Universo da obra
Universo da obra
Maria Adelaide a um canto, que resistio a todas as supplicas e investidas, e de outro lado, ao fundo, a mãi de Marcos, fazendo rutilar na sombra os lampejos dos seus ouros e dos seus cabellos fulvos. Para não dançar, Marcos escondera-se dentro da Guanabara, na praia, e só apparcceu no barracão ao ir a contradança em meio. Os seus olhos ardentes acertaram logo com a figura pallida da Maria Adelaide, encolhida, sozinha, com as mãos cruzadas sobre os joelhos. Já ella o vira. Era como uma chamma escondida em um bloco de neve, a traspassal-o sem o dissolver, devorando-se, consumindo-se... Elle desviou a vista. Ella também. Os outros pulavam, riam, faziam roda, obedeciam á voz de seu Freitas, que era o mestre-sala. Até a mãi de Maria Adelaide saracoteava em uma alegre illusão de mocidade ! Torcendo e destorcendo a ponta do lenço, nervosamente, a moça levantou de novo os olhos do chão o fixou-os em Marcos.
Elle tremeu. As palpebras bateram-lhe como para proteger a retina ofTuscada... Entre os lampejos dos ouros do pescoço e das Orelhas, a mãi do pescador procurava em vão cortar com o domínio da sua vontade aquella troca de olhares que ardiam e cada vez com mais intensidade. Um grande ódio crescia-lhe no coração contra aquella rapariga, que não valia dois vinténs de gente, pamonha amarellada, e que sem dizer sim nem não, eslava a dar voltas ao juizo do filho! Também que 3 0 fazia o estúpido do Flaviano, que não arranjava nunca dinheiro para casar? ! A sanfona do compadre Rufino fazia prodígios, Valia uma orchestra. Todo o barracão vibrava ao estrepito da musica e do sapateado. Pedro mudo mesmo, sentado dentro da Sereia, ao lado dos tocadores, franzia o largo earão em um riso, pasmado para os que dançavam. — Coitado ! Dizia a Fortunata, sempre que relanceava os olhos por elle — Pedro não escuta nada e está gostando...
que diria se escutasse ! A s nove horas Rola entrou, esgueirando-se rente á parede fé perto da Conceição, que faiscava... Adda não viera; e Ruy, que já tinha chegado, veio sentar-se entre ella e a mãi de Marcos. — Adda não quiz vir?... — Está adoentada... — A verdade não é essa. Ella não quiz vir á festa dos pescadores... — Falle baixo... — Para ir á casa do Dr. Guidão.. — Não a comprometta... Realmente, D. Leonor não a dispensa... — Nem o Eduardinho tampouco... Demais a mais esta gente humilde não mereceria a sua presença... nem eu !... — Que tolice !... — Quer saber uma novidade? Meu pai foi hoje ao Ipanema, a chamado de D. Delfina... — Eu sei... — Ah ! Já? ! e para que? saberá também para que? CRT5EL AMOR 231 — ComO não hei de saber, se foi a pedido meu? Precizo muito conversar com seu pai; queria fazer isso em segredo, mas vejo que não é possível e vou dizendo já... Mas que fique isto entre nós...
— Por força. Mas que lhe vai dizer, Rola? ! — Quero fallar-lhe a respeito de vocês dois. O coronel não permittiria nunca que eu entrasse em sua casa, não é assim? pedi por isso a intervenção da D. Delfina, que elle considera muito e ficou resolvido que nos encontrássemos amanhã, ás duas horas, no chalet do Ipanema... Adeus! é uma cartada... Não arregale assim os olhos, eu não tenho medo, nem quero que você se impressione com isto... — Rola, a senhora bem sabe que meu pai é um homem violento... por vezes injusto... — Estou preparada para tudo. — E* tempo ainda de evitar um desgosto... — Mas, filho, nós precizamos sahir desta situação... —'- Elle cedeu facilmente? — Não; ao principio relutou; mas Dona Delfina conseguio convencel-o... Ella é uma santa. .— A senhora precizará armar-se de paciência... — Ninguém a tem mais do que eú..: A sanfona antes de terminar o ultimo som da quadrilha transformara o compasso para o de uma valsa, o que fez rir muito os pares.
Mas João Sérvulo, que se prestara por cortezia á contradança, não se submetteu á valsa. A mãi de Maria Adelaide também não. O enthusiasmo parecia arrefecer e era isso o que não queria a Fortunata, que, relanceando a vista pelos cantos, vio Maria Adelaide isolada e, na boca do barracão, o Marcos, hypnotizado e mudo, como se fora um homem de pedra. Antes que elle lhe percebesse os movimentos, cila agarrou-o por um braço o levou-o até á moça. — Tenham santa paciência, é só uma voltinha, que isto não é cemitério nenhum... Maria Adelaide disse que não com a cabeça, mas o corpo suspendia-se-lhe para o par. — t é ! tudo isso é tristeza por amor do pé de flaviano? ! exclamou rindo a mulata. Então Maria Adelaide levantou-se curando, como se tivesse recebido uma chicotada na face, e estendeu os braços para Marcos, que a recebeu calado. As mão delle estavam frias que nem a água do mar rio verão. O corpo delia tremia...
Foi no instante de elles darem os primeiros passos que a Fortunata se lembrou que acabava de commetter uma imprudência... Elles não se fallavam; iam e vinham num rythmo incerto; ella pendida como um lirio, elle direito como uma torre. No fim elle levou-a para o seu lugar, ella deixou-se cahir e nem se olharam. Mas ambos vibravam da felicidade daquelle instante rápido de cont a d o e de silencio... s XVÍ No fundo da cozinha, com as mãos atoladas na água gordurosa da pia em que lavava as panellas, li'Antonia revoltava-se em silencio contra o negregado fadario que a obrigava a supportar aquelles passeios do patrão no corredor ! Naquella manhã, o delírio das caminhadas entre paredes chegava a dar-lhe náuseas. O coronel ia e vinha, com olhos preoccupados por visões interiores. Os chinellos batiam rythmadamente nas taboas do assoalho, numa cadência regular, nunca interrompida. Elle não faliava, ou, se tinha urgência de dizer alguma cousa, dizia-a por monosyllabos, sem diminuir o movimento da sua marcha.
Nem as aves" tinham conseguido chamai-o ao quintal nesse dia, em que mal se sentara á mesa do almoço para mastigar, apressa, a carne secca da roupa-velha. Ruy sahira cedo, sobraçando livros. Elle ficara só, nos seus passeios de penitenciaria. De cá para lá, de lá para cá, o coronel ruminava C R I E I . AMOU pensamentos já pensados, esforçando-se por peneirar a fundo nos planos da senhora D. Delfina paru aquella singular eulrevista... Procurando ahroquellar-se contra os ataques da Bolinha, julgava perceber em que consistia o interesse da mulher do senador em approximal-o da outra... Saltava aos olhos de toda a gente (pie o Eduardinho Guedes fazia a corte a Adda... era preciso afastar de casa o perigo de uma paixão idiota, atirando o embaraço para os braços senliinenfaes do Ruy.. Depois... toda a responsabilidade seria do filho... D. Delfina fazia obra de diplomata; só mesmo a sua argúcia lhe poderia descobrir a intenção.
No fundo, bem se importaria ella que Adda casasse ou não casasse com Ruy, se não temesse vêl-a antes embaraçando a carreira e a felicidade do neto ! Ah ! como as mulheres ardilosas o queriam envolver nas malhas da sua rede, a elle, menos tolo do que todos julgavam !... Rola solicitava-lhe, pela boca de D. Delfina, -uma entrevista para interesse de seus filhos... Ora ! como se elle preóizasse de ouvir alguma cousa dos lábios daquella desgraçada sem nome, sem eira nem beira e cujos pensamentos podia pesar todos juntos na concha da sua mão ! O seu primeiro impulso fora dizer immediatamente que não. Conhecia os desígnios de Rola, que passasse por lá muito bem ! Mas o rosto macio e calmo da senhora D. Delfina, tão aristocrática, tão importante, intimídou-o e por delicadeza consentio numa approxímação que lhe repugnava. Para com a gente do Guidão elle queria parecer sempre um modelo vivo de cortezia; era Õ uma família respeitável, influente na política e no commercio, a essa gostava de dizer a tudo que sim, e suppunha que não tinham razão de queixa...
Desejavam uma entrevista com a Rola, com todas as solemnidades do alto estylo? Pois concedia uma entrevista á Rola. Com esta, porém, outro gallo cantaria; fal-a-ia recuar para o seu lugar... Mas que diabo lhe quereria dizer a estúpida? Commovel-o com as suas lérias? Estava bem aviada !... Lembrar-lhe... sim... lembrar-lhe scenas passadas...? Talvez nem ella já se lembrasse... Fosse o que fosse, o resultado estava previsto. Rola ia supplicar-lhe que consentisse no casamento de Ruy com'Adda, essa Adda sem pai riem mãi, surgida da lama e revolvendo na lama o seu lindo corpo de creatura impura, feita e creada para a devassidão. Estava bem com o Eduardinho... que ficasse com o Eduardinho e não atordoassem o espirito fraco de um estudante pobre e fantasista. Se o filho não se sabia defender, defendel-o-ia elle até á ultima gotta do seu sangue... No fundo do'seu espirito a figura de Rola passava e repassava em varias quadras da sua vida.
Via-a menina, fazendo todo o pesado serviço da casa do tio, sem um queixume e sem consideração... via-a partir como orphã para o collegio e voltar moça do collegio para a sua visinhança, aehegando-se com sympathia á sua mulher, para ajudal-a desinteressadamente a cuidar do Ruy... Elle não lhe dera nunca um vintém por esses serviços e revoltava-se agora contra aquella antiga avareza que o privara de atirar ás mãos da rapariga pobre e serviçal um ordenado qualquer, embora mesquinho. Como faria agora retmir esse dinheiro aos ouvidos delia !... Por aquelle tempo amaldiçoado, por vezes Rola fora testemunha de cortas brutalidade* que elle não pudera reprimir... Angela fizera delia'a sua confidente... era essa unia das razões do seu ódio... Já a mulher eslava no" Hospício quando correra a noticia de ler a Rolinha fugido com o official de Marinha, de quem elle tanto suspeitara com a mulher. Indirecfamente, Angela fora vielima de Rola.
Vendo o moço rondar as duas mulheres, quasi sempre juntas, elle não podia suppôr que fosse á outra e não á sua que elle pretendesse. As soluções do destino vêm ás vezes tarde de mais; essa chegara quando a mulher estava já no Hospício, entalada na camisola de força, onde morreu. Desde essa hora a loucura de Angela parecia estar sempre viva a seu lado, prompta para saltar sobre o Ruy. Era quasi uma hora quando o coronel deixou de passear no corredor, para se ir vestir. Por ironia, mais que por consideração á senhora D. Delfina, em cuja casa seria a entrevista, enfiou o seu fato solemne : sobre-casaca, calças escuras e a sua gravai a de mais preço. Um sorrisinho sardonico, desenrugavaIhe a boca rasgada, de beiços pallidos. A senhora D. Rolinha mereceria luvas de pellica e cartolla, mas as luvas ficariam na intenção, visto que as não tinha,. Lembrou-se, porém, de ter visto umas cinzentas no Ruy, no dia em que o estudante fora co'm os collegas numa commissão fallar ao Presidente da Republica, e foi-lhe revolver a.-, gavetas.
Lá as encontrou; CRUEL ^AMOR 2 3 7 estavam imprestáveis, já cobertas de mofo e resequidas. Mas se as luvas não valiam nada, alli estavam os papeis de Ruy, que o ajudariam a esperar a hora do bond para o Ipanema. Tinha ainda o tempo necessário para a tia Antonia lhe preparar o café e elle passar os olhos por aquellas paginas de cadernos, atirados a esmo por entre collarinhos e gravatas. Gostava de sorprender os segredos do filho; pois .-alli os linha. Abrio o primeiro caderno e'leu : « Urna pagina de Ernesto Renan, para a minha Adda lêr : NOEMI. « ...aos vinte annos Noemi era uma maravilha; os seus cabellos, que ella em vão aprisionava sob uma pesada touca, escapavam-se-lhe das trancas torcidas como feixes de trigo maduro. Ella fazia tudo quanto podia para esconder a sua belleza. A cintura admirável dissimulava-a com uma capinha; as suas mãos longas e brancas perdiam-se dentro de mitaines.
Mas isso não valia de nada; á Igreja formavam-se grupos de moços para vel-a rezar. Ella era bella demais para a nossa torra e tão ajuizada quanto bella. » — [Souvenirs d'enfance et de jeunesse.) « Noemi... Adda... que abysmo entre ambas! » HORTENSIA ' s « Ella symbolisa o mar nos dias de primavera, o céo sem nuvens,:a felicidade. Quando a oiço, a dôr ador- >! meco no meu coração. Ella veio á terra só para cantar e fazer esquecer a maldade «los homens. Affigura-soíno que a sua alma é como um eysne inimaculado num lago azul... azul como o seu nome. » PEDRO « Todas as vezes que encontro o mudo sinto um arrepio agitar todo o meu ser. Os seus olhos dizem-me segredos que eu não decifro; a sua pelle, que cheira a salsugem, parece repellir contactos humanos; os seus membros bambos acordam-me a idéa de algas colossaes de uma flora desconhecida e animada. Elle é o que se não vê é mal se adivinha; elle é só superfície, nunca varada pela percepção mais aguda.
Os rugidos mal articulados da sua voz fazem-me crer que elle sirva de jaula a uma lera. Não é homem; é um abysmo. Symbolisará no meu poema — o ignoto, o fundo do mar... » ROLA « Esta mulher piedosa será intitulada nos meus cânticos : — Barca de salvação. Ella tem o poder evocativo de imagens lendárias de oppostas significações. A's vezes, vendo-a entre os pescadores, ameigando crianças descalças, penso nas mulheres da Biblia ; outras vezes ella como que se írrimateríaliza, até parecer feita só de luz crepuscular. Mas a imagem que melhor a caracteriza é a primeira : — barca humilde 3 9 em mar de escolhos, acolhendo náufragos abandonados. » FORTUNATA « Risonha e tagarela, Fortunata é a imagem da onda mansa, que vai e que vem, sempre no mesmo caminho, sem deixar traços de si; água que se desfaz em água e cujo trabalho não consiste senão em avançar, para retroceder. O seu riso tem a espontaneidade das hervas nativas, que brotam em qualquer terrena mas iiunoa chegam a dar nem flor nem fructo.
» BIÉ E NITA « Encontrei-os no Leme, deitados de bruços na' praia, rabiscando com os dedinhos na areia. Estavam quasi nús. Approximei-me. Não percebi os desenhos que faziam. Perguntei-Jhes o que era aquillo, responderam sorrindo : — cartas. Eu não entendi nada, mas elles entendiam tudo'; diziam-se que se amavam. Assim as gaivotas, quando voam umas após outras, vão traçando com as pennas das azas no ar e na onda as expressões do seu amor... » FLAVIANO « O olhar deste mestiço tem reflexos de punhal na sombra... Será suggestão de Othelo? Talvez. Realmente, sempre que o vejo com a Maria Adelaide, acodem-me á idéa o mouro de Veneza e Desdemona. Í 0 CRUl.l. AMOR Mas o que possa haver no outro de franqueza, Iradu/o neste por perfídia... Flaviano é como uma corrente viva. redemoinhando na água sobro um uuieo ponto... MARCOS « Alto como uni mastro, rijo como um penedo, elle tem nos olhos claros lcaldades de pharol.
» ADDA « Em vão tento estudal-ÈTe mais em vão enfendel-áT! Ell*é bonança, tempestade, luz de raio e luz de estrella, onda que mata e'porto de salvamento; volúvel como o vento, poderos© como o destino! Nas suas mãos pequeninas serei, bem o sinto, o que cMQ^qnLzrr que eu seja... » y Q. fi- li;..; As mãos do coronel tutmiiam ; elle releu : Serei o que ell*%quizer que eu seja!... Ah ! maldita, e era assim ! O seu filho comprehendera-o já e não reagia contra tal predomínio? ! Onde estava então o juizo, a previdência, a vontade do homem? ! Num desespero frenético, revolveu mais papeis, escolhendo só os que fallavam de Adda, em períodos avulsos e entrecortados. Leu ainda : — « Como o primeiro amor de Renan, Ia petile Noemi, qui mourul parce qu'elle éiail irop belle, eu quereria, não que a minha Adda morresse, mas que occultasse a sua belleza, disfarçando-a de tal modo que só eu a notasse. Ah! mas a vaidosa ama-se mais do que me ama a mim.
Em todo o inundo nunca houVe senão uma Noemi...» Ainda numa outra folha, já amarrotada, o coronel leu : « Eu tinha jurado não tornar a vêr Adda; mas de que serve jurar 0 que se não pôde cumprir? ! As promessas que faço a mim mesmo desfazem-se como bolhas de sabão, pela alegria -í- se a vejo, ou pela saudade — se deixo dê a vêr... » "Bastava. O coronel atirou raivosamente a papelada para dentro da gaveta e sahío para a rua. Fora bom aquillo. Afiara-lhe os nervos. Se Ruy se deixava asshn prender de corpo e alma nas mãos de Adda, elle saberia arrancal-o dellas. A's duas horas*em ponto entrou cerimoniosamente no átdão de visitas do senador Guidão; não consentio em ocupar a cadeira que o criado lhe apontou e fez timbre em ficar de pé, com afartola na mão, na attitude do mais profundo respeito... Poucos segundos esteve sozinho. Abrio-se uma porta do interior e Rola entrou. Ella vinha extremamente pallida.
Os cabellos, de .um castanho cobreado, emolduravam-lhe a fronte alta em dois bandos lisos, rematados por um rolo forte na nuca. Os seus passos não faziam bulha; ella deslizava contrafeita sobre o assoalho encerado, como puxada por um ser invisível. Caminhou assim até se deixar cahir numa poltrona, ao lado do sofá. Vinha com unia saia de lã preta escorrida e uma blusa verde-garrafa de setineta. Entre o negror da saia e o tom sombrio das mangas, as mãos alvejavam, longas 14 e pallidas, como procurando affliclamenle os gestos convenientes que não encontravam... O coronel não se moveu uma linha do lugar em que estava; apenas um sorrisinho lhe encrespou subtilmente os pellos curtos do bigode. Zumbia uma abelha, debatendo-se contra os vidros da janella fechada. Nenhum sussurro mais. Estiveram assim uns minutos. Rola percebeu que seria ella quem houvesse de fallar primeiro, mas a timidez daquelle momento angustioso fêl-a esquecer as palavras que ensaiara desde a véspera, em casa, e que viera repetindo mentalmente pelo caminho...
Disse outras, com esforço, começando baixinho, em tom de queixa : — Desde que morreu D. Angela, toda a gente me diz que o senhor tem raiva de mim... D'antes... confesso, isso não me atormentava muito, porque suppunha que pudéssemos viver muito bem cada um para seu lado... mas... ha tempos, as cousas mudaram, como o senhor sabe... e agora, achei que era precisa uma explicação... O coronel não indagou nem respondeu. Continuou imperturbável. Aspirando com força o ar que a oprimia, Rola proseguio, já com um timbre mais vibrante de voz : — Pedi-lhe esta entrevista, só para saber uma cousa : se sou eu a causa da sua opposição ao casamento de Adda com Ruy... O coronel deu á physionornia urna expressão quasi cômica de fingida sorpreza e de interrogação.
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