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Antes de Ir pra Cama

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Antes de Ir pra Cama

Capítulo 1 · Antes de Ir pra Cama

O Áudio do Liquidificador

Júlia Vidal tinha três regras para sobreviver em São Paulo sem virar personagem de reportagem sobre esgotamento, nunca responder cliente depois das dez, nunca comprar planta que exigisse conversa diária e nunca mandar áudio no grupo do condomínio. A primeira regra caía toda semana, a segunda morrera junto com uma samambaia chamada Creusa, e a terceira desabou numa terça-feira de chuva, quando ela tentou enviar uma reclamação privada para a melhor amiga e entregou quarenta e sete segundos de indignação ao grupo Torre B, Avisos Importantes, com cento e doze moradores, dois síndicos e uma senhora que reagia a tudo com figurinhas de bom dia.

O problema atendia pelo apartamento 904. Todo dia, às vinte e três e trinta, o morador do 904 ligava um liquidificador que parecia movido a rancor. Júlia não sabia se ele batia vitamina, concreto ou os próprios arrependimentos. Sabia apenas que o som surgia no momento exato em que ela abria o notebook para escrever a edição noturna da newsletter Antes de Ir pra Cama, um boletim anônimo sobre romance urbano, pequenos vexames e decisões que pareciam boas antes da meia-noite. Naquela noite, a newsletter tinha o tema "homens que acreditam em whey e silêncio seletivo". O universo, com seu talento baixo para ironia, colaborou demais.

O áudio enviado ao grupo começava educado. Durou três segundos. Depois Júlia dizia, com clareza de locutora treinada pelo ódio, "Se o cidadão do 904 precisa triturar pedra lunar para manter a juventude, que ao menos faça isso antes do Jornal Nacional. Existe uma fronteira moral entre autocuidado e terrorismo doméstico". Ela ainda chamava o vizinho de "monge do shake", "ditador da banana congelada" e "homem que provavelmente organiza meias por ressentimento". Quando percebeu o destino do arquivo, largou o celular na cama e encarou a tela. As confirmações azuis acenderam uma por uma, feito luzes de pista de pouso para sua humilhação.

A primeira resposta veio da dona Nair, do 302, "Também escuto". A segunda foi do síndico, "Vamos manter o respeito". A terceira, de um número salvo apenas como Bento 904, chegou com uma calma que conseguiu ofendê-la de novo, "Boa noite, vizinhos. Uso o liquidificador para preparar comida pastosa para meu cachorro idoso, que perdeu vários dentes e conserva uma dignidade superior à minha. Posso antecipar o horário. Quanto à organização das meias, confirmo. Por cor e grau de decepção".

Júlia leu a mensagem três vezes. O cachorro idoso mudou toda a geometria da vergonha. A parte das meias piorou tudo, porque um homem capaz de brincar com a própria acusação era menos simples de odiar. Ela digitou um pedido de desculpas, apagou, digitou outro, apagou também, e acabou escrevendo, "Sinto muito pelo cachorro e pela banana congelada. Fui uma péssima vizinha com boa dicção". Bento respondeu com um polegar para cima. O emoji parecia usar terno.

À meia-noite, ainda vermelha de vergonha, Júlia publicou a newsletter com atraso. Trocou "homens que acreditam em whey" por "pessoas que julgam a vida alheia sem consultar o prontuário odontológico do cachorro". A edição teve o maior número de aberturas do mês. Uma leitora respondeu, "Case com o vizinho". Júlia fechou o notebook, ouviu um liquidificador muito breve no andar de cima e decidiu que o amor moderno tinha um departamento de crueldade cômica funcionando vinte e quatro horas.

Antes de Ir pra Cama

Sinopse

Júlia Vidal ganha a vida escrevendo posts espirituosos para marcas que vendem bem-estar, colchões, chás funcionais e a ilusão de que adultos organizados dormem oito horas por noite. Fora da internet, ela vive atrasada, usa camiseta velha para reunião remota e mantém uma newsletter anônima onde transforma dates ruins em conselhos hilários para quem ainda acredita no amor depois das onze. A rotina sai do controle quando um áudio particular sobre o vizinho barulhento cai no grupo do prédio. O vizinho é Bento Lacerda, advogado metódico, insone profissional e dono de uma paciência ofensivamente elegante. Entre assembleias constrangedoras, uma família intrometida, uma campanha de colchão, um namoro falso e uma lista de tarefas para fazer antes de dormir, os dois descobrem que a última mensagem da noite pode ser o começo de uma história indecente de tão sincera.

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