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Cruel Amor

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Cruel Amor

Capítulo 8 · Cruel Amor

Parte 8

8 de 24 ≈ 17 min de leitura

A' voz argentina e moça de Hortensia respondia a toada monótona dos pescadores, numa melopéa magoada e implorativa, que se diria sahida da própria boca da noite... •— « Estrella do Céo, Virgem Maria, trazei a porto de salvamento quem periga no mar! » — « Estrella do Céo, Virgem Maria, trazei a porto de salvamento quem periga no mar! » Apezar da humidade, apezar do frio, os homens tra7 ziam os chapéos na mão, seguindo Hortensia que, com a sua doce voz molhada de lagrimas, descia a çollina, para espalhar pela praia junto á fúria das águas os. cânticos da sua supplica. E era como um largo sopro de bonança o timbre daquella voz virginal, ungida de piedade : —• « S. Pedro, bom pescador, guiai a barca desarvorada! » — « S. Pedro, bom pescador, guiai a barca desarvorada! » Pouco a pouco, parecia a todos que a tempestade ia amainando. Hortensia não cessava de cantar, com o olhar sumido na amplidão trevosa das águas...

I- No cérebro dolorido e confuso da mulher de João Sérvulo rcsüscitavam as palavras de Ruy : — «A voz de Hortensia tem o mysterioso poder de acalmar as tempestades; ella é o espirito do Mar que representa a Bonança ! » Quando isso ouvira, ella, pobre ignorante, julgara taes expressões filhas da loucura ou da febre... Certamente que ella nunca saberia definir daquellcmodo coisas tão afastadas da sua comprehensâo, mas como linha tido quem lhe abrisse os olhos, via-as muito bem agora... Eram lindas. Bem se via que Ruy era poeta. Seria então bem verdade que só os poetas entendem todas as vozes da natureza? E ella, que espalhara por toda a parte que elle tinha ficado soífrendo da cabeça, quando, ao contrario, era elle quem via e conhecia tudo no mundo, por dentro o por fora ! As ondas já não eram tão impetuosas; a estrellinha doida parecia orientar-se nas águas. Hortensia continuou : — « Lua de prata, Candeia dos Santos, illuminai os caminhos do mar!

E os pescadores : — « Lua de prata, Candeia dos Santos, illuminai os caminhos do mar! ORUEL AMOR 10o VII Flaviano interrompeu a ladainha, seguindo em direcção á casa de Maria Adelaide, com o sentido de a vêr, bem que por poucos minutos. Cortou caminho por um atalho novo. Os pés ardiam-lhe nos sapatões sem meias. Escuridão em cima, escuridão em derredor; tudo negro e cheio pela voz formidável do mar iracundo. Maria Adelaide ia ter uma sorpreza; ella não esperaria que elle a chamasse á cerca por aquelle tempo' tão feio... Ainda se a peste da mãi a deixasse vir! mas o mais provável era que a prendesse lá dentro, como das ultimas vezes... No fundo da sua consciência elle suppunha saber a razão por que a família da noiva começava a aborrecer-se delle. Era porque o via muito parado, esperando que o destino por si só se encarregasse de lhe ageitar a vida. Queriam talvez que elle se matasse procurando outro emprego, ou mettesse hombros á sorte, forçando-a a dar-lhe o que ella lhe negava !

mas nada - se faz"sem tempo, o elle havia de mostrar para o que servia. O que não podia admittir era que o enganassem ou se divertissem á sua custa... Lá por serem brancas, nem as marrequinhas das cunhadas nem a baleia da sogra haviam de poder mais do que elle... Percebia bem que a própria Maria Adelaide já andava também um tanto arrcdia, com um arsinho de enfado... Talvez fosse scisma; fosse ou não, já agora, se cila não quizesse casar por vontade cederia á força. Com elle não se brincava... Ella que tivesse cuidado. Agora mesmo ia por ir, quasi sem esperança de a vêr, só para vigiar... Adivinhava que alguma cousa puxava Maria Adelaide para trás, depois delia estar já quasi nos seus braços... Haviam de ser obras da mãi, que por já não precizar dos seus ohsequios, atiçava o aborrecimento por elle no coraçãozinho da noiva. Sentia-se ameaçado, queria adivinhar o motivo verdadeiro dessa ameaça.

Sahindo da treva densa da mataria do atalho, Flaviano entrou na estradinha das pitangueiras, a poucos metros do sitio em que morava a moça. Depois de uma curva de caminho, onde um velho cajueiro retorcia convulsivamente os braços, havia uma cancellinha de páo da velha chácara arruinada, cercada de postes carunchosos e fios de arame farpado, comidos de ferrugem. Era alli. A escuridão da noite não lhe permittira atinar tão bem com aquelle local abandonado, se o instincto e o amor o não tivessem guiado. Um pé de jasmim-manga plantado rente á cancella aturdia o ar ennegrecido com o seu perfume voluptuoso. Antes de assobiar como a graúna, elle ergueu a vista, como a procurar no céo uma estrellinha que pudesse guiar até elle os passos da mulher amada. Mas o céo escondia-se, a noite fechara a terra, cobrindo-a com uma tampa negra, oppressora, que parecia, pesar-lhe sobre a cabeça. Na casa, abarracada ao centro do terreno vasto, havia uma claridade frouxa, de luz de kerozene.

Flaviano não queria ir lá dentro afTrontar a sogra e as cunhadas, e esperou um bocado antes de trilar com assobio de mestre o seu canto de graúna... Estava assim, na espectativa, quando sentiu um rumor indistincto, para os lados do coradOuro. — Os cães... pensou elle, e assobiou alto, na cantilena do estylo. Calou-se á espera, de ouvido attento, com as narinas dilatadas, farejando no ar outro cheiro mais entontecedor que o dos jasmins-mangas, que estrellejavam na noite as suas flores de fogo. O que elle sentia', nem o sabia comprehender... Era como um frêmito de amor atravessando a negrura do espaço, sahindo da terra brava de areaes e cactus para o céo isolado... O cheiro de Maria Adelaide, aquelle cheiro inconfundivel de óleo de coco e alecrim; que ella costumava pôr nos cabellos, parecia impregnado em todo o ambiente da chácara. Flaviano estremeceu de susto. Estaria a moça conversando eom alguém naquella hora da noite?

! Trilou de novo o seu canto de graúna o estendeu o pescoço, curioso. Houve um far- falhar de pannos que se arrastam, no coradouro e logo depois uns passos de velludo caminhando'para elle. — Não seja tão impaciente, Flaviano, eu não sou surda! — Quem é que estava alli com você? ! — Ninguém... — - Não minta. — Ninguém. Eu tinha-me esquecido da roupa no coradouro e estava ajuntando tudo, quando você assobiou. Não torne a fazer isso; já sabe que mamai não quer que eu venha aqui sósinha ! — Ella não sabe. Porque é que você está só olhando para traz? Nunca teve medo e agora é que chegam os sustos? ! A moça retrahia-se, recuando, a cada movimento do pescador, como a preparar uma fugida rápida para entrar em casa. Elle preferia aquellas entrevistas, a ter de affrontar lá dentro da casa da noiva a cara feia da sogra, que se tornava implacável para com a sua indolência, estimulando-lhe os brios com- remoques e conselhos...

Mas Maria Adelaide, cada vez mais fria, respondia apenas ás perguntas que elle lhe fazia, com vibrações impacientes e, ao mesmo tempo, • timidas de voz. Chegou um momento em que, desesperado, Flaviano estendeu o braço procurando segurar-lhe as mãos; mas a moça, furtando o corpo aquelle gesto, correu aterrorizada para casa. Flaviano abrío a boca, espantado. A noiva creara medo delle ! Já as ultimas vezes que lhe tinha apertado a mão sentíra-a tremer como uma ovelhinha entre as patas de um lobo. Porque? Ser temido alegrava-o; queria que a fraqueza daquella mulher vivesse acorrentada e arrastada pela sua força dominadora; mas tanto assim, também não. Sentia-se agora offendido e mais desconfiado. Hirto, junto á cancella tosca da cerca, o pescador olhava para a chácara, em que as arvores farfalhavam, sem poder descortinar senão lá dentro a luzinha pallida da casa de moradia, ainda aberta. Porque seria aquella mudança assim tão brusca?

Teria ella presentido os passos da mãi? Voltando o seu caminho, picado por um despeito que o atordoava, Flaviano parou de repente com um movimento de sorpreza : a figura de Marcos desenhava-se nitidamente em séu espirito. Seria o filho da gallega que se andava misturando nos seus negócios? ! Porque lhe saltava assim na memória a lembrança do seu companheiro de trabalho no mar? Se havia entre ambos uma pontinha de desconfiança, era cousa sem fundamento, de official do mesmo ofíicio... Agora mesmo sabia muito bem que o Marcos andava dentro da bahia, pescando nas chalanas com os portuguezes de Santa Luzia. Rubião tinha-o visto di#s antes estendendo uma rede em frente ao hospital da Misericórdia; todo o pessoal da Guanabara estava sciente disso. O homem não era milagroso, para estar ao mesmo tempo em dois lugares differentes... em todo o caso, seria por iri~ fluencia delle que Maria ia mudando de sentimentos?

Seria isso possível? Quem sabe mesmo se o Marcos 7 não simulava trabalhar para outros lados e não estaria fechado em casa de dia, para andar de noite rondando por alli, como uma alma penada? Hein? Se elle tivesse certeza... um fio da verdade... mas as suas desconfianças eram vagas como um sonho... Ninguém lhe dissera nada de positivo, nem sabia por que desconfiar do Marcos; mas a verdade é que desconfiava delle. Lembròu-se então do caso de amor, contado poucas horas antes pelo Rubião. Ha segredos com azas: Na historia da ilha de Marambaia ninguém se tinha fatiado e todos se reuniam, sem combinação, para o mesmo fim do jgoso e da vingança.,Amor e ódio são duas forças propheticas ! . Ai do Marcos, se elle se mettesse com a sua,Vida ! Não era crivei. Pescador não engana a pescador. Daquelle não sahiria acto de deslealdade... O tolo era elle, em pensar essas asneiras... Marcos talvez estivesse naquella hora vendo matar peixe á dynamite, lá para as ilhas vizinhas de Paquetá...

havia de vir cheio de historias para contar aos companheiros na porta do João Sérvulo... Todavia... já afagava o projecto de apertar no diâ seguinte a mãi de Marcos até vêl-a eâpirrar a verdade. Internando-se pelo atalho, ouvindo o rastejar das cobras, lembrou-rse do avô, o pai da mãi, apanhador de víboras, fabricador de philtros e contravenenos. Fora aquelle-velho que lhe ensinara a fazer pouco caso dos homens e dos animaes. Parecia vêl-o moverse nas trevas, com os seus,olhinhos vermelhos de velho, de onde se irradiavam dois raiosinhos malignos, e o busto semi-nú enrolado pelas serpentes movediças, que da cintura ao pescoço o cjngiam como um adorno vivo. Não nascera'para a vida do mar. O homem lá fórâ não tem casa nem pátria; tudo é instável, movediço, sujeito ao vento e á luz, dois elementos que se não podem dominar, nem apalpar, nem vencer! Elle gostava de ver na. terra o fuijdo signal da sua pegada, queria, olhandopara.traz, no mato, perceber, pelos galhos quebrados, o caminho aberto pelo seu corpo robusto e destruidor.

Pespava-hoje como amanhã faria outra qualquer cOusa, sem amor á profissão. Estava no;officio de empréstimo; gostaria muito.majs de caçar animaes de sangue quente, que espadanasse em terras, ásperas. O peixe enfadava-o. Tinha saudades de andar como 0 avô, rastejando nos capinzaes atraz das cobras... Quando entrou em casa encontrou a mãi pitando cachimbo, agachada a um capto, Ella resmungou qualquer, phrase em um ruído cüsparento e ihintelligivel. Era uma velha magra, muito' considerada pelos pobres, porque soubera fazer dinheiro com tabuleiros de doces e de angu. Mas desse presumido dinheiro não dava um real ao filho e oppunharse a.que elle se casasse com. mulher branca, certa de desgraça... | No dia seguinte, pelas orize horas, Flaviano sahio de casa em direcção á de .Marcos. O dia endireitara; o céo estava de um azul cálido, marchetado de raras nuvensinhas brancas. O mar roncava ainda. Flaviano deu volta pela praia, com o sentido em uma indagação.

— João Sérvulo e Rubião, acocorados na areia, punham fogo embaixo da Guanabara suspensa sobre estivas, besuntando-lhe com cebo derretido a parte inferior do casco. Feita, essa limpeza, pinfal-a-iam ás riscas, da linha dágua para cima. Tão entretidos estavam os dois pescadores, que mal corresponderam ás palavras do Flaviano. Queriam aproveitar o sol e o descanso para rejuvenecerem a canoa. Depois de pequena demora, Flaviano-perguntou, simulando pouco caso : — Vocês não teriam visto o Marcos por ahi? — Homem, elle disse que ia pescar na bahia, mas o Bié e a Nita contaram á Fortunata que elle anda por ahi... Flaviano pensou : então era certo; o demônio fugia da praia e andava pelos matos cocando enredos... O mais acertado era ir procural-o de uma vez e acabar com essa historia. Marcos morava a curta distancia de um cortiço, onde a mãi passava o dia lavando roupa com outras mulheres. Flaviano sabia disso; vendo a casa do companheiro fechada, foi direito ao portão da estalagem.

Effectivamente lá estava a Conceição estendendo lençóes, toda curvada, mostrando as pernas nuas e os tamancos de páo. Ouvindo o seu nome, voltou-se, e de vermelha fez-se livida ao deparar com o mestiço. Flaviano esperou^a encostado ás grades, mas reparando que ella não se movia, perguntou-Jhe alto pelo Marcos. — Marcos? respondeu a lavadeira, como se não tivesse ouvido bem, e andando devagar, para dar tempo ao cérebro de formular uma resposta. Que quereria aquelle animal? matar-lhe o filho? Teria elle já descoberto os amores de Marcos pela assanhadinha da Maria Adelaide? Certamente que elle não procuraria o outro para bom fim. Já impaciente, Flaviano pôz a mão no ferrolho para abrir o portão; ella então apressou-se com um sorriso desbotado, disfarçando angustias : — Que deseja o senhor? — Fallar com seu filho. — Meu filho? ! Flaviano fez com a cabeça que sim. — Elle não está... anda por fora.

— Máo, máo.. Eu sei que elle está em casa. Basta de fingimento; é melhor ir dizer a Marcos que appareça de uma vez«, se é homem e não tem medo de mim. — Medo do senhor? ora essa ! porque? Meu filho não tem de que ter medo de ninguém, que não é ladrão nem assassino; vive do seu trabalho e não pensa na vida alheia. Se quer deixar algum recado, deixe; quando elle vier eu lhe direi que o senhor cá esteve e o mais. I Ella agora fallava alto, com atrevimento, sacudindo as falripas côr de fogo do cabello em desalinho e a enrodilhar com as mãos curtas e vermelhas o avental de zuarte empapado d'agua. — Historias! resmungou Flaviano. — Historias não ! veja lá como falia ! I 1 1 Eu já lhe disse o que tinha a dizer : Marcos não é vagabundo, anda ao trabalho. Se tem algum recado a deixar-lhe, deixe-o; se não tem : viva ! Como a porlugueza fallava muito alto, de um modo áspero, aeudiram as moradoras do cortiço,' curiosamente.

O que ella queria era chamar para si toda a raiva do Flaviano e desvial-o do filho : por isso accres'centou : — Se quer a chave da minha porta, tome-a. Olhe, é aquella casa acolá. Vá vêr por seus olhos se Marcos tem medo de alguém. Desaforo! O mestiço medio-a de alto a baixo, com desprezo; não queria saber de negócios com mulheres. E depois : — Pois se élle tem coragem, que continue a rondar minha noiva, que ha de se vêr commigo ! — Sua noiva? ! Para que a quer o meu filho? Ora a belleza ! A estrada é livre : se elle passa por lá é por que lhe faz caminho ! Fresca figura, a da tal Maria Adelaide ! Flaviano cresceu. A ira fuzilou-lbe nos olhos fundos,'' prompto para avançar; mas já um grupo de mulheres rodeava a lavadeira,que não recuou, muito vermelha, na refulgente aureola dos seus cabellos ruivos. Elíe dominou-se : — A minha eohversa é com seu filho. Elle sabe bem do que eu sou capaz ! Tal a expressão com que elle fallou, que todas as mulheres se éntreolharam cóm medo.

Só a poxtugueza deu um impulso ao corpo ao vêl-o afastar-se, l i ? como para retêl-o. As outras seguraram-n-a num circulo estreito, até que, vencida, ella se sentou arrepellando os cabellos crespos, imprecando os céos, e supplicando ás amigas que nada dissessem ao filho quando elle voltasse para casa... Se o Marcos soubesse de tal afronta, teriam de chorar grandes desgra-; ças... Nesse dia Nita e Bié andavam á cata de ovos e de orchideas pelo mato.. Tinham sahido cedo de casa, elle conupedaços de pão duro nos bolsos sujos, ella com umas bolachas mofadas escondidas no seio. As primeiras horas, foram sem proveito. Se deparavam com algum ninho», elle estava vazio e flores não as enJ contravam senão em pétalas soltas, esparsas pela veni tania da noite anterior.. Mas," como se divertiam pelo caminho, isso não lhes causava decepções nem cuidados. O céo estava azul; o sol dourado, voavam as camaxilras pela galharia reluzente e as pitangueiras salpicadas de frutas pretas ou vermelhas offereciam-lhes os braços macios, emquanto uma viração deliciosa fazia voar os trapinhos da saia e os cabellos despenteados de Nita.

Que mais seria precizo para se ser feliz? A certeza de que aquella liberdade não chegava o ..olhar do tio, bastava para alegrar Bié; e Nita, com a sua philosophia alegre de criança, sentia-se á vontade correndo assim descalça pelas restingas ou pelo mato, galgando rochedos só pelo prazer de affrontar difíiculdadés, ou deixando-se ador-; mecer em qualquer canto, sem pensar nas horas nem ter medo de nada. No Bié juntava-se ao amor da liberdade uma curiosidade intensa por cousas da natureza, 16 que o impellia a collecionar conchas, estrellas do mar, insectos e ovos de passarinhos. A seu lado, Nita era como uma cabritinha selvagem, roedora e lépida. Fruta que ella agarrasse, levava-a á bocca iminediatamente; vallo que visse, saltava-o logo a pés juntos, sempre prompta a consumar as acções mais arriscadas ou mais problemáticas. Parando aqui, alli, acolá, por causa de uma flor, das raízes de uma arvore, ou de um insecto, elles chegaram á clareira onde um velho pedregulho de dois metros de altura emergia da terra para amparo das baunilhas cheirosas que o abraçavam mollemente, ondulosamente.

No topo chato da pedra uma bromelia erguia um bello pennacho côr de fogo, e á roda delia, no chão, sobre um grammado leve, salpicado de flôrinhas, pairava, como um véo alvo e movediço, um enxame de borboletas brancas, quasi microscópicas. Nita tratou de espantar as borboletas, correndo entre ellas; Bié parou, absorto, olhando, Cançada de correr, a menina propoz : — Vamos subir na pedra, Bié? Olha, ella tem uma escadinha. Nita chamava assim a umas ligeiras anfractuosidades, onde mal lhe caberiam os dedos dos pés. — Você cae... — Eu não... Com as pontas dos pés e das mãos Nita subio pela pedra, como uma lagartixa. Bié seguio-a. Em cima havia pequeninos lagos feitos pela água da ehuva, cercados de limo. — Não parece um jardim de bonecas?

Cruel Amor

Sinopse

Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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