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Cruel Amor

Capítulo 12 · Cruel Amor

Parte 12

12 de 24 ≈ 18 min de leitura

/ 159 ouvidos, a voz da Fortunata, dizendo o nome da Maria Adelaide, Foi como se o mar tivesse recuado diante delle infinitamente e a terra o elevasse para tornar a baixal-o a outra superfície. Perdeu a noção de tudo, esqueceu o juramento e.voltou-se com sofreguidão. Na sombra 'da noite só divisou Maria Adelaide, vestida de branco, com os olhos luzindo, a traspassál-o, como a quererem ver-lhe o coração! As outras pessoas • formavam como que uma massa compacta, mal distincta. Só ella existia, ardendo num clarão forte que o ofTuscava. Olharam-se mais uma, mais outra vez e todos os projectos de fortaleza sè desmoronavam no espirito do pescador. Quando as canoas partiram, no silencio pacifico das águas, elle remava na Guanabara, com os olhos postos nessa amaldiçoada, que parecia ter correntes que o enleavam e puxavam para si... Quando já a manchinha alvadia do vulto de Maria Adelaide se confundia com as sombras, Marcos' sentio que lagrimas grossas lhe desciam em fio pelas faces e teve um grande desejo de correr para a mãi, como quando era pequenino, e pedir-lhe soccorro !

Em todo o tempo que durou a pescaria, o seu trabalho, outr'orá ligeiro e enérgico, foi frouxo e distraindo: Houve mesmo um instante em que João Sérvulo, pondo-lhe a mão no hombro, disse com timidez : — Você parece outro homem l Foi como uma bofetada. Elle estava tão fraco, tão submettido ao seu soffrimento, que já até o mestre lhe notava a moleza e a indifierença! Reagio, forçou a vista a penetrar na água negra, forçou o pulso a apressar os movimentos da mão hábil o corajosa; mas passados curtos minutos só via no seu horizonte uma coisa : um vestido branco cheirando a flor d, pomar o a luz de uns olhos cortando a escuridão, como dois raios ! « Se fosse eu só a gostar delia... pensava o pescador; mas afinal ella também gosta de mim.:. Não é por maldade que me olha daquelle geilo... O que eu sinto, oi Ia sente ! » No meio do seu desespero essa idéa irradiava como um sol de felicidade. Amar sósinho é que seria triste.

Aquella comparticipação de soffrimcnfo enchia-o de gloria. Tinha pena delia, mas preferia assim... A pescaria foi pobre. Algumas garoupas pescadas á linha animaram um pouco os outros, que tinham o pensamento alli, no seu trabalho. Cada vez que Marcos fixava Pedro mudo, sentia Ímpetos de o segurar com força e obrigal-o a declarar se ouvira a confissão do seu amor por Maria Adelaide á mãi e se fora elle que andara espalhando por descampados o recôncavos o segredo do seu martyrio. A cara molle o chata de Pedro alterava-se agora nas commoções da pescaria. Os seus olhinhos fuzilavam a cada empuxão do anzol e se fisgava peixe a larga bocea se lhe distendia num riso calado, arreganhando os beiços, a mostrar as gengivas roxeadas e os dentes curtos e ponteagudos. como os dentes dás serras. A' superfície da água ennegrecida, corriam em levíssimas fluetuações, ora aqui, ora além, retalhos de faixas luminosas, como escomílhas de baile lente- I I joladas de prata...

No céo velludoso os astros parecia corresponderem-se com as phosphorescencias do mar. Tremeluziam as estrellas no espaço limpo, emquanto os ventos dormiam e as ondas mal esboçavam o arredondado dos flancos. Todo o vasto seio da noite se abria ás amarguras do pescador Marcos, cuja mão nem sentia a trepidação da linha ao agarrar o peixe na isca, a pento do mestre tornar a avizal-o : — Que diabo, você esta cada vez mais distrahido, homem ! Marcos não respondeu. Pouco se importava elle com o pescado nem com a fortuna. Para elle só havia no mundo uma coisa digna de interesse : a Maria Adelaide, calada, cheirosa, de saias engommadas, alvejando entre os vultos esguios das irmãs vestidas de escuro, como um anjo tumular entre dois eyprestes... Nem calculou o tempo que esteve no mar. Agora o relógio da sua vida era o amor. Inutilizava-se para o resto. Na sua comparação, era como uma barca desarvorada; seguiria o destino que os ventos e as correntezas qinzessem.

Toda a sua energia, toda a sua vontade de homem, que elle julgava inflexíveis, se quebravam como vidro frágil diante do olhar daquella triste rapariga. Que mais poderia elle esperar do destino? Acabada a pescaria, ao voltarem para terra, alta noite, os outros cantavam. Elle remava calado, em frente de Pedro. Por vezes os seus olhos se encontravam e eradepartèaparte uma interrogação. Dir-se-ia que o mudo lhe extranhava o silencio e ardia por in- dagar da causa de tamanha tristeza. Marcos desejaria descer á alma do outro, como o seu anzol descora ao seio das águas, e trazer de lá a certeza de uma duvida que o affligia. Porque a verdade é que, a não ser á mãi e ao mudo, que se interpuzera entre elles na hora da confissão, não dissera a ninguém que morria de amores por Maria Adelaide, e todavia Ioda a gente lhe lançava em rosto esse segredo ! A Guanabara escorregava no mar como se elle fora de azeite.

Os pescadores cantavam. Estava uma noite linda ! XI Setembro expirava entre brumas e borrascas e os primeiros dias de Outubro diluiam-se em claridades doces, de primavera. O ar, cortado de azas, tinha transparências lavadas, em que fluctuavam apenas pennugens brancas de pequeníssimas nuvens. E' o mez das aves no Rio de Janeiro, das andorinhas viajoras, de vôo rápido, que mal dão tempo aos olhos curiosos de lhes admirarem o dorso azul-ferrete e o papinho alvadio.-Os tico-ticos, as camaxilras, os bemte-vi, os chan-chão côr de folha secca, os canários côr de musgo e mesmo os gaturamos de cabeça azul, têm audacias nunca observadas noutra estação. Nas faldas do Corcovado, nas florestas da Ti jucá, da Gávea, do Leme, as pombas-rôlas vêm aninhar-se á beira dos caminhos e lindas sahyras de esmeralda fartam desassombradamente a sua fome nos cachos das bananeiras. A' noite as corujas assaltam os pomares, e ao romper d'alva irrompem das penedias á beira-mar gaivotas, fragatas e mergulhões, em vôos H t l CRUEL AMOU frementes, cheios de alegria, eniquanlo que nas praias do Imbuhy o da fortaleza de S.

.loão as garças brancas abrem os loques deslumbrantes das suas grandes azas. Se em outras quadras o ardor do sol o a atonia da atmosphera sufTocam a voz dos pássaros, na primavera todo o espaço vibra á harmonia dos pipillos e gorgeios. Os ninhos transbordam. Dos próprios espinheiros surgem caberif as ainda desplumadas, mas que já escutam a alma errante do som, , já espreitam o céo lindo, na anciedade do vôo. O mez de Outubro ó a adolescência do anno,'em que tudo desperta o confia, alma milagrosa da terra, nadando no lago azul de uma esperança alacre. As abelhas zumbem mais delicadamente sobre a cheirosa flor da laranjeira, e o seu mel será por isso mais puro e mais perfumado. Não ha nem as sombras da morte entristecendo os vallados ou os montes num galho secco de arvore ou no dispersar das folhas; tudo é verde, macio e novo; ignora tudo o seu destino ephemero e parece esperar um bem eterno !

A inexperiência gera a confiança; os pobres passarinhos, tão sacrificados sempre, approximam-se do homem com mais affoiteza. O tiro assassino não os amedronta. Vêm pousar nos muros e nas ramarias dós quintaes, salutar pelas telhas dos telhados ou depenicar nos terraços e nos pateos migalhinhas de pão das toalhas sacudidas. Ainda não conhecem a perfídia que bem depressa as afastará para longe... Colleiros cantadores voejam pelos capinzaes, onde a arapuca os espera de boca aberta ; e nas grandes ." folhas flabelladas das palmeiras os sabiás cantam as suas melopéas inconfundíveis. Ar e céo só têm promessas; a natureza espera; a natureza ri. Bié c Nita sabiam admiravelmente bem os segredos dos pássaros e distinguiam no ar até os minúsculos bico-de-lacre, salpicados de poeira argentea e de biquinho da côr que o nome indica; os tiês de papo encarnado, os pichanchão pardacentos, e os ceirabeija-flor, maiores que os colibris do verão, azues c negros, de pésinhos rubros, brilhantes como jóias; os gallos-da-serra, assetinados, com uma penna escarlate, á guiza de pennacho, luzindo como uma chamma num punhadinho de cinzas, e o luctuoso vira-bosta, ou a negra graúna luzidia, ou o alegre e vistoso azulão !

O pequeno arremedava tão bem os cantos das aves, que eram ás vezes concertos de horas e horas a que Nita assistia, deitada de bruços, com os cotovellos fincados na relva, o queixo magro nas mãos e os olhares scismadores perdidos na atmosphera verde da mata. Ao lado delia, sentado ou de joelhos, com os dedos na boca o Bié silvava, imitando ora uma ora outra das aves, que respondiam succesivamente, ao principio com timidez, depois confiantes c desembaraçadas. Os dois pequenos vagabundos tinham penetrado bem na alma da mata. Os arroios, as pedras, os troncos, tinham expresso; s vivas de seres conscientes, que os acolhiam mais ternamente do que os homens. Elles sabiam quaes as arvores mais procuradas pelo passarcdo e as lagoas onde se iam dtsalterar e tomar banho as pombas bravas e as sahyras luminosas. Quando as ramagens farfalhavam, o Bié obrigava a Nita a estar calada, querendo interpretar os segredos das folhas agitadas pelo vento.

Não se sentiam sós : rochas e plantas, águas.e areias, luz o sombras, cousas impassíveis ou animadas, palpitavam numa viva expressão protectora ante os seus olhos innoeenles. Elles sentiam, sem reflectir, comproheiidiam, sem procurar entender, as afinidades de todos os seres creados e de apparencia inerte ou muda. Havia sobro tudo num recanto da planície, rente ao morro da Babylonia, um trecho de que tinham resolvido fazer o seu ponto de parada. O terreno formava nesse logar uma bacia de vegetação variada. As águas, descidas da montanha, encontravam alli a resistência de urna grande pedra rachada, erriçada de bromelias e piteiras selvagens e formavam um pequeno lago, já freqüentado por marrequinhas alegres. Sobre esta rocha truncada pelo raio, extendiam-se galhadas côr de cobre doirado de cajueiros antigos, de troncos ondulados e copas espreguiçadas e tortas. Ao redor da água, limos e avencas cresciam como orlas de pellucia, de um verde lindo que circumdava a lagoa, bordava a pedra na sua face posterior e sorvendo as humidades do solo subia ainda a aba do morro e desapparecia entre a negrura do cipoal e dos bambus em tousseiras espessas e impenetráveis.

Cercando embaixo os cajueiros, alguns coqueiros estreitavam as suas copas, de um verde carregado, sobre outras mais pequenas. Mas a devoção do sitio fora inspirada pela pedra silenciosa, * " - 167 desoançando de um lado na água da lagoa, do outro lado em terra enxuta, de onde subia, serpeando por ella acima, como um réptil de grandes vertebras, um forte pé de baunilha. Voltado para o céo o seu perfil rude, lembrava uma cabeça de gigante, que decepada na hora de um sonho extatico, nelle se tivesse eternizado. Faziam-lhe cabelleira hirsutas bromelias, e uma larga cavidade simulava a boca, paralysada num bocejo ou num grito de admiração. Era nessa abertura, bem no fundo, sobre as pellucias de limos, que,o Bié guardava os seus thesouros: azas de insectos matizados de açafrão e de azul-persa, de rosa velha e de nankim; casulos suspensos de galhinhos seccos, ou casas velhas de maribondos, de um pardo escuro.

Mas a sua gloria maior eram os ovos, ovos de andorinha do mar, côr de musgo secco. com manchinhas acastanhadas; ovos de sabiá-laranjeira, côr de mostarda; de canários da terra, côr de ferrugem c brancos; de gavião, de fundo verde tachonados de cacau; de coruja, côr de pérola; de ticotico, pequenos, côr de marfim velho, salpicados de roxo antigo; ou de pica-páo, brilhantes como alabaátro polido. Ovos pedrentos, ovos salpicados de poeira rubra ou de cinza, uns pequenos como amêndoas, outros grandes, como um de avestruz do Rio Grande do Norte, que Rubião lhe offerecêra num dia de felicidade... A par da collecção de ovos e de insectos, havia ouriços do mar, chatos como pequenas placas de cimento, em que se desenhava uma flor francamente desabrochada; ou redondas e estufadas como bonets, IfiS ornamentados de missangas do mesmo tom pardacento : estrellas do mar, brancas como se fossem de gesso, e fungias semelhando boynas de bonecos, todas pregueadas...

' O thesouro era completado por um punhado de conchas; umas microscópicas, côr de âmbar, côr de leite, côr de nacar, outras maiores, em riscos espiralados ou circulares, sombreadas de ardozia, de pinhão, de violeta, com reflexos de aço ou fundos assetinados roseos, creme ou anil aguado. Algumas daquellas conchas tinham historia : para apanhar a maior, de que não havia outra igual, argehtea com gravaduras carmezim, alaranjada nos rebordos e que lembrava a pétala de uma magnolia em que a mão caprichosa de uma fada artista tivesse desenhado inconfundíveis motivos ornamentaes, custara ao Bié quasi a vida, na Praia de Fora, quando para a desoneravar da areia tivera de saltar como um doido pelo fraguedo bruto, de pedra em pedra, escorregando em declive sobre frestas em que a água espumava. Uma das fascinações do menino agora era o ultimo caramujo azul, colhido pelo arrastão da Guanabara, e que brilhava como uma luz no meio dos outros : por fora côr de mel, cingido por cordões de veias annelladas de um tom de carne, por dentro de um azul de turqueza vidrada e uniforme.

Chegado bem perto do ouvido, que de segredos tumultuosos sussurravam dentro desse búzio luminoso ! Bié não se cansava de escutar aquella» vozes, sorrindo para o vácuo, com os olhos chammejantes, como se as entendesse ! s * Entre os caramujos havia dois, pequenos, escuros como kagados, todos salpicados de manchas côr de café, a que a Nita chamava « nossas tartaruguinhas ». Havia um outro esborcinado no bocal, côr de manteiga por fora, côr de gemma de ovo em gradações esbatidas, por dentro, que elles denominavam : — Vovô; outro arredondado, com estrias cinzentas e . dedadas pretas, que era a mamai, e um pequeno, em fôrma de fuzõ, branco e côr de morango, que era o fdhinho. Compunham assim famílias, cujas vozes ouviam com recolhimento. *— Escuta, Nita... — Sc a gente pudesse entender... — Escuta, Bié... Trocavam sorrindo os búzios que tinham nas mãos,, logo os approximavam do ouvido e quedavam-se silenciosos até que Nita commentasse : — Este tem a voz do seu tio Pedro.

— Cala a boca. — Tem, sim; e ronca tal o qual como elle. Nita desertava primeiro: não era contemplativa como o outro. Estava alli e estava pensando nas suas obrigações domesticas : ir cortar vassourinha paríx varrer o seu salão e ajuntar gravetos para accender o fogo na .cozinha. Aquella casa dava-lhe um trabalho, era tão grande, com as suas paredes feitas de columnas e as suas abobadas de esmeralda!... Emquanto o Bié, como um sacerdote diante de um altar, se quedava junto á pedra do seu relicario, em ' to adoração ás azas das borboletas, ás eslrellas do mar o ás algas dissecadas por elle entro folhas de papel fornecido por Adda, ella, como uma formiguinha, ia e vinha apressada, fingindo-se uma rica senhora no exercício de todas as obrigações do lar, ora na copa, ora na sala, ora no jardim... As horas voavam sem que elles percebessem como. Nita sabia de côr os lugares onde encontrar as melhores goiabas e as pitangas mais maduras.

Junto da cerca da Maria Adelaide, uma grande tousseira de bananeiras fornecia-lhes alimento precioso para os seus jantares, e do mesmo sitio não raro traziam mamões, de que tasquinhavam até a casca, fam-se fazendo uns bandidosinhos, assaltando a propriedade alheia, como se fora essa a aeção mais natural do mundo. Nita afTrontava o perigo e era quem atiçava na alma do Bié o desejo dessas emprezas temerárias. Se os mamões e as bananas nasciam á beira da estrada, era para que elles os aproveitassem de súcia com os passarinhos. As corujas não iam também saciar-se nas frutas? E havia código criminal para as corujas? Nem a gente da Maria Adelaide parecia importar-se com aquellas arvores que se offereciam a quem passasse na estrada, como a pedir por misericórdia que lhe provassem os fruetos ! Apezar disso, elles tomavam as suas precauções no assalto... Nessa maravilhosa manhã de Outubro as crianças caminharam radiantes para o lugar da pedra rachada.

Seu Pedro do restaurante tinha offerecido ao Bié, ria véspera, á noi tinha, cinco bellas pennas de pavão, trazidas do parque de um ministro por um seu afilhado da Tijuca. A mania colleccionadora do pequeno era conhecida de toda a gente. Seu Pedro aproveitara a criança num recado e pagara-lhe- daquelle geito. Fora uma paga principesca. Bié não desfitava o olhar das pennas maravilhosas, fazendo-as rutilar ao sol, obrigando Nita a observar que, vistas de certo modo, ellas eram verdes, de outro modo azues, com reflexos de ouro. Se a menina desviava o olhar, elle dizia que visse bem aquelles desenhos, abertos como iris de pupillas luminosas... c tão bem feitos que nem pareciam naturaes... Oh, como o seu thesouro se enriqueceria com esse feixe de luz dardejando no seio frio da pedra, entre as pétalas roseas das conchas e os corpos inertes de besouros esmaltados... Mal tinham almoçado. Bié fugira antes que o tio e o pai precizassem delle para qualquer trabalho, como ir catar tatuhis para iscas, ou ir levar cestas e anzóes ás pedras..Comera apressadamente um punhado de farinha escaldada e peixe ensopado e fugira com o seu ramalhete de pennas até rente á casinhola de Nita, que mal ehgúlio o café e se engasgou com o pedaço de pão, ao ouvil-o assobiar o signal convencionado da partida.

A menina ergueu-se sem socego. A mãi mandara-a ajuntar roupas sujas pelos cantos e levar-llfas á tina; ella achou preferível partir, mal engulido o ultimo gole de café, da sua tijellinha de pó de pedra... Fugio para a estrada, deixando a porta aberta. O dia estava resplandecente, e era tanta a viiação que a sua saia de chita, rente ao corpo, teimava em •querer subir-lhe para os hombros como um guardasol, que se virasse do avesso. Bié mostrou-lhe as pennas. — Oh!... Ella nunca tinha visto semelhante belleza. — Vamos depressa... antes que o tio Pedro dê pela minha faRa e me persiga... Entranhados na espessura do mato, andaram mais vadiamente. Ella queria levar provisões para a sua casa, araçás e cocos baba-de-boi, que havia em abundância por aquellas bandas. Elle estacava de vez em quando, arregalando os olhos : r — Escuta, Nita, é um sabiá... tá vendo só?! é aquelle de papo amarello... no ramo da aroeira...

— Se a gente pudesse apanhar... — Deixa o pobre... D. Rola não gosta que a gente apanhe passarinhos... — Que me importa; ella não é minha mãi ! Você, Bié, tudo é D. RÔla, D. Rola ! — Ella hontem esteve-me contando que as andorinhas são os passarinhos que voam mais depressa; comem, bebem, juntam cousas para fazer o ninho, sempre voando; só param de noite, no escuro... — E você acreditou nessas bobagens? Como é que D. Rola pôde saber disso, se as andorinhas não faliam?

Cruel Amor

Sinopse

Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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