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Cruel Amor

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Cruel Amor

Capítulo 14 · Cruel Amor

Parte 14

14 de 24 ≈ 18 min de leitura

ouse balbuciar o teu nome senão com adoração e respeito ; penetra no meu pensamento, comprehende-me, Adda! — Jâcomprehendi. Amo-te mais do que tu a mim, porque só desejo a tua felicidade ! — Prova-me isso, não indo a esse baile, devolvendo este vestido a D. Leonor ! — Não posso, Ruy... já prometti... —~Não queres então devolver este vestido? —- Não... — Pois não irás com elle ao baile! — Ruy! Era tarde : com um movimento rápido e nervoso o mOço atirara o embrulho das sedas ao mar. Teias de prata boiavam á flor das águas e a areia crystalizada fulgurava ao luar. Uma onda que recuava levou para longe o lindo vestido de D. Leonor. Adda estacou, gritando, com os braços estendidos e os olhos arregalados de espanto. Ruy, arrependido já da sua brutalidade, disse-lhe baixo : — Perdoa, perdoa,' dar te-ei outro vestido, novo... mais bonito... escolhido por ti!... Rola, que se deixara para trás, a conversar com o cunhado do Dr.

Guidão, approximou-se assustada : — Que foi? Que foi? ! Adda, suffocada, não podia fallar; Rüy murmurou : — Não foi nada. Adda, cuidando vêr um bicho naquellas algas, atirou-lhe o embrulho que trazia na mão. — Oh ! e agora? ! 8 8 — Agora, acabou-se. 0 mar levou-o. Rola percebeu a verdade, de relance, e calou-se. O velhote teria percebido também qualquer cousa, mas, por isso mesmo, não commcntou o caso. Adda recomeçou a andar com mais pressa, doida por chegar a casa. Ruy seguio-a de perto, supplicando-lhe p(rdão por aquelle acto de desespero. Ella não respondeu nada ao principio; por fim, desesperada, disse : — Procure outra mulher, Ruy, que o comprehenda Eu sou imperfeita e adoro a minha imperfeição, para poder emendar-me. Não nasci para freira, nem tampouco para mulher de um homem capaz de me deixar presa em casa pelas trancas... como... como... alguns ciumentos queiia por ahi. E agora fique sabendo que hei de ir ao baile seja como for e que hei de dansar até á madrugada !

Ruy tremeu, todo transtornado com a allusão á mãi. Aquella mulher capaz de ficar presa em casa pelas trancas, era o espectro que enluetava a sua mocidade. A pobre doida parecia surgir diante delle, pallida como as areias, como se fora feita daquella claridade fluidica e velludosa que enchia todo o espaço e illuminava o mar... Ella explicava tudo; era a origem de tudo. Vinha delia aquella febre que o alimentava, aquelles arrebatamentos que não sabia conter... A mulher capaz de ficar presa pelas trancas, arrastava-o atravéz da vida, como uma coisa inerte... Adda sabia de tudo ! Fora cruel! para que lembrar uma historia tão dolorosa? Bem certo é que a vingança não escolhe armas quando quer ferir ! Ella vin- MÍJ gara-se; devia estar acalmada. Um soluço desprendeu-se involuntariamente da garganta opprimida de Ruy. Adda voltou-se e observando a pallidez do noivo, disse com mais condoimento que paixão : — Afinal, é precizo que me comprehendas também.

— Tens rasão... fui um bruto. Mas fica certa de que o meu ciúme nunca chegaria ao desatino de te maltratar... Arrependo-me... Não te affligirei nunca mais ! Adda parecia reflectir. A sua physionomia adoçou-se e ella murmurou por entre dentes, como num esforço : "" — Procurarei fazer as tuas vontades... .— Não promettas... — Mas quando eu não souber cumpril-as, aceitame como sou. Se eu não te amasse tanto nunca mais te fallaria... nunca mais! — Tens razão; fui um bruto. Perdôa-me... já que te soubeste vingar tão bem... Olharam-se demoradamente em silencio. — Amo-te, Adda, adoro-te, apezar de tudo ! Ella calou-se, voltando o rosto para o mar, a vêr se distinguia ainda o vestido de Leonor boiando nas águas de prata. Não vio nada; suspirou. Ruy, muito commovido, tirou do dedo um annel de ouro e pol-o na mão da moça. — E" uma alliança " symbolo da inquebrantavel cadeia que me liga a ti! Ella tirou do peito uma rosa meia murcha e disse : •— Lembrança de pobre, é o que tenho; toma.

li. Elle beijou a rosa, ella olhou para o annel. Atraz delles o velhote ia dizendo a Rola : — Esta sua pergunta faz-me considerar no vão se ntido das cousas que me pareciam eternas na mocidade, quando não ha nada de estável o tudo muda, se não na sua origem, ao menos no seu aspecto... Quando eu disse á primeira mulher que amei, que a adorava e que a adoraria até á morte com o mesmo ardor impetuoso e extatico, disse-o com sinceridade. Foi a primeira mentira inconsciente. Encontrei depois essa senhora varias vezes na vida, som a menor commoção, casada com outro homem, mãi de filhos que nem sequer se pareciam commigo, —- e nem por isso lhe guardei rancor... Eu também já amara outras,, já colhera em outras bocas o mel do beijo e já, a outros ouvidos sussurrara a mesma mentira, que era para mim uma verdade puríssima : amar-fe-ei àté á morte, meu uniço amor ! meu grande amor! Ah, como estas coisas agora me fazem rir!...

Rola voltou-se espantada. Na clara luz do luar, cuja doçura ella sentia penetrar-lhe até ao fundo do coração, a cara dáquelle homem metteu-lhe medo. Era um rosto largo, redondo, de queixp sumido pela falta de dentes, todo sulcado pelos vincos das rugas que se uniam umas ás outras, franzidas por um riso de ironia, que o desfigurava; um riso doloroso de impotência e de rebellião. Sem responder, ella penetrou no verdadeiro sentido daquellas palavras de desdém : a saudade! a inveja ! A magia do luar, o som baloiçado das ondas, o ár tépido da noite em que fluctuavam amorosos segredos de seres invisíveis, aquelles namorados moços que iam alli apaixonados e unidos, tinhafn despertado na alma da velhice a saudade da juventude, do único bem perfeito da vida e que jamais se pôde renovar... Todas as coisas mudam... não ha nada estável... Que vaidade a do homem, quando só elle se transforma e passa diante das coisas impassíveis e eternas !

A ella a approximação do mar á noite apavorava-a: Parecia-lhe a todo o momento que uma onda lhe levaria a filha imprudente, como levara o vestido da D. Leonor... Tinha percebido o manejo; estava explicada a insistência da filha por virem pela praia. Eram irrofloclidos; não se lembravam que no dia seguinte já o coronel saberia de tudo, julgando-a cúmplice nessa entrevista. Que deveria fazer para sahir daquella situação? Emquanto o velho recitava uns versos tropegos da sua juventude, occorreu-lhe a ella explicar-se directamente com o pai de Ruy... Como... quando..', onde?... isso não sabia, mas era absolutamente imprescindível uma explicação entre ambos. Receava não ter coragem... mas, mesmo que elle lhe batesse, ella deveria fallar-lhe. <=§« XIII Encostada á canoa Cruzeiro >— com um enxugador felpudo no braço, Rola esperava que a filha sahisse do banho. Não tirava delia os olhos um momento, sempre medrosa de alguma traição das ondas.

Adda ria-se, batia com as mãos na água como uma criança, assustava a mãi com-mergulhos repetidos o gritinhos terminados em escala de risos. Rola percebia a razão daquelle alvoroço : havia na praia gente nova; moços que tinham vindo em um automóvel e que terminavam talvez, naquella hoia matinal da praia, uma noite de orgia ou de jogo... Adda drvertia-os. Achavam-n-a bonita, apezar da touca de oleado que lhe cobria a testa até ás sobrancelhas. Os braços eram lindos, nús desde a raiz dos hombros até aos pulsos, ora arqueados sobre a cabeça, ora distendidos sobre as águas mansas, em gestos que davam tempo ás admirações. A mãi tentara inutilmente evitar o exagero daquella blusa sem mangas, mas tivera de ceder ante a pertinácia da filha. O pescoço livre surgia muito branco ^da flanella preta da roupa, aberta sobre o peito em um largo collarinho á marinheira, e ella derreava a cabeça para traz, como para mostrar ao céo a belleza do collo admirável...

Em um desses gestos mais prolongados, os pés subiram-lhe á flor do mar e ella boiou, com os braços abertos, os pés nús e as pernas, de que a água arregaçava os calções até aos joelhos, desenhando-se muito brancas na superfície trêmula das águas. Aquillo era uma imprudência : a moça não sabia nadar. Rola bracejou, zangada. A praia era de perigos. Como obrigar aquella creaturinha a ter juizo? ! Ella parecia não ouvir as supplicas da mãi; com os olhos cerrados, o corpo abandonado, deixava-se embalar pelas vagas mansas... Quando se quiz pôr em pé a água batia-lhe pelo queixo e a areia parecia fugir-lhe. Então teve medo, a consciência do perigo abrio-lhe os olhos numa afflicção, a voz sumio-se-lhe e foi num esforço instinetivo que ella conseguio approximar-se de terra e recuperar o ponto que perdera. Durara tudo um segundo, mas o pavor augmentara-lhe a séhsação do tempo. Receou que tivessem percebido o seu embaraço, envergonhada por não saber nadar.

Disfarçando o arrepio, arrancou da cabeça a touca de oleado e sacudio os cabellos, fazendo fluetuar na superfície da água as pontas das madeixas. Tinha certeza de que os seus cabellos eram lindos e que ninguém ousaria rir-se agora delia. Sahio do banho gottejante, com a flanella da roupa unida ao corpo, e os lábios entreabertos num sorriso. Rola atirou-lhe para os hombros o lençol felpudo o ella, aconchegando-o a si, passou rente aos moços, que se voltaram para vêl-a passar. Em casa a mãi admoestou-a : — Sc Ruy soubesse... - La vem mamai com Ruy... saber o que? (pie é cpie eu fiz !'? D. Ricarda ria-se, o que exasperava a moça. Ella não era escrava das opiniões dos outros... Ruy ainda não era seu marido. E que fosse ! Todos a aborreciam. O que ella deveria ter feito era não ler sahido do banho e ir boiando, boiando, para o mar largo... Rola contrahio-se numa angustia. Não sabia que julgar.

Ainda na véspera, em casa do Dr. Guidão, o Eduardo Guedes permitfira-se certas familiaridades que lhe tinham desagradado. Amando Ruy, a filha aceitava a corte do outro... Ouvira que tinham combinado um passeio de automóvel para o domingo... Adda queria um véo branco, um véo grande e fino que lhe cobrisse o chapéo e a envolvesse. Certamente que uma cousa de luxo não haveria de custar uma ninharia. Ella via ás vezes á noite, á porta dos hotéis, certas mulheres elegantes, que se apeavam dos automóveis com véos assim... Ainda se a occasião fosse boa... mas tinha o dinheirinho certo para o aluguel da casa e a conta do armazém... graças a D. Ricarda, que era pontualissima nos pagamentos... O mez fora máo para costuras!... Adda desencantara um vestido branco do fundo da mala, o vestido das occasiões, e que estivera reco- lhido durante o inverno, depois de ter trabalhado valentemente em dois estios.

Ideou logo um novo cabeção de rendas, para tapar as misérias da blusa já serzida. Ella mesma lavaria o vestido e o engommaria, para o passeio de automóvel no domingo com D. Leonor e o sobrinho... As rendas para o cabeção ella as arranjaria também de qualquer modo, tiraria as do vestido amarello com que fora ao baile do Dr. Guidão... O jardim do visinho forneceria um ramo de dhalias-cactus côr de sangue, para o cinto... não lhe faltavam também as luvas^ nem o chapéo, embora velho... só lhe faltava o véo... Se fosse outra, dizia ella, precizaria de tudo, e nem tornaria a pôr na cabeça a fôrma deformada daquella tampa de cajus... ella porém, resignava^se ás. difficuldades da situação. D. Ricarda protestava : — Se você fosse outra, regeitaria o convite... — Se eu tivesse a sua idade... respondia a moça com um amúo. Rola intervinha, apasiguava, achando explicações para tudo. D. Leonor queria a companhia da moça e ella, que devia tamanhos favores aquella família, não lhe podia negar cousa nenhuma...

Além do dinheiro, para a compra do véo seria necessário ir á cidade, o que representava um dia perdido de trabalho... mas já que era indispensável um véo para andar em automóvel, far-se-ia um sacrifício... Afinal, Adda não a ajudava tanto nas costuras? Era ella por ventura indolente e imprestável? Não. Apropria D. Ricarda lhe gabava a habilidade e a presteza. Tinha uns dedos, o diabinho da pequena, que nem os de uma parizienso amestrada ! Agora mesmo lá estava ella na tina, lavando o seu veslidinho branco, esgarçado e fino como a pelle de um ovo. Outras mãos menos cuidadosas rasgal-o-iani lodo... Como os vôos não se compram só com -palavras e boas intenções, já Rolinha não pensava em fazer a vontade á filha, quando esta lhe perguntou um dia no tom mais natural do mundo : -- Mamai, se eu empenhasse! o annel que Ruy me deu. chegaria o dinheiro para comprar o véo branco? A mãi advertio-a : - - Filha, o annel que o Ruy te deu não deves tiral-o do dedo senão para o dares a elle mesmo, se não mudares de idéas...

olha : agora me lembro que a pobre da Maria Adelaide ainda me está devendo um resto de dinheiro do vestido branco.... Vou fallar com ella. Tem paciência. Dahi a poucos minutos Rola caminhava pelo atalho da toca para a casa de Maria Adelaide. Não tinha andado muitos passos quando Bié passou por ella como uma fleeha, e logo atraz Nita, arfando, numa afllicção. Chamou-os; mas as crianças não ouviram. Iam como o vento. Rola parou e seguio-as eom a vista. Ellas sumiram-se, ella suspirou : ; — Pobres crianças... afinal passam-se os dias e eu não faço nada por ellas... A maior amargura da sua pobreza era essa, de não poder chamar a si todos os desherdados da vida... Agora, lá ia ella muito contrafeita reclamar uma divida que por seu gosto esqueceria. Era sempre um constrangimento, quando tinha de cobrar dinheiro de alguém. Se o véo não fosse cousa indispensável! mas afinal, ninguém podia passear de automóvel sem esse adorno...

bem via as outras. O que pedia a Deus era que daquelle convite não sahisse embrulhada. D. Ricarda começava a incutir-lhe um certo terror das cousas; o seu critério limitava-lhe o caminho da vida. Um passo para um lado ou para o outro já lhe parecia uma ameaça. Era levar muito longe o medo do mundo ! Maria Adelaide estava no tanque, lavando roupa; foi a irmã, Maria Aurora, quem veio á cancellinha do terreno livrar Rola das investidas dos cães, e fazel-a entrar na sala, onde a mãi lustrava os collarinhos do senador Guidão. Foi um espanto. — A senhora cá em casa ! Maria Aurora, repica os sinos ! que milagre, gente ! Senta ahi, comadrinha ! Rola era madrinha de chrisma da terceira filha da viuva. Fizeram roda; foi abandonado o serviço. Havia muita cousa a contar. Teria Rola conhecimento de que o Flaviano destroncára um pé no próprio dia em que alli fora aprazar o" casamento coíh a filha? Não?

! Pois estava ha que difs de perna estendida, numa esteira. Elle já mandara recado a Maria Adelaide, mas a moça teimava em não querer ir visital-o... Ella também andava-sofírendo dos nervos; já tivera dois ataques e só fallava em morrer... E' para que se criam os filhos. E continuava : A mãi do Flaviano cheirava a sarro de pito e talvez também um pouco a paraty... Vicio de negra velha. E' o diabo ! de mais a mais, diziam por ahi que o filho já não se contentava com a briga de gallos nos domingos, nem com a bisca no barracão da arrecadação, e entrava a jogar lambem no bicho, como um damnado ! Ella via compromettido o futuro de Maria Adelaide, mas não sabia como fazer para desligar a promessa com o Flaviano, que perseguia a noiva como o cação a enxova ! Pedia conselho. Rola não atinou com o que dizer. A viuva continuava : Já imaginara que Maria Adelaide tinha o diabo no corpo. Estava com vontade de leval-a á menina santa do Leme...

Uma benzedura faz mais que mil remédios. Felizmente, tinha bons freguezes e já não pensava em casar as filhas para alliviar-se. Ao contrario, qualquer dellas lhe faria falta. Vinha cada trouxa de roupa, que só vista ! Voltava a fallar do Flaviano, de quem tinha certo medo, que não escondia. Do contrario, já lhe teria fechado a porta na cara. Começava a acreditar que a mãi do mestiço era tão rica como qualquer das duas, que alli estavam sem vintém... Pois era possível que uma mulher com dinheiro dormisse no chão, entre trapos e não desse ao filho nem um tostão para cigarros? Tinham inventado aquellas historias de riquezas da quitandeira só para decidil-a a deixar a filha casar... cahira na mentira, como uma sardinha na tarrafa. E agora? ! E concluio : CRUBL AMOR 199 — Olhe : ahi vem Maria Adelaide; veja se parece a mesma ! A moça, muito emmagrecida, tinha o rosto pallido invadido por dois círculos roxos das olheiras.

As saias escorregavam-lhe pelos quadris estreitos; viase-lhe a camisa entre a blusa e o cos da saia. Não teve um sorriso. Pagou a sua divida com modo distrahido e sumio-se de novo pela mesma porta por onde tinha entrado. — Que acha, comadre Rola? — Que é precizo ter cuidado... — Com que? eu não obriguei ella a casar nem fui éu que escolhi o tal Flaviano. Era amor do collegio. Gostavam-se desde crianças... eu só cedi pelas circumstancias. Bem que me arrependo ! Muita falta faz um pai, é só o que eu lhe digo... A' sahida, Rola decidio dar volta pela estrada velha e passar pela casa do pescador doente, de quem não tinha queixas. E era ainda uma caminhada, entre arbustos contorcidos e cardos de areaes quentes. Aquelles sitios eram-lhe familiares desde a infância; prazos destacados da antiga fazenda de D. Constança, onde ella brincara o — esconde-esconde e a cabracéga — em pequena. Depois, já mocinha, andara também muitas vezes por alli, com Ruy ao collo, acompanhando a pobre D.

Angela, que ia na frente, abstracta, aos suspiros. Eram os únicos passeios que o marido lhe permittia, de longe em longe... Uma vez, que essa distracção fora procurada sem sciencia sua, a mãi de Ruy fora esbofeteada por elle, em plena 0 0 face, em casa. Rola assistira á oflVnsa retrahindo-se de encontro a uma parede e apertando Ruy ao coração. Ella sabia muito bem, agora, «pie ha anlipathias inexplicáveis, ódios sem causa, de almas doentias, mas attribuia a origem da raiva do coronel aquella scena, em que elle se sentira humilhado por aquella testemunha de quinze annos, começando desde ahi a tratal-a mal. Discreta por natureza, ella calara-se muito bem calada, mas guardava nitidamente na memória a lembrança daquella mão pequena*e secca,comque as mãos de Ruy se pareciam, batendo brutalmente no rosto pallido da mulher. Um bruto, aquelle homem magro e calado, de quem cila sempre tivera um medo instinctivo.

Entretanto, via que elle era bernquisto por toda a gente o que não faltava quem o lamentasse como uma vicfirna do destino... E' que a sociedade perdoa o mal, mesmo a quem ella sabe que procura illudil-a com as apparencias do bem... O que a espantava agora, depois de tantos annos de silencio, era saber pela própria boca de Ruy que os sofTrimentos da pobre D. Angela não tinham ficado enterrados com ella no cemitério, depois de terem gemido sob os varões de um cárcere de hospício... Ruy reflectia-lhe as queixas, adivinhara a alma dolorosa da que morrera com o seu nome entre os lábios desaniados... Esse sahira á mãi no gênio : era um sincero e um crédulo... conhecia-o desde criancinha, nunca elle lhe mostrara duas caras, como o pai, que era um em casa e outro na rua ! Achava exquísito que o moço se preoccupasse tanto com um passado extincto, e não acreditava que o pai receasse vêl-o her-

Cruel Amor

Sinopse

Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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