Universo da obra
Universo da obra
A Marcha das Utopias
Edição póstuma do Ministério da Educação e Cultura, compondo o volume 139 de Os Cadernos de Cultura, 1968, Rio de Janeiro.
PODE-SE chamar de Ciclo das Utopias esse que se inicia nos primeiros anos do século XVI, com a divulgação das cartas de Vespúdo, e se encerra com o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, em 1848, documento esse que liquida o chamado Socialismo Utópico, aberto com a obra ae Morus e ue, superado, chega, no entanto, até o século XIX, quando o S ancês Cabet publica a sua Viagem à Icária, último pais onde o puro sonho igualizante encontrou guarida e afago. A vida humana e a História se transformaram. Os braços possantes da revolução industrial que, pela exaltação do tra- balho, o sonho de Morus e de Campanella longinquamente di- visavam, agitaram a terra. Houve a experiência da Comuna de Paris. Outros são os ideais, outros os métodos. Com o Manifesto de Marx e Engels anuncia-se o novo d - do — o do chamado Socialismo Científico. Com ele coinddem os grandes abalos da Europa liberal do século passado onde esplendem, entre outras, as figuras de Mazzíni e Garibaldi. Marca a brecha decisiva no poder temporal dos papas, o fim da Santa Aliança e de seus resíduos readonários. Foi tfio vivo o
movimento liberal e tão sedutora a imagem de uma Europa progressista, que o próprio Pio IX, titubeante e incerto, se viu envolvido algumas vezes na onda patriótica que unificaria a Itália. O grito "Viva Pio IX!" foi um grito de guerra e pareceu até subversivo. O Papa era contra os melhoramentos da época — o gás, a estrada de ferro, etc. — chegou a vacilar e certa hora, numa reunião em pleno Vaticano, deixou-se levar pelos ini- migos do império austríaco, tendo ele mesmo dado o brado suspeito, "Viva Pio IX!" Mas a reação é sempre a reação. Pio IX teve que se refu- giar em Gaeta, acossado pela vitória de Mazzini e Garibaldi, e o poder temporal, restabelecido, depois de sucessivas e lon- gas derrotas, veio terminar numa transação financeira com Be- nito Mussolini. Estava liquidada a Civitas Leonina e cumprido o longínquo voto do imperador medieval Frederico II, o maior dos gibelinos e "o primeiro dos modernos". Os pontos altos do Ciclo das Utopias foram: no século XVI, a miscigenação trazida pelas descobertas; no século XVII, a nossa luta nacional oontra a Holanda e o Tratado de Westfá- Ha que, depois da Guerra dos Trinta Anos, jogava por terra as pretensões da Áustria de absorver a Alemanha, abrindo, para a Reforma, os horizontes estatais do imperialismo germânico; no século XVIII, a Revolução Francesa, vindo terminar, tomo dissemos, no terremoto político de 48. A importância da guerra holandesa foi ter prefigurado, face a face, duas concepções da vida — a da Reforma e a da Contra-Reforma. Pode-se ligar isso ao fenômeno que na alta antigüidade dividiu os semitas. Os judeus, julgando-se povo eleito, deten- tor exclusivo dos favores de Deus, criaram o racismo. Os ára- bes, povo exogâmico, aberto para as aventuras do mar e para o contato exterior, criaram a miscigenação. E a luta desenvol- vida por milênios, tanto no campo étnico como no campo cul- tural, foi essa — entre o racismo esterilizador mas dominante dos judeus e a mistura fecunda e absorvente dos árabes. Aque- les deram longinquamente a Reforma, estes a Contra-Reforma. Aqueles produziriam Lutero é Calvino, enquanto estes, os je- suítas, que foram feridos pelo Vaticano na sua plasticidade po- lítica, fUha da miscigenação da cultura que adotavam.
Acredito que o maior erro da catolicidade foi o ato de Clemente XIV, extinguindo a ordem conquistadora de Loiola. Hoje, o Brasil representa o que resta da cultura jesuitica, qua- se que estranha ao romantismo e que teve o seu ponto marcan- te na atitude do Imperador Pedro II na "Questão dos Bis- pos . O fracasso da realização de uma igreja nacional, entre nós, me faz pensar mais na incapacidade cismática dos sacer- dotes rebelados do que na impossibilidade histórica do fenô- meno. Basta que um iluminado se diga pastor das ovelhas do Cristo para que çm torno dele se sucedam multidões heteró- clitas e alucinadas. Ai está o "Conselheiro" que Euclides imor- talizou n Os Sertões. Aí está o Padre Cícero e mais a série de curandeiros de batina legal ou não, que rondam a fé ambulan- te das massas brasileiras. Aí está o surto invencível das seitas espíritas e das " línguas-de-fogo" que assolam e desmoralizam a ortodoxia religiosa. Apesar de desmembrado em mil seitas pitagóricas, órfi- cas, satânicas ou cristãs, de que dá uma pálida imagem o belo livro de Paulo Barreto — As Religiões no Rio — ainda creio que nossa cultura religiosa venha a vencer no mundo moderno a gélida concepção calvinista, que faz da América do Norte uma terra inumana, que expulsa Carlitos e cultiva Mc-Carthy. Na guerra holandesa, vencemos uma gente estranha que sob um grande comando e com superioridade de armas, queria impor-nos uma língua estranha e um culto estranho. Nela se prefiguraram os limites do nosso destino. As Utopias são portanto, uma conseqüência da descoberta do Novo Mundo e sobretudo da descoberta do novo homem, do homem diferente encontrado nas terras da América. Foi de um contato que teve Thomas Morus na Flandres, conforme relata, com um dos .vinte e quatro homens deixados na Feitoria de Cabo Frio por Américo Vespúcio, que se origi- nou a criação de sua Ilha da Utopia e o seu entusiasmo por uma espécie de sociedade que divergia da existente e viria li- quidar as pesadas taras medievais ainda em vigor. Esse nave- gante, de origem portuguesa, teria encontrado Morus na cate-
dral de Antuérpia, porto para onde o chanceler de Henrique VIII fora em missão diplomátioo-comercial, concernente à exportação de lãs inglesas. Esse episódio abre o livro, saben- do-se que Morus se interessou vivamente por aquele navegan- te bronzeado que palmilhara o Novo Mundo e conhecera o novo homem. Passaram juntos o dia todo e foi quando se manifestou a ansiedade do humanista por essa gente de cuja existência e de cujos costumes "se podiam tirar exemplos próprios a escla- recer nossas nações. Aquele lobo-do-mar achava a Europa tão podre a ponto de afirmar que um sábio não perderia seu tempo em fazer ouvir a voz da razão a homens de Estado completa- mente amorais. A indireta era certeira contra o tirano Henrique VIII que Morus servia e que depois o fez decapitar como ao pai de Cromwell. A Utopia de Morus encerra uma curiosa critica das me' didas políticas absolutistas, quando a supressão e o confisco dos conventos católicos pelo anglicanismo terrorista tinham eliminado toda espécie de assistência ao povo, vinda da tradi- ção caritativa medieval. Henrique VIII, nesse momento, instituiu leis contra o la- trocínio, que faziam, na recidiva, a punição ser a perda de uma orelha e, na terceira vez, a forca. £ o tempo em que "os pobres como as vespas, vivem sem conduzir uma gota de mel, aprovei- tando o trabalho dos outros". Como sempre, em lugar de melhorar as condições sociais, o soberano procurava liquidar os sintomas a ferro e fogo. Morus, que sofrerá a influência de Erasmo desde a Uni- versidade de Oxford, encontrou o seu clima social no Elogio da Loucura, que ousava afirmar que a necessidade de ter exér- citos de mercenários anima a vadiagem. "Os ladrões não são maus soldados, nem os soldados piores que os 'ladrões, daí a relação que há entre as duas carreiras." Morus é o campeão de uma justiça que "destrua os cri- mes e conserve os homens". Ataca sem medo os sabidos que acomodam a doutrina evangélica às paixões humanas. O seu cristianismo se reclama da revolução social que lhe deu origem.
"Quase todos os preceitos de Jesus condenam mais os costu- mes de hoje que todas as minhas criticas." Evidentemente, toda a vida de Henrique VIII iria ilustrar esse reparo justo.
A geografia das Utopias situa-se na América. Ê um nauta português que descreve para Morus a gente, os costumes des- cobertos do outro lado da terra. Um século depois, Campanella, na Cidade do Sol, se reportaria a um armador genoves, lem- brando Cristóvão Colombo. E mesmo Francisco Bacon (possi- velmente Shakespeare), que escrevia A Nova Atlântida em pleno século XVII, faz partir a sua expedição do Peru. A não ser A República de Platão, que é um estado inven- tado, todas as Utopias, que vinte séculos depois apontam no horizonte do mundo moderno e profundamente o impressiona- ram, são geradas da descoberta da América. O Brasil não fez má figura nas conquistas sociais do Renascimento.
II
O Sr. Osvaldo Aranha não é nenhum insensato. Ao contrá- rio, tem ocupado com brilho e eficiência os mais altos postos de governo e ainda agora, no seu discurso de posse, o Chance- ler Vicente Rao acentuou a aura que envolve o seu nome na Organização das Nações Unidas. O que me interessa no Sr. Os- valdo Aranha, mais do que a sua carreira, são certas afirma- tivas suas que julgo de primeira ordem. Disse ele agora a um jornal: "O Brasil será um dos grandes lideres dos fins do nosso século e dará à nova ordem humana contribuições materiais e espirituais que não serão excedidas por outros povos, mesmo os que hoje se mostram mais avançados**. Ê exatamente o que penso. E minha fé no Brasil vem da configuração social que ele tomou, modelado pela civilização
jesnítíca em face do calvinismo áspero e mecânico que pro- duziu o capitalismo da América do Norte. . Poder-se-á me objetar com o exemplo de São Paulo, onde se produziu incalculável progresso, o mesmo que separou as nações reformadas do moroso caminho seguido em igual direção pelos povos que ficaram na catolicidade. Não se pode confundir uma fase da História com a própria História. Temos que aceitar a superioridade inconteste do cal- vinismo baseado na desigualdade como alentador, da técnica e do progresso. Mas, hoje, conquistados como estão os valores produzidos pela mecanização, chegou a hora de revisar e pro- curar novos horizontes. Que é a História, senão um continuo revisar de idéias e de rumos? Atingindo o clímax da técnica, o calvinismo, que foi, com a doutrina da Graça, o instrumento do progresso, tem que ceder o passo a uma concepção humana e igualitária da vida — essa que nos foi dada pela Contra-Reforma. A técnica passa da fase de aperfeiçoamento à conquista de mercados, indo levar à África mais remota ou às ilhas da Oceania o mesmo livro e o mesmo ferro de engomar, a mesma chuteira e a mes- ma televisão que marcavam de superioridade os países meca- nizados. Passa-se a socializar e a universalizar o produto da máquina. Ê preciso, porém, desde logo compreender quão larga de- ve ser a concepção em que coloco como signo e bandeira a Contra-Reforma. Quando exalto os jesuítas, de modo algum assumo para com eles um compromisso religioso ou ideológico. Entendendo como entendo o sentimento religioso universal a que chamo de sentimento órfipo, o qual atinge e marca todos os ovos civilizados como todos os agrupamentos 'primitivos, isso S e nenhuma forma toca a minha equidistância, de qualquer culto ou religião. Hoje, em larga escala, esse sentimento se transfere para a religiosidade política (Hitler," Mussolini, Sta- lin) ou para a filosofia do recorde nos esportes, como na moda ou na iconografia cênica (Carlitos, Leònidas, os costureiros). Cansamo-nos de adorar e temer o que se escondia atrás das nu- vens. o Pára-raios liquidou com Júpiter. Hoje os homens que- rem ver os deuses de perto.
A Marcha das Utopias reúne ensaios de Oswald de Andrade sobre o ciclo das utopias, a imaginação social moderna, a crítica da colonização, o matriarcado e o pensamento político. A edição Literúnico preserva o texto autoral em domínio público, sem reproduzir aparato editorial protegido.
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