Universo da obra
Universo da obra
ESPIRITO MODERNO No primeiro documento, recolhido neste volume, quando se procurou precisar a emoção esthetica na Arte moderna, affirmou-se que o supremo movimento artístico daquelle instante se caracterizava pelo mais livre e fecundo subjectivismo. Em 1921 a conclusão a que se chegara na arte moderna, era a da força inexorável da libertação esthetica. Foi o apogeu da destruição de todo um passado' servil ás convenções de uma imaginaria ordem, a uma categoria de artes e ao imperativo de formulas em opposição ao espirito scientifico, que modificara a sensibilidade e construirá o pensamento contemporâneo. Tudo se transformara, só a Arte permanecia entorpecida no passado. Com o advento do extremado individualismo, desencadeiou-se o mais fecundo subjectivismo, um delírio de liberdade, que não repetiu o romantismo e foi uma expressão dynamica do eu esthetico. Mas já nessa época se poderia notar que o subjectivismo se transfigurava, para a finalidade constructiva, em objectivismo. E na aurora da mutação para o que é hoje a estructura da arte moderna, nesse mesmo primeiro documento de 1921, escreveu-se: "Este subjectivismo é tão livre, que pela vontade independente do artista se torna no mais desinteressado objectivismo, em que desapparece a determinação psychologica. Seria a pintura de CeZanne, a musica de Strawinsky reagindo contra o lyrismo psychologico de Debussy, procurando, como já se observou, manifestar a própria vida do objecto no mais rico dynamismo, que se passa nas cousas e na emoção do artista." Estava lançada a ponte entre as duas phases do espirito moderno. Em 1924 a evolução se completara. O segundo documento define o objectivismo dynamico na arte, o seu segredo psychologico, o seu metbodo. O espirito moderno zomba da critica, que vê incoherencia, onde só ha modalidade, e do subjectivismo hyperlivre passa ao objectivismo, de que faz uma disciplina. O dynamismo é um estado permanente de creação, porque crear é uma actividade, uma funcção dynamica. A suprema realização do espirito moderno está em tornar objectivo esse dynamismo, em disfarçar, subjugar o subjectivismo inherente ao pensamento, tornal-o instinctivamente integral com todas as cousas, independente e estranho ao próprio eu, que é também objecto da funcção esthetica. Tudo se transforma pela sensibilidade humana, inumerável e sorprehendente em suas apparencias. Só uma cousa lhe é impossível, voltar ao que ella própria consumiu, persistir no que passou. Seguindo as variações da sensibilidade, sempre actuaes, sempre indicadoras do futuro, a Arte realiza em successivas e infinitas emoções a fusão incessante do ser ephemero e eterno no Todo Universal, que é da sua essência.
Texto original de Graça Aranha publicado em 1925, organizado a partir do exemplar digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.
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