Universo da obra
Universo da obra
Lia Amaral encontrou o primeiro cartão-postal dentro de uma caixa de fotografias que não deveria ter correspondência. A caixa vinha do depósito municipal, lacrada com fita parda, marcada como Acervo Turístico - décadas de 1970 a 1990. Ela estava no subsolo do Centro de Memória, cercada por envelopes amarelados, negativos em tiras e fichas de catalogação que cheiravam a mofo, cola antiga e tardes perdidas de repartição.
O cartão caiu entre duas fotos do antigo Mirante das Paineiras. Frente colorida, bordas gastas, céu azul exagerado por impressão barata. A cidade aparecia limpa demais ao fundo, como se todos os prédios tivessem sido lavados para caber na lembrança de um turista. No canto inferior, em letras brancas, lia-se: Vista panorâmica - venha conhecer.
Lia virou o cartão. Não havia selo. Não havia carimbo. O verso tinha apenas uma frase escrita em caneta preta, com letra inclinada e firme.
Chegue antes da legenda.
Ela ficou parada com o cartão na mão. Não por medo, ainda. Por irritação. Arquivo público atraía bilhetes de gente que achava engraçado esconder coisa em doação: declaração de amor, recibo de bar, foto de pessoa pelada dentro de envelope de inauguração de praça. A diferença era que aquela caixa tinha sido aberta por ela às 08h17, na frente de dois funcionários, depois de passar três meses fechada no depósito. Ninguém deveria ter tocado nela.
"Achou ouro?", perguntou Jonas, do outro lado da mesa.
"Achei alguém com tempo livre."
Jonas aproximou a cadeira. Tinha vinte e poucos anos, estagiário de História, ansiedade de quem ainda acreditava que todo documento escondia uma revelação útil. Lia entregou o cartão. Ele leu a frase e sorriu.
"Poético."
"Chato."
"Você odeia tudo antes das dez."
"Eu odeio interferência em acervo. O horário é coincidência."
Ela fotografou frente e verso, registrou como item intruso e colocou dentro de um envelope plástico separado. Depois voltou às fotos do mirante. Havia quarenta e três imagens, quase todas de inauguração, reforma, visita escolar ou turista sorrindo junto ao parapeito. O lugar estava fechado havia anos depois de um deslizamento que levou parte da trilha e dois quiosques. Lia lembrava de ter ido lá quando criança, ou achava que lembrava. Às vezes a cidade emprestava memória por repetição de foto.
Às 10h06, o telefone do subsolo tocou. Ninguém ligava para o subsolo a menos que o elevador quebrasse ou que algum secretário precisasse de imagem antiga para discurso. Jonas atendeu, ouviu, olhou para Lia e perdeu o sorriso.
"É para você. Polícia."
Lia pegou o aparelho. "Centro de Memória, Lia."
"Senhora Lia Amaral? Aqui é o investigador Mauro Bittencourt. A senhora catalogou hoje material do Mirante das Paineiras?"
Ela olhou para o cartão dentro do envelope plástico. "Quem perguntou?"
"Eu acabei de dizer."
"E eu acabei de achar estranho."
Do outro lado, houve uma pausa. "Encontramos seu nome escrito em um objeto no local de uma ocorrência. Preciso que confirme se recebeu algum cartão-postal nas últimas horas."
O subsolo pareceu ficar menor. Jonas endireitou na cadeira.
"Que ocorrência?", Lia perguntou.
"Um corpo no mirante."
A frase não chegou como susto completo. Primeiro veio a parte prática, absurda: o mirante estava interditado, acesso fechado por grade, trilha tomada por mato. Depois veio a imagem do cartão, a vista limpa, o céu azul, a frase no verso. Só então o corpo entrou na cabeça dela, atrasado e pesado.
"Homem ou mulher?"
"Homem. Ainda sem identificação confirmada. Estava com um cartão igual ao seu no bolso. No verso, seu nome e o endereço do Centro de Memória."
Lia fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, Jonas tinha levantado e já procurava luvas novas sem saber por quê.
"Eu vou levar o cartão para vocês", ela disse.
"Não. Não mexa mais nele. Estou mandando uma equipe. E, dona Lia?"
"Sim."
"Se receber outro, não siga a instrução."
Ela olhou para a frase. Chegue antes da legenda. "Acho que já cheguei tarde."
Desligou antes de ouvir resposta. O silêncio do subsolo voltou com ruído de lâmpada fluorescente e respiração de Jonas.
"Corpo?", ele perguntou.
"No mirante."
"E o cartão?"
"Agora é prova."
Jonas engoliu seco. "De quê?"
Lia não respondeu. Pegou o envelope plástico com cuidado e colocou em uma bandeja limpa. Fotografou a caixa, a etiqueta, a posição original onde o cartão tinha caído. Não era coragem. Era hábito profissional. Quando uma coisa contaminava um acervo, a primeira obrigação era registrar a contaminação.
A equipe chegou vinte minutos depois: dois policiais civis, uma perita de cabelo preso e Mauro Bittencourt, que tinha voz menos cansada pessoalmente do que no telefone. Ele usava camisa social sem gravata, sapato sujo de barro na borda e uma expressão de quem não gostava de arquivo sem janela.
"A senhora recebeu isso quando?"
"Caiu da caixa às 08h32."
"Caiu?"
"Estava entre fotos. Eu abri a caixa às 08h17. Jonas estava aqui. Câmera do corredor registra entrada, não mesa."
Mauro anotou. A perita fotografou o cartão sem tocar. "A letra é parecida com a do cartão no corpo?"
"Não vi o outro."
"Parecida", Mauro disse.
Lia se irritou com a certeza guardada. "No corpo tinha a mesma frase?"
Ele olhou para ela. "Tinha outra."
"Qual?"
"A legenda começa quando ninguém olha a paisagem."
Jonas murmurou um palavrão. A perita o encarou. Ele pediu desculpa sem voz.
Mauro pegou uma foto antiga do mirante com pinça. "Essas imagens saíram daqui?"
"Não. Vieram do depósito municipal. Ainda não digitalizamos."
"Quem sabia que você abriria a caixa hoje?"
"Minha coordenação, Jonas, o pessoal do depósito, qualquer pessoa com acesso ao cronograma interno. Não é segredo de Estado. É arquivo. Quase ninguém liga."
"Alguém ligou."
Lia não gostou dele. Era cedo para isso, talvez injusto, mas não gostou. Investigadores costumavam tratar documento como pista que nasceu para servir ao caso deles. Ela tratava documento como coisa viva de outro jeito: tinha origem, mão, guarda, erro, poeira, burocracia, gente mentindo e gente esquecendo sem querer.
"Quero ver o local", ela disse.
"Não."
"Eu conheço o acervo. Se alguém está escolhendo cartões do depósito, a relação pode estar na imagem."
"E se alguém está mandando cartões para você, sua presença no local pode ser exatamente o que ele quer."
"Ele já colocou meu nome no bolso de um morto. Minha ausência também está sendo usada."
Mauro fechou o bloco. "A senhora é sempre assim?"
"Quando tentam me transformar em legenda."
Ele quase sorriu, contra a própria vontade. Quase. "Fica no Centro até minha equipe terminar. Depois vai para casa acompanhada."
"Isso foi ordem?"
"Foi bom senso vestido de ordem."
Lia pegou o celular e viu três chamadas perdidas da coordenação. Antes de retornar, uma nova mensagem chegou de número desconhecido. Sem foto, sem identificação, apenas texto.
O segundo cartão já está no lugar onde você aprendeu a sorrir para turista.
Abaixo, uma imagem carregou devagar. Um cartão-postal antigo da Praça das Noivas, com bancos brancos, fonte no centro e crianças alimentando pombos. Lia sentiu o estômago fechar.
Na foto, à direita, quase fora do enquadramento, havia uma menina de oito anos usando vestido amarelo. A menina olhava para a câmera sem sorrir.
Era Lia.
Lia Amaral trabalha catalogando acervos fotográficos antigos quando recebe um cartão-postal sem remetente com a imagem de um mirante desativado e uma frase escrita no verso: chegue antes da legenda. Horas depois, um corpo é encontrado no mesmo ponto, posicionado como turista diante da vista. A cada novo cartão, uma paisagem conhecida da cidade vira cena de crime e uma memória apagada do passado de Lia se aproxima da superfície.
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