Universo da obra
Universo da obra
CRUEL AMQR 145 » tos de luz errante ás margens do carreiro sinuoso, beifado. de carrapichos e cabeças de frade em flor. As irmãs de Maria Adelaide, cochichavam rindo, acompanhadas, pela mãi e um tio velho que tropeçava a cada instante desafiando a hilaridade das raparigas e mesmo da matrona pesada mas firme. Maria Adelaide não murmurou em toda a estrada nem um monos^llabo. Só ao passar junto ás faldas do morro dos Cabritos, ouvindo tremular no ar um berro de cabra, longínquo e longo, sentio uma grande piedade por aquella voz isolada, que parecia queixar-se á natureza de um desgosto irremediável. Corria em todo o bairro da Copacabana que esse alto morro, que ellas iam ladeando, era habitado por um fato de cabras selvagens, que nenhum caçador se atreveria nunca a perturbar. Ellas viveriam alli ignoradas, se de longe em longe um ou outro cabrito se não dcspenhasse, resvalando de penhasco em penhasco pelas ribanceiras mais resvaladiças, até cahir embaixo, trahido pelas sorprezas do terreno numa das suas correrias, ou empurrado na luta por vim dos seus irmãos.
Ensangüentado, arfante, morria então do olhos voltados para a penedia abrupta onde ficavam os seus... O berro traspassava o ar sereno da noite, como um gemido de orphão supplicando misericórdia. Maria . Adelaide sentio que as lagrimas lhe subiam aos olhos, predisposta por uma sensibilidade que as irmãs não comparticipavam. Ellas continuavam a espicaçar a paciência do tio velho, com risinhos e chufas. Ao desembocarem na praia, Maria Adelaide puxou vio9 i 6 lentamente pelas duas irmãs e dando-lhes os braços poz-se entre ambas, defendendo-se de um. possiyel encontro com o Flaviano. A sua carne tremia. O seu olhar ia como uma lanterna allumiando o caminho, a vêr se encontraria Marcos. Dirigiram-se para a enseada da Igrejinha, onde as canoas dos pescadores dormem encalhadas em colchões de areia té a hora em que o fado as faz ir ás suas aventuras do mar. Se não houvesse lanço conversariam ao menos um bocado com a Fortunata, sempre novidadeira e interessante e que morava alli mesmo, perto da Arrecadação...
Não as tinham enganado. A Guanabara a prestava-se para a pesca e com ella a Cruzeiro e a Camponeza, combinadas para uma funcção em commum, pelos seus mestres. Ao approximar-se do grupo dos pescadores na praia, Maria Adelaide inteiriçou-se nos braços das irmãs, que se voltaram para ella assustadas; mas não passou aquillo de um movimento em que os seus nervos de aço readiquiriram logo a flexibilidade natural. Ella conhecera a voz de Marcos o o distinguira entre os outros, alto como uma torre. Quando se approximaram, Fortunata acolheu-as rindo : — Ahi, meu povo! Senta aqui mesmo na areia, comadre, ella é mais fofa que um sofá de mollas... Ih ! como Maria Adelaide está cheirosa ! Ouvindo aquelle nome, Marcos voltou rapidamente a cabeça para o lado das mulheres. Maria Adelaide percebeu o movimento e estremeceu de alegria. Elle recuou um passo, ella avançou outro. Olhavam-se. IÍ7 — Que milagre foi esse?
inquiriu a>Fortunata, obrigando a viuva a sentar-se na areia. — Idéa de Maria Adelaide, que deu na mania de querer vir por força vêr a pescaria... — Fez ella muito bem... mas olhe, o Flaviano ainda não está ahi... Emquanto as outras mulheres conversavam, Maria Adelaide olhava para Marcos. Elle voltara nessa mesma tarde das chalanas dos portuguezes, cheio de saudades deste mar largo, de outra côr e outro sopro. Alguns metros afastada da ultima canoa, fervia sobre três pedras, em cima de um brazido, uma taxada de cascas de aroeira para a tintura da linha de algodão. » Para não perder tempo, como não teria logar na canoa, Rubião tirara um punhado de cascas do taxo e esfregava com ellas uma meada do fio brarífco, para o tornar imputrecivcl e excellente para a fabricação de uma nova rede. Ninguém sabia manejar tão ligeiramente a lançadeira, nem com tamanha certeza como elle.. Quem quizesse boas linhas de tucum ou de algodão impermeável, era só fallar-lhe.
Gostava de conversar com as mulheres e trabalhar ao lado dellas, sentado sobre os calcanhares descalços, provocando historias ou relatando os seus contos do Norte... Já ensinara á Hortensia varias cantigas e chegava a chorar quando as ouvia $psd,pbradas pela linda voz da moça, que acabava de chegar com uma cestinha cheia de cama- I '|S rõcs vivos, fra/.idos p, Io pai t\f uma pescaria na Lagoa, e muito risonba, annuneiava : Seu João Sérvulo ! Camarões para iscas ! .loão não gostava de piscar ao anzol, mas entrara na combinação entre os mestres que, se não percebi .- .cm manta de peixe, se pacientassem na pesca á linha. Sujeitava-se. Fortunata dizia já eslar lambendo os beiços com a idéa do bello bijupirá que lhe trariam de presente, ou do gordo badejo, que ella não era tola para comer sororoea por cavalla, nem se contentava com as tainhas magras da primavera... Rubião caçoava : - Mulher de pescador lá sabe o gosto de peixe tino !
Para ella cação, para as outras linguado ou mérofe ! Que a bem dizer, mulher não sabe distinguir o sabor de peixe nenhum ! O paladar dos homens, mais acostumados com iguarias finas, sim, é apreciador... Ha sujeitinho que vê o peixe retalhado no prato, já sem rabo e sem cabeça, sem escama e sem côr de pelle, com folhas de alface por baixo e molhos amarellos por cirno e diz logo : isto é tafou tal pescado ! E acerta. Parece mentira... E' precizo ter muita pratica du comer... Também o Rio de Janeiro devora mais do três mil contos de peixe por anno... Pareceu a todos exagerada a somma. Elle affirmou que não, sabia pelo Pipa, do mercado. Era a cifra. — Então, se é assim, por que diabo vocês são tão pobres? indagou a Fortunata entre risonha e incrédula. - 149 — Uê! porque somos nós que trabalhamos. O dinheiro fica sempre nas mãos do que se esforça menos... — Injustiças da sorte. Maria Adelaide e Marcos não podiam resistir á tentação: voltavam-se um para o outro embevecidos e calados, em momentos furtivos e eternos.
Elle iria na canoa com seu Freitas, o Sérvulo, o Baptista e o Pedro mudo, quesupplicara por gestos tal favor. Flaviano não tinha apparecido em todo o longo dia c o Lino voltava cançado da pescaria com outros camaradas na Lagoa. O mar parecia dormir um somno leve. As ondas suspiravam apenas, como um offego natural de corp"o sem febre. O céo, sombrio mas límpido na escuridão, arqueava-se pontilha^o de eslrellas amorosas. A areia branquejava, como um diadema enorme de prata polida, cingindo a orla escura das águas. Iam sahir as canoas, já de lanterninhas acesas. As mulheres levantaram-se, sacudindo-se, e caminharam para os últimos adeuses. A Guanabara foi a primeira a balançar-se na onda mansa, logo depois a Cruzeiro o por fim a Camponeza e todas três vogaram com o seu pharolsinho reproduzido no reflexo do mar para a aventura do acaso. Maria Adelaide, hirta, entre as duas irmãs, olhava, adivinhando o rosto de Marcos todo voltado da canoa para ella, e aspirava com força o ar suave da noite morna, como para sorver os beijos que elle lhe mandasse e que ella sentia sobre a sua carne amorosa !
Nem uma palavra, nem um aperto de mão — e |õ() finham-se dito tudo! Emquanlo pôde distinguir o vultosinho negro da canoa na escuridão do mar e o seu pharolsinho, cada vez mais pequeno, como a luz de vagalume perdido nas águas, a moça nem se moveu nem pensou em mais nada, alé que as irmãs puxaram por ella. Não haviam de ficar alli até a meia-noite, á espera ! Lino estendera-^e na areia, com a cabeça sobre os joelhos da filha e os olhos pasmados- para as esfrellas. Fortunata contava ás outras mulheres que ás vezes nessas pescarias de acaso, em noites de quarto crescente, como aquella, os pescadores colhem tantos peixes, que até, por amor do peso, tem de rejeitar a ntetade delles, atirando-os outra vez á água. O grupo foi se desmanchando; em pouco tempo só o Rubião continuava a preparar a linha, ao lado do Lino e da Hortensia, que cantava versos do Ruy,' num fio de voz crystallina. Maria Adelaide e a família tinham retomado o caminho de casa, acompanhadas pelo tio velho que, já de cançado, mal arrastava os pés.
Um estirão ! Agora estavam todos mortos por chegar. Maria Adelaide parecia ter azas. Ia com uma alvorada na alma e já nem se lembrava de que em qualquer voltada estrada pudesse esbarrar com o Flaviano.., As irmãs scismavam : — Que diabo de historia será esta ! Maria vestio-se qus nem para a missa... agarrou-se á gente qu ; nem uma ostra e agora vai como um passarinho ! A felicidade illuminava o rosto da moça. Voltava convencida do amor de Marcos. Flaviano poderia rezar pela alma do seu. Batia-lhe o coração : os olhos procuravam com deleite as estrellas do céo. Apressou o passo, caminhando na frente, como se tivesse pressa de correr para o futuro; mas de repente pareceu-lhe divisar um homem, immovel junto á cancellinha do terreno. O sangue coagulou-se-lhe nas veias, ella estacou subitamente e a sua bocca, até então muito calada, desferio um grito agudissimo : — Flaviano! A mãi precipitou-se : o que a filha suppuzera ser o noivo era um velho tronco arrimado á cerca desde essa manhã : as irmãs acudiram-lhe, também, mas já ella cahia para traz intsiriçada.
Quando accordou estava dentro de casa, coroada de pannos embebidos em vinagre. A mãi aquecia um prato de sopa, sentenciando : — Foi fraqueza... Ella não jantou... Brigam lá com os namorados e depois sou eu que tenho de aturar os chiliques. Estou vendo que o Flaviano tem razão e que o melhor é casar de uma vez. X Fora para essa noite"de pescaria á linha que o Marcos tinha voltado das bángulas dos portuguezes. Quando entrou em casa, a mãi começou logo a rod( alo, como se tivesse novidade para lhe dizer. —- Que é que a senhora tem? Está doente? — Não tenho nada. Tu é que estás mais magro. — Qual; isso é sonho ! — Estás, sim. E' por causa dessa consumição. — Adeus, adeus ! Marcos fez um gesto de aborrecimento e a mãi começou a desabafar em suspiros. Elle não extranhou; a mãi tinha a queixa fácil, mas o excesso de lamúrias impacientou-o e indagou por fim, já irritado : — Se a senhora não tem nada de mais, por que está só suspirando?
! — Eu cá me entendo... Marcos levantou os hombros e foi procurar uma caixa na prateleira em que tinha guardado uns anzóes. Se a mãi não queria dizer, que não dissesse ! Ella, porém, sentio-se corno que ofTendida por aquella falta de curiosidade e já não podendo re» sistir ao .desejo de fallar, resolveu relatar a visita do Flaviano, procurando attenuar-lhe os aggravos, para não exacerbar o filho. No fim supplicou-lhe que tivesse prudência e foi quando Marcos se precipitou para fora da porta, na provocação de um encontro. Melhor seria que o outro o matasse, do que andar com.a Maria Adelaide no pensamento dia e noite, tirando-lhe o animo para trabalhar e cuidar na sua vida. Aquella obsessão era um tormento. Se Flaviano a percebera, tanto melhor, não tinha gênio para traição. Perseguido pela imagem da moça, fugira para as chalanas dos porfuguezes de Santa Luzia, mas lá a saudade crescera-lhe tanto no peito, que o suffocaria se não viesse de noite rondar o terreno de Maria, com a esperança de a vêr sem ser visto, só para acalmar a febre do coração...
Passara duas vezes, sem bater, pela porta da mãi, para quem elle era a própria luz do dia, com o sentido de espreitar, na cerca da estradinha velha, as paredes nuas da casinha da moça... Como da primeira vez estivesse muito escuro, da segunda viera ao luscofusco, cortando por atalhos da Babylonia. Nunca vira ninguém, a não ser, na ultima tarde, o Bié e a Nita, que andavam na colheita de pitangas e mal teriam dado fé da sua pessoa. Fora melhor assim. Se a moça lhe tivesse apparecido naquella solidão, teria elle tido coragem para suster a palavra que a todo o instante lhe queria irromper da boca?... -9. . ) ! Comprehendia agora que o perigo estava em vêl-a. Deveria evital-a. Ella era o diabo em figura do mulher, vindo ao mundo só para tental-o. Já tivera outros amores, nenhum o perturbara assim, nem lhe Iirará dias de alegria e horas de somno... Até já pensava cm Se fazer embarcadiço, fugir para sempre daquelle frueto prohibido, que cada vez mais lhe atiçava a gula.
Mal empregado nos dentes do Flaviano ! Quem lhe diria, um anno antes, que elle se havia de apaixonar pala noiva de um companheiro, um pescador como elle ! Era esse o grande crime. Se a mãi o tivesse zurzido em pequeno todas as vezes que elle faltava á escola e não o deixasse á solta na praia atraz dos pescadores, talvez que elle nunca tivesse posto os olhos naquella maldita Maria Adelaide, e vivesse tranquillo por outras bandas, com mais capacidade para ganhar a vida. Agora era fazer-se de forte e cumprir calado o seu destino. A Guanabara lá estava á beira da onda, á sua espera; toda pintadinha de novo, alegre como uma noiva: Ella, o trabalho e o tempo, ajudariam a sarar a chaga daquella paixão criminosa. Fizera mal em não rezar com a mãi naquelle domingo de festa. Que espécie de carne era a sua, tão transparente, que todos lhe liam na cara os segredos do coração? Já á mãi adivinhara tudo, logo no principio.
E agora era o próprio Flaviano que desconfiava. Como? Porque? ! Atirando as pernas compridas nas suas largas passadas, Marcos procurou o caminho mais sinuoso e longo, passando por vários pontos onde haveria probabilidade de encontrar o noivo de #laría Adelaide, morto por enfrental-o, sem provocação, só para saber. Não usava armas comsigb; nem mesmo um canivete. Tinha os braços fortes, de bom nadador e músculos flexíveis. Não pensara nunca em defender-se, nem em atacar ninguém. Nascido e criado naquellas areias brancas, não havia um palmo de terreno que não lhe fosse familiar, nem creatura humana que não contasse como amiga. O seu destino agora era a casa do João Sérvulo; contava lá chegar com o peito alliviado e a consciência tranquillizada pelo encontro e explicações com o Flaviano; mas não o vira em todo o longo caminho. Quando elle transpoz a porta do mestre Sérvulo, Fortunata exclamou muito alto, toda rizonha : — Quem é vivo sempre apparece; mas assim mesmo foi precizo que meu velho lhe mandasse chamar, hein?
! — Mesmo que elle não mandasse eu vinha, Já estava com saudades... •' — Maá nao.de mim... — Sim, da senhora e de todos... — Hum !... Antonico! gritou ella para o filho : olha só como seu Marcos veio bonito! A differença é que, em vez de chápéo de palha de coco, elle trazia uma boina azul, condizente com a camisa de meia do mesmo tom escuro, que lhe adoçava o.ardor da pelle queimada, côr de tijolo. Com. os seus olhos observadores de mulher, Fortunata extranhára a mudança de vestuário do pescador. — Você copiou a moda do Baptista; somente o gorro delle é preto. Agora só falta a cinta; ponha uma cinta para completar. D. Conceição é que haverá de ficar contente quando visse você assim, que nem um portuguez... Ella outro dia esteve ahi na porta fallando com Sérvulo. Você deve ser muito amigo delia. — Pois então não sou? ! Mas que foi que ella veio fazer? — Pergunte ao Sérvulo. Só sei que vinha com os olhos que nem duas pitangas, só de chorar.
— Chorar porque? Palavra que não entendo... —• Pois nanas! Olhe, eu fallo como amiga, já se sabe que não tenho papas na lingua. Brincabrincando póde-se chegar a um caso muito sério. — Cada vez entendo menos... — Quer mais claro? pois então tá hi : — cada qual com o que é seu. E finja agora que não percebe. •— E não percebo. — Então você deixou a sua intelligencia lá nas chalanas dos portuguezes. — Pôde ser. — Nesse caso, lá vai a verdade bem escarrapachada : Flaviano foi procurar você para urna explicação, em casa da sua mãi; ella então veio cá... — Mas que é que o Flaviano tem que se metter na minha vida? ! — Uê, elle pensa que você quer lhe armar uma peça... mas não faça isso. Se alembre sempre que pescadores são como irmãos. Fallo para seu bem, mas já fallei de mais. Se João Sérvulo estivesse aqui eu não diria metade... Só quero que me prometta uma coisa. —. Qual é? — Não brigar com Flaviano...
— Eu não quero brigar com ninguém. Nem tenho motivo,.. — Morda aqui, respondeu a mulata, mostrando o dedo minimo, carnudinho e curto,* de unha achatada. Ella continuou : — Você estava bom pr'a casar sabe com quem? Com Hortensia. Mas os homens são tolos, passam perto da fortuna e viram a cabeça p'ra o outro lado... — Eu não quero casar. — Porque não pôde. — Minha noiva é a Guanabara!... — Essa é noiva de muita gente... Pensa que meu marido gosta menos delia que você? Pois sim ! Eu até chego a ter ciúmes... com franqueza... nunca vi paixão mais forte... Marcos ouvia apenas a voz da mulata, sem attentar na significação das palavras que soavam perto delle como zumbir de abelhas ou chiar" de cigarras. Toda a attenção se lhe prendera nas meias declarações do principio da conversa. Receiava que a mãi fosse indiscreta e tivesse trazido para aquelle lar feliz a sombra do seu coração desgraçado. De mais a mais, exasperava-o aquella humilhação de vêr que toda a gente sabia do seu amor...
A única pessoa a quem confiara tudo fora a mãi... Revendo a scena dessa luminosa manirã de domingo, quando depois da missa ficara a sós com ella no alto da Igrejinha, l õ S acudiu-lhe á idéa a cara do Pedro mudo, surgindo como por encanto entre o seu hombro curvado o o hombro estreito da mãi, no justo momento das confidencias dolorosas... Mas desse, coitado ! nada tinha a recear. Era o fundo de um poço. Melhor : o fundo do mar, como dizia Ruy. A pouco e pouco chegaram os outros pescadores. Ia-se reunindo o pessoal da Guanabara. Marcos tomara a sua resolução. Desfaria as suspeitas do Flaviano. Seria leal. Fazia de si para si o juramento de nunca mais cm sua vida trocar um olhar com a Maria Adelaide. Quando a visse de longe, ou a adivinhasse apenas, voltar-lhe-ia as costas e fugiria. Chegara a hora de experimentar a sua coragem. Seria forte. Ella estava promettida ao outro, era do outro, acabou-se !
O pessoal da Camponeza e da Cruzeiro rodeava as suas canoas. Estavam agora todos na praia e já Rubião se installára, ora vigiando a tachada de cascas de aroeira que fervia no lume, ora preparando as linhas de meada, junto das mulheres que vinham á praia por curiosidade e desejo de palestrar. O dia morria sem sobresaltos. Estava tudo tão calmo que, na expressão da Hortensia, até a água do mar parecia doce. Nada faltava ás três canoas que iam de parceria pescar á linha no mar. Era quasi a hora da partida; Marcos, de pé entre os companheiros, olhava de face para o mar, quando sentiu atraz de si o farfalhar de saias engommadás e logo, como uma setta passando rente aos seus
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