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Cruel Amor

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Cruel Amor

Capítulo 21 · Cruel Amor

Parte 21

21 de 24 ≈ 19 min de leitura

parados para as taboas brancas do tecto, Adda, em quem o somno aquietara os nervos, começou mais serenamente a comparar as figuras dos dois rapazes, imaginando o futuro que cada um delles lhe poderia offerecer. Casando com Ruy, ella, jungida para sempre á pobreza, iria compartilhar as magras sopas do velho implicante, o inimigo feroz de toda a sua mocidade, eternamente vestida de chitas e algodões, espiada pelo ciúme do marido e o rancor vingativo do sogro... Casando com Eduardinho, deixaria de usar os restos da Leonor, para sortir-se na mesma modista; moraria em casa aparte, ajardinada, sem dar satisfações dos seus actosa sogros antipathicos e máos... Teria sedas, jóias, cruzaria as ruas da cidade em automóveis e carros elegantes; a sua belleza resplandeceria como um astro no céo. Teria ella o direito' de sacrificar tarita felicidade ao cumprimento de uma promessa quasi infantil? Ruy fora o seu primeiro amor...

ella era o primeiro amor de Ruy... e daria tudo por consolal-o e fazel-o feliz... porque a expressão do seu olhar, o timbre da sua voz, o sentido das suas phrases, o calor das suas mãos, a doçura do seu sorriso, tudo que era delle, que vinha delle, estava fundamente gravado, eternamente gravado no seu coração. Ella amava-o ainda... sentia que o amaria sempre, mas sem frenesi, com um sentimento que envolvia a saudade e a piedade. Ardia agora em desejos de ir á casa do senador Guidão, abreviar com a sua presença o desenlace de uma situação difficil de sustentar. Afinal, ella assim enco- b lhida em casa. pareceria aos olhos dos outros ter medos de criminosa. Não via razão para ódios. Se Leonor passara do extremo dos seus abraços para aquella sequidão, gostaria de fazer-lhe comprehcndor que a culpa não era sua. De resto, eslava convencida de que, desde que a amiga precizasse delia, não tardaria em mandal-a chamar; mas corriam as horas sem (pie viesse o esperado convite.

Teria D. Leonor deixado de freqüentar especlaculos e bailes? O Eduardinho, sempre que ia ou voltava da casa do avô, lentava os passos á sua porta e não podia haver olhares mais significativos do que os seus... Uma tarde elle ousou mesmo, com o maior desembaraço, encostar-se á janella da salinha da frente Ella cosia rente ao peitoril. D. Ricarda, no seu canto, entre um mar encapellado de morins, rodava a machina silenciosamente. — Por que não tem apparecido lá em casa, perguntou-lhe elle. Tem-se notado a sua falta... — Não tenho podido... muito trabalho... — Másinha !... essas lindas mãos não foram feitas para o trabalho... mas agora reparo... usa um annel de casada ! que é isso, tão feio? ! Adda corou. — Foi um presente... — Delle?... — Não... — Boteso fora... Achei outro dia um com um bri- 8 7 lhante e não sei o que hei de fazer delle... ,trago-lh'o qualquer dia..,- — Não! — Sim... Vá amanhã de tarde ao Ipanema; precizo faliar-lhe...

Rola appareceu; não houve tempo para explicações. Dentro da cabeça de Adda ficaram girando idéas e imagens num movimento estonteador. Estavam notando já a sua falta... logo, a Leonor não estaria zangada... talvez que a própria D. Delfina a considerasse como uma ingrata... Deveria acreditar no que lhe dissera Eduardo? Como a receberiam no chalet do Ipanema? Admiravase de que Rolinha não tivesse ainda percebido aquelle arrufo... seria mesmo prudente acabar com aquillo, antes que a mãi soubesse... mas que pretexto arranjaria ella para se apresentar assim espontaneamente, depois de tantos dias de ausência? Ao mesmo tempo, as figuras de Ruy e de Eduardo alternavam-se, perseguindo-sc, uma risonha e desdenhosa, outra pallida. e afflicta... E como seria o annel?... talvez parecido com o de Leonor, que lhe illuminava os gestos e poetisava as mãos... Nessa noite veio uma nova carta de Ruy. Era um grito; era um soluço.

Sabia já do outro passeio em automóvel, rente ao Eduardo... da sua convivência... lembrava-lhe a reputação de estroina do outro, que se não fiasse em promessas, quem a amava para a vida e para a morte era elle! Tivesse cuidado ! O outro era só vaidade, mentira, e demais astucioso como um 8 8 caçador ! Se ora pelo amor do luxo que ella se deixava tentar, elle faria tudo por dar-lhe luxo igual, já o jurara em outra carta, tornava a jural-o agora. O seu amor-era puro, era toda a sua vida passada o era a única esperança do seu futuro; não,lhe fugisse, não o abandonasse, não o enlouquecesse ! As promessas de Ruy enterneciam Adda, sem convencel-a. Onde iria o pobre buscar dinheiro para as offertas de luxo que fazia? Por aquelle caminho, poderia ir até ao crime... Arrepiou-se com a idéa de que elle, tão bom, chegasse a qualquer desatino só por amor delia ! Molhou a carta de lagrimas, reflectio que era ao lado deste grande coração que ella encontraria a felicidade.

Eduardo era o desvario; Ruy era o amor. Ficaria para sempre nos braços do seu amor antigo... Durante toda a noite revolveu-se na cama, sem poder dormir, fixando-se na resolução de fugir para sempre do Eduardinho e da família Guidão. Toda ella devia ser de Ruy, a quem já se promettera desde o lindo raiar da sua mocidade. Voltaria para elle, modestamente, honestamente. Elle fizera bem- em escrever-lhe aquella carta tão sentida, tão profundamente verdadeira ."Pensando bem, o Eduardinho desgostára-a com a sua grosseira offerta de jóias; vinhalhe o arrepio do arrependimento. Voltava para o seu amor antigo, como uma andorinha para a primavera ! Sabia bem o que a esperava : sacrifício e pobreza; mas a sinceridade de Ruy merecia-lhe aquella abnegação. Depois, se os outros esperavam hurnilhaLa perderiam bem o seu tempo. Seria ella quem se afastaria primeiro. Como o dia tardava ! Ella anciava por correr ao lindo chalet do Ipanema, onde tantas vezes se arrastara de joelhos pregando os alfinetes nas saias da amiga egoísta, para lhe dizer um adeus altivo e dissuadir o Eduardinho.

Compréhendia emfim que só a tinham estimado por carecerem dos seus favores, mas que todos se impertigavam agora, só com a simples idéa de que ella pudesse vir a ser da família... A sua dignidade revoltava-se. Decidio fazer ponto naquelle capitule de faceirice voluptuosa que a ia enredando. No dia seguinte pedio ao filho de um vizinho que a acompanhasse até á porta do chalet Guidão, recommendando antes a Rola que a fosse buscar uma hora ^depois, e «ahio .com um ar tão grave e tão firme, que D. Ricarda commentou com extranheza : — Que terá ella hoje, que está tão difíerente? ! Sim, ia difíerente, resolvida a dar um golpe mortal num dos mais risonhos períodos da sua existência. Aquella visita era uma despedida; diria isso mesmo a D. Leonor. Adeus bailes do Ipanema, vestidos de seda, embora já usados por outro corpo mais feliz, passeios alegres em automóveis, através das noites velludosas e perfumadas...

O seu destino ingrato obrigava-a a perrnanecer ria sua eadeira de costura, picando os dedos, esperdiçando a belleza de que tinha tão nitida consciência... Ia por suas mãos enterrar a flor da sua mocidade, pôr a pá de terra pesada sobre o corpo aladp da esperança feiticeira... Quando abrio o portão do jardim e despedio o pequeno que a tinha acompanhado, teve ímpetos de 17 9 0 correr para trás e voltar, sem dizer uma única palavra, para junto da mãi; mas aquelle movimento súbito de timidez succedeu outro de resolução. Ouvia a voz de Eduardinho discutindo alto na sala com outra voz masculina, mais baixa e escorregadia. A presença do moço reaccendeu-lhe a coragem quasi extincta, subio correndo os degráos de pedra da escada exterior e vibrou com dedo firme a campainha eleclrica. Nesse instante vio através dos vidros da porta passar lentamente, do salão para a sala de jantar, a figura impassível de Leonor, que voltou para ella 9 rosto pallido, em que os olhos pareciam ainda mais sérios e mais frios, e sumio-se sem dar um passo ao seu encontro.

Adda sentio Ímpetos de quebrar os vidros o ir lá dentro sacudir pelos hombros a amiga. Os lábios tremeram-lhe de raiva, aflbguearam-se-lhe as faces, collada pelo espanto ao patamar da escada, morta por que o Eduardinho a visse e corrigisse a má creação da outra. Uns segundos de espera pareceram-lhe uma eternidade; vibrou de novo, desaforadamente, a campainha electrica, no accesso da raiva que lhe entumecia as artérias e queimava as pupillas. Veio por fim o criado dizer-lhe, por uma fríncha da porta mal aberta, que as senhoras não estavam em casa... E, bem instruído, mal acabou essas palavras, fechou a porta e voltou-lhe as costas. Um frio de neve envolveu Adda da cabeça aos pés, paralysando-lhe momentaneamente a acção. Diante delia pareciam multiplicar-se as portas e os hombros chatos de criados desattenciosos... Segurou-se ao corrimão de ferro, comprehendeu que precisava fugir, desceu a escada, cambaleante e trêmula.

Ao sahir para a rua levantou ainda os olhos para as janellas da sala, na esperança de vêr assomar a uma dellas o Eduardinho; mas em vez delle foi a cara escarninha do coronel que ella vio inclinar-se lá de cima sobre a sua miséria... Elle ria-se. Adda fugio... A sua consciência confundia a realidade com um pesadelo. A figura odiada do pai de Ruy acabara de a desorientar. Tinha-lhe ódio e medo. Um medo de criança por papão negro de telhado, que lhe haveria de comer a carne e ainda chupar os ossos... Que fazia o malvado naquella casa, onde antes nunca ia? fazia intriga... urdia a sua desgraça... Não tendo azas para voar, Adda queria correr, mas os seus passos tornavam-se cada vez mais pesados, recuando na areia quando pretendiam avançar. Receava agora encontrar algum conhecido pelo caminho, suppunlía levar estampada no rosto a sua vergonha... A confusão augmentou ao sentir que alguém vinha apressadamente no seu encalço.

Esperou a punhalada nas costas, vibrada pela mão secca do pai de Ruy... mas não era elle, — era o Eduardinho ! O moço vinha indignado, pedia perdão por todos, o com os olhos fuzilando lumes, propoz-lhe a fuga nessa mesma noite. Elle esperaria de automóvel na esquina da rua da Nossa Senhora, ás nove horas : só saltando por sobre o escândalo ella seria um dia sua mulher... E ella seria sua mulher! Queria então ver se a tia Leonor não a viria receber á porta, cada vez que pelo seu braço entrasse em casa do avô! Ü2 CRUEL \MOR Adda não repolho a proposta, tão aeeoso eslava nella o sentimento da vingança. Elle repelia, sinceramente commovido : — Esta noite, ás nove horas, na esquina da rua de Nossa Senhora, perto daquelle terreno que fica aos fundos da sua casa... não me faça esperar em vão! Amo-a... adeus ! Adda não respondeu e entrou em casa com a cabeça em fogo. * D. Ricarda e Rola pasmaram de a ver : — Que é isso, você já voltou !?

•— Não é nada ! E fechou-se no quarto, batendo com a porta. — Que lhe teriam feito, meu Deus ! sabe, D. Ricarda? Eu ando desconfiada que abri a porta da casa do Dr. Guidão ao coronel... só me faltava essa desgraça ! — Porque? L — D. Delfina disse-me que elle tinha promettido voltar lá, levando um casalzinho de pombos... e hontem Ruy me contou que o pai andava escolhendo um terreno no Ipanema, por ordem de um amigo... foi uma mentira que elle pregou ao filho; o terreno que elle procura é intrigar-nos com a gente do senador... — Não duvido... — Sabe que elles nos protegem e quer ter o gostinho de tirar-nos até a ultima migalha da boca... hontem estive vai não vai para dizer tudo a Ruy... elle anda amofinado... pensa que Adda já não gosta tanto delle como gostava antigamente... e eu talvez .devesse mesmo ter aproveitado a occasíão para re- 9 3 velar o segredo do pai... mas tive pena e fiquei quieta...

Elle tem uma paixão doida por ella... tenho tanta amizade ao Ruy, dona Ricarda, que, se penso nestas cousas, até sinto vontade de chorar !... coitado, tanlas vezes, o adormeci em pequenino e o passeei em meus braços! Era uma criança adorável, mas sempre um pouco pensativa... ninguém ha de dizer que é filho daquelle homem... fico toda arrepiada quando imagino que Adda também possa ser filha do coronel... — Qual o quê! ainda outro dia aquella velha, cozinheira delles, esteve aqui dizendo que o patrão lhe tem perguntado, nem sabe já quantas vezes, se conhecerá a mãe de Adda... Aquillo foi manha, só para perturbar a sua ingenuidade... Havia de ser commigo ! — Quem sabe !... — Sei eu ! — Não se brinca assim com uma questão tão seria.. — Não se brinca quando se tem consciência... Olhe : elle lá vai!... disse D. Ricarda apontando para a rua, pela janella aberta. Rola olhou. O coronel parecia levado pelo vento: ia atirando as pernas em longas passadas.

Vinha dos lados do Ipanema e corria naturalmente para casa. — Vai salvar o pai da forca... exclamou D. Ricarda rindo. Certamente que o coronel não ia salvar o pai da forca, mas ardia^ na impaciência da perversidade, por contar ao filho a desfeita por que Adda tinha acabado de passar. Os olhos fulguravam-lhe de alegria. 'i Nunca os seus pés se tinham movido mais depressa, nem menos cansaço sentira o seu peito de quasi sessenta annos... Mal entrou em casa gritou para a Antonia : — Onde está meu filho? Ao que a velha respondeu, entre resmungos : — Ainda não veio, não sinhô. Começaram logo os passeios pelo corredor, chegadas á janella, aborrecimentos. Onde estaria o menino? ! A'quella hora, em vésperas de exames o seu lugar devia ser alli, á mesa, inclinado sobre os livros abertos... Ia apostar que elle abalara para a praia, a ver a pescaria das cavallas, em palestras e intimidades com os pescadores!

Aquelles malditos pescadores! Cahia para a noite a tarde, quando em uma das idas á janella o coronel vio a curta distancia o filho a conversar com o Marcos. Pareciam muito interessados. O pescador, muito alto, inclinava-se todo para Ruy, que a seu lado affigurou-se ao pai mais franzino. Que diria o diabo do Marcos, aquella torre de campanário pobre, que assim prendia o moço estudante, talhado para outras convivências. Chegou, emfim, o momento de se separarem, e Ruy entrou em casa. O pai embaraçou-se, tentando disfarçar a sua vontade de desabafo. Queria 'dizer o que sabia, sob um pretexto natural, que empurrasse a confidencia, sem que transparecesse o propósito que tinha de a revelar; mas, como tal pretexto não lhe acudisse, elle disse sem já poder conter a sua impaciência nem procurar rodeios : — A filha da Rola passou hoje por uma boa vergonha... Ruy suspendeu-se numa interrogação muda ,e afflicta; o pai continou, desviando o olhar para um lado : — Foi expulsa da casa do Dr.

Guidão. — E' impossível! < — Eu estava lá. Eu vi. — Mas porque, porque? ! — Orá, .que grande admiração ! Porque o comportamento daquella moça tem-se tornado de tal modo escandaloso com o Eduardinho, que a D. Leonor, muito sensata, resolveu pôl-a na rua, para sempre! Hoje ella foi lá... D. Leonor atravessou a saleta, bem de vagar, diante dos olhos delia, encarou-a de face, e mandou dizer pelo criado que não estava em casa ! — Oh! — Dizem que ella tem tão pouca vergonha que ainda é capaz de fingir que pão percebeu nada e voltar lá... Sempre lhe hão de fazer falta os vestidos velhos de D. Leonor... mas se isso acontecer, será despedida ainda mais rudemente. E' bem feito, para a gente séria não admittir canalhas na sua convivência... Ruy já não ouvia nada. Latejavam-lhe as fontes, as faces ardiam-lhe ao influxo do sangue revoltado. Levantou-se de chofre, tomou o chapéo no cabide e fugio para a rua, sem que o pai tivesse tempo de formular um juizo ou siquer uma hypothese do que se ia passar.

Elle estendera a mão para reter o filho, dissera ainda uma phrase de supplica, que não foi attendida, porque Ruy partia como uma flexa, com a H6 respiração zunindo o os olhos accesos. Seria prudente correr atra* delle, até a casa de Rola o trazel-o por uma orelha, como a um rapazinho de escola? Atormentado, o arrependido de ter dito tudo assim de repente, 0 coronel deu alguns passos na rua, mas voltou logo para Irás Era tarde; Ruy já não era unia criança, a sua intervenção agora talvez ainda fosse mais desastrosa; limitou-se a esperar. Entrou de novo' em casa, remoendo rancores contra a peste daquella rapariga, emquanto o filho, anhelanle da carreira, entrava corno um doido em casa delia. Como as costuras eram com pressa, Rolinha o D. Ricarda estavam ainda, toca que toca, a puxar pila agulha. Vendo, o moço, interromperam o trabalho, assustadas. Elle perguntou logo por Adda, espantado da calma das duas mulheres.

Rola explicou : — Deve estar deitada... Ella entrou da rua com ar de doente a fechou-se no quarto... Já fui lá duas vezes bater, não me quiz abrir a porta... pedio-me pelo amor de Deus que a deixasse socegada... está com dores de cabt ça... Mas você agora põe-me tonta ! Diga depressa, porque é que veio cá!..."E tão alterado ! Ao mesmo tempo que fallava, Rola levantava-se, espalhando no assoalho agulha, dedal e carreteis. O rosto ficara-lhe branco corno as camisas que estava caseando. Ruy explicou tudo o que ouvira do pai, nervosamente. Vinha affirmar a Adda, mais uma vez, o seu amor e consola 1-a da brutalidade dos outros. A offensa doera-lhe como um golpe mortal... Se ella o tivesse ouvido, não passaria nunca por aquella humilhação... Que a chamassem, que a chamassem depressa... Faltavam só dois mezes para a sua maioridade... elle redobraria de esforços no estudo, para fazer a sua independência e casar-se.

Não bastaria a Adda o'seu amor, e não estaria ella ouvindo lá dentro a sua voz?! — Talvez seu pai tivesse exagerado um pouco... observou D. Ricarda do seu canto; sabe que elle é nosso desaffeiçoado e não perde as occasiões de nos deprimir... Rolinha, eu acho bom você ir fallar com Adda... O senhor acalme-se., afinal em tudo isto pôde haver um pouco de confusão... Ha intrigas que ferem... que matam. E afinal o que-são?... mentiras... Rola sentira o sangue transformar-se em gelo quando ao bater na porta do quarto da filha, a porta cedeu. Dentro não havia luz, mas a janellinha aberta para o terreno inculto da vizinhança deixava, entrar a claridade tenuissima de fora. Adda não estava lá, e como não tivesse sahido pela porta que dava para a salota de costura, era lógico que tivesse saltado pela janella sobre a galharia das . pitangueiras anãs e dos cactos espinhentos... Rola correu á janella, com um presentimento horrível, e quiz gritar pelo nome da filha, mas a voz prendeu-se-lhe na garganta.

Olhou; só vio a escuridão. Cantavam grilos nos hervaçaes e estrelinhas luziam longe, no céo profundo... Voltou para dentro, tacteou com as mãos tremulas as roupas da cama e os vestidos pendurados no cabide, em baixo de uma colcha de ra- malhões azues... Nem junto da parede, liem em cima do colchão encontrou Adda..Com a mão a tremer-lhe cada vez mais, riscou um phosphoro e accendeu a vela do castiçal em cima da mesa, o logo os seus olhos viram uma folha de papel almaço em que Adda traçara, no seu corsivo regular : « Mamai. Perdôe-me e diga ao Ruy que eu não era digna delle. Não me negue a sua bençam quando eu vier bater na sua porta... Sigo o meu Destino ! Adda. » Rolinha apertou as mãos na boca, para não gritar; os cabellos erriçaram-se-lhe, arregalou os olhos para o espaço silencioso, mas logo, vibrando de desíspero, voltou espavorida á saleta, sacudindo no ar o papel escripto pela filha.

Era precizo correr, alcançal-a, trazel-a para casa. Ella ia illudida, era uma criança... tivessem pena, perdoassem... Mas onde ir buscal-a, Senhor! Ruy arrebatou-lhe o papel das mãos; leu-o e tornou a lel-o, sem comprehender uma palavra, de tal modo as letras dançavam diante dos seus olhos. Que era aquillo? que quereria dizer aquillo? ! Foi preciso que D. Ricarda, impondo silencio ás exclamações de Rola, que se debatia pela casa revistando os cantos, ainda duvidosa da verdade, explicasse ao moço : — O que o senhor não quer entender é isto: Adda fugio com o Eduardinho. A sua dignidade saberá aconselhal-o melhor do que eu. Só lhe digo que seu

Cruel Amor

Sinopse

Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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