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Capítulo 1 · Pathé-Baby

Las Palmas e Lisboa

1. apresentação Puerto de la Luz é o vestíbulo arenoso. Com­ prometedor. A cidade, que o mar e a montanha limitam, fica distante. MODERE UD. LA MARCHA HASTA 15 KLS. POR HORA. E* ela: Las Palmas de Gran Canaria. Cidade bazar. O nome é espanhol. Só. O resto é cosmo­ polita. Gente de todos os feitios, de todas as cores: in­ dianos, canários, pretos, espanhóis, pardos, ale­ mães, escandinavos, ingleses a dar com pau. Prédios de todos os estilos; peninsular, mou­ risco, veneziano, francês, gótico. Os anúncios das casas comerciais se lêm em tres linguas. Ou mais. Possessão espanhola de direito; inglesa de fa­ cto. Nela o inglês manda, faz, desfaz. Cachim­ bando.

2. calle mayor de triana Velhas de mantilha preta. Moças de mantilha branca, de mantilha de rendas transparente. Ho­ mens de gorro vasco. , Casas de cores berrantes, como a gravata do­ mingueira dos jardineiros portugueses. — La Jornada! La Jornada! Jornal deplorável. Única noticia de interesse: Ha dado a luz un nino la esposa de don Pablo Cabrera. Seis olhos azues e o balcão cheio de arabes­ cos. Na calçada de suas lojas, indianos de metro e meio chamam os que passam: — Caballero! Senora! Caballero! Bondes emendados. Automóveis ruidosos. Soldados e oficiais em penca. Guardas municipais engraçadissimos. Motocicletas. Carroças. Casas de câmbio. Mantilhas. Gorros.

3. religião e pesetas

— Hay que ver la Catedral! Arranha-céu da cidade. Suspende as torres côr de azeitona muito acima do casario profano. A’ entrada, o coroinha de óculos, escondido atrás de uma coluna, acende o seu cigarrinho se­ cretamente. Dentro, um sacristão mal lavado mos­ tra as preciosidades, mediante pesetas. — Para ver Ias joyas deben pagar una peseta cada uno. Colunas imensas, revestidas de cimento, alar-

gando-se e unindo-se lá no alto como palmeiras. No centro, o órgão enorme, e o capítulo. — La Catedral tiene trecientos anos. Não parece. Candelabros de metal, formidáveis, esgalha^ dos. Deante do altar-mór, a lâmpada de prata pis­ ca. Dois púlpitos abraçam colunas. Um andor de prata folheada.. — Para subir a la torre deben pagar una pe­ seta cada uno. E’ semana santa. Velhinhas silenciosas espe­ ram confessores. Os santos, nos altares, têm man­ tos roxos. A luz, que os vitrais multicolorem, aviva as estações da Via Sacra. Do capítulo rola, agora, rouco e repizado, o canto que vinte batinas gordas entoam com voz tenebrosa. — Para ver Ias campanas deben pagar una peseta cada uno. S. Cristóvão, barbudo, feio e gigante, apoia­ do no seu grosso bordão, com o menino Jesus nos ombros, sai de um rio caudaloso, que ainda co­ bre parte de sua enorme, possante, santa perna es­ querda. Isso em vinte e quatro metros quadrados de tela por cima da porta central.

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4. assombração

Linda Plaza de Santa Ana! O Museo olha a Catedral. O Palacio Episcopal é em estilo árabe. Casas ladrilhadas de alto a bai­ xo avançam balcões de madeira lavrada. Pombas brancas no chão branco da praça. E dorminhocos nos bancos. De repente, uma inglêsa de óculos, sapatões de «ola grossa, chapéu no cocoruto, cigarro nos lá­ tJ bios. As pombas arremessam-se contra os telhados. A praça estremece. A hediondez britânica segue impassível, sol­ tando fumaça.

ò. vistas

Cem metros sim, cem meti-os não, gravuras de folhinha. Hua estreita, de lajedos grandes, que sobe em caracol. Rosas nas fendas dos muros. Um menino montado num burrico orelhudo de pelo arrepiado. Uma velhota. Outra velhota. A cidade afasta-se do mar e trepa nos morros. As casas são pedras brancas encravadas nas en­ costas. Renques verdes de bananeiras alegres. Chami­ nés. Quintalejos.

‘it.-:" 6. despedida Na Plaza Hurtado de Mendoza há o monu­ mento a Hurtado de Mendoza, canteiros, ladrilhos azues, vadios, um engraxate corcunda, um café ao ar livre. E pitoresco. Crianças anglo-saxônicas, de compridas tran­ ças, passeiam de velocipede. Um velho sem cola­ rinho oferece bilhetes de loteria. Mulheres bonitas, vendo homem, afastam a mantilha do rosto. Vista do Puerto de la Luz, a cidade é um.a cousa caiada que se joga da montanha e cai no mar, batida de luz. A lancha policial traz dois contrabandistas. — Hagan ustedes buen viaje!

Ahril de 1925. 'iSOfi 1 : V ) *■' î’-TT^,. - , ________ ______ ___ _____ ____________ À-’"' -r:-' V'íí''^üfe)l - .. -Í-- ' >^'*'■>7' ’"X^

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primeiro e p i s ó d i o : ida 1. sala de visitas Lama no Tejo. Manhã horrível de céu cinzen­ to. Chuvinha fina que cai. Frio. Vento. A lancha pula nas vagas: desce, sobe, desce, sobe. Uma bola [/de borracha saltando. — Ainda levamos muito tempo para alcançar |ia terra? — Eu sei lá! A cusparada completa a resposta amável. Emfim, Porto da Desinfecção. Merece desin­ fecção urgente. Imundo. Entapetado de limo. Bar­ cos de pesca de velas amarradas. Pescadores de barrete vermelho, de barrete verde. Máu cheiro. Encarniçada caça a um automóvel. — Uma voltinha de meia hora? Sessenta es­ cudos. O automóvel é um Pic-Pic; o motorista não devia ter o direito de usar colarinho (mas usa, emporcalhado). — Não bata na cuberta! Issu não é para es­ tragar I

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O guia improvisado, trêmulo de vergonha, pro­ testa com energia, desfaz-se em recriminações, berra importância. Sem resultado apreciável. — Pois se também tem autumóvel, vá busca- lo! Eu náo sirvo tipos sem inducação! Com as mãos no volante, ordena : I-'í' — O’ rapaz! Vira ai a andorinha que está torta ! A andorinha é uma águia de metal dourado, pousada sôbre o radiador.

2. é assim Na rua 24 de Julho há assustadoras lagunas de água barrenta. Ovarinas também, aos grupos. Vendedores ambulantes. Tamancos barulhentos. Um mercado infecto. Descomunais pés descal­ ços. Saias pelos joelhos. Calças arregaçadas. Ver- dureiras. Sujeitos de gorro, capa espanhola e guar­ da-chuva. A estátua do Duque da Terceira. Depois de outras, a rua do Ouro. Joalherias. Bancos. Prédios idosos. Largo do Rocio, com D. Pedro IV, diferente do de Pedro Américo, planta­ do no centro. O Teatro de D. Maria ao fundo, bran­ co. E alfacinhas matinais, de andar ligeiro. *

rsT T saw R y •• o Chiado. Casas de moda. Lojas. Alfaiatarias a valer. Guardas civis de bracelete verde e verme­ lho. Rua Garret (a placa explica que Garret foi um poeta que viveu de tantos de tal a tantos de tal). O automóvel sofre de tabes: sôbre o calçamen­ to inominável treme como varas verdes. A estátua de Luis dé Camões. Cheiro forte de glórias idas. Casas tristes, bolorentas. O frio e a chuvinha. Rua do Alecrim. Mais uma estátua. Amorável. De mármore, com a Verdade, Eça olha sem vêr. A Verdade, quási núa, tem tres dedos partidos. Dá dó. Dos que partiram. Deante do Eça de mármore desfilam tipos que o de mais ossos que carne conheceu e apro­ veitou. Aquele suíno de luvas côr de manteiga e chapéu côco é o Damaso seguramente. Botinas de elástico que rangem: conselheiro Acácio. Agora, o Pinho, de sobretudo, manta e guarda-chuva. E a Juliana, batendo as chinelas na calçada escorre­ gadia. Imortais.

3. jardim da europa Cais do Sodré. Monumento aos Homens do Mar. Os barcos de pesca, atracados, com os mas­ tros nús, são arvores desfolhadas, sêcas, oscilantes.

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O Século e o Diário de Notícias comemoram t í i ''.' com desenhos, fotografias, rojões rimados, o sé­ l timo aniversário da batalha de Lys. Nove de Abril. Dia embandeirado. Pretexto para os portugueses relembrarem mais uma vez o passeio triunfal das cinco quinas pelo mundo, a grandeza dos Gama e'^ o beroismo dos Albuquerque. Portugal de hoje: saudade geográfica do de ontem. Dez horas. A lancha que devia estar á espera, no cais, desde quinze minutos, ainda não chegou. i.ír'' ; — Vs. Exs. pagaram bilhetes de ida e volta? j — De ida e volta. — E a que horas parte o vaporzinho? — A’s dez e um quarto. — Ah ladrões ! Antão ficaram com o dinheiro ! Azáfama. Cólera e desespero. Maldições. In­ úteis. — O senhor é o guarda? Precisamos com ur­ gência de uma embarcação. — Qu’é qu’eu tanho com issu? Vão falar com o patrão, aquele velhote que ali está. *f<. \ Pedidos. Súplicas até. O velhote não tem a alma dura felizmente (a cabeça é um pouco, gra- J ças a Deus). — Está bém. O* fragateiro! O’ fragateiro! Onde teria se metido êsse maldito? O’ fragateiro!

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iLá está êle. Traze depressa uma lancha, rapaz, que |é â safar! Aparece um homem magro, cara raspada, ca- fbelos encaracolados cobrindo a gola da imensa ícapa de borracha preta, roupa escura e chapéu !enorme, gravata de pintor e bengalão temivel. — Apresento-lhes aqui uma das maiores in- ífluências politicas da terra: o senhor Armando I de Azevedo. E o guia improvisado acrescenta baixinho: — Este gajo é o grande chefe dos revolucio- inários de Lisboa! O grande chefe tem um ar malandro de Me- ifistófeles popular, feito em séries. Chove sempre. O ilustre agitador toma lugar (na lancha, que dispara. Acima do harulho do mo­ tor e do ruido das ondas, ergue-se a voz cavernosa do chefe: — Se os amigos voltarem algum dia a Lisboa, ijá sabem: encontram-me sempre na Brasileira, o jcafé onde se fazem as revoluçõesinhas... O guia improvisado não desvia os olhos de iêxtase do Lenine tipo Ford, que, de pé, no centro Ida lancha, lança um olhar tirânico sôbre o Tejo, ’ sobre Lisboa, sôbre Portugal, sôbre os homens, as cousas, os elementos.

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__ Um grande! Um imenso! Um homem ne­ ?i.. cessário. isto aqui só á dinamite! A bordo, o chefe revolucionário tem um ata­ que tremendo de asma. Quási arrebenta. Quási.

Abril de 1925.

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ÍIví! segundo episódio: voiia Na lancha, o bigodudo dos cartões postais ( co­ lete de veludo azeitona) açucara a voz junto aos ouvidos estrangeiros: — Tanho também uma culeçãosinha, que é a última palavra no gênero que V. Excia. adivinha... Quatro shillings sómente. Dois mulatos de chapéu côco passeiam no cais lapelas floridas. As varinas correm na ponta dos lipés, com ventres de gravidez eterna. O pregão dos garolos enche as arcadas encardidas do Terreiro do Paço: — Canetas a quinze tostões! Piúgas a cinco tostões I A sobrecasaca conselheiral dos estudantes usa uma capa de irmandade por cima. A rua Áurea é a vergonha do nome. Tatá & Sousa. Imundície e abandono. A avenida da Liberdade. Desleixo e buracos. SÃO PORTUGUESES OS CHOCOLATES DA FÁBRICA SUISSA. A estrada de Bemfíca, emquanto o sol oprime, sobe e desce debaixo dos pneumáticos. Poeira no ar. Carões manuelinos. Varapaus e barretes. Suís- sas brancas. Olhares mudos.

35 '* f ' i ■' f. ■I ïy.-íi fl: "J cs*. t h a Ví'" ^^ ííírJ V *V^! W 'I \ '-f V Sintra. CASA D’AVÓ. A cabeça do guia, no Pa­ ’ ^ lácio Real, é um ovo de alabastro. |||i\' — Câmara de D. Maria Pia. A sala das pegas perpetua no forro a bilontri- ce real. Das janelas da torre, os telhados das casas são papoulas crescidas na paisagem verde. Ladeiras de musgo e frescura. O sino da igrejinha pula de contente. Na fon­ te, a mulher de saia enrolada na cintura inclina o cântaro amarelo. O velhote acocorado no banco de H Ï ’* ' pedra sorri para as moscas, üm cachorro coça a orelha. Zangado. O moreno, de guitarra sob o bra­ 'i i | i ' ço, pára para acender o cigarro. Sombra. *1? — V. Excia. não deseja queijadinhas? Rua das Padarias 7 e 9. Fabricação da senho­ V.<B;JL ra Periquita (Constância Gomes). Tem marca re­

lif..,.li: i; gistrada: periquito voando. A estrada é um traço de giz. Lisboa com nódoas. No cais do Sodré a lan­ .V“ií: cha, cheia, guincha. — Antão, V. Excia., não quere mesmo a cule- çãosinha de bandalheira? Olhe que são sómente dois shillings. E há um cheiro de pólvora sêca.

Outubro de Í925.

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Sinopse

Texto autoral de Antônio de Alcântara Machado, reconstruído a partir do OCR da edição de 1926 preservada pela BBM USP. Prefácio de terceiro, capa, estampas, índice, colofão e ruídos gráficos ficaram fora dos capítulos.

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