Universo da obra
Universo da obra
Ruy aspirou com força o ar saturado de salitre que vinha das águas. Todo o mar parecia coalhado de pétalas roxas e aloiradas, que iam boiando mansamente á tona. das vagas, como folhas dispersas de arvores no outomno. Rola queria fugir do assumpto e aproveitava todas as abertas. Descortinando no extremo do pontal da fortaleza uns pontinhos movediços, perguntou : —Que é aquillo1?. gaivotas? — Sim, são as gaivotas de Copacabana : o Bié e a Nita. A senhora é myope? — Sou. Què farão aquellas crianças, sozinhas, a esta hora ! E' quasi noite ! — Bem se importam ellas ! Creio que já têm dormido por ahi, em cima dos rochedos. Inda agora estão perto; mas quando se mettem por esses mattos, á procura das orchideas? São destemidas... — São abandonadas. — O tio do Bié, sabe? o mudo, faz-me medo... — Porque? ! —• Não sei. Parece-me que lhe vejo a alma em r acenos de naufrago nas pupillas esgazeadas. O mysterio daquelle espirito sepultado bastaria para impressionar-me, se ainda o typo do homem não me causasse horror.
Que orelhas ! Tem reparado? Talvez pelo esforço de quererem ouvir têm-se tornado tamanhas. E aquella côr, e aquelle cheiro a algas e salsugem, e aquelle grunhido ! Que pensamentos se agitarão naquelle cérebro? ! — Pobre infeliz; bem ou mal o que elle pensa fica CRU El. AMOR lá com elle. E' como o fundo do mar : ninguém sabe o que ha lá dentro ! A sua voz é mai> forte de que a minha : chame aquellas crianças — Para que? Faz-me afllição vêl-as alli... sozinhas. Ruy gritou com força : Nita ! Bié ! O pequeno voltou a cabeça, mas não se arredou do lugar. Nita deu uns dois saltos e afundou-se em um tufo de vegetação, como uma patinha no ninho. — Escuto ainda. Rola. Eu estava morto por lhe fallar e nunca achava oceasião. E' um assumpto tão intimo este, (pie a offenderei se lhe pedir segredo. Meu pai ignora as minhas suspeitas. Deus me livre que elle desconfie que já sei tudo... Acha-me parecido com minha mãi?
— Um pouco... — Elle não gostaria de ouvir isso. Nunca houve morta mais repellida da lembrança ! Era caritativa? — Muito. — Nunca se queixava de meu pai? Nunca ! — Nunca lhe contou que elle lhe batia, que a arrastava no assoalho e que a prendia pelas trancas ao- puxadores da commoda grande do oratório? ! Rola perguntou, num arrepio de espanto : — Como é que você sabe? ! — Ah!,.. Houve uma pausa de silencio, em que se ouvia IJfi bater o coração de Ruy. A noite ia cahindo, já as nuvens de fogo se tinham desfeito em cinza e a viração encrespava a infinita superfície das águas. Na meia sombra, a praia descrevia um semi-circulo alvadio e longuissimo. A voz do mar engrossava, engrossava... — Vamo-nos embora, Ruy. E' noite... — Então é verdade ! é verdade ! — Não ! E' mentira ! é mentira ! Não foram os máos tratos que puzeram sua mãi no hospicio; foi a sua má sorte : a sua ruim estrella ! Quem lhe contou essa historia das trancas?
Fosse quem fosse, fez uma má acção ! — Quem me contou não tem nome : foram as minhas conjecturas, foram as sombras do meu quarto, foi uma voz indistincta de queixa e de agonia, que ficou errando pela minha casa... Haverá nisto também uma reminiscencia da infância? Poderá a minha memória vêr ainda de joelhos, aos pés do oratório, uma mulher pallida, amarrada pelas trancas, toda retorcida e inundada de lagrimas? Do meu berço, teria eu sentido os gemidos que eternamente sinto cravados no ouvido? Não sei. Nenhuma lingua humana articulou ainda diante de. mim accusaçoes que justifiquem esta certeza, que a senhora agora confirmou com o seu espanto e a sua pergunta. — E' noite, Ruy! Vamo-nos embora ! Estou com frio ! Que imaginação a sua ! Está creando fantasmas para seu martyrio. Eu não confirmei nada... Eu não sei nada. Seu pai ama-o. Seu pai é bom. Rola não tivera coragem de olhar para o moço, :!*') ( J U U I .
I A M O U mas, mal agora lhe puus-ou a vista em cima, estremeceu. Elle chorava. Ao principio ella não atinou com que dizer. A lingua entorpecia-se-lhe; teve desejos de colher com beijos maternaes aquellas lagrimas silenciosas. Na sombra, a lividez de Ruy, os seus grandes olhos escuros illuminando as faces longas e murchas, trazialhe á lembrança a figura da pobre D. Angela, nas crises do seu desespero mudo e sem remédio. — Seria só por ciúmes?... perguntou Ruy. — Talvez... disse Rola, engasgada e confusa. — Naturalmente... E hoje meu pai é um homem... bom... •— Perfeito não ha ninguém, Ruy, e quando se é moço o gênio é desigual, e faz-se muitas vezes soffrer as pessoas a quem só se desejam felicidades... %— A senhora nunca foi assim... — Eu sou mulher... — Mais um momento, Rola, e não repita a ninguém o que lhe vou dizer! Tenho por meu pai, a par de muito amor... muita aversão! — Ruy! — E' a verdade.
Isto tem por força origem em um facto remoto, que não posso determinar, mas de que por certo fui testemunha. Arrancado talvez por elle dos braços de minha mãi, assisti inerte a alguma affronta que a humilhou. Não é crível que eu me lembre delia, mas é certo que a sua alma torturada se prolonga na mimYalma e que tenho a convicção de a ter visto sofírer... —' E' impossível! Você tinha apenas dois annos, quando D. Angela morreu ! — Rola, a confissão que lhe fiz é tremenda. Ha alguma cousa no fundo da minha consciência que incessantemente clama por justiça. Dir-se-ia que debaixo dá terra os ossos da pobre martyr esperam que se cumpra... Rola interrompeu as palavras do moço, tapandolhe a boca com os dedos gelados, ao mesmo tempo que dizia num timbre de voz alterado pelo espanto : — Cale-se !... Vamo-nos embora ! estou com muito frio... muito frio!... Elle não respondeu. Aspirava com força o ar, que parecia faltar-lhe.
Sem coragem para repellir com energia as idéas do moço, Rola disse baixo, na meiguice de um conselho : — Esses pensamentos insensatos podem cavar a sua sepultura; deixe ao tempo esse serviço e não seja cruel para com seu pai... — ^E, afinal, a senhora não me disse nada ! — "Que poderia eu dizer? — A verdade inteira. — Você é um rapaz intelligente e instruído, eu sou uma ignorante; não acharia palavras que o convencessem... para mim tudo isso são sombras e enredos da imaginação. Hão de passar com o tempo. Seu pai adora-o, seu pai é um bom pai, o seu melhor amigo; não deve desconfiar delle nunca, e tenha certeza que tudo quanto elle faz é para o seu bem... E' tudoquanto eu posso dizer! :iS — Diga que é tudo quanto quer dizer. A senhora conhece a historia de minha mai... foi sua amiga intima... porque tem evitado sempre fallar-me delia? Por que se oppõe ao meu casamento-com Adda, quando diz e eu sinto, que é tão minha amiga?
— Opponho-me ao casamento de Adda porque ella é uma pobre enjeitada, sem dote, sem nome e de uma sociedade muito differente da sua. Seu pai empurra-o para uma situação brilhante. Adda seria um estorvo... — Que razão ! Começaram a andar, mas logo Rola, precipitando os passos, tropeçou nas saias. Ruy amparou-a. — Dê-me o seu braço; conheço bem o caminho e tenho melhor vista... Fui imprudente; eu não lhe deveria dizer nada... mas este segredo era tão grande para mim só ! Supponha que foi um dèlirio de febre... e não se associe ao meu desespero, para que não ha remédio! — Ha remédio, sim : o bom-senso. Não procure penetrar num passado que você não conheceu e que foi melhor do que pensa... — A senhora está tremula... descanse um pouco... e saiba que é mais forte de alma do que eu julgava... — Por que? — Odeia meu pai, e defende-o !... > — Está enganado. Eu não odeio ninguém... Mas como ficou escuro depressa !...
Emquanto não rompe o luar, as noites na praia são tristes... principalmente asdeinverno... Adda deveestarcom cuidado em mim... — Rola, a senhora quer dar-me uma prova de 'J " que tudo quanto eu lhe disse, não passa, a seu vêr, de imaginação? — Quero. — Consinta que Adda seja minha mulher... annuncie amanhã o nosso noivado a toda a gente! As razões que allegou são infundadas... — Não... que idéa... — Ah... — Bem sabe que isso não depende de mim ! Tinham chegado abaixo. Rola voltou-se para umas casas de pescadores no sopé da colina. Vio luz na do João Sérvulo, ç na do Lino alguém afinava um violão. Impulsionada por uma piedade que a entristecia, apertou carinhosamente o braço de Ruy, um braço frágil, magro, em que ella não tinha confiança, e disse : — Você acredita gostar da Adda, mas não a ama tanto que lhe perdoe os defeitos. E' precizo esperar... — O que eu não lhe perdôo é a belleza.:. porque tenho medo !...
— Disso ella não tem culpa ! — Tem. Adda cultiva a sua formosura como uma flor preciosa ! A senhora bem sabe... Passavam rente ao telheiro do Conceição, quando um vulto se desdobrou lá de dentro e veio atravessar-se diante de Rola e do moço, olhando-lhes de perto para a cara. Ruy estremeceu. Rola sorrio : reconheceram ambos o mudo, com o seu largo carão côr de terra, os seusolhinhos curiososeaquellasorelhas enormes, amollecidas pelo cansaço de um esforço nunca satisfeito. lO ORCEI, AMOU III Eram sete horas da manhã quando Ruy saltou da cama, despertado pelos repiques do sino da Igrejinha. Enfiou-se no seu roupão de banho e sahio para a sala de jantar, gritando pela criada que lhe arranjasse o café. O pai estava alli, sentado perto da janella, lendo um jornal. O coronel Mangino, que toda a gente das cercanias se contentava de intitular — o pai de Ruy, — era um homem de cincoenta annos, magro e pallido, de olhos gateados, boca séria, orlada de um bigodinho fino e umas barbicas grisalhas que se estendiam dcs.de o queixo até ás orelhas, como uma vegetação de musgo secco, ligeiramente crespo.
Tinha a testa quadrada, muito lisa, e uma cabelleira curta, sedosa e farta. A sua expressão habitual era sombria e grave, mas as suas mãos estreitas e macias como mãos de mulher, quebravam-lhe a rigidez da compostura pela assiduidade dos movimentos, que parecia que- 'li rerem estrangular cousas invisíveis que colhessem no ar... Quando Ruy se curvou para tomar-lhe a bençam, elle contemplou-o muito demoradamente e depois disse : — Você passou mal a noite. E' preciso perder esse costume de ler até tão tarde... — Li até a uma hora, só... — Até ás duas horas e vinte e três minutos. Eram duas horas e vinte e três minutos quando você apagou a vela. Olhei para o relógio — para saber. Não gosto disso; você não tem saúde para essas cousas ! —- Mas papai, eu passo admiravelmente ! — Sim, parece... mas eü é que vejo como você está magro. — Isso não quer dizer nada. Também o senhor não é gordo... — Sim...
sim! olhe; esses banhos de chuva também não me agradam nada ! -— Porquê? pois elles são magníficos. Toda a gente no Rio de Janeiro toma banhos de chuva ! — Pois não são os mais proveitosos. Preferiria que experimentasse os banhos de immersão. -- Esses só quentes. — Ou mornos. Tome os banhos mornos. Ruy, para disfarçar a sua impaciência, gritou de novo pela criada : — Então, Antonia, o café? e voltando-se para o pai : — Não sei como o senhor não me prescreve também o matte em vez do café ! - E não seria asneira nenhuma. O café ê um excitante... Mas agora outra eousa : Você vai logo á festa do senador Guidão? - Não tive convite. - O convite está ahi. D. Del fina lambem fallou commigo. E' bom ir. Você não escrupulisa na escolha das companhias. Aquella é urna gente séria, de posição. Não gosto nada de o saber mettido em casa da Rola ou em passeios, como honleni, só com ella na Igrejinha... — O senhor é injusto.
Rola é mais estimada do que suppõe. Toda esta pobreza a adora, e os ricos também. Aposto em como vou logo enconfral-a em casa do Guidão. Eu gosto delia porque a acho intelligente, porque se presta a ouvir-me com tolerância, porque é trabalhadeira e porque é honesta. — Só lhe faltava essa qualidade. A Rola honesta ! exclamou rindo o Coronel. — Que se sabe delia? Que trabalha como uma negra para sustentar-se e á filha. Quanto ao seu passado, está tão longe e tão redimido ! — A mácula ficou. Nem sei como o Guidão a recebe. E' das taes facilidades desta terra... Sabe porque lhe puzeram o nome de Rola, que pegou para sempre? Porque quando o moço que a raptou da casa do tio, fugio... ou morreu... ou fingio que morreu, ella vestiose impudentemente de lucto, como uma verdadeira viuva. Era a saudade viva e sem recato. Aposto em como ainda chora por elle... — Ainda. Foi uma grande paixão. — Qual paixão !
O tio, coitado, educou-a como filha. \'Á — Não; como orphã, por esmola de um collegio. Ella deve a sua instrucção á caridade. — O pobre homem não tinha meios para pagar-lhe mestres, mas quando avio mocinha tirou-a do collegio. — Porque então, ella já lhe poderia prestar serviços em casa. -i- Foi ella quem o informou disso? perguntou com ironia o Coronel. — Não; foi o*João Sérvulo. Rola não allude ao seu ,,passado, nem mesmo quando eu lhe peço que falle de minha mãe... 0 seu peccado foi talvez uma illusão de criança. Haverá quem não erre na vida? Ainda ella foi castigada. Outros ha que ficam impunes. Então, Antonia, o café! Lá fora os sinos repicavam, vibrando no ar limpido da manhã com uma alegria de festa. O Coronel calara-se, voltando á leitura concentrada do seu jornal, emquanto o filho engulia o café a goles pequenos, com o olhar perdido num pensamento errante : — Quem teria dito ao pai que elle estivera na véspera sósinho com a Rola no outeiro da Igrejinha, se a única pessoa que os vio fora o mudo?
Ah ! teria esse homem de lingua emperrada poder de transmittir aos outros os seus pensamentos só pelo olhar? Não era a primeira vez que um facto occorrido só e só diante delle, considerado como ninguém por toda a gente, corria de boca em boca num sussurro crescente, até ficar conhecido dos próprios gatos e cães ! O mudo... o mudo... aquelle carão de caboclo azinhavrado nas rugas molles, aquellas orelhas enormes... 1 < R P 1 . L AMOU e aquelle cheiro de salsugem, imprimiam-lhe á alma um arrepio de medo infantil, quasi fantástico ! Tia Antonia, que voltara para a cozinha, balia com as tampas das cassarolas, atabalhoando o serviço, para se fazer sentir em casa. Quando ella vio passar Ruy no seu turco felpudo pelo pateo, a caminho do banheiro, atravessou-se-lhe diante supplicando : — Nhonhô, peça a papai para almoçar hoje mais cedo, que sua negra veia qué ia á festa 1 — Irás á festa, Antonia; mas agora dize-me: para quê?
— Uê ! ! p'ra reza... Ruy não respondeu e foi pensando : Talvez ella tenha oitenta annos... talvez tenha cem... e ainda espera alguma cousa... rezar é pedir, é o anceio por um bem ambicionado... Aquelle caco humano, cujas fibras me parecem todas despedaçadas, ainda não se deshabituou de desejar... Não haverá então idade em que o supplicio de querer tenha fim? Até á hora da morte viveremos com a alma só voltada para o futuro? Todos? Todos? ! Nesse instante a doce visão de Rola atravessou-lhe o espirito e elle pensou : — porque terá meu pai tanto ódio delia? Quando, duas horas depois, sahio de casa, já pela collina da Igrejinha começava a subir a romaria dos fieis. Foram dos primeiros Flaviano mais a família da noiva. Maria Adelaide, com um vestido branco em que esvoaçavam fitas solferinas, o cabello suspenso num topete a que não estava affeito, os dedos curtos i 5 enfeitados de annejs de pechisbeque, acompanhava o noivo, como um cãosinho o dono.
Atrás delia a mãi, a viuva Tobias, gorda e amarellada, marchava, bamboleando-se como uma canoa, entre as outras filhas, duas meninas espigadas, de narizinhos palpitantes e olhos curiosos. Flaviano comboiava o rancho com a autoridade do único homem da familia, exercida menos por palavras que por severidade de gestos. Parecia mais escuro, engasgado num collarinho branco e uma gravata eôr de papoula, que lhe realçavam as maxillas de onça. Vaidoso da noiva branca, que lhe tinha cahido na rede como um peixinho inexperiente, elle dava-se ares de superioridade, para retêl-a na sua submissão de mulher, que é a única verdadeira. Elle não sabia fallar de amor, mas sabia dizer : —- eu quero; faça. Maria Adelaide conhecia o noivo desde a infância : tinha se sentado com elle no mesmo banco da escola publica. Elle não passara do segundo livro de leitura; ella avançara intrepidamente até ao ultimo, mas sempre camaradas, tratando-se por você.
Depois de uma temporada de férias, mudaram de caminho e perderam-se de vista. Quando se tornaram a encontrar, o pai delia, carpinteiro, tinha morrido; a mãi, carregada de filhas, suspirava por um genro que a alliviasse da carga. Flaviano prestou serviços á f,amilia cahida em miséria e apaixonou-se pela antiga condiscipula. Ella não o rcpellio. Influenciada pela lembrança do mesmo banco do collegio, da licção commum, da igualdade de prin3. 'tt> CRUEL AMOU eipios, achou natural que as mesmas prerogativas de seres livres predominassem até ao fim, até á com participação do mesmo leito o talvez da mesma sepultura... As irmãs, mais espertas, com uma pontinha mais viva de independência, motejavam ás vezes, ás occultas da mãi, daquelle casamento, levantando os beiços em caretinhas de repugnância. Embora mais velha, Maria Adelaide era mais ingênua que as outras o ia-se deixando levar... No alto da encosta, ao darem volta á Igreja, esbarraram com o João Sérvulo, de opa côr de tomate tluetuan/Io á viração forte do mar, e a Fortunata em conversa com o Marcos pescador e a mãi, 1).
Conceição, uma velha portugueza vermelhaça e ruiva, carregada de ouros no pescoço, no peito e nas orelhas. Flaviano sentio um baque no peito. Desagradava-lhe o encontro, não sabia porquê. Os olhos de Marcos não pararam nelle; foram logo direitinhos a Maria Adelaide; Flaviano voltou-se, mas a noiva, vermelhinha como uma rosa, tinha abaixado os delia para a areia do chão. Bimbalhavam os sinos, voavam no ar límpido os galhardetes e as flammulas festivas. No infinito azul das águas infinitas não havia nem sequer um ponto de embarcação. O céo sem nuvens arqueava-se sobre o mundo, como uma redoma enorme de turqueza liquida, traspassada de luz. — Repare, gente, como a Hortensia vem bonita ! exclamou Fortunata, acenando para a filha do pescador Lino, que alli ia com o pai a caminho da
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