Universo da obra
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5 O mais decidido fraqueia... é atoa, se tem basofia ha de se arrepender... Mas do que o tio Simão gostava de fallar era da belleza dessas praias, desde Angra dos Reis, onde as ilhas de areias finas semelham canteiros de jardins, de praias claras, feitas para o banho de fadas, até ás penedias da Pedra do Relógio e a insulsa planície de Sepefiba, em cujos lodaçaes o carangueijo abunda e se arrasta ao sol desaforadamente ! Bem como as praias, elle conhecia a população de cada localidade, e enaltecia a de Paraty, onde os habitantes moram em choças, mas disputam o prazer da hospedagem a quem quer que appareça no lugar! Peixe, farinha e bondade não faltam em casa de pescador! Eu quero morrer na areia, vendo o mar e ouvindo meninas rirem á roda de mim. E hão de ser as minhas netas ! Só em Angra tenho dezesseis... — Hortensia, canta mais... supplicou Ruy. E ella cantou por despedida as trovas do próprio Ruy, cheias de esperança e de consolação.
Quando elle entrou em casa, já tarde, atirou-se na cama a soluçar. A voz de Hortensia dissolvera-lhe em lagrimas o rancor que o soffocava, e assim não percebeu que o pai abrira a porta e o contemplava hirto, cosido ao canto mais escuro do quarto... 6 V Manhã nevoenta. Eram já cinco horas e ainda agora se ia esbranquiçando o céo com uma luz tênue. O ar, salitroso e áspero, cheirava a sargaço; as próprias ondas pareciam ter medo de se estirar na areia, arrepiadas de frio. Pela escala dos pescadores, naquelle dia o lanço da praia pertencia á Cruzeiro; por isso a Guanabara se aventurava numa viagem ás praias da Gávea e da Tijuca. Ainda era lusco-fusco e já Sérvulo, Lino e mais dois homens embarcavam o arrastão. O diabo era o frio, espantador do peixe e que lhes tirava a esperança do proveito. Iam por ir; sempre é obrigação fazer pela vida; e ás vezes, quando não se espera, ahi é que o peixe se vem offerccer !
Afinal, seu Freitas empatara na Guanabara, contando rede e tudo, para mais de cinco contos. Haviam de a deixar alli na areia, como um corpo morto? Marcos appareceu cedo, com os olho3 pisados d.; vigília. Lino inquirio : — Você está doente? — Não. Quem falta? — Flaviano e Ruy. — Que é que o Ruy vai fazer com a gente? — Sei lá... vai ver... mas olhe como o Rubião vem engraçado ! Rubião tossia, enrolado num manto de belbutina azul salpicado de estrellinhas de prata, com que o enteado se fantasiara de rei durante três carnavaes. Agora que o rapaz andava de soldado lá para os confins de Matto-Grosso, elle ia aproveitando o manto régio em mais útil serviço. — Qualquer dia começo também a usar as calças de turco que elle tem lá no bahú, informou elle aos outros. Quem se vai ralar de inveja é o Flaviano... se elle pilhasse este manto para botar nos hombros da Maria Adelaide... hein? ! Marcos estremeceu e ordenou : — Cala a boca, Rubião !
— Uê gente! calar a boca porquê? Não estou offendendo ninguém... Todo o mundo sabe que Flaviano tá só esperando a pescaria das cavallas para casar. Inda hontem elle disse que se a sogra consentisse em morar junto, nem elle esperava pelo verão ! Não caçoo de companheiro nenhum... Pescador é irmão de pescador... Marcos apertou com raiva a borda da Guanabara. Tinha razão o outro. Desde criança decorara os preceitos da classe e os tinha sempre cumprido fielmente. Só agora, que entre um camarada antigo e elle se interpuzera uma mulher, é que o ódio por um outro homem lhe roncava no peito. Maria Adelaide ! Elle não via outra cousa no mundo. O que o perturbava ainda mais que o seu amor era adivinhar que através da distancia o do silencio a rapariga pensava nelle. também. Seria crivei que se completasse tamanha desventura e que as duas almas se sacrificassem para alegria e triumpho de um terceiro?
! O riso da Fortunata estalou no ar frio da madrugada. — Gente ! Rubião quer fingir de São Pedro ! *— E' só pr'as mulheres me adorarem ! — Sahe dahi! Se você não fosse como boto, que persegue todo o peixe, talvez que achasse mesmo alguma tola que rezasse de joelhos a seus pés... — Entonces não achei? Não tenho companheira? ! — Ha que tempos isso foi. Sabe Deus quanto ella já se arrependeu... — Pois olhe, não parece. Tá só me pedindo pr'a eu casar com ella ! A mulata rio-se, acerescentando : — Deixe de prosa, ponha o manto fora e Vá ajudar os outros. Ahi vem Ruy... ahi vem Flaviano. Vendo approximar-se Ruy, João Sérvulo avisou : — Moço! ainda está em tempo de se arrepender. Quem vai pr'a o mar não sabe para onde vai Depois, afora o perigo, seu coronel pôde não gostar... veja bem! Ruy levantou os hombros. A's seis horas a canoa largou da praia, Era um doce raiar de dia de Junho, em que as cousas reacs estavam ainda veladas pela immaterialidade de urna 9 luz indecisa e mudavel.
Ainda havia estrellas no céo e já havia claridades brancas de sol; ainda havia silencio na terra alastrada de hiimidades de relento" e já rumorejavam as gaivotas no ar, abrindo as azas em torno ás rochas denegridas, á procura de peixe. Marcos e Flaviano iam um em face do outro. O mestiço presentia qualquer cousa que o apoquentava. Olhava para o pescoço comprido e o rosto de Marcos, como para uma torre de onde pudesse irromper contra elle uma ave sinistra, que lhe furasse os olhos. Em vão procurava fixar as pupillas crystalinas do outro, que se volvia para o mar com uma expressão angustiada nas faces longas. Em frente de Ruy, o carão de Pedro mudo era como um muro de penitenciaria, em cuja porta o lemma dantesco do inferno fulgurasse em lettras de fogo. Mas, nessa hora, Ruy, derreado para trás, olhava só para a ultima estrella da manhã, transluzindo ainda no céo diaphano, como se ella o entendesse melhor.
Para esquecer! Aquellas pescarias fora de horas, as noitadas consumidas agora na cidade, o recrudescimento de attenção nos estudos, toda a agitação a que atirava o seu espirito, só tinham um intuito : esquecer o amor de Adda... Elle refundiria a sua vida, enchel-a-ia de imagens puras^e nobres, despojando-se pouco a pouco daquella saudade immensa, daquelle immenso desejo de tornar a vel-a, desespero que lhe curvava os hombros para o chão, como á procura da sepultura... Não a tornara a enxergar desde a noite do baile, e não cessava de vel-a... Ella encarnava-se em todos os seus ideaes, palpitante 0 de febre, quer surgisse dentre as paginas gloriosas do livro, quer viesse desmaiar em sonhos nos seus braços amorosos... Naquelle propósito, naquella anciã de esquecer a mulher mais amiga da sua belleza do que do seu namorado, Ruy einmagrccia, tornava-se taciturno, desigual de gênio e aborrecido.
O pai redobrava de vigilância, alarmado por aquelles modos retrahidos. Tinha chaves falsas com que abria as gavetas do filho, querendo entrar-lhe na vida á força, até ao âmago. Mal Ruy voltava as costas, elle corria ao seu quarto, e era uma inquirição, uma busca miudinha, incansável, terrível, por todos os escaninhos. Não escapava um retalhinho de papel que não fosse lido e relido, nem caderno que não fosse folheado. O nome de Adda surgia alli a cada instante, entre exhortações e maldições, molhado de lagrimas ou rutilando no delírio do desejo. O pai conhecia agora bem o segredo do filho e exaggerava-lhe os aggravos. Cada queixa de Ruy contra o Destino, fermentavalhe no coração o ódio por aquella rapariga sem vintém e sem nome, recolhida por esmola por outra mulher igualmente desclassificada. „ Com os olhos a arderem-lhe no rosto pallido, como duas brasas num cinzeiro, elle revolvia a vida do filho, lendo-lhe os versos, os clamores das suas noites de insomnia e de paixão.
Aonde levariam o seu rapaz tantos arrebatamentos? E era então que estremecia, como um caniço ao vento. A figura da mulher resuscitava na sua frente, muito branca, hirta, com os grandes olhos negros dilatados pelo terror de uma visão desconhecida... A' força de querer espancar da memória a imagem dessa mulher, elle repetia com freqüência um gesto em que, roçando a mão pela testa, num movimento rápido, parecia querer enxotar alguma cousa da memória. Essa çousa era a mãi de Ruy, a evocadora de soffrimentos irremediáveis. Nesse dia, emquanto o filho andava pela pesca com a gentinha que elle abominava, pôde á vontade abrir as suas gavetas mais secretas, ler e reler os seus papeis. Do amontoado daquellas queixas e desvarios' surgia um contentamento para o Coronel : o filho procurava livrar-se de Adda. O seu amor debatia-se ainda, como um pássaro forte entre varaes de ferro, mas acabaria por triumphar.
A essas mesmas horas, no dilúvio da luz que offuscava a terra, entre o mar e o céo, que buscava elle, o seu filho amado, senão o esquecimento? Agora, que estava no âmago do segredo de Ruy, ajudal-o-ia a ser forte, a persistir na renuncia. Fechado por dentro, no quarto do moço, com os cotovellos fincados na mesa coberta de cadernos e de tiras de papel, o Coronel decorava phrases e recapitulava factos passados, em busca da origem daquella engeitada funesta que lhe roubava os carinhos do filho. O ciúme, havia tanto tempo adormecido no fundo do seu coração, accordava com mais fome, como se lhe quizesse roer agora até os ossos ! Arrependia-se de mal ter prestado attenção, uma noite, cuja data se lhe perdia na memória, a certo zumzum de que 5. 2 haviam posto uma criança á porta de Rola e que esta. andava numassanhameuto oxquisito, espalhando a novidade por toda a parlo. De quem se feria suspeitado?
Nem já lhe oeeorria isso... e então seria talvez fácil pesquizar a origem dessa mal fadada criança... agora era impossível : parecia mesmo que todos acreditavam que ella tivesse vindo ao mundo, como as meninas da lenda — dentro de uma alface ! Sacudindo as tiras de almaço, como se fenlasse fazer cahir dellas as palavras de amor enfileiradas nas suas pautas, o velho espalhava no ar mudo do quarto, com o ruído secco dos papeis, o assombro dos seus gestos nervosos... Ninguém o via; podia expandir alli dentro a sua alma concentrada. Dera volta á chave; estava bem sósinho. Reunia os papeis que espalhara, tornava a ler os versos do filho, que ardiam nas labaredas da paixão. v As confidencias de Ruy eram completas. Também elle estivera bem só ao escrevel-as ! Lendo a historia do baile, o Coronel bateu com a mão furioso no nome de Adda, como se quizesse esbofeteal-a. Tal mulher seria a deshonra da sua casa; não consentiria que ella puzesse alli os pés...
o filho nascera para flor mais fina... como a D. Leonor Guidão, por exemplo, com os seus olhos sérios, o seu ar socegado e o seu lindo nome. Essa seria uma esposa ! Lendo e relendo paginas e paginas, desarrumando e arrumando pastas e gavetas, ganindo do quarto para voltar logo, o Coronel consumio horas do dia. Quando á tarde se sentou á mesa do jantar sentia-se 3 cançado, como se viesse de batalhar no inferno. Tia- Antonia servia-o : de repente elle, voltando-se para ella, perguntou-lhe : — Você sabe quem poz aquella mocinha Adda na porta da Rola? — Uê! eu não sei, não sinhô... — Você é moradora antiga do lugar... deve saber ! •— Disse que foi Pedro mudo que botou a criança lá... eu não vi nada... < — O mudo... o mudo ! mas quem a deu ao mudo? ! Isso foi uma estupidez... já me não lembrava... o mudo ! Você deve saber... você era lavadeira, entrava nessas casas todas, e nesse tempo havia tão pouca gente por aqui!
— Eu não sei, não sinhô... disse que foi o mudo... — Disse... disse!... quem foi que disse? ! — Uê ! o povo... Tia Antonia levou a terrina de sopa para a cozinha, arrastando os pés de oitenta annes ! Disse ! De que corpo sae essa voz, que partindo como um sussurro e circulando em ondas rápidas, vae augmentando as suas sonoridades até ao grito que entra pelos ouvidos mais indifíerentes? Ninguém vira . o mudo com a criança e todo o mundo dizia que fora elle quem a tinha posto á porta da costureira... O Coronel acabava a sua laranja da sobremesa, quando Ruy entrou da pescaria. Vinha ardendo em febre-3 Tia Antonia foi logo despachada á procura do medico. O moço abandonavarse. O pai ajudou-o a despir-se-e installou-se á sua cabeceira, sem dizer uma única palavra, mas só a olhal-o de um modo tão penetrante, que Ruy puxou as coberturas até as orolhas para logo depois agitar-se : começarão delirio.
O Coronel encolheu-se aterrorizado deanfe daquellas phrases som nexo, de loucura. Adda entrava pelas janellas, corno um ladrão; pelo telhado, com azas de morcego, ou sahia, dançando, das flores cinzentas do papel das paredes, rutilando no seu vestido de brocado amarello. Suspeitando, subitamente, que Ruy tivesse tornado a ver Adda, naquelle próprio dia, o Coronel curvou-*e todo tremulo, querendo arrancar verdades da inconsciencia do enfermo : — Conte-me tudo... você tornou a ver essa mulher?... Ella não merece nada... nada... é precizo esquetíel-a... socegue... mas onde a vjo você?... Hein? ! — Psiu ! ordenava o doente. Pedro mudo está-nos espiando... não quero que elle me veja com Adda... amanhã toda a gente saberia que eu a estive beijando... — Beijando!... Então... onde estava essa desgraçada, Ruy? !... Ruy não respondia. Correu logo por todo o bairro que elle estava com febre.perniciosa, e sem esperança de cura.
Fortunata foi vel-o duas vezes no mesmo dia e offereceu-se para enfermeira. D. Delphina mandou-lhe as mais gordas gallinhas do seu gallinheiro e o pessoal da Guanabara fez a promessade distribuir pelos pobres todo o 5 pescado de uma pescaria, caso elle arribasse da doença... Girando, pelo bairro, entrou essa noticia pela casa de Rola. A Fortunata, sempre novidadeira, correra a dizer á amiga que o pobresinho estava nas ultimas... Tinha vindo de lá. O pai, mettia dó, mudo que nem peixe, e branco como um papel... Rola não quiz ouvir mais : atirou a costura para a banda, traçou um chalé sobre os hombros magros e sahio para a rua. Mal tinha dado os primeiros passos, quando sentio Adda atraz de si. 1 — Eu quero ir também, mãisinha, quero pedir perdão ao Ruy!... A mãi parou, interdieta. — Mas... — Estou com um medo, mãisinha ! — Volta para casa! Tudo acabou entre vocês... — Não quero que elle morra assim...
entende? ! eu ficaria com remorsos. Deixe-me ir!... — Nãor.. ™ Ruy ha-de gostar de yer-me... — Porquê?! — Porque ainda gosta de mim... — Elle nunca mais te procurou... teve razão •de ficar zangado... talvez até a tua visita lhe faça mal. Deixa-o em paz, que elle ha de precisar de socego. — Eu é que não socego ! — Olha, eu vou só á botica pedir informações certas; lá hão de saber... Quem foi que te disse que elle ainda gosta de ti?... —- Ninguém, mas eu sei. 6 — Enganas-te... Volta para casa... — Elle ama-me, ama-me,'ama-me ! Tão certo como este sol que nos alumia ! Pelo amor de Deus !... — O pae não consentirá que o vejas... —- Na hora da morte não se nega nada a ninguém ! — E* o que pensas... Não chores... Estás sonhando... Meu coração me diz que nem o Ruy está morrendo nem se importa já comtigo... Ha de casar com outra da sua condição... e será feliz ! — E' o que a senhora imagina : não ha forças que me tirem do coração de Ruy...
só a morte... e eu nunca me lembrei da morte, mãisinha ! O dia estava ventoso; as ondas rebentavam com fragor na praia. — Que frio ! murmurou Adda tiritando. - - E' nervoso... disse Rola, fazendo-a parar para aconchegar-lhe a capa ao pescoço. Na botica... — Não ! não vamos á botica; vamos á casa delle !... Vaes exporte-te a alguma desfeita... — Que me importa ! — Filha... — Eu quero. Se mamai não fôr lá agora commigo, eu irei sósinha... — Isso não ! — Então faça-me a vontade. Seguiram as duas, caladas, até á porta do Coronel. A casa térrea, pequena, baixa, estava completamente fechada. Rola bateu á porta e esperou. Prestaram ouvido; nenhum rumor lá dentro; tornaram a bater com" mais força, e quedaram-se á espera, cosidas aos 7 humbraes da porta. Os segundos pareciam eternizarse. Iam bater de novo, quando sentiram um arrastar de chinellos e o barulho da chave na fechadura. Era o Coronel. Ao deparar com as duas mulheres, elle teve um gesto de espanto; mas logo tomando a porta, defendendo-a com o seu corpo magrinho, gritou fora de si : — Rua !
rua ! Pensam que eu não sei? ! Meu filho não quer vêl-as. Deixem-o morrer em paz... Rua ! — Senhor! — Nada, nada ! Nesta casa, só entra gente honrada. Ouviram bem? ! Rola fizera-se livida. Adda subio de um salto os dois degráos de pedra e com una chamma de ódio reluzindo-lhe nos olhos, gritou rente ás faces murchas do velho : — E' mentira ! .é mentira ! Não teve tempo para mais nada. O Coronel poz-lhe as duas mãos no peito e empurrou-a para traz, fechando logo a porta com presteza e brusquidão... Rola teve apenas forças para evitar que a filha cahisse de costas na-rua. Cambalearam as duas pelo impulso do choque, e contemplaram-se depois como assombradas. — Ouvio, mamai, o que elle disse? Nesta casa só entra gente honrada! cachorro ! Elle já se esqueceu que foi elle quem matou a... Rola tapou a boca da filha com a mão gelada e puxou-a para si docemente, docemente... — Vamo-nos embora. Sempre me arrependo de te fazer as vontades...
— Não vou. Agora não saio d'aqui ! Quero ver quem pôde mais ! — Elle... está claro que ha de ser elle. Adda, sem prestar attenção ao modo supplice da mãi, sentou-se resolutamente nos dográos da porta, com os cotovellos fincados nos joelhos e o queixo apoiado nas mãos. — Filhinha, não me obrigues a dizer-te o que eu não quero dizer... Não temos remédio senão sofTrer caladas todas as humilhações... A moça levantou os hombros. -— Vamos... - Não, não e não ! — Quem passar... — Pôde dizer o que quizer. — Compromettes-me... — Pois vá-se embora, e deixe-me só. Rola calou-se e ficou. A casa continuava silenciosa. Dir-se-ia já um túmulo. O vento redobrava de força, uivando em fúria brava. Adda cosera-se á casa do Coronel, com o ouvido encostado afioitamente á madeira da porta. Pelo lado de dentro, o velho permanecia em igual situação. Também elle aguçava o ouvido, collando-o á porta; mas de fora não vinham senão os rumores do vento e o bramido do mar...
Comtudo, como se elle auscultasse atravez da madeira pintada o coração de Adda, sentia-lhe o calor e as palpitações... « Ella está ainda ahi... fazendo o que? esperando o que?... <juer acabar de matar o meu filho, talvez... » Elle suspendia a res piração... escutava... escutava..
Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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