar à vida rude e mesquinha de caixeiro; era também a sedução intelectual por esse companheiro de acaso. Milkau não quis insistir e delicadamente desviou o assunto. Passou a conversar negligentemente sobre outras coisas.
– Então, tem-lhe agradado a terra? Esta verdura de primavera?
O esplendor do sol? A vegetação possante?
– Sim, tudo isto é forte e belo, mas eu prefiro os campos europeus com suas mutações, e seu quadro de montanhas, o seu colorido mais distinto.
– A Europa – atalhou Milkau – tem a tradição, que nos priva da liberdade de julgamento. Fora dela não sei se o Reno vale o Santa Maria, que, sem lendas, sem passado, reflete em mim por seus próprios merecimentos tanto encanto, com suas margens incultas, sua água límpida e borbulhante, seus chorões curvos...
– Oh! este sol implacável!... Aqui não há descanso para uma suave matização da cor. Sempre este amarelo a nos perseguir...
E com um gesto de mão sobre a cabeça, Lentz parecia querer arrancar de si a obsessão da luz onipresente.
– Breve se acostumará, e há de amar esta natureza até à paixão.
Eu já venho de longe e cada vez a admiro mais.
– Ah! Não é esta a primeira vez que vem ao interior do Brasil?
– Por este lado é a primeira vez... Antes, estive de passagem em Minas Gerais, logo que cheguei ao país, levando o plano de me estabelecer ali; mas não encontrando facilidade, dirigi-me para cá.
– Em que lugar de Minas esteve?
– No oeste... E foi uma grande viagem para mim. São João del-Rei é uma impressão única.
– Como? – interrogou curioso Lentz.
– Ali me pareceu ter penetrado no passado intacto do Brasil. Oh! Foi uma volta deliciosa aos tempos mortos hoje por toda a parte e que ainda lá prolongam a sua vida...
Lentz embebeu-se nas palavras de Milkau, que começou a contar-lhe a sua visita à velha cidade mineira. No Cachoeiro era silêncio, a luz das casas se apagara, os lampiões da rua espaçadamente ponteavam de luz as sombras da noite diáfana, da noite de verão que é apenas um instantâneo descanso do dia. A cachoeira mugia sempre, e o seu rumor igual e constante passava imperceptível aos ouvidos de Lentz, todo à escuta da narração de Milkau.
– Logo à primeira madrugada o meu sono de viajante fatigado foi cortado pelo repicar de sinos de muitas igrejas, o que me produziu um doce encantamento. Como a todo homem habituado às grandes cidades modernas, a música dos sinos era-me desconhecida na força e na sonoridade que tinha naquela manhã; mas, no entanto, essa música estranha não me feria, e eu a recolhia quase em êxtase, como se fosse uma antiga e revivida sensação, pois parecia que era entendida por uma alma longínqua que se despertava dentro de mim e tomava posse do meu ser... Deixei- -me ficar deitado, embalado pelas carícias do sono... E sonhava... O espaço estava cheio de sons, o ar leve da montanha flutuava como se todo ele estivesse impregnado de música; a natureza despertada pela alegria dos sinos volatilizava-se e librava-se leve no ar, a cidade fugia da terra carregada nas harmonias, voava para os céus cantando... E eu sonhava, ouvindo repicar, procurando a calma, o sono e o esquecimento... A Idade Média representava-se no meu sonho: povoados, castelos feudais, mosteiros, homens e coisas, todos ligados pelas vozes do campanário, que marcava no espaço a vida e a morte...
Milkau continuava a falar da velha cidade mineira, que ele definia como um santuário. O espírito da religião ali localizado dava-lhe o caráter e a significação. Dentro do seu recinto montanhoso, irregular e feio, deparava-se de instante em instante com uma igreja, todas elas singelas, tristes, erguidas mais pela necessidade da devoção que pelos carinhos da arte. As casas acompanhavam esse tom severo e despretensioso e eram assinaladas por pequenas cruzes negras nas paredes desbotadas. Tudo ali tinha um aspecto sacerdotal, tudo falava de religião, igrejas frequentadas quase todas as horas do dia, devotas procurando a solidão dos altares, as festas religiosas preocupando o povo e divertindo-o durante o ano inteiro. Na quaresma a irrupção religiosa era ainda mais crescente... Nesse tempo, às noites um padre saía à rua acompanhado da multidão cantando rezas. Uma cruz negra envolta nas dobras alvas do sudário, meia dúzia de tochas acesas, e era tudo. E lá ia a via sacra percorrendo os passos da cidade. Numa devoção alegre e radiante, na mais completa e bela confusão de classes, o povo seguia rezando pela rua em um murmúrio alto, fazendo coro às orações começadas pelo padre; e quando chegava aos passos, oratórios abertos nas ruas, cantava músicas suaves e ingênuas... A multidão, ajoelhada sob o céu límpido, iluminada pelos raios da lua, acariciada pela brisa fresca das alturas, implorava num sorriso: misericórdia!
Cercada de morros a cidade era guardada ainda por igrejas postadas nas alturas, como de atalaia. Pelas encostas das montanhas subiam os devotos em romarias piedosas aos santos padroeiros das capelinhas humildes. Nas tardes de verão (recordava Milkau) costumava desfilar um cortejo de seminaristas em férias e, às vezes, esse cordão negro sucedia cruzar com o bando infantil e branco das colegiais dirigidas por irmãs de caridade; os dois grupos não se aproximavam e se desviavam reverentes, subindo e descendo pelos morros, sobre os quais iam descrevendo longas e marciais teorias, até se sumirem no horizonte... E se à hora da ave-maria um devoto retardatário passando por aquelas montanhas saudava os seminaristas em nome de Cristo, os rapazes erguiam a cabeça com altivez para o céu, num relâmpago se descobriam, irrompendo-lhes do peito um grande, fervoroso grito, que a solidão da tarde no deserto tornava solene: Para sempre seja louvado!
A cidade ainda falava a outras tradições do velho Brasil. Sobre o seu terreno acidentado, sulcos abertos e profundos indicavam a passagem do homem terrível que por ali desentranhou o ouro. A paisagem está toda marcada de cicatrizes das feridas da terra, que assim maltratada e hedionda clama às gerações de hoje contra a devastação do passado. O homem moderno, limpo de coração, não deixará de sentir um frêmito de terror, reconstruindo no espetáculo daquela paragem morta todo o quadro de uma época feita de escravidão, de ouro e de sangue... Há casas ali que deviam ser zeladas como relíquias das melhores páginas da história de uma nação; por elas passaram mártires, nelas viveram sonhadores, e os habitantes do lugar ainda sabem ler nas paredes dessas casas conservadas, e povoadas dos restos de outrora, a poesia da liberdade e da grandeza de todo o País. E essa mistura de fé religiosa e patriótica dá um caráter distinto àquela antiga cidade, purificando-a momentaneamente dos vícios em que se vão dissolvendo as outras... Rematou Milkau esse quadro com algumas reflexões.
– Dou-me por muito feliz em ter ido a tempo de ver tudo isto, porque não muito longe esse conjunto de poesia, de tradição nacional, vai acabar. Na verdade, é com mágoa que sinto estar prestes o desmoronamento daquela cidade circundada de colônias estrangeiras, que a estreitam lentamente até um dia a vencer e transformar sem piedade.
– Mas isto é a lei da vida e o destino fatal deste País. Nós renovaremos a Nação, nos espalharemos sobre ela, a cobriremos com os nossos corpos brancos e a engrandeceremos para a eternidade. A velha cidade mineira da sua narração não me interessa, os meus olhos se projetam para o futuro. Porto do Cachoeiro tem mais significação moral hoje pela força de vida, de energia que em si contém que os lugares mortos de um país que se vai extinguir... Falando-lhe com a maior franqueza, a civilização desta terra está na imigração de europeus; mas é preciso que cada um de nós traga a vontade de governar e dirigir.
– Nas suas palavras mesmas – disse Milkau –, está escrita a nossa grande responsabilidade. É provável que o nosso destino seja transformar de baixo acima este País, de substituir por outra civilização toda a cultura, a religião e as tradições de um povo. É uma nova conquista, lenta, tenaz, pacífica em seus meios, mas terrível em seus projetos de ambição. É preciso que a substituição seja tão pura e tão luminosa que sobre ela não caiam a amargura e a maldição das destruições. E por ora nós somos apenas um dissolvente da raça desta terra. Nós penetramos na argamassa da Nação e a vamos amolecendo; nós nos misturamos a este povo, matamos as suas tradições e espalhamos a confusão... Ninguém mais se entende; as línguas estão baralhadas; indivíduos, vindos de toda a parte, trazem na alma a sombra de deuses diferentes; todos são estranhos, os pensamentos não se comunicam, os homens e as mulheres não se amam com as mesmas palavras... Tudo se desagrega, uma civilização cai e se transforma no desconhecido... O remodelamento vai sendo demorado... Há uma tragédia na alma do brasileiro, quando ele sente que não se desdobrará mais até ao infinito. Toda a lei da criação é criar à própria semelhança... E a tradição rompeu-se, o pai não transmitirá mais ao filho a sua imagem, a língua vai morrer, os velhos sonhos da raça, os longínquos e fundos desejos da personalidade emudeceram, o futuro não entenderá o passado...
Canaã, de Graça Aranha, é um romance brasileiro publicado originalmente em 1902 e aqui organizado a partir do texto eletrônico em grafia atualizada da Literatura Brasileira UFSC. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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