Universo da obra
Universo da obra
Ao público e notícia biográfica AO PÚBLICO
Apreciando devidamente a honra de ser o primeiro editor deste poema, devo ao público, e especialmente aos admiradores do malsinado poeta, que tanto nos prometia ainda, e talvez o melhor do seu gênio fecundo, algumas palavras justificativas da demora na publicação destes suavíssimos versos. Desde meados de abril estava ter minada a impressão do último canto, e apesar de meus constantes esforços, só agora pude alcançar a realização do meu desejo, entregando à natural ansiedade do público a preconizada e bela produção do moço infeliz e ilustre, cujo nome despertou sempre nos salões e academias o mais entusiástico apreço.
Encetei a impressão ainda em vida sua, mas infelizmente a morte colheu-o antes dele fazer algumas pequenas modificações que eu lhe impusera, na intimidade das relações que nos uniam e datavam dos bons anos passados na faculdade de S. Paulo. Assim, notará o leitor alguns insignificantes senões, que eu poderia ter feito desaparecer autorizado e de acordo com o poeta; entendi, porém, nada dever profanar no glorioso espólio, que se tornara então ura sagrado deposito em minhas mãos.
Só cuidei em apressar o trabalho, e nesse afã escaparam-me ligeiras faltas de composição, fáceis de notar, e que, espero, me serão igualmente desculpadas, por quem, mormente, souber o que vale tarefa como esta.
Em sincero e carinhoso culto à memória do poeta, pretendi eu próprio escrever algumas páginas sobre a sua curta e brilhante vida literária.
Como, porém, me fosse com instância solicitada, por pessoa a quem não poderia negar, a junção a este livro da notícia biográfica traduzida do Anglo-Brazilian Times, resolvi, para completá-la, reunir também aqui os belíssimos escritos do talentoso Sr. Dr. José Ferreira de Menezes, distinto folhetinista do Jornal do Comércio, em relação ao ilustre poeta, seu amigo de infância e contemporâneo de estudos, folgando eu de ter estimada oportunidade de ver a mão do fiel amigo, como que burilando, na lápide tumular do desditoso bardo, o imorredouro e sublime epitáfio, acentuado pela mão também amiga, generosa, benfazeja e vitoriada, do exímio mestre e preclaro estadista F. OCTAVIANO.
Corte. Agosto de 1875.
O Editor
L. N. FAGUNDES VARELA
Mal de ti, pátria! Como se não fossem já em demasia os que te tem deixado, sem tudo haverem feito, mais um acaba do expirar no teu regaço!
Mal de ti, mãe!
Quando vieram dizer-me que ele afinal partira, fez-se um silêncio repentino em meu cérebro, e como na sala de onde retirara todo os móveis para exporem no centro o corpo inanimado do que desatou-se da vida, retraíram-se todas as minhas ideias e ficou ali, no entristecido espaço, a imagem do cadáver do gênio que adorei e que deixou seu nome escrito nas páginas, as únicas felizes!... da minha vida!
Via aqueles olhos que varavam o infinito fechados para sempre; mudos aqueles lábios que Deus fadara para cantar as suas maravilhas, e eu permanecia absorto, inerte, surpreso e espantado, como quem visse a seus pés caído um mundo.
Pouco a pouco, como sombras que se levantam no horizonte, vieram surgindo todas as fases do nosso viver comum, desde a juventude até os primeiros e já terríveis açoites da desventura.
Só então comecei a apalpar aquela morte, sentir aquele gelo, tocar as cinzas do vulcão extinto e ver que não era ele só quem ali estava morto, pois era também a minha mocidade, com todas as suas ilusões, com todos os seus sonhos e loucuras!
E agora que tomo da pena e escrevo dele como de quem já não é dos vivos, nem pode ouvir-me, nem ler-me, nem animar-me e aconselhar-me como tantas vezes o fez, tombam-me dos olhos as lágrimas de saudade da nossa vida que se foi e que nunca mais voltará...
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Eu não sou dos que choram a morte dos poetas: sei que é o seu primeiro dia de felicidade aquele em que Deus os chama, arre- batando-os do mundo aonde só desceram para sofrer. Invejo-os até quando vejo que afinal descansam e não lhes bate mais o coração. A vida social tem as suas estreitezas que não lhes servem a eles, a que não podem sujeitar- se, e por isso é que os leões e as águias não se podem nunca domesticar.
Deixam-se prender e no dia em que morrem é o seu último arranco um hino à liberdade.
Também não sou dos que criminam a sociedade: ela tem a sua razão de ser e acho até muito glorioso que vivam no padecimento os poetas, porque, a assim não ser, nem a sociedade caminharia para os seus destinos positivistas, nem haveria glória em ser poeta, qualquer alveitar julgando-se no direito de hombrear com Lamartine.
Não; assim como Cristo teceu a sua epopeia de suspiros, banhando-a de lágrimas e sangue, e sangue de seu coração, assim também todos esses Cristos do sentimento devem ter de espinhos o caminho que percorrem na terra. Em nome de todos, agradeço eu a Deus aqui esta distinção, a única que constitui o que eu chamaria a fidalguia d'alma, se tal palavra pudesse merecer tamanha honra.
Sim, varam-se os olhos aos rouxinóis para que doidamente cantem: assim também fere o destino de setas o coração do poeta para que melhor e mais sentido encante o mundo.
O sofrimento foi sempre a suprema inspiração. Mesmo Deus é maior, visto por entre as lágrimas, as estrelas são mais fúlgidas e mais iriados os sonhos.
Toda produção determinou o Criador fosse dada entre soluços, em agonias ou à custa d’espedaçamentos.
A mulher, imagem completa da creação, dá entre lágrimas, à beira da sepultura, o fruto abençoado, a nova vida; há nos nossos sertões mais de uma família de palmeiras que fenecem quando frutificam.
Porque, pois, havia de o poeta, que desfaz-se em ideias, que acrescenta novas belezas às da criação, de viver nos risos e da vida conhecer tão só a fátua e passageira espuma da alegria? Não, o pelicano para o sustento dos filhos abre o seio, estanca-lhes a sede com o seu sangue e nutre-os com os pedaços do seu coração.
Fá-lo a gritar e a morrer, mas é esse grito a sua glória, o seu orgulho, o seu hino à Divindade, o seu amor sublime pelos filhos.
Os poetas são os pelicanos, os poetas e o pensadores; e como o mundo não se nutre tão-somente da matéria e consome todos os dias ideias e sentimentos, vêm os pelicanos e abrem o seio, dão o coração, o sangue, a alma e morrem entre gritos, grandes e sublimes como Aquele que do alto do Calvário também deixou abrir o peito para nutrir de amor a humanidade e lavar-lhe as manchas com o seu sangue divino.
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Não, não sou dos que choram os poetas. A sua glória começa no dia em que descansam, no dia em que deixam de ter invejosos. A sua tumba, por mais humilde e rasa, começa a ser seu pedestal, que vai crescendo de dia para dia, e as gerações que surgem vão ali tributar-lhes flores e homenagens.
Depois, não morrem nunca; no instante em que emudecem, começam então a viver, e a consolar os que padecem.
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Tal será o destino de Varela. Há muito que para parecer grande precisava tão somente da púrpura mortuária.
Do mundo, afora o amor sem termos de pai e mãe, não conheceu senão as amarguras e muitas vezes os insultos, os motejos e as injúrias.
Mesmo agora sobre a sepultura lembraram-se jornalistas de, a pretexto de lágrimas, invectivar ainda ao cadáver o que apelidaram a dissipação do vivo!
Mas a morte santifica o passado! dissera ele de antemão no prólogo às poesias de O. Hudson.
Chamaram também, no mesmo dia em que o poeta desprendia o voo, de desordenadas as suas composições, apesar de sempre grandiosas.
Pelo menos é dificil de compreender, a não querer dizer a crítica que tudo que ele pro duziu é monstruoso!
Mas nesse caso, que significam vossas lágrimas? O que perdeu esta nação com a morte de autor de monstruosidades?
Anda um côvado literárío por esta terra, que afinal de contas há de pôr tudo no tamanho de pigmeus.
Por mim ando já a prever o dia em que hão de declarar excessivo o Amazonas, desordenada a palmeira, monstruoso o cedro. Visto de baixo é tudo assim, louvado seja Deus!
Deixou-lhes, porém, resposta o poeta nestas alegres quadras:
“A ideia não tem marcos nem barreiras,
E o pensamento, irmão da liberdade,
Quando as asas sacode abate e quebra
Mais de uma autoridade!”
“Lançai vossos preceitos e tratados
Às chamas vivas de voraz incêndio...
Alma que sente, que se inspira e canta,
Não conhece compêndio!”
*
* *
Grandioso de cérebro como Azevedo, como Castro Alves, como Junqueira, quase que não pôde ser comparado a nenhum deles pela singularidade da sua vida. Foi poeta e nada mais, e nada mais poderia ser.
Azevedo era um homem de letras, além de poeta, e os sonhos políticos atravessaram-lhe o espírito. Vivendo poderia chegar a ser um chefe de escola literária, um doutrinário pela historia e escreveria talvez a epopeia dos girondinos brasileiros, e, como Lamartine, iria aos comícios populares explicar n'um verbo de fogo as tábuas da lei.
Castro Alves tinha vertigens no cérebro, e um dia, talvez do alto da montanha, como um profeta, como um tribuno, atiraria a sua palavra para que os vulcões se abrissem ou o povo atravessasse o Mar Vermelho.
Junqueira, ao morrer, mostrava-se já reconciliado com a vida.
Varela, não; era só poeta. Não via senão Deus e a Natureza.
Não houve nunca maior desprezador das glórias que os homens dão: cantava como as aves, sem segundo pensar e sem vaidade. Nada invejava, nada pedia. Como homem era impossível para a sociedade. O seu amor, a sua crença, a sua religião era um panteísmo luminoso, atravessado pela ideia de Deus. Sonhava mergulhar de novo na natureza, para surgir... aonde? Longe, na plena luz. Não se considerava mais do que uma onda que tinha de enovelar-se, perder-se e afundar-se no mar da criação: uma nota desprendida do eterno concerto e que se perderia no espaço; um átomo, luminoso sim! que um dia iria ajuntar-se ao grande todo!
N'uma atrevida apostrofe à morte, ele o dizia:
“Tu não me curvarás sem resistência
Divindade cruel!
Tu não me abaterás impunemente
A cabeça revel!
“Podes chegar, não temo-te: — aos escravos
Voto extremo desdém!
Eis a matéria.., — queres que te adore?
Vê se passas além!”
“Mísera! A essência eterna, imaculada
Insulta-te o poder!
Realeza de cinza e de poeira!
Triste escarneo do ser!
“Do cadáver à face apenas gravas
Teu gélido sinal,
E já de novo o anima em formas novas
A vida universal!”
*
* *
Varela foi o poeta da simplicidade e da singeleza.
Como tal não encontra êmulo na língua pátria. A rima vinha sem esforço, sem especular sem o efeito.
A melancolia era a sua musa; a morte, a imagem contínua dos seus cantos. Não se apavorava dela; ao contrário, chamava-a nestes gritos que, quem o conhecia, sabia perfeitamente desprendidos d'alma:
“Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-rne de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!
.....................................................
“Vem oh! morte! A turba imunda
Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia;
Pobre noiva tao formosa,
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!
“Virgens, anjos e crianças,
Coroadas de esperanças,
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?”
*
* *
Veio afinal! Em outros versos pedira que o levasse de um golpe certeiro. Assim o fez. Morreu encostando a cabeça gloriosa no seio materno, junto de seu pai, rodeado de sua esposa e de seus filhos!
Foi o único momento feliz de sua vida.
Deixa-lhes o nome de um poeta tão inspirado como os que mais o foram no mundo, mas também o nome do mais infeliz, talvez, de todos eles.
Acreditava na liberdade e em Deus:
“ Eu creio em ti, eu sofro, e o sofrimento
Como ligeira nuvem se esvaeçe
Quando repito teu sagrado nome!
Eu creio em ti, e vejo além dos mundos
Minha essência imortal brilhante e livre,
Longe dos erros, perto da verdade,
Branca dessa brancura imaculada
Que os gênios inspirados, nesta vida
Em vão tentaram descobrir nos mármores...”
*
* *
Lá está a esta hora e para sempre, longe dos erros, perto da verdade.
Descansa, pobre crieança que foste e a quem Deus mandou ao mundo na mais sublime das missões.
Começaste a ser uma tradição...
Se nesta terra houvesse uma mocidade dir- lhe-ia que ao seu representante mais genuíno erguesse um túmulo de mármore branco como a tua alma, e junto da plaga, para que a vissem bem de longe as geraçòes e os povos como aconselhava Homero... mas dorme quieto pela primeira vez.
Tua glória é certa.
Foste um dos primeiros homens do teu país.
Eu não te lastimo, não. Invejo-te.
FERREIRA DE MENEZES.
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A propósito do infeliz poeta e do folhetim que a seu respeito escrevi, recebi de um homem de letras dos mais qualificados nesta terra uma carta da qual peço licença para transcrever alguns tópicos aos quais procurarei responder.
A carta teve por fim justificar certas notícias, no meu entender cruéis para a memória do poeta, e que eu verberei como amigo que fui dele e que continuarei a ser.
Dou os trechos:
“...................... digo-te que a reflexão fez com que eu achasse justos a esses jornalistas, e ao teu ânimo de provada têmpera pergunto: Que palavras reservará a imprensa para o poeta do lar e da família, para o gênio fúlgido e calmo, que, depois de duros sacrifícios, legar à pátria um nome glorioso e uma vida cheia de abnegação e frutos abençoados?
“O que dirias no dia em que se apagasse o grande espírito que no meio de nós vive a trabalhar pela família e pela pátria, ferido com os mais rudes golpes no santuário de uma e de outra, e sempre com aquele iluminado semblante acariciado pelo sorriso, qual reflexo daquela alma imensa, aberta a todos afetos sãos; à ideia mãe — a democracia, aos sentimentos cândidos e aos sentimentos grandes, poeta da prosa e do metro, orador e jornalista como só ele, filólogo e sábio como ambos nós o conhecemos, e que na agudeza do pensamento devassa o fundo do abismo para pairar sobre ele como águia, e em quem se alia a face de Mefistófeles, que Gutierres lhe descobriu, e a face de anjo sonhador que ambos lhe temos visto? O que dirias se se finasse o Otaviano? O que dirias se se finasse o imaculado José Bonifácio, coração e cabeça de arcanjo? O mesmo, as mesmas palavras que dirigiu o teu coração sensível ao desditoso Varela?”
Respondo perguntando: porque não lembra a imprensa a certos vultos qae descem à campa os crimes, as falsidades, as traições que cometeram em vida?
Foi perdulário do seu gênio e da sua vida aquele a quem chamais desditoso? Foi desordenado?
E no entanto teve tempo de deixar quatro volumes impressos: o manuscrito de um poema e mais um drama inédito! E teve tempo de ilustrar o nome de sua família e de aumentar a riqueza literária do seu país e da sua língua!
Se houvesse ganho e deixado um milhão de contos de réis, teria deixado mais?
A quem ele ofendeu? A quem atraiçoou? Que mal fez a sua pátria? Que família desgraçou?
É responsável a cigarra de cantar até partir-se-lhe o peito? Quem a censurará por isto, encontrando-a morta? A formiga. Terá razão; ela, porém, teve culpa, a douda? A Cristo também invectivava Pilatos a sua dedicação pela humanidade. Ele, querendo, poderia ter sido governador de alguma província da Judéa. Mas era ele, apesar de Deus, senhor de não morrer aos trinta e três anos em uma cruz infamante?
Não há tísicos de nascença?
Todo o cadáver é sagrado, mesmo o dos poetas.
Negai-lhe lágrimas: mas não lhe descubrais as chagas a que sucumbiu,
A cova é mais piedosa, consome-o mas não o profana. Sede como a cova, escondei.
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Viu o leitor a espécie de contenda que tive com alguns colegas meus do jornalismo diário a propósito de Varela. Esta contenda tinha um grande motivo de tristeza para mim — a de ser travada junto de um cadáver, à beira de uma sepultura: e aquele de quem se partira o espírito tinha, mais do que ninguém talvez no mundo, direito ao silêncio, pois ninguém precisou de mais descanso do que ele, quando caiu.
Se errara, pagara-o com a vida, estava-o ali pagando.
Um amigo, porque não direi seu nome? Salvador de Mendonça, acudira à luta, chamando-me de injusto para aqueles que eu, no seu entender, aggredira por causa do morto.
Era uma má apreciação, porque não agredira eu a pessoa alguma, e sim apenas defendera aquele que fora o amigo da minha infância e da infância da minha inteligência, e um dos trcês engenhos que mais tenho admirado no meu país.
0 autor de Marabá, que apenas vinha em defesa de terceiro, apelou para a minha consciência, jogando dois nomes ilustres, e jogando-os envolvidos numa hipótese de morte. Era manietar-me, era atirar-me areia aos olhos, ou mergulhando-me n'água e prendendo-me o pescoço, desafiar-me: fala!
Pude apenas livrar-me da mão do possante adversário e não aceitar a luta no terreno e nas condições em que a colocava. O nosso duelo era junto do cadáver do poeta: ali queria-o, ante a face angustiada do morto; sabia que ao fitá-la havia de o perturbarem as lágrimas e havia de ele curvar os joelhos, pois quem ali estava sofrera todos os tormentos deste mundo; chegara a atravessar as lamas, mas conservara sempre erguida a inteligência, não a maculara de infâmia alguma, não a vendera, nem o estro caucionara jamais em nenhum balcão social.
A luta havia de travar-se ali: era meu empenho e cumpri-lo-ia; mais eis que um daqueles nomes que o digno jornalista atirara-me como metralha d'ouro, surge também na liça e posta-se do meu lado!
Tanto pode a verdade! tanto podes, coração! Ah! se não fosses tu, o invencível neste mundo, o que valera viver!
Pensai com o coração, acertareis mais vezes!
Dou a página que recebi, pois que a mim não pertence: faz parte dos bens do poeta, e é uma voz no futuro, uma grande voz em sua defesa.
Eil-a.
“Meu caro amigo.
“Os problemis da vida e da morte nunca Honos preocupam tanto, como quando nos encontramos no cemitério, à hora melancólica do desmaio da luz, à beira da cova onde, para sempre, de nossos olhos se vai sumir um moço de grande talento, filho extremoso e estremecidamente amado por seus pais, poeta profundamente cristão, cantor inspirado das maravilhas da natureza, a quem nada faltou para ser feliz, e que, no emtanto, por escárnio do destino, morre porque nao quis viver!
“Duas vezes o vi. Só uma vez lhe falei. Se eu pudesse contar o que se passou entre nós nessa conversação!
“Comecei severo, frio e apenas polido; e dentro de poucos minutos já eu estava dominado por simpatia irresistível e profunda comíseração! O censor se convertera em amigo. Separamo-nos tristes, ele da sua tristeza invencível, eu de não a ter podido vencer!
“O demônio do pensamento inspirado pelos maiores poetas de nosso século criou essa enfermidade moral que a todos nós, mais ou menos, nos deu na mocidade horas bem tristes! Todos nós fomos Manfredo, Werther ou Fausto.
“Mas não quero antecipar o trabalho do historiador da literatura do nosso tempo. Quero somente pedir aos juízes severos da hora presente que se lembrem que os antigos conjuravarn a má fortuna por sacrifícios.
“E em verdade: quando se vê a mesma onda que afoga a um nauta, dar a outro o seu dorso para levá-lo à praia são e salvo; quando se reconhece, pela paciente investigação de Quetelet, que há uma média constante e invariável de desgraças e de crimes, e que a humanidade parece não poder evitá-la; insensivelmentn somos levados a pensar na boa e má estrela, nas circunstâncias que inclinam a nossa existência para a desgraça ou para a ventura!
“Não me criminem de querer, por complacência a um poeta, que me fez derramar lágrimas, apelar para a fatalidade.
“Não é esse o meu intento.
“Digo somente que a alma a mais lúcida tem tido noites de trevas e o coração mais valente horas de desfalecimento.
“Quem disser que nunca vacilou, esse nunca andou senão em planície bem alisada. Quando, pois, nesses momentos da dúvida, a morte não dá tempo a que nos recobremos, fomos seguramente menos felizes do que os nossos companheiros de jornada que chegaram à serenidade.
“E muitas vezes a diferença entre uns e outros não passou disto — maior espaço de vida que pôde ser aproveitado.
“Por exemplo, Marlowe e Shakspeare. Marlowe, poeta de inspiração ardente, inicia o drama inglês, engenha o primeiro Fausto conhecido, mas antes dos 30 anos morre apunhalado em uma taverna, sem ter podido vencer a miséria, e é considerado ateu porque traduzira Ovidio. Shakspeare aproveita a senda aberta, pode viver mais tempo, conquistar proteções, observar melhor o mundo. Morre sem ter sofrido privações, e por sua morte a Inglaterra verte o melhor pranto.
“Mas voltando ao nosso poeta, que tem o mundo que murmurar, se ele lhe deu tudo e nada lhe pediu?
“Deu-lhe os seus cantos e a sua vida, e não lhe pediu nem amor, nem tesouros, nem grandezas.
“As circunstancias têm grande influência sobre o nosso destino terrestre. O amigo que escreveu aquele obsequioso trecho a meu respeito, publicado na penúltima Semana, sabe acaso o que me arrancou à melancolia malsã do meu tempo de estudante?
“O estímulo de um dever moral, a necessidade de trabalhar para que tivesse repouso, a santa mão que por cinco longos anos me amparara com o seu trabalho.
“Sem esse estímulo da pobreza e do dever, quem sabe se eu teria merecido o bom conceito que o meu amigo exagerou?
“E também cumpre atender a que há organisações doentias, caracteres naturalmente tristes, como Giacomo Leopardi, um dos maiores poetas da Itália moderna, que sacrificou à musa do desespero as suas melhores inspirações. Essas organizaçõcs, esses caracteres, podem dar um Otway, um Byron, um Musset ou um Shelley; a literatura receberá um acréscimo de produções admiráveis; mas o mundo esquecerá na sua rígida moral, que tais produções requeriam que Otwai morresse engasgado com o primeiro pedaço de pão que comeu depois de uma fome de cinco dias; que Shelley fosse pelos tribunais despojado de seus filhinhos, perdesse a sua primeira mulher afogada e morresse ele mesmo afogado antes de completar 33 anos. Não falo de Byron e Musset, porque os transes por que passaram são muito conhecidos.
“Pobre Varela!
“O melhor é dizermos como Virgílio e Dante:
“Volse cosi colà dove si puote
Quel che si vuol’; e più non domandare.[1]
“F. OCTAVIANO.“
Rio, 21 de Fevereiro de 1875.
FERREIRA DE MENEZES
NOTÍCIA BIOGRÁFICA
Luiz Nicolau Fagundes Varela, nasceu a 17 de agosto de 1841, na freguezia de Nossa Senhora da Piedade, hoje vila do Rio Claro, província do Rio de Janeiro.
Seus pais, o Dr. Emiliano Fagundes Varela e D. Emília de Andrade, interessaram-se muito pela sua educação, e felizmente encontraram em Angra dos Reis um hábil mestre de escola, José de Souza Lima, que sentia prazer especial em desenvolver e instruir o espírito juvenil entregue ao seu ensino.
Em 1852 foi o pai do poeta nomeado juiz de direito de Catalão, na remota província de Goiás. Durou a viagem semanas, e foi feita a cavalo através de um país sem estradas e quase destituído de habitantes. Ao meio-dia e à noite, o jovem poeta e sua família eram obrigados a tomar refúgio e refeição sob alguma árvore copada. Podemos facilmente imaginar seus sofrimentos durante tão penosa peregrinação.
O espírito do poeta recebeu, contudo, uma percepção duradoura e enérgica das belezas maravilhosas de um rico país tropical, que ainda florescia na sua primitiva majestade e aspecto agreste.
Durante a residência judiciária de seu pai em Goiás, o jovem poeta cultivou com grande proveito a lingua latina, mãe da portuguesa. Depois de sua volta de Goiás, entrou para um colégio em Petrópolis, sob a direcção de Jacinto Augusto de Matos, que discerniu em seu pupilo grandes talentos, e assiduamente os cultivou.
Tendo-se mudado a família para Niterói, começou o poeta os estudos filosóficos sob a direcção do desembargador aposentado João Cândido de Deus e Silva. Tentou este professor, como o pai de Ovidio, dissuadir o jovem pupilo de seguir a inclinação poética, porque a pobreza seria sua sorte, e, além disso, acrescentava o mestre: — “Nunca sereis bom poeta.”
Luiz Varela resolveu vingar-se do mestre por ter menosprezado as suas faculdades poéticas. No dia seguinte trouxe alguns versos originais onde escreveu o nome do grande poeta épico Camões, bem como a cópia de uma ou duas estâncias de Camões, assinada Luiz Varela. Ambas foram submetidas à apreciação do filosofo prosaico, que de pronto decidiu que a segunda cópia não prestava, e que a primeira era excelente.
Matriculou-se em 1862 na academia de S. Paulo. Ao ser examinado em Francês, coube lhe em sorte um trecho de poesia, que imediatamente verteu em excelentes versos portugueses, no meio de aplausos gerais.
Já era poeta reconhecido; estimulado pelos colegas, principiou a publicar as producções poéticas da meninice, que criaram uma escola nova, emanciparam a nova geração de imitar os poetas franceses, e lhes ensinaram a serem verdadeiros brasileiros, infiltrando-lhes nas almas ideias da grandeza do seu paraíso terrestre, e que seria crime imperdoável tornarem-se habitantes indignos de um país que possuía os dons mais escolhidos da natureza.
Abominava a escravidão, e não hesitou em publicar versos contra uma instituição que só acumulava
Tesouros sobre o sangue amontoados,
Paços sobre vulcões!
Frequentou a academia de S. Paulo durante dois anos.
Casou-se com uma moça bonita, de quem teve um filho, que concentrou todo seu amor fogoso. Resolvendo concluir os estudos em Pernambuco, embarcou no vapor francês Béarn, que naufragou na altura dos Abrolhos.
Luiz Varela desenvolveu grande energia, e graças à sua experiência de viajar através de um país agreste, dirigiu a construção de choupanas cômodas, mui artística e ligeiramente arranjadas, por meio de coqueiros, palmeiras e semelhantes produtos tropicais.
Passou um ano em prosseguir felizmente os estudos jurídicos em Pernambuco.
Ao voltar ao lar, durante as férias, sofreu mui cruelmente ao ouvir que a esposa e o filho não existiam. Foi golpe mortal para Luiz Varela; daí em diante vagueava pelos campos, abria caminho através de florestas, vadeava ribeiros e passava rios caudalosos a nado, condoía-se com os africanos, contava suas torturas, suspirava pela morte, e como em uma ocasião anterior, poeticamente exclamou:
Minha alma é como um deserto
Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as águas palpita
Queimada por um vulcão!
Durante a tempestade de dor, compôs o Cântico do Calvário, em referencia à perda do amado filho. Citaremos alguns versos, notáveis pela beleza melodiosa:
Como eras lindo! Nas rosadas faces
Tinhas ainda o tépido vestígio
Dos beijos divinais, nos olhos langues
Brilhava o brando raio que acendera
A bênção do Senhor quando o deixaste!
Sobre o teu corpo a chusma dos anjinhos
Filhos do éter e da luz, voavam,
Riam-se alegres, das caçoilas níveas
Celeste aroma te vertendo ao corpo!
Pouco a pouco se extasiou de tal forma pelos costumes simples dos camponeses, que adotou suas maneiras e vestuário.
Descreve, segundo o seu modo de ver, os prazeres da vida campestre nas subsequentes linhas intituladas
A ROÇA
O balanço da rede, o bom fogo
Sob um teto de humilde sapé;
A palestra, os lundus, a viola,
O cigarro, a modinha, o café;
Um robusto alasão, mais ligeiro
Do que o vento que vem do sertão.
Negras crinas, olhar de tormenta,
Pés que apenas rastejam no chão,
E depois um sorrir de roceira,
Meigos gestos, requebros de amor,
Seios nus, braços nus, tranças soltas,
Moles falas, idade de flor:
Beijos dados sem medo ao ar livre,
Risos francos, alegres serões,
Mil brinquedos no campo ao sol posto,
Ao surgir da manhã mil canções:
Eis a vida nas vastas planícies
Ou nos montes da terra da Cruz,
Sobre um solo só flores e glórias,
Sob um céu só magia e só luz.
Esta agreste vida poética terminou em segundas núpcias, e da segunda esposa deixou duas filhas de tenra idade.
Contudo, nunca restabeleceu-se completamente do abalo sofrido pela morte do primeiro filho. Desaparecia às vezes durante semanas, procurando consolo nas florestas e choupanas dos camponeses pobres, e como era perito botânico, naturalista, e bem versado em medicina, as visitas eram recebidas com sincera afeição e gratidão. Podemos formar uma ideia do prazer que derivava dessas visitas errantes, pelas seguintes linhas, dedicadas ao amigo íntimo Dr. Betoldi:
Salve, florestas virgens! Rudes serras!
Templos da imorredoura liberdade!
Salve! três vezes salve! Em teus asilos
Sinto-me grande, vejo a divindade!
Não obstante o ser mal compreendido pelos seus numerosos conhecidos, que eram incapazes ou não queriam compreender a força do seu gênio e o vigor da sua imaginação, nunca retribuiu as opiniões errôneas com um merecido castigo poético; era magnânimo demais, como se vê pelos seguintes versos:
Na flor dos anos conheci da vida
Toda triste ilusão:
Embora os homens meu porvir manchassem
Não os detesto, não!
Embora o sopro ardente da calúnia
Crestasse os sonhos meus,
Nunca descri do bem e da justiça,
Nunca descri de Deus!
Foi estudante laborioso de livros e da natureza; preferiu estudar os homens quando tiravam o disfarce em banquetes joviais.
Sendo parco de alimento, foi fraquíssimo companheiro folgazão.
Desejou ardentemente estudar o rio oceânico Amazonas, e associar-se com as numerosas tribos indianas que nunca tiveram comunicações com os brancos.
Resolvera efetuar este projeto ousado, logo que tivesse completado a publicação do poema denominado — Anchieta, ou o Evangelho nas Selvas.
Um ataque apoplético, que terminou fatalmente no dia 18 pretérito, abateu este poderoso gênio antes que tivesse tempo de revelar o acumulado tesouro poético que a reflexão estava amadurecendo.
Suas principais obras publicadas são:
Notumas.
Vozes da América.
Cantos Meridionais.
Contos e Fantasias.
Pendão Auriverde,
Cantos do Ermo e da Cidade.
Entre sua grande coleção de manuscritos encontraram-se: um fragmento da vida dos apóstolos, três dramas intitulados, A Fundação de Piratininga, em verso, Ponto Negro, e 0 Demônio do jogo, também em verso, tirado dos contos fantásticos de Hoffman.
Vários fazendeiros possuem composições de Luiz Varela que reunidas dariam um volume de bom tamanho e interessante.
A feição característica da poesia de Luiz Varela é a imitação vívida e verdadeira da paisagem e vida do Brazil, em linguagem simples, mas vigorosa e agradável, que corria espontaneamente, mesmo na meninice, de uma imaginação fértil, altamente dotada da percepção de semelhança na dessemelhança.
Tinha maneiras tão simples que muitos não podiam acreditar que possuísse gênio poderoso e que às vezes se erguia tão demasiadamente alto que no ãpodia ser devidamente apreciado pelos contemporâneos menos favorecidos.
Gerações sucessivas hão de elevar, indubitável e merecidamente, a uma alta esfera poética e acariciada a fama de Luiz Varela.
Corte, 15 de março de 1875.
(The Anglo-Brazilian Times)
Poema narrativo de Fagundes Varela publicado em 1875. Edição em domínio público para leitura gratuita online por capítulos no Literunico, preparada a partir da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos da UFSC.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
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