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Minha Irmã e Meu Alfa

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Minha Irmã e Meu Alfa

Capítulo 1 · Minha Irmã e Meu Alfa

O Vestido Azul

Lia Montenegro ficou de pé diante do espelho estreito do quarto de hóspedes, com os dedos presos na alça esquerda do vestido azul celeste. O cetim escorria pelo corpo com uma delicadeza ofensiva, feito coisa escolhida por alguém que queria vê-la bonita apenas o bastante para servir de moldura. A janela aberta deixava entrar o frio da montanha, e alguns cristais de neve pousavam no peitoril antes de derreter em pequenos círculos de água. Ela observou o próprio cabelo loiro preso às pressas, as pontas úmidas caindo perto do rosto, a clavícula exposta pela alça frouxa, e decidiu que aquela imagem seria útil. Quem a olhasse no salão veria a filha menor de Dário Montenegro, obediente, pálida, pronta para bater palmas quando a irmã fosse anunciada como Luna.

A criada que trouxera o vestido havia deixado a caixa sobre a cama sem encará-la. Dentro, junto das luvas brancas e de uma presilha de prata, havia um bilhete curto na letra inclinada de Cecília: use azul, combina com quem aceita ficar ao fundo. Lia leu a frase uma vez, dobrou o papel em quatro partes iguais e o guardou no corpete, junto da pele, porque certas crueldades mereciam arquivo. Durante anos, sua irmã preferida pelos conselheiros colecionara pequenas provas de domínio: a mesa principal nas ceias, a primeira montaria nas caçadas, o lugar ao lado de Dário nas audiências, os convites para bailes onde Lia aparecia apenas quando faltava equilíbrio nas fotografias da família. Naquela noite, Cecília receberia Nikolai Ravena diante de três alcateias aliadas, e Lia teria de assistir em pé, sorrindo.

A porta se abriu sem batida. Cecília entrou envolta em branco, com a gola alta bordada em fios de prata e os cabelos castanhos presos por uma coroa baixa de gelo lapidado. Tinha vinte e sete anos e a segurança de quem aprendera cedo a nunca pedir lugar, porque a casa inteira se movia para lhe oferecer passagem. “A alça caiu”, disse, olhando o ombro de Lia pelo reflexo do espelho. “Deixe assim. Os Ravena apreciam fragilidade quando ela não ameaça ninguém.” Lia soltou a alça, devagar, e ajeitou a pulseira fina no punho. “Você veio conferir se eu estava respirando?” Cecília sorriu com a boca pintada de vinho. “Vim conferir se você não estragaria minha noite com alguma demonstração tardia de temperamento. Papai pediu uma cerimônia limpa.”

Lia virou-se para a irmã, mantendo as mãos unidas diante do corpo para que os dedos não denunciassem a vontade de rasgar o bilhete. “Pode tranquilizar nosso pai. Aprendi com vocês duas coisas importantes: sorrir quando convém e guardar recibo.” Cecília inclinou o rosto, atenta à frase, e por um segundo a beleza dela perdeu o acabamento polido. A loba de Lia, quieta havia meses, moveu-se embaixo das costelas com uma lentidão faminta. Não chegou a rosnar. A presença dela era antiga e insuficiente, sempre perto demais para doer, distante demais para provar qualquer coisa diante dos outros. Cecília percebeu a mudança no ar e apertou a bolsa de cetim branco. “Não brinque com marca, Lia. Uma loba sem chamada pública continua sendo uma mulher comum vestida para uma festa maior do que ela.”

Dário Montenegro aguardava no corredor com dois guardas e um broche de ônix preso à lapela. A barba grisalha estava aparada de modo impecável, e a expressão dele carregava o cansaço conveniente dos homens que transformam crueldade em administração doméstica. “Filhas”, chamou, abrindo os braços apenas o suficiente para cumprir a cena. Cecília foi primeiro, recebeu um beijo na testa e permaneceu ao lado dele, branca e luminosa sob os castiçais. Lia recebeu um aceno. O pai examinou o vestido azul, a alça baixa, os sapatos finos que machucavam seu calcanhar, e pareceu satisfeito com a medida exata da exposição. “Esta noite encerra um período instável para nossa casa. Nikolai precisa de uma Luna aceitável para os clãs, Cecília precisa de uma aliança à altura do nome Montenegro, e você precisa lembrar que família se preserva com disciplina.”

O caminho até o salão principal seguia por uma galeria de retratos antigos, todos os rostos pintados com olhos claros, mãos fortes e mandíbulas de quem nunca duvidara do próprio direito à mesa. Lia conhecia cada rachadura daquele piso. Quando criança, correra ali escondida de Cecília, com uma maçã furtada na mão e o vestido preso nos joelhos; aos quinze, sangrara pela primeira vez depois de uma transformação incompleta e esperara que a mãe entrasse para ajudá-la, embora a mãe já estivesse enterrada havia três invernos. Ao passar pelo último retrato, o de Mirela Montenegro, sua avó, Lia notou uma marca no canto da moldura, três riscos finos parecidos com garras. Nunca reparara neles. Quase parou para olhar melhor, porém Dário tocou seu cotovelo com a ponta dos dedos e a conduziu adiante.

O salão do pacto ocupava o coração da Casa Ravena, erguida com pedra escura e vigas de pinho antigo no alto da serra. As janelas altas mostravam a neve caindo sobre o pátio, onde lobos de patrulha circulavam junto das tochas, e a luz interna fazia os copos, as facas cerimoniais e os broches dos conselheiros brilharem com uma frieza estudada. A mesa do conselho ficava elevada por três degraus. Maura Ravena estava sentada à esquerda da cadeira do Alfa, o cabelo prateado preso em trança única, as mãos cobertas por anéis de lei. Ian Sorelli, beta de Nikolai, observava a entrada dos convidados com atenção militar. Quando Lia entrou atrás da irmã, algumas cabeças se viraram, fizeram o cálculo social de sempre e voltaram depressa para Cecília.

Nikolai Ravena surgiu pela porta lateral sem anúncio. Lia gostaria de ter desviado o olhar, por orgulho ou por simples proteção, só que o corpo dela reconheceu o Alfa antes da razão preparar qualquer defesa. Ele usava preto, da gola alta às botas, com uma capa curta presa no ombro por um fecho de prata. Os cabelos escuros estavam penteados para trás, úmidos da neve, e havia uma linha fina de sangue no dorso da mão direita, sinal de patrulha recente. Aos trinta e um anos, Nikolai parecia jovem demais para carregar a cadeira dos Ravena e antigo demais para aceitar conselhos de homens como Dário. Ele cumprimentou Cecília com um beijo protocolar nos dedos. Depois olhou para Lia, e a distância entre eles ficou tão nítida quanto a mesa posta no centro do salão.

“Senhorita Montenegro”, disse ele. A voz baixa alcançou Lia antes que o burburinho da sala se acomodasse. Cecília apertou o braço dele, sorrindo para as famílias aliadas. Lia baixou a cabeça na medida correta, sem dobrar a nuca. “Alfa Ravena.” O olhar de Nikolai desceu por um instante até a alça caída do vestido, com uma irritação contida, quase uma pergunta, sem a insolência fácil dos homens do conselho. Lia sentiu calor na pele exposta e odiou o próprio corpo por responder em plena sala. Nikolai afastou os olhos primeiro. Cecília percebeu. O sorriso dela permaneceu intacto, porém os dedos apertaram o braço do Alfa com força suficiente para vincar a manga escura.

Maura bateu a ponta de uma bengala no piso. O som ordenou a sala com eficácia maior que qualquer grito. “As casas Montenegro e Ravena pediram testemunho para um pacto de inverno”, declarou. “Que os presentes guardem o que virem, porque juramento diante da neve pertence à lei antiga.” Dois guardas trouxeram uma bacia rasa de prata, cheia de água colhida no lago congelado, e a colocaram sobre a mesa central. Em seguida, Dário tomou lugar atrás de Cecília, com a mão no ombro da filha escolhida. Lia foi conduzida para a fileira lateral, perto das primas mais novas, posição de quem participa da fotografia sem interferir na assinatura. Ela manteve a mão direita fechada sobre o bilhete escondido no vestido.

Cecília aproximou-se da bacia com passos medidos. O branco do vestido tocava o chão sem recolher sujeira, uma pequena vitória de costureiras, criadas e destino favorável. Nikolai permaneceu diante dela com o rosto indecifrável. Maura ergueu uma faca cerimonial e fez um corte mínimo na palma da mão do Alfa. O sangue caiu na água gelada e se abriu em linhas vermelhas. Depois Cecília ofereceu a própria mão, e Dário, antes que a filha hesitasse, sustentou seu punho. Lia observou a cena em detalhes, porque olhar para aquilo doía menos que imaginar as conversas anteriores: os contratos sobre mesa fechada, o nome dela ausente, o Alfa aceitando a irmã, a família inteira respirando aliviada por encaixar cada peça onde convinha.

“Eu, Nikolai Ravena, guardião da Alcateia da Neve, recebo diante das casas aliadas a promessa de união com Cecília Montenegro”, disse ele. A frase estava correta, limpa, treinada para sobreviver a qualquer ata. Mesmo assim, no momento em que o nome de Cecília encontrou o ar, a loba de Lia levantou a cabeça dentro dela. A reação veio sem aviso. Primeiro uma dor fina no pulso, bem abaixo da pulseira. Depois calor subindo pelo braço, alcançando o ombro, mordendo a pele sob a alça frouxa. Lia apertou os dentes e olhou para baixo. Um desenho claro, prateado, começava a nascer na parte interna do pulso, ramificando-se em três linhas curvas que pulsavam no ritmo do próprio sangue. Uma das primas ao lado dela deixou a taça cair.

O vidro se quebrou no piso, espalhando vinho escuro perto dos sapatos de Lia. A sala virou-se em etapas: primeiro os jovens, depois os guardas, depois os conselheiros, até que Maura ficou de pé com uma rapidez impossível para sua idade. A marca no pulso de Lia subiu mais um dedo, visível demais contra a pele. Cecília recuou da bacia. Dário soltou o ombro da filha escolhida e olhou para Lia com uma raiva que buscava explicação antes de punição. Nikolai não se moveu de imediato. A água na bacia continuava manchada de sangue, e o Alfa encarava a marca de Lia com o rosto endurecido, a mão ferida suspensa, gotas vermelhas caindo uma a uma no chão entre ele e a mulher que a cerimônia havia tentado deixar na lateral.

“Cubra isso”, ordenou Dário. A voz dele saiu baixa, perigosa, treinada para corredores. Lia puxou a luva da mão esquerda, tentou subir o cetim pelo pulso direito, e a marca respondeu com luz mais forte, queimando a borda da roupa. Alguém murmurou uma oração antiga. Ian levou a mão ao cabo da faca. Maura desceu os três degraus com os olhos presos no desenho que agora alcançava o antebraço de Lia. “Ninguém toca nela”, disse a anciã. Cecília respirou fundo, pálida sob a maquiagem. “É truque. Ela preparou alguma coisa. Lia sempre suportou mal ficar fora do centro.” A acusação teria feito sentido em outra boca. Na dela, soou apressada demais, com medo demais, e os convidados perceberam.

Nikolai caminhou até Lia. Cada passo abriu espaço entre as pessoas, e ninguém pareceu decidir sair da frente; os corpos obedeceram antes de receber ordem. Lia manteve o queixo erguido, embora o braço ardesse e os olhos quisessem denunciar o susto. Quando o Alfa parou diante dela, o cheiro de neve, couro molhado e sangue recente tomou o pouco ar que restava. “Mostre o pulso.” Dário interveio de imediato: “Alfa, minha filha está abalada. Cecília é a noiva reconhecida por contrato.” Nikolai nem olhou para ele. Lia ergueu a mão. A marca brilhou mais perto da ferida aberta no dorso do Alfa, e o salão inteiro viu a linha prateada responder ao sangue dele, desenhando no pulso de Lia uma pequena coroa de lua.

Cecília fez um som curto, sem beleza, e avançou meio passo. Maura levantou a bengala, impedindo-a. “Pela lei antiga, uma marca que responde ao sangue do Alfa durante juramento público suspende o pacto até julgamento.” A frase caiu sobre o salão com a precisão de uma lâmina. Dário perdeu a cor. Cecília olhou para Nikolai, esperando que ele corrigisse a anciã, que risse, que negasse, que escolhesse a versão combinada antes que a noite escapasse por completo. Nikolai permaneceu diante de Lia, os olhos escuros fixos no pulso dela. Quando falou, não havia ternura nem pedido de desculpas, apenas comando e uma tensão que fez a loba de Lia se aquietar para ouvir melhor. “Lia Montenegro fica nesta casa até o conselho decidir o alcance da marca.”

A ordem levantou protestos, e Lia escutou o próprio nome circular pela sala pela primeira vez sem diminutivo, sem ironia, sem o lugar menor colado atrás. O vestido azul ainda prendia suas pernas, a alça ainda descia pelo ombro, o bilhete de Cecília ainda arranhava sua pele por dentro do corpete. Só que agora todos olhavam para ela com temor, cálculo ou fome de escândalo. Lia encarou a irmã, viu a fúria brilhando sob a imagem branca da noiva perfeita, e retirou o bilhete dobrado do vestido. Sem pressa, deixou o papel cair dentro da bacia de prata, onde a água gelada, o sangue de Nikolai e a promessa de Cecília tingiram a frase cruel até apagá-la. Então Lia voltou os olhos para o Alfa e disse: “Se a lei quer me prender aqui, ela vai ter de me ouvir também.”

Minha Irmã e Meu Alfa

Sinopse

Lia Montenegro cresceu ouvindo que uma loba sem marca jamais seria escolhida por um Alfa de sangue antigo. Na noite em que veste azul celeste para assistir ao pacto de inverno, descobre que Nikolai Ravena, o homem que sua loba reconhece como destino, será anunciado como companheiro de sua irmã Cecília. A cerimônia deveria encerrar a vergonha de Lia e fortalecer a alcateia da neve, mas a marca que surge em sua pele durante o juramento muda tudo. Entre leis antigas, inveja de família, ataques de lobos brancos e um Alfa dividido entre dever público e vínculo verdadeiro, Lia precisa decidir se foge antes de ser destruída ou se exige o lugar que a lua lhe deu.

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