Universo da obra
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pai é um homem forte; sabe fazer as cousas. Consolc-se com a idéa de que, a crer no que elle disse a Rola, o seu casamento com Adda era impossível. Chegou a hora de dizer as verdades. Ruy tornou-se livido; os joelhos ^vergaram-se-lhe e deixou-se cahir, inerte, numa cadeira. Já Rola, completamente desillüdida de encontrar a filha, corria para a rua, quando ainda D. Ricarda a agarrou pelos hombros, fortemente : — Fique aqui; quanto menos barulho melhor... Eu vou á delegacia. Ha só um mal para que não ha remédio — a morte. Tratemos agora de casal-os e não augmente o escândalo com os seus alaridos. Acostumada sempre a ser dirigida pela amiga, Rola não reagio e entrou para casa lavada em lagrimas. Confessava não ter cabeça para nada e só ter um desejo : o de se atirar ao rnar, das pedras da Igrejinha. Deparando com Ruy, ella estremeceu e os olhos seccaram-se-lhe como por encanto. Acudia-lhe a energia para defender a filha.
D. Ricarda atirara uma mantilha ás pressas sobre os cabellos brancos e partira. Elles estavam agora sozinhos, em face um do outro. — Perdoe, Ruy... Adda é uma criança... ella ha de arrepender-se... — Será tarde... —- Bem me adivinhava o coração que vocês não poderiam ser felizes... — Fui cego... — Não... você conhecia-lhe os defeitos... não os perdoava até... a natureza tem muita força! • 'IHI i u n : i . AMoR < > amor tem mais. — Acredite que ella o amava a você mais do que ao Eduardinho... Os lábios de Ru\ franziram-se num sorriso, o elle disse com profunda ironia : — Ella deu agora uma prova disso... Se você soubesse, meu filho, se você soubesse ! Mas em Ruy a própria curiosidade parecia morta. 0 seu orgulho de homem, sacudido por aquelle formidável golpe, não o fazia pensar senão em si. Tinha vergonha. Deu um passo para a porta. Rola agarroulhe as mãos : - E s c u t e : é precizo que você saiba de tudo para poder perdoar.
Não ouvio ainda agora D. Ricarda dizer que chegou a hora das. verdades? ! Elle voltou para ella um rosto estúpido, como o de um bcbedo. Ella continuou, segurando com as mãos agitadas a sua mão gelada e inerte : — Sabe o que seu pae me disse naquella entrevista amaldiçoada? que você e Adda são irmãos. Irmãos, ouvio? ! Ruy abrio a boca, num espanto mudo; Rola continuou, fazendo rolar as palavras urnas sobre outras, como pedras que se despenhassem fragorosamente das alturas : " — Era mentira delle, era um embuste, mas eu contei tudo em casa... contei tudo aqui, nesta sala; Adda ouvio... com certeza acreditou... como eu tinha acreditado... pobre de minha filha ! Ah, eu estou vendo nos seus olhos que você não acredita nas minhas palavras; pois corra á ca-a de seu pai, pergunte-lhe se estou mentindo, pergunte-lhe em nome de sua mãi, pergunte-lhe! — Rola! — Não estou calumniando ninguém, é a verdade.
Eu nunca a diria se não tivesse de defender uma infeliz. Vá, Ruy, o seu lugar agora é para sempre bem longe do meu... acabou-se tudo ! Mas em vez de sahir, Ruy puxou-a para perto da luz e obrigou-a a repetir as palavras do coronel. Queria saber tudo, syllaba por syllaba; temia .estar ouvindo mal, ser victima de uma allucinação. Não havia fim para aquella narração dolorosa, que elle interrompia para fazer recomeçar a cada instante. Rola já não tinha forças; deixara cáhir os braços e a cabeça sobre a mesa de costura, quando D. Ricarda voltou. — A policia desconfiara de um automóvel que estivera parado muito tempo rente ao terreno do lado e partira como um raio na direcção da cidade, levando a mais uma mulher de véo branco. Tinham dado todas as providencias para capturar os fugitivos... Ruy perguntou : — Para quê? Ella ama-o, elle fará delia o que quizer... Quando, ás onze horas, elle sahio para a rua, Rola debruçou-se na janella, com medo de o vêr partir sozinho naquella escuridão.
De que lhe servia amar tant,o os Outros, se não sabia fazer a felicidade de ninguém? ! Como se oueixasse em voz alta, D. Ricarda explicou : A bondade excessiva, que perdoa tudo, que não corrige nada, é ás vezes mais prejudicial do que útil. Eu bem o disse mais de uma vez ! A noite foi de vigília. As duas mulheres não se deitaram, caladas e tristes como se estivessem velando um morto. No dia seguinte, mal o sol rompera, Pedro mudo appareceu-lhcs na porta, com uma carta. Rola precipitou-se, suppondo ir lêr noticias de Adda ; mas a carta tinha outra procedência e dizia apenas numa letra firme e secca : « Meu pai acaba de negar-me tudo. — fíuy. » Leia, D. Ricarda, leia, exclamou Rola desesperada; Ruy acredita mais no pai do que em mim! Ah! o hypocrila !... eu devia ter previsto; rouba-me tudo de uma vez ! D. Ricarda leu e releu a phrase em silencio, e depois disse muito séria : — Afinal, quer que eu lhe falle com franqueza?
Para a felicidade delle e melhor assim. Sem/ire é seu pai... deixe lá. •WF XX Correu depressa por toda a Copacabana a noticia de que Adda tinha fugido com o Eduardinho. No seu giro rápido, a novidade não se esqueceu de entrar na casa da Maria Adelaide. Ella estava engommando perto da janella, emquanto a mãi e a Maria Aurora estendiam roupa no coradouro. O céo resplandecia num azul forte e uniforme; da copa escarlate do flamboyant do terreiro rompia o cicio das cigarras incansáveis, e no^fim do gramado, beirando a cerca, todas as arvores pareciam de uma côr mais intensa. Em frente aquelle quadro de luz a Maria Adelaide estava tão desbotada que ninguém diria que fosse a mesma da tarde da procissão. Os olhos, circulados de violeta, quebravam-se-lhe numa expressão dolorida. As faces cavadas .desenhavam-lhe os ossos da caveira; só os cabellos, que voejavam á viração de fora, resplandeciam nos seus reflexos de bronze dourado a fogo.
A mãi já consultara um medico. A pequena tivera 'l CRUEL \MOlt mais outro ataque, na tardo em que o Flaviano lhes apparecera 0111 casa, depois de curado. Agora elle ia por alli a miude, espreitando os movimentos da noiva, que mal lhe respondia ás perguntas. O medico receitara uma quantidade de remédios, caixas o frascos, que a moça conservava intactos na prateleirinha do quarto. Andava agora de um mutisnio desesperador. A ninguém revelava o que a consumia. As vezes chorava, correndo logo ao quarto para abafar os soluços de encontro ao travesseiro... No seu meio rude, Maria Adelaide destacava-se um poupo, conservando as prendas adquiridas rio collegio, regular cursivo e as quatro operações, que exercitava nas contas de casa o nos róes dos fregue/es da mãi... Embora modestas, estas prendas aclaravam-lhe um pouco a intelligencia. Movendo as mãos magras sobre a taboa de engommar, ella revia em mente os gestos de Marcos o a sua figura, quando sentio a voz da Fortunata, grifando da cancellinha que lhe acudissem, que estava com medo dos cachorros.
.. Maria Aurora correu a abrir a cancella e a aquietar os cães. Momentos depois Fortunata entrava na salinha, fazendo farfalhar as saias de chita. Trazia duas cavallas gordas para a comadre. As pescarias andavam de farturas, só na dessa manhã tinham vindo mais de dois mil desses peixes. E logo sem termos de transição contou ás mulheres attonitas a partida de Adda, á noite, num automóvel, com o neto do senador Guidão... — Não sabiam? ! pois, fora um escândalo terrível. 0 5 Não se fallava em outra cousa ! D. Leonor sapateara de raiva. Havia um reboliço no Ipanema. De quem tinha pena era do Ruy, que, impressionável como era, lá estava de cama, ardendo num febrão! O pai não se riria agora, pois, de afflicto que estava, mal amanhecera o dia já elle batia á porta do doutor, que parecia uma trovoada ! Emfim, Ruy era moço... o desgosto havia de passar; se elle não entisicasse ou não ficasse doido, como a mãi...
Rosnava-se que aquelle desfecho fora obra do coronel, interessado em afastar Adda do filho... mas isso de dizer, dizia-se tanta cousa!... a verdade era que o diabo do velhote parecia ter quatro filas de dentes, como o cação anequim, a ser ainda mais bravo que uma tintureira... O que mordesse extraçalhava... Agora não sahia da casa do senador Guidão, cheio de mesuras e de bobagens : até já o tinham visto construindo um pombal na horta^ para a presumida da Leonor, aquella que ainda parecia mais muda que o próprio Pedro ! Esse escapara de ficar em baixo do automóvel em que tinha fugido a vaidosa da Adda, toda de claro e de véo, como se fosse uma noiva ! Por si, Fortunata, não tinha sorpresa; esperara sempre que acontecesse aquillo mesmo, mais tarde ou mais cedo. O diabrete da pequena tinha pinta! Viera com o seu fado ao mundo. Olhassem : pelos pescadores ella não seria chorada. Fora sempre ingrata para todos, só querendo saber do espelho e de fitinhas...
Teria muita graça que só p'or ter aquelle palminho de cara, a viborazinha conseguisse entrar na familia do Dr. Guidão ! Por um lado, estirhava: para quebrar a castanha na boca da Leonor, .*>t>6 • R U I . L \ M O R dos olhos grandes... grandes mas eégos, pois não souberam vero perigo! Rola eslava sozinha o teria que chorar... IA castigo... murmurou a mãi t\r Maria Adelaide. Ella não fizera o mesmo? Atinai eram todas umas dcsinioladas... Quanto á Adda... se já não gostava do Ruy, foi até bom que fugisse. Melhor era desenganal-o antes do casamento do que enganal-0 depois. Achava mais leal assim. ,-, Ouvindo tal, Maria Adelaide volveu para a mãi uni olhar claro, intelligente. Pousara o ferro no descanço, o ouvira tudo com a maior allenção. Fortunata sabia pormeiioros. Dizia-se agora á boca pequena que o coronel tinha confessado ser pai de Adda... Uma historia! Ella era muito bem filha de uma italiana de theatro, que mal se desembaraçara da pequena tinha fugido para outras terras...
Agora o pai... quem poderia imaginar? Ella era uma madama roncando sedas, o coronel, coitado, sempre fora um unhas de fome... um paraty sem sal... Neste mundo sempre se via cada cousa! o peor era'se Ruy morria... o rapazinho era tão franzino e andava com a cabeça tão cheia de estudos... Fora visital-o havia pouco. O pai estava com cara de desenterrado, não a tinha deixado ver o moço... aflirmando que elle não tinha nada ! mas na rua encontrara a Antonia, que vinha da botica e lhe dissera que ninguém dormira nada aquella noite... o patrão andara pela casa como um maluco, com as janellas abertas e o gaz acceso; e Ruy só entrara de madrugada, com os olhos inchados e um tremor de febre CRHEL AMOR 307 tão forte que os dentes batiam... Assim mesmo a Antonia tinha-os ouvido questionar... Ruy ao principio parecia muito zangado com o pai; mas, sem alarme, o coronel convenceu-o do que muito bem quiz e Pedro mudo fora despachado logo de manhã com um bilhete de rompimento para Rola.
A tia Antonia parecia uma estúpida, mas bem que sabia prestar attenção ás cousas. Adda é que já não se incommodava com isso. A'quellas horas estaria repimpada em algum hotel, comendo do melhor. Rubião julgava têl-a visto, muito agarrada ao Eduardinho, tomando a barca de Petropolis nessa manhã. Iam como dois noivinhos... O Rio é uma cidade muito grande, muito buliçosa, mas ninguém dá um passo que não encontre logo no caminho, para castigo, uns olhos conhecidos ! Se Adda tivesse visto Rubião, havia de ficar passada ! A gente da Maria Adelaide percebeu que a Fortunata tinha ido vêl-a só para contar a novidade e não poupou commentarios ao facto durante todo o tempo da conversa. Ninguém gostava de Adda : um nariz torcidoparaa pobrezado lugar, e rejubilavam-se com o escândalo que ella fazia rebentar como uma bomba naquella sociedade mixta e laboriosa. Fortunata ajuntou : — O que ella quer são os vestidos de seda em primeira mão...
O neto do senador é rico e é extravagante. Imagine-se o luxo ! Com a belleza que Deus lhe deu e as jóias que o Eduardinho lhe der, Adda vai virar a cabeça de todo o Rio de Janeiro... O engraçado é se a policia consegue que elles se casem, como a Rolinha deseja; então fica tudo : tão bom como tão IÍ08 lie a bom. Se assim fôr é que ella ha de olhar para a gente por cima do hombro... mas o Dr. Guidão não é d brincadeiras o ha de saber mover os pauzinhos, pai que isso não aconteça... Casar? Não vê! Foi uma desgraça ! Unia desgraça, não; atalhou a mãi de Maria Adelaide. Se elles se gostavam fizeram muito bem. Que diabo, a vida é um dia ! Aquella conclusão attrahio de novo para a mãi o olhar illuminado de Maria Adelaide. Ella tinha ouvido tudo sem dizer uma única palavra. A mãi era considerada por Iodos como uma mulher criteriosa; a sua opinião pesava grandemente nas resoluções das filhas. Que reviravoltas teria dado o seu juizo para abalançar-se a semelhante aflirmativa?...
Embaraçada nessas reflexões, ella não ouvio as ultimas palavras da Fortunata, que tinham despertado gargalhadas ruidosas entre as quatro mulheres. Alliviada pela transmissão daquella noticia sensacional, Fortunata lembrou-se de perguntar á Maria Adelaide pela saúde do Flaviano. João Sérvulo queixava-se da sua irregularidade no serviço. Ficara aleijado do pé, ou já andava com franqueza? A moça respondeu com duas palavras curtas o seccas : — Tá bom. E logo o seu rosto se ennevoou. Para não a obrigarem a dizer mais nada, tratou de recomeçar o serviço interrompido. Houve um minuto de constrangimento; 'J()0 a mulata percebeu isso mesmo e saltou para outro assumpto. — Sabiam a melhor maneira de temperar cavalla? pois era refogada com muitos temperos, summo de limão e uma pimentinha... Que fizessem um escaldado de farinha de mandioca ou um pirão com o próprio molho do peixe e saboreassem tudo depois...
ella já tinha conversado de mais. Estava um calor lá fora de assar passarinhos... bonito sol para as lavadeiras... E passassem muito bem, que ainda tinha muito que fazerem casa... A palestra da Fortunata fixou-se na imaginação de Maria Adelaide. Ella approvava o acto de independência da outra. Para que se ha a gente fazer escrava, quando nasce livre? Obrigar o coração a mentir, não será muito mais feio do que attirar-se uma creatura a um abysmo, quando a isso a determine a sua vontade? A'quella hora em que ella curtia em silencio tão fundas amarguras, Adda sorriria nos braços do homem escolhido pelo seu amor !... como devia estar linda na sua felicidade!... Por que haveria a suja boca do mundo de censurar aquelle acto tão independente? Entre ella e Adda quem agiria melhor? Certamente que não era ella, acobardada sempre em frente da sua situação, prolongando um noivado que a enojava, com o pensamento num homem e compromettendo-se cada vez mais com outro...
. Levou uma hora engommando a mesma camisa. As mãos paravam-Uie no trabalho, os olhos seguiam pelo azul. do espaço a visão de Adda correndo para a felicidade. Como um cão acorrentado a um poste, CRI LI. AMOR ella sentia-se coagida na sua liberdade, indignada com a sua fraqueza, que lhe não permiti ia sahir daquella ignomínia... A culpa de semelhante martyrio não era certamente só delia. Marcos não dava um passo para ir ao encontro da sua aíílição. Ella adivinhava o seu amor, como se adivinha que vai chover se o céo está carregado e ameaçador, ou queo dia vai ser lindo, se a manhã esfá límpida! Quando os seus olhos se encontravam a furto, a expressão qúe trocavam era de tal modo sincera, que não lhe podiam restar duvidas... elle gostava delia, elle ardia no mesmo desejo que a consumia como o fogo consome um gravetinho secco... Sabia a razão daquelle inferno: Um pescador não engana outro pescador seu companheiro.
O seu credo é a fidelidade. Vendo que o serviço não ia nem para trás nem para diante, a mãi de Maria Adelaide tirou-lhe o ferro das mãose mandou-a girar. Em vez de sahir para o quintal, a moça metteu-se no quarto e deitou- se, pensando. Lá fora os cães faziam alarido. Viria mais alguém contar o caso de Adda? Era o Flaviano. Vinha rizonho. Já que nem a mãi nem a futura sogra- queriam morar em sua companhia, elle conseguira do carroceiro Mamede, seu vizinho, comparticipação na casa. O Mamede era bem casado. A mulher seria ao mesmo tempo amiga e conselheira de Maria Adelaide. Vivendo as duas famílias reunidas na mesma casa, as despezas de ambas seriam diminutas. O outro não tinha filhos. Haviam de se dar bem. Agora era só tratar dos papeis. Elle ia pedir a seu Freitas um dinheirinho adiantado para certos arranjos... Ouvindo a voz do noivo, Maria Adelaide saltou da cama para fechar a porta por dentro á chave, num tremor nervoso, como se elle a viesse buscar á força, e collou o ouvido ao buraco da fechadura, para não perder uma palavra.
Agora Flaviano perguntava por ella, insistindo por vêl-a. Mas a mãi serenou-o. A moça,estava dormindo. Desde que tivera o primeiro ataque que lhe permittia aquellas preguiças, acon- • selhadas pelo próprio medico. Estimava por isso que se fizesse o casamento. Havia quem affirmasse que depois de casada a filha voltaria a ser a mesma dos dias passados; e afinal se tinham de casar, o melhor seria acabar com aquillo de uma vez... Vendo que nem a própria mãi a defendia, Maria Adelaide recuou até o fundo do quarto e foi sentar-se num- angulo do assoalho, repousando os braços e a cabeça sobre uma canastra velha. E alli ficou largo tempo, immovel, com os olhos parados na visão súggestiva de Adda, voando para os braços da felicidade. Cada uma por sua vez, tanto a mãi como as irmãs, foram bater-lhe á porta: Ella a umas não respondia, á outra pedio que a deixasse em paz... Queria estar só com o seu pensamento...
Tudo lhe repugnavá agora no Flaviano; preferiria morrer a dejxar-se enlaçar pelos braços escuros do noivo. Os olhos já lhe ardiam de tanto fixarem a parede nua e caiada do quarto. Que feliz tinha sido Adda em desprender-se sozinha de uma situação enredada e partir para o ponto desejado, num vôo alto, de ave liberta ! 1 2 ' RUEI. AMOR l'm automóvel... um véo branco adojando como o único adeus — e ahi eslava outra vida ! As horas tio dia iam [lassando numa palpilaç.ão lenta e dolorosa... Alé o tempo parecia sofTrer! Naquelle mesmo instante de angustia, (pio estaria fazendo Marcos? talvez pensando nella... alguma cousa lhe dizia que o espirito delle andava em perseguição do seu o, como para responder a esse appello secreto, poz-se a responder baixinho, com enternecida volúpia : — Marcos... Marcos... Essa persuasão clareou-lhe a alma com uma esperança. Por que não faria ella o mesmo que Adda?
Os braços de Marcos não se negariam a roccbêl-a nem se fechariam senão já sobre o seu corpo, num amplexo de amor... A mãi intimou-a a que abrisse a porta, era a hora do jantar. Maria Adelaide desenrodilhou-se do chão e foi tropegamente para a mesa. A mãi contou-lhe a resolução do mestiço. Ella nem pestanejou. Instada por uma resposta, disse que fizessem o quequizessem; eslava por tudo. Extranharam-lhe a expressão. - Você está doente? Não. — Então que é que tem, que está tão cxquisita? — Nada. — Ainda sou tola de perguntar ! Ao menos coma, para não cahir ahi com algum faniquito. — Maria Adelaide comeu. A' noite, mal vio deitadas a mãi e as irmãs, poz-se com o ouvido á escuta. Quan-
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