Universo da obra
Universo da obra
— Poltrão... — E' isso mesmo : poltrão. Se eu me casar comtigo viverei jungido ao ciúme e ao desespero. Tu não renuncias á tua faceirice; eu não posso renunciar ao ciúme que está unido á minha alma como a minha pelle á minha carne. Se é fraqueza não sei, é a verdade. Não te engano. Quando fores minha mulher nunca mais consentirei que mostres assim o teu corpo a todos os outros homens, com esses decotes indiscretos... sinto que não terei socego... viverei temendo a cubiça de toda a gente, fechar-te-ei a sele chaves. só para mim, só para o meu orgulho e o meu amor ! - Um convento para nós dois ! — Não sorrias. E' assim que eu te amo, Adda... Tu bem o sabes, já t'o tenho dito... e se me amasses. um- pouco -ao menos, custar-te-ia tão pouco o fazer-mc feliz! — Como, meu Deus? ! - Escondendo... disfarçando a tua belleza... Tens 'um collo de deusa, nunca o mostres, sobe as gollas dos teus vestidos, guarda-o só para o teu espelho...
A brancura do teu pescoço suggore idéas que me torturam; deves cobril-a... — Com- um habito de freira ! — Não; com um vestido de mulher casta... t— Que mais? — Procura um penteado mais simples, engrossa essa cintura que tú esmagas. tyranicamente, talha os teus vestidos "com menos arrogância, faze-te modesta, aproxima-te da natureza e approxima-te de G2 mim, do meu amor eterno, da minha pobreza, da minha quietação ! — Para isso seria precizo... — Sacrificar o teu corpo á tua alma, a tua vaidade ao teu critério; mais nada. — E será pouco? ! — Não, não é; mas comprehende-me, Adda; para poderes ser a minha mulher, a doce mãi dos meus filhos, a companheira interessada de toda a minha vida de trabalho e de agitação, vida de homem pobre que só em ti acha alento para os seus esforços, deveras ser singela e muito, muito sincera ! Oh, se tu me promettesses... se tu me promettesses esse sacrifício !
O olhar de Adda estendeu-se para um ponto indeterminado. Ruy instou : — Promette-me que farás alguma cousa para conquistar a felicidade futura... sê natural e nunca has de ouvir de mim uma queixa. Tudo se resumirá nisso. — Mas, Ruy, eu não sei como hei de disfarçar... tornar-me mais feia do que sou... — Innocente! ah, vaidosa, eu estava esperando essa confissão... — Não será mais justo eu pedir-te que sejas menos ciumento? — Não posso... — Pois eu serei mais forte; tentarei fazer o que me pedes. — Pensa primeiro. — Tentarei. — Pensa ainda mais ! — Mas se eu não conseguir o que desejas? CRUEL AMOK — Conseguirás se a tua vontade fôr decidida. — E depois?... — Gasar-nos-emos. —• Sem o consentimento de teu pai?... — Com o seu consentimento. — Duvido ! — Não duvides; o essencial é que cumpras o que me prometteste agora... Sei que deve ser doloroso esse sacrifício, mas sei também que de tudo é capaz uma mulher que ama.
Eu adoro-te, Adda ! — Falia mais baixo ! — Gostaria de o dicer gritando ! -- Estão olhando para nós... — Que te importa? ! tu és a minha noiva... — Ainda não... Nesse instante a moça dos quadris postiços, fazendo tilintar os seus berloques, voltou-se e enfiando o braço no braço de Adda disse-lhe, rindo, ao ouvido : •*— Isso está escandoloso ! O Eduardinho não tira os olhos de você e está alli está desafiando o Ruy para um duello! A procissão voltava com a mesma lentidão. Ao prestito tinham-se incorporado agora o Bié e a Nita, ambos sujinhos, descalços, carregados de orchideas o de bromelias em flor. Atrás de todos os anjos enguirlandados de rosas de panno e canotilhos, aquellas duas crianças semi-núas punham no artificio da soleranidade uma palpitação viva da natureza. Vinham do mato. Tinham ido buscar orchideas para os andores, mas a caminhada fora áspera. O Bié escapara de morrer num charco.
Nita resvalara por Oi uma rocha o arranhara-se toda. Quando regressaram, ofTegantes já o cortejo voltava para a igrejinha. Que decepção ! As suas flores não figurariam no andor ! Sempre mais audaciosa, Nita puxou pelo Bié. — Vem pr aqui ! Mas... Sem at tender á hesitação Jo companheiro, ella postou-se ao lado de um anjinho lentejoulado, de andar contrafeito pelas botinas apertadas, e diadema de plumas sobre a cabelleira encacheada. Mas a audácia foi logo castigada : a um olhar do padre, o sacristão arredou com violência para longe das sedas baratas do anjinho os velhos frangalhos daquelles garotos destemidos. — Para trás, cambada ! E elles resignaram-se a caminhar atrás de toda a gente, levando no corpo e nos cabellos um bafo das florestas percorridas. Os seus olhos ardiam numa expressão de deslumbramento, sem rancor. Quando Rola, que esperava no alto a procissão, os vio assim isolados, sujinhos, rotos e carregados do pendões de bromelias e de orchideas, sentio as lagrimas subirem-lhe aos olhos.
Constara a Nita que os anjinhos receberiam confeitos na sacristia, e insinuou-se entre elles, morta por merecer igual recompensa... A mesma mão que a arredara com violência da procissão, sacudio-a de novo, emquanto uma voz rugia : —- Fora daqui! não se conhece? ! Rola interveio, acariciando os pequenos, promet- tendo-lhes doces melhores, em cartuxos que ella mesma enfeitaria da lacinhos. Que fossem no dia seguinte buscal-os á sua casa. Ella ainda lhes contaria uma historia nova, muito grande e muito bonita ! A pouco e pouco a multidão ia-se desfazendo em grupos ralos. Véos brancos de virgens fluetuavam em últimos adeuses á tarde mansa, de volta para casa. Gente da cidade, depois de pasmar os olhos para a immensidade do mar, voltava as costa á igreja o descia a colina à procura do bond. Tinha acabado a festa e Rola decidia^se também a partir, como toda a gente, quando Bié e Nita, trocando um olhar de intelligencia, lhe depuzeram as flores aos pés o desataram a correr.
Rola estremeceu áquella homenagem. Pobres crianças, tão pouco afieitas estavam a caricias, que se tinham enternecido á sua piedade. Levantando as flores do chão, ella pensou na sorte dessas creaturinhas, criadas na absoluta independência do ar livre. Que aprenderia o Bié com aquelle tio mudo, tão áspero o impenetrável? Que amor poderia Nita consagrar á mãi, que a sovava como a um polvo, ao menor pretexto, até deixal-a comor-morta no chão? Ah, ella era bem culpada de não remediar aquelle abandono. O que valia a esses desherdados eram os pescadores. Quando o mar queria, ninguém tinha fome. Os pescadores têm compaixão. Vira mais de uma vez João Sérvulo dar um punhado de paratys ao Bié... Se ella fosse rica... se ella fosse rica ! t. (>6 < RO EL AMOR Sobraçando as flore- com os olhos illuminados de sonhos, Rola desceu, por fim, a encosta, em que fluctuavam as bandeirolas alegres. Era precizo andar depressa.
A patota da Adda não se lembrava que linha ainda de dar uns pontos no vestido com que devia ir á noite á casa do Dr. Guidão, e lá se fora passear com as outras e o Eduardinho... Teria ella de correr para fazer esse serviço á filha. Rola morava em um chalet de porta e janella, alu-, gado a meias com uma viuva idosa. D. Ricarda, que a auxiliava nas despezas e lhe fazia companhia, garantindo certo respeito á casa, tanto mais que era inimiga de pôr pés na rua, occupada sempre em coser roupa branca para camisarias e particulares. Nessa tarde, vendo entrar Rola sozinha, com ar atarefado, a viuva perguntou, com extranheza : — E Adda !? — Não deve tardar... anda com a gente do Dr. Guidão... o peor é que ainda lom de concertar o vestido... — Sempre a-mesma condescendência... aposto em como você lhe vai fazer esse serviço ! e ainda por cirna não teme a boca do mundo. — Não temo, não, D. Ricarda. Qüe nos dá o mundo em troca do que nos rouba?
Sempre que não houver maldade nos actos que practicamos, por que havemos de temer a- má- linguâs? Deixe que Adda goze e se distraia agora; lá virá o tempo de soffrer. — Emfim, como ella não é minha filha, não tenho nada com isso... — Também não é minha filha, mas a sua felicidade me interessa mais do que a minha. Na verdade, ella tem o gênio um pouco arrebatado e independente: talvez eu devesse contrarial-a. Mas que compensação lhe daria eu depois, D. Ricarda? nenhuma... Creia que se estivesse em minhas mãos, eu daria felicidade a toda a gente... Olhe : ahi vem ella ! Adda entrou estabanadamente, com as faces em fogo, o olhar preoccupado. —• Mamai! depressa, vamos concertar meu vestido. Fui vêr o de Leonor. E' lindo. Vim pensando pelo caminho que é melhor cortar as mangas do meu. — Você deixa tudo para a ultima hora. — Mesmo que eu chegue um pouco mais tarde não faz mal. Rola foi ao armário buscar o vestido de Adda, herança de D.
Leonor. Era um vestido de seda amareila com ramagens de ouro antigo e guarnições de gaze já renovadas pela terceira vez. Percebia-se na mplleza do estofo o cançaço de muitas contradanças e de muitas valsas. - A senhora sabe da tesoura, mamai? — Está aqui, toma. Adda arrebatou a tesoura, febrilmente e, sem um minuto de hesitação, cortou as mangas do vestido. — Que é isto, menina ! pelo hombro? ! - Pois então? ! os braços devem ficar completamente nús... disfarço as cavas com tufos de gaze... isto arranja-se depressa ! . — Mas, minha filha, olha que não é um baile... — Não faz mal. D. Maria Guedes vai decotada... IO" 1 — D. Maria Guedes é uma senhora de mais de trinta annos... de mais a mais muito rica... — Não quero sabor. A- mangas já estão cortadas... Agora falta decotar o vestido. Elle procizava mesmo disso, porque a gola está muito oneardida. — Não acho... por meu gosto... Adda não quiz ouvir objecções; pegou de novo na tesoura e, sem trepidar, talhou o corpete no peito e nas costas.
r — Sabe o que nos faz muita falta, mamai? um espelho grande, em que a gente se veja toda ! — Ha cousas que nos fazem mais falta, filha... — O que? ! perguntou Adda. — O juizo, sentenciou do seu canto Dona Ricarda. Adda franzio as sobrancelhas. Rola continuou : — Meu amor, é precizo comprehender bem isto; nós somos admitlidas no sociedade da família Guidão, por benevolência; lembra-te que somos humildes, que somos pobres e que não devemos ter a veleidade de nos apresentarmos vistosamente... corno não podemos, visto, as nossas circurnstancias... — Lá vem mamai! pobreza não é vergonha. — Se fosse só a pobreza... — Que mais, então? Rola calou-se, córando até á raiz dos cabellos; mas a moça não deu pelo embaraço. Tinha quebrado a agulha e desesperava-se : era sempre assim, quando tinha pressa! Meu Deus! como o relógio andava depressa! E ainda queria metter-se toda rfagua. e ahi estava a noite, c ainda 0 não tinha acabado de concertar o vestido.
Aquelle trapo ! Depressa, depressa ! Ao mesmo tempo que cosia ella pensava : Ruy vai ficar furioso... mas... eu também não lhe prometti principiar hoje mesmo a desfigurar-me... é para despedir-me... depois, se se zangar o peor é para elle... a zanga ha de passar, como das outras vezes... tanto mais que hei de procurar fazer-lhe todas as vontades... todas!... Se me disser qualquer cousa, digo-lhe que não tenho outro vestido... Elle hoje estava tão pallido... que linda voz a delle !... Meu marido... meu marido... A's dez horas Ruy entrou na sala do Dr. Guidão. Dançava-se. Procurou Adda com a vista; não a vio. Quedou-se num vão de porta. Insinuavam-lhe que valsasse; havia falta de pares. Mas a dança aborrecia-o. Preferiria estar lá fora, na praia, ouvindo a Hortensia cantar, e o Rubião pescador acompanhal-a á viola. Elle fizera umas trovas para a Hortensia : — a Bonança — morria por ouvil-as!
A sala tinha um ar burguez, familiar. Escassearam pares, cessou a musica-. As physionomias tinham uma expressão expectante, quasi aborrecida. De repente, a attenção de todos voltou-se para a porta, num estremecimento de sorpreza. Adda apparecia, com o collo e os braços nús, em toiletíe de gala. No meio de todos os vestidos afogados que enchiam o salão, o seu assumia ares de petulância 0 CRUEL AMOU e de desafio, pelos .-eus tons llaminanfes e fôrmas impudicas. De mais a mais toda- as senhoras conheciam a origem daquella seda amarrotada, o não perdoavam que de tão molles trapos se expandisse tanta formosura. Correram logo rumores por detrás dos leques abertos. Que falta de pudor! Aquelle disparate de um decole tão atrevido numa simples fostinha de arrabalde ! E havia risinhos de escarneo por aquellas rendas serzidas o aquelles filós cngommados.! Adda parecia não perceber essas malevolencias, passeando a sua carne de selim sob os focos mais intensos da luz.
No fundo adivinhava tudo, revoltada contra aquella miséria que a sujeitava a tantos commentarios... A verdade era que se as mulheres olhavam para ella de soslaio, os homens abandonavam as outras para a rodearem de perto, como mariposas fascinadas pela luz. Ruy contemplou-a boquiaberto, numa paralysia de espanto. Que ! aquella mulher seria a mesma Adda, que poucas horas antes, nesse mesmo dia de desespero, respondera ás suas supplicas promettendo esconder, disfarçar a sua formosura provocadora, para se approximar assim da felicidade que elle sonhava? ! Aquella mulher, cujos cabellos negros se entrelaçavam de pedrarias falsas, e cuja carne moça se ostentava, até á nascente dos seios bem desenhados, a todas as vistas, seria a mesma creatura em que elle encarnava o seu melhor sonho de felicidade? O egoísmo da belleza seria nella mais poderoso do que o amor, ou o amor não seria nenhum? ! 1 Ruy, abalado por um aeees-o de raiva que o fazia tremer, via Adda passar e repassar pelo braço do Eduardinho Guedes, neto dos donos da casa, seguida por outros'rapazes, que a disputavam para as valsas, fixando-lhe o collo, sem disfarce.
Ella, sim, é que fingia não vêr o Ruy, evitando-lhe o olhar, por temer a censura; até que elle, desesperado, abandonou a festa. Tinha um soluço preso na garganta, abafava. Andou beirando a praia. O mar estava tranquillo. Tomou por fim o rumo de Copacabana. Na enseada da igrejinha o pessoal das canoas conversava rindo. Prolongavam a festa do dia. Estrangulado pelo desespero, Ruy tinha Ímpetos de caminhar, caminhar para diante, entrando pelo mar sem fim. Sentia bem que aquella mulher o levaria á morte; mais valia precipital-a. Na terra as suas almas'não se encontrariam nunca. Não acabara elle de ter disso uma prova definitiva? Três horas depois de lhe ter promettido fazer-se simples, socegada, modesta, não entrara ella com tanta arrogância e tão consciente domínio num salão familiar e pacato? Se aquillo era uma manifestação de pouco caso pelo seu amor, tanto peor para ella. Elle agora saberia ser forte e resistir; não tornaria a vel-a nunca mais...
nunca mais ! Enterrando os pés na areia, seguia fascinado para a escuridão das águas, quando a voz da Hortensia se elevou nos ares. A doçura inegualavel daquella voz entrou-lhe nalma. Os humildes, os simples, esses eram a sua família. Aquella pobre Hortensia abran- CRI LI. AMOR dava-lhe a tormenta do espirito,como um raio de luar a negrura da tempestade... Ella cantava uma trova feita por elle, aflirmando que o coração, como uma barca, muda ás vezes de rumo... Em vez de caminhar para as ondas, Ruy entrou no grupo dos pescadores. Não se espantaram, aíTcilos á sua presença. Estavam reunidos o pessoal da Cruzeiro, da Guanabara e da Camponeza, canoa afamada, vinda novinha das bandas de Sepetiba. Rubião abafou o ultimo accorde; Hortensia suspirou a ultima nota. Os pescadores conversavam. — Gente ! que fim levou D. Constança? ! — Essa ! respondeu Fortunata, sempre falladora, onde estaria ! Lembrava-se ainda do tempo (quantos annos, Deus do céo !) em que a via vestida de homem, montada a cavallo, com armas no cinturão e um chapéo desabado sobre os seus lindos cabellos pretos.
Alma franca, porta do casarão sempre aberta para os pobres, que enchia das melhores frutas do seu pomar variado e com os melhores bolos dos seus armários... Parecia cousa de sonho a figura daquella mulher que passava pelo tempo a galope e não deixava traço senão da sua saudade... — Boa alma! affirmou Lino com os olhos no c-paço todo azulado. — Ella era a dona de toda esta redondeza, e nem por isso vaidosa. Lembra-sé da historia /Ia mendiga, seu Lino? 3 — Não... — Pois uma vez, a princeza D. Isabel, que aqui estava a ares, fazendo o seu exercício, foi parar um dia na porta de D. Constança, e vai esta o que fez? . Com aquelle seu modo despachado, convidou a Princeza para tomar café ! A sala de jantar, muito grande, tinha as portas abertas para o jardim. Dè repente appareceu uma mendiga. Dona Constança sabem o que fez? Sentou a mendiga, com licença da Alteza, á mesma mesa e tomaram as três cafésinho em chicãras iguaes.
Esta historia é tão verdadeira como são verdadeiras estas areias e a água do mar! Olha, tá ahi tio Simão, que não me deixa mentir... eu era,peque-' nina. Mas, elle! Tio Simão era un velho pescador já fora do serviço e que vagava agora por casa de filhos e-netos, ora no Rio, ora em Angra, ora em Cabo Frio. Pescara lá por fora, por todas essas praias que elle conhecia a palmos. O seu desgosto era já não ter força nos dedos gotosos e que lhe davam ás mãos apparencias de aranhões do mar. Vista, graças a Deus, ainda tinha. Ouvido? que nem o do charéo. Pois os oitenta e cinco lá estavam a envolvel-o todo. Quando a Fortunata lh fez a pergunta, elle não respondeu, porque dizia a um outro : — Ah, seu Lino, se vancê lançasse arrastão em praia? de Cabo Frio é que haverá de vê. O peixe anda lá em cardume na flô da água, desafiando a gente ! Era lá que eu queria ter vinte annos, boa canoa, boa rede e muita cabaria !
Nasci num batelão. Estou tão acos5 tumado a olhar para o mar. que mesmo quando olho para terra vejo tudo azul... — Então Cabo Frio... insisfio Lino, querendo colher uma informação. — Tanto serve pararencher a rede candombe do camarões ou de iscas, como para atulhar as outras com peixe graúdo que nem vancê imagina. E' um mar abençoado e que não nega nada ao pescador, aquelle mar... Devagar, puxado pela curiosidade do Lino, elle foi dando com a lingua nos raros dentes, vociferando contra os matadores de peixe a dynamite, desleacs e traiçoeiros, que illudem a vigilância das autoridades e-prejudicam os pescadores honestos. Que fossem ver no meio da habia, para os lados de Paquetá... gente sem consciência!... Por elle, preferiria dormir uma noite na ilha do phantasma a commetter semelhante delicto. — Mas é verdade mesmo, tio Simão, essa historia do phantasma? indagou Fortunata de olhinhos accesos.
— Se é ! A ilha fica dentro da bahia. Todo dia se cruzam barcas e lanchas na frente'della, mas ningueni tem coragem de desembarcar... Mora lá um phantasma, que não apparece, mas tem sempre a seu serviço uma mesa que vai daqui até acolá, cheia de tudo quanto ha de bom, comedorias, doces, vinhos e frutas... Os pratos estão todos arrumados, rnas nem os passarinhos tocam nelles... Um cão preto, de rabo retorcido, . arreganha os dentes para quem quizer se approximar...
Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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