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Cruel Amor

Capítulo 20 · Cruel Amor

Parte 20

20 de 24 ≈ 19 min de leitura

*" 2 7 j Ias, côr de, sangue... O tenente contrapunha áquellas pescas banaos e sem perigo as que elle fizera ás cavallas, não de arrastão, como os pescadores medrosos de Copacabana fazem, mas de currículo. Depois de ter deitado da canoa para a água a corda erriçada de anzócs com as competentes iscas, aquillo é que era* remar, seu Rubião, deslizando na onda como um soco pelos ares! Ora, ora ! como se o Rubião não tivesse conhecimento de pescaria de 'currículo, elle que até já ajudara a arpoar a baleia, na Bahia ! Poderia alguém ter mais sabedoria, mais coragem do que elle é que não ! Bastava dizer que desde pequenote sabia apanhar a braço o polvo, viranda-lhe a carapuça com tamanha destreza, que o bicho não lhe escapara nem da primeira vez. Aquillo era pôr o joelho em terra, enfiar o braço pelas fendas das pedras, deixar o ladrão do polvo agarrar-se-lhe á carne e logo, numa volta hábil e inesperada, torcer-lhe o corpo para que a posição da carapuça invertida o cegasse : o animal afrouxava, vencido.

Se o tenente aflirmava que quem quizesse ver bellas conchas fosse a Cabo Frio, o Rubião negava a informação, dizendo que esse alguém deveria ir de preferencia á linda lagoa de Araruama. De vez em quando, porém, por fadiga ou por enthusiasmo, concordavam em como não havia em todo o Brasil pescado delicioso como o de uma certa praia, nem mar tão bello como o do seu arraial. Estavam também de accôrdo em que a arte dos pescadores de Copacabana era limitada, e que elles eram tímidos. largo mar batido não lhes permittia usar de todos os recursos dos outros pescadores do interior da bahia. João Sérvulo mesmo, que era o sabichão do lugar, talvez não soubesse fazer num remanso um curral bem feito de esteira de pindoba e corda de imbé, como esses que a gente de Sepetiba arranja para apanhar corvinas... Se voltavam a contradizer-se, o recurso esmagador do Rubião era appellar para a coherencia do seu passado.

Que tinha elle sido, desde que se conhecia neste mundo? Pescador, só pescador. Não acontecera o mesmo ao outro, que estivera annos no Exercito, de que lhe adviera o titulo de tenente, quando em boa verdade nunca tinha passado de soldado raso... O certo é que tinham vindo ambos, de praia em praia, do Norte ao Sul; parando aqui, parando alli, em pousadas sob telheiros ou choças de sapê, ajudando uns, ajudando outros, contentando-se com um pedaço de peixe e meia cuia de farinha durante o dia e uns harpejos de violão á noite, com modas inventadas ou repetidas... Para chegar á casa do tenente era preciso transpor areaes em que os pés se afundavam. Alli se reuniam, na grande sala térrea, onde havia por única mobília dois bancos compridos de páo ladeando uma mesa de pinho, coberta por novellos de linha hamburgueza, lançadeiras de páo, chumbos de arrastão, cartas de jogar e um tinteiro quebrado com borra de tinta secca no fundo.

, Embora essa habitação fosse longe, no sopé da montanha, o Rubião ia de Copacabana até lá num fôlego. A's vezes encontrava no caminho a mãi do Flaviano, de andar molle, cachimbo na boca, chaile nos hombros, á chuva ou ao sol, sem resguardo, na sua philosophia de preta velha. Ella ia quasi sempre para o mesmo destino : a palestra em casa do tenente, de cuja mulher era amiga. Alli chegada, com'as roupas empapadas, reaccendia o cachimbo meio apagado, agachava-se com a outra, igualmente feia e suja, a um canto e, ou ficava em longos silêncios cortados apenas pelas chupadelas saliventas no tubo do cachimbo, ou em phrases curtas ia informando á mulher do tenente do que se passava lá fora. As vezes Rubião prestava o ouvido e pasmava. Como podia aquella mulher, de cuja convivência tão poucos se gabavam, saber tanta cousa? ! Os seus olhos, de i glóbulos compactos como a clara de ovos cozidos, viam através das paredes, conheciam minúcias do interior de certas casas.

Tal homem engravatado especulava com a mulher, mantendo luxo á custa delia... tal outro recolhia-se da jogatina ás tantas da madrugada... esta senhora escrevia cartas anonymas intrigando os vizinhos; aquehVoutra senhora consumia os ordenados dos empregados e o dinheiro das compras diárias en bilhetes de loteria; e ainda outra sahia diariamente para sabe Deus aonde, deixando as crianças sem^vigilancia e a casa á matróca. Um certo coronel espiava os passos do filho através dos escriptos que lhe ia remexer na gaveta. Esse era um homem miudinho, calado, que não se esquecia de assentar todas as manhãs as despezas da quitanda e da venda e de contar os ovos que tirava CRUEL AMOU do armário para dar á cosinheira. A verdade é que tudo andava limpo em sua casa; elle passava as mãos sobre as colchas, a ver se os lenções teriam rugas o ia á cozinha cheirar as panellas. A sua mania era ca-- minhar no corredor horas consecutivas, para traz o para diante, como um maluco sério, o indagar da criada quem seria o pai de uma mocinha costureira, que andava a tentar-lhe o filho !

A mulher do tenente abria os ouvidos com a avidez de quem vivia como o caracol, sempre em casa, longe do bulicio e das commoções da vida. Essa, era uma mulher magra, desgrenhada, em cujo corpo varias raças pareciam debater-se. O marido tinha-a presa ao seu lado, fazendo-a compartilhar de vez em quando, á guiza de consolação, de um cálice de paraty... A mãi do Flaviano conhecia a vida alheia por palestras nas esquinas ou na soleira da sua porta com as parceiras, criadas de servir que extravasavam nella as suas confidencias e as suas queixas, de mistura com os ridículos e as fraquezas dos patrões... De si raramente fallava; mas um dia em que, por mais empapada de chuva, a amiga lhe fez beber maide um copo, ella expandio-se numa lamúria. — O filho queria casar com a peste de uhia songa-monga que fingia de branca e haveria de mais tarde pôr-lhe o pé no cangote ! O bobo estava pelo beiço, mas emquanto ella vivesse tal casamento não se realizaria.

Elles tudo pensavam quejílla era rica, que das suas quitandas tinham ficado moedas de toda a qualidade, e fora por isso que a mãi da tal Maria 7 5 Adelaide, de má sorte, atiçára a paixão do Flaviano... Ella, quanto a isso, só achava graça... teria que rir no fim ! • A mocinha, se não casasse com outro ficaria solteira toda a vida; Flaviano não ganhava nada e tinha *genio desperdiçador; ella mesma alimentava a indolência do filho, com o sentido de prolongar aquella >"• situação. Depois, quando não tivesse outro recurso, teria ainda o da feitiçaria... Não queria saber de noras "que se puzessem nas suas tamanquinhas e se julgassem mais e melhor do que ella !... -— O que tem de ser tem muita força... commenlava a outra. Ao que a negra redarguia : — Certo, só a morte... e quedava-se agachada no seu canto, com os olhos fixos numa idéa e os grossos beiços franzidos no cachimbo fétido. No centro da sala, o tenente saltava, batendo um murro na mesa : — Quê?

! As ostras de Santos serem as melhores ! E' porque o Rubião não conhecia as de Santa Catharina, do um sabor a mar accentuadissimo e de uma frescura que pareciarii sahir de água gelada. As de Santos talvez não houvesse no mundo outras tão grandes, mas esse tamanho mesmo, affirmara-lhe um capitão de navio costeiro, homem entendido dessas cousas, ora devido a uma doença que atacava os molluscos como a hydropisia ataca os homens... Rubião achou graça naquella doença, que não poupava uma única ostra e as tornava tão saborosas ! - - E saiba você. aflirmava o tenente, que em toda 7 6 a costa do Brasil não ha ostreiras, como na Europa, porque nós não sabemos apreciar o que é bom !... Outra gargalhada do Rubião. — Homem, você já esteve na Europa? — Não; mas esse mesmo sujeito que me contou da tal doença das ostras de Santos, foi que me disse isso. Que necessidade tinha elle de mentir?... ó Brasileiro como nós !

— Basofias ! Se eü fosse acreditar no que 03 outros dizem, haveria de imaginar que o gosto do bagre .gordo é, bem preparado, tal e qual como o do bacalháo ! — E é. Fique você sabendo que é ! — Qual nada ! João Baptista inventou essa caraminhola e você acreditou. — Uê ! pois entonces eu nunca comi bagre e nunca vi bacalháo? ! Rubião torceu-se de riso, e depois: — E' como a historia da corvina chorar alto que nem criança... — Oh ! desgraçado, pois se você nunca ouVió corvina encurralada chorar, então não é pescador! E tanto chora a corvina, que os pescadores, quando* ellas entram no curral, não as pescam todas, — deixam, sempre algumas para attrahirem outras com o seu alarido... O charéo ouve, a tainha tem faro, a corvina chora... E' o que lhe digo. Bem pensado, não ha nada que não sinta, neste mundo ! Direitamente, nem a gente deveria pescar tainhas nem cprvinas, quando vêm nas mantas para desovar na beira dos rios ou dos mangaes.

E é ahi que o pescador se as- sanha. Veja quanto pescado se perde em cada ova, dessas tainhas de Junho ! —- Se nós não pescássemos senão cassacas (1) estávamos bem servidos com o mercado... A's vezes, mais enternecidos por um golfinho de paraty, devaneavam : « Ah! quem conhecesse palmo a palmo todo este tittofal, onde ha praias que dividem com uma só linha branca a terra do mar, e outras que circumdam rochedos e montanhas, mudando de côr e de feitio em cada sinuosidade! O Rubião tinha reflectido nas retinas o verde claro das ondas em que se banhara em pequeno. Achava ennegrecido, turvo, o mar do Sul. E fallando do mar, lamentavam ambos a gente serrana, a triste gente do interior, que vive com -a alma abafada na mataria escura, sem aquella grande e luminosa liberdade das águas movediças. As aventuras da pesca entretinham-os largas horas, esquecidos do baralho da bisca e da monotonia da chuva; e a conversa, começada em contradicções e querellas, morria heroicamente no meio de descripções de valentias.

Rubião contava o modo trágico por que, tendo-se virado uma canoa no mar, elle matara um dia, á faca, dois formidáveis tubarões; ao que o outro annotava, sardonico : — Haverá de ser jamantas... Por si tinha proezas de outra qualidade : as caçadas ao jacaré, nos igarapés do Amazonas... (1) Tainhas desovadas. 16 7 8 CRU Kl AMOR Apezar de lhe subir o sangue á cabeça quando questionava, o Rubião. ao sahir da casa do amigo, sentia a alma alliviada, como se tivesse voltado de uma viagem ás paragens onde vivera na sua mocidade. Na arrecadação, em Copacabana, as conversas eram outras. As mulheres inlervinhain; Fortunata embarafustava com opiniões e risadas sobre isto ou sobro aquillo, o a Hortensia, com a magia da sua voz, interrompia a zanga dos homens, que, instinofivameufe, paravam de fallar para ouvil-a. — O diabinho da moça a modos que tem uma sereia na garganta, dizia o Rubião, acerescentandn que se elle fosse solteiro e tivesse menos uns dez annos, seria aquella doce mulherzinha que elle escolheria para companheira de toda a sua vida, porque ella curava melhor os desgostos dos outros, do que a raiz do mangue vermelho cura os ataques de asthma.

E olhassem que não havia remédio para asthma comparável á raiz de mangue ! Assim, em ocios e conversas, se passou a primeira quinzena de Janeiro; ainda ella não estava bem extincta quando houve uns dias de estiada. Pela escala, cabia a primeira pescaria á canoa Cruzeiro, mas o pessoal das outras, saudoso do trabalho e do bom tempo, reunio-se de manhã cedo na praia, para vêr o lanço e apreciar as manobras dos eollegas. O céo, côr de pérola rosada, tinha uma claridade fosca. As águas acinzentadas, golpeadas de cortes verdes, estendiam-se chatamente na areia pallida. Vinha de terra, das matas, das montanhas, já como 7 9 uma débil musica delicada, a chilreada ciciante das cigarras. Voltava o calor de Dezembro, que a chuva tinha interrompido. As águas, sujas pelas enxurradas, tornariam os peixes mais confiantes, favorecendo as pescarias. Attrahido pelo bom tempo, Ruy tinha feito madrugada e observava o movimento da praia, encostado á quüha da Camponeza.

Ao vêl-o, Fortunata não conteve uma exclamação, achando-o côr de cidra. Elle explicou : era cançaço dos estudos; approximava-se o dia dos exames... e depois, procurando rodeios, indagou se Adda e Rola tinham apparecido por alli... Fortunata cortou logo o embaraço com decisão : Adda fugia da gente pobre como de leprosos. Só vinha á praia para o banho. Suas preferencias estavam todas voltadas para os lados do Ipanema, com as famílias que roncavam sedas, dos senadores e dos doutores! Agora, meu ariiiguinho, eram passeios de automóvel... chapéos de flores... até luvas ! Rola matava-se em cima da agulha para a soberba da filha olhar os da sua igualha por cima do hombro! Gostava mesmo de ter occasião de dizer estas cousas ao Ruy, porque não era falsa e desejava que soubessem todas as suas opiniões. Se ella fosse o Ruy, mudava de idéas; mas os homens são tolos e correm para o perigo. Elle que desculpasse, mas estava morta por dizer aquillo, custasse o que.custasse !

Já lhe constara que o coronel tivera uma entrevista com a Rolinha em casa do senador. Para que? Seria isso verdade? 8 0 Ruy encolheu os hombros. Fortunata deixou entrever que já se murmurava da assiduidade do Eduardinho na casa do avô, onde outr'ora só vinha de longe em longe, e dos seus passeios com a tia silenciosa e a Adda faceira... Quem bem mo avisa meu amigo é, concluio ella resolutamente. Ruy defendeu Adda das antipathias da outra. A boca do mundo é perversa, não acreditasse em metade do que se dizia... Achava natural que o Eduardinho rodeasse a moça de cortezias, mas'essas cortezias cahiriam no chão. Estava tão certo do amor de Adda como de estar alli em pé na praia... Elle dizia taes cousas com uma voz difíerente da costumada, em um timbre falso. A verdade é que a sua ultima carta, tão apaixonada e tão longa, ficara largos dias sem resposta, para só vir na véspera um bilhete numa calligraphia apressada e num sentido obscuro.

Suppondo que ella aproveitasse a manhã bonançosa para o banho, elle viera até á praia na esperança de vêl-a e, em vez disso, a Fortunata desenganava-o daquelle modo... — Escute, continuava a mulata, Rola prohibio á filha a vinda á praia, só por causa do Eduardinho, que se mettera a ensinal-a a nadar! Não fallava por ter visto, mas por ter ouvido dizer... olhasse : alli estava quem assistira a tudo. Ruy olhou. Pedro mudo, com um balaio enfiado no braço, as calças de algodão arregaçadas, o chapéo de palha de coco desabado sobre as orelhas enormes, passava a caminho das pedras da Igrejinha. Atrás delle, carregando uma tarrafa e dois ca- niços, ia o Bié, crescido, magrinho, com ar triste. De que serviria ao Ruy o testemunho daquelle homem? Deixou-o passar sem fazer um gesto, mas foi-o acompanhando com a vista, como se quizesse ler*lhe através do corpo, no coração... — Bié está magrinho, commentou Fortunata, E'1 o crescimento.- Está alli, está um homem.

Como as crianças mudam em poucos mezes !... A cabritinha da Nita já está ganhando a vida na cidade... Ruy interrogou a mulata, com espanto. Ella respondeu : •— Está de copeira em casa de uma modista... imagine que de louça ha de quebrar... — Tão criança, coitadinha ! — Pobre não tem idade. E' assim mesmo. A mãi teve razão. Nita só podia aprender maldades, quando andava solta por ahi... , — São.capazes de bater-lhe... — Ah! por força. Quem dá o pão dá o ensino... a mãi recommendou isso mesmo á modista... Os olhos de Ruy encheram-se de água. Pobres gaivotinhas da praia, bem cedo a vida lhes cortava as azas; e seria para sempre... para sempre ! Ao redor delle, na amplidão dos céos, das areias e das águas sem fim , tudo parecia creado para a liberdade. Com o rosto vincado por sulcos de tristeza, o estudante comparava esse immenso quadro cheio de luz, onde a pequenita trefega costumava mover-se como no seu elemento, com a estreita cozinha onde ella estaria agora apertada, entre panellas engorduradas, esfregões sujos e paredes cobertas de fumo.

Que 16. *2 1'UUEL AMOR saudades teriam os doces olhinhos da Nita, orçada á solta como os bem-te-vis, quando, da janellinha do seu presidio, sobro os telhados da casaria velha, procurassem traçar, no espaço limitado da sua nesga de céo, o caminho daquellos morros o daquellas areias tão amadas !...'" A sua sympathia corria ao encontro daquella anciedade : só se entendem as almas que soflrem, mas a delle era de homem, já com envergadura para a luta; a da outra, eoiladinha, não saberia ainda senão chorar ! A conquista do dinheiro nunca se lhe afigurou tão brutal. A" pequena ia trabalhar como uma besta, sob a chuva de pancadas e de rejiellões. Conhecia essa historia; a negregada exploração da criança... afinal, para que tão duro sacrifício, se ella nem tinha noção do valor do dinheiro, e tanto peor se a tivesse, porque elle tão cedo não lhe cahiria nas mãos... Era doloroso pensar que também para essa pobre creaturinha selvagem e innocente a vida já fosse um duro esforço.

Oh ! quem pudesse esbofetear essa Justiça impassível, que preside a tão vários destinos sem se inclinar para os mais fracos e os mais infelizes ! — Que idade tem a Nita? - Dez annos... — Uma bella idade, não é verdade, Fortunata, para se brincar com bonecas e aprender a ler... — Se todos nascessem para a mesma cousa !... objectou a mulata. — Seriamos todos irmãos, conemio Ruy. A outra rio-se do disparate. Elle olhou melancolicamcnte para as ondas, que se desmanchavam em espumas... CRUEL AMCR 2 8 3 XIX Adda não tornara a voltar á casa do senadorGuidão, receosa de ter desagradado á D. Leonor. Esperava que a chamassem; havia de chegar a hora em que no chalet do Ipanema precizassem que ella fosse pregar os alfinetes ou pentear os cabellos da amiga desageitada. No fundo da sua consciência não achava motivo para o amúo da outra, de quem revia a todo o instante, na memória, a expressão rancorosa dos seus grandes olhos, d'antes sempre postos nella com tamanha ternura.

Percebera que toda à velha amizade de Leonor se transmudara em aborrecimento naquella noite tão singularmente perturbadora do passeio em automóvel ! Porque? Ella não tinha culpa de que o Eduardinho a amasse, nem de que fosse tão audacioso; tampouco fora ella quem inventara o passeio nem quem desinquictara ninguém para sahir. Se em vez de a comer com os olhos, a Leonor fallasse, ella lhe diria isso mesmo. Estava bem socegadinha em casa, ia até escrever ao Ruy, quando a foram tentar com ro- 'l CRI LI. AMOR gatorios para o passeio! Não soubera resistir, fora esse o sou crime, —mais nenhum ! E a cada hora que passava, ia-se sentindo mais fraca, mais dominada pela seducção d'aquella noite de vertigem. 0 olhar do Eduardinho crestava-lhe na alma Iodos os sonhos antigos; as contracções amorosas o lentas das suas mãos faziam-lhe vibrar todas as fibras do seu corpo; era uma outra mulher. O grande amor de Ruy, lão arrebatado e ao mesmo tempo tão extaclieo, dava-lhe a sensação de ser ella um idolo cuja adoração impunha reverências; elle vivia a maldizel-a e a adoral-a de longe, de joelhos, rugindo analhenias ou eobrindo-a do louvores !

Pensando nelle, o seu coração enchia-se de lagrimas. Ruy era o seu amor, desde menina; o seu primeiro segredo; fora o seu pensamento que a ensinara a olhar para as estreitas, a ouvir o murmúrio das ondas, a querer penetrar os doces mysterios da natureza... Diante dessa grande paixão, ella começava a sentir-se humilhada o pequenina. Por vezes Rola encontrou-a abstracta, a costura cahida nos joelhos, o olhar espalhado numa vaga de sonho. As semanas passavam assim naquella inquietação. D. Leonor não a mandava chamar, quando antes não passava dois dias sem a vêr! Ruy andava ás voltas com os exames; recebia d'elle cartas preoccupadas, quasi dolorosas. Eduardinho não lhe deixava a porta, sempre elegante, sempre correcto nos seus trajes inglezes, suavemente impregnado de urna essência subtil. Uma manhã, antes_de saltar da cama, com os olhos

Cruel Amor

Sinopse

Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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