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Cruel Amor

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Cruel Amor

Capítulo 18 · Cruel Amor

Parte 18

18 de 24 ≈ 17 min de leitura

Esperando em vão uma resposta, e córando até á raiz dos cabellos, Rola continuou : — Ruy gosta de Adda... o senhor não o ignora... todo mundo o sabe. Minha filha é uma moça sem familia, é verdade, mas honesta, trabalhadeira e de bom coração... Não acredito que o senhor, que é pai, vote ódio á pobre menina, por faltas de que élla não é culpada... Suspeito por isso que o motivo da sua antipathia esteja em mim... O coronel sorrio com desdém. •-— Nesse caso o que lhe posso empenhar para a felicidade de seu filho é a minha palavra de que no dia em que Adda se casar com elle... eu desapparecerei para sempre! Desta vez o coronel sahio do seu mutismo, com um risinho de escarneo, logo reprimido. Como a abelha continuasse a debater-se de encontro aos vidros da janella, doida pela liberdade lá de fora, elle condoidamente abandonou a rígida posição em que se conservava, desde a entrada e foi abrir a folha da vidraça, para felicidade do insecto.

Depois, tornando a fechar a janella, volou até junto de Rola, que olhava para elle attonita, e perguntou-lhe então num fio de voz de que reçumava a ironia : — E quem me affiançaria a sua palavra? Ella tornou-se livida; elle sorria sempre. — Oh, o senhor é terrível, exclamou Rola, com vivacidade. Comprehendo o seu pensamento; quer dizer que uma fraca mulher, só porque errou uma voz na vida, não pôde ser acreditada nem... CRIEI. AMOR — Nem? interrompeu elle com uni relâmpago de curiosidade a fuzilar-lhe nos olhos. Nem attendida... concluiu ella mais baixo. Na verdade o seu pensamento fora outro. Ella ia concluir : — quer dizer que uma fraca mulher, só porque errou uma vez na vida, não pôde ser acreditada nem por um assassino de mulheres. O coronel, muito desconfiado, percebera a intenção e fixava agora nella com raiva as suas pupillas côr de aço. — O senhor cavará a sepultura de Ruy, se o contrariar.

Não digo isto para commovel-o; é a minha convicção. Se eu tivesse menos coragem já feria sahido por aquella porta; mas jurei ir até ao fim. Repito a proposta que lhe fiz e a que o senhor não respondeu; se é a minha pessoa que o impede de consentir no casamento de Adda, eu desapparecerei para sempre. — A sua pessoa !... que me importa a mim a sua pessoa ! — Então... — Ora essa, acho muita graça no seu espanto, como se se não lembrasse de que essa moça é uma engeitada. Foi tão perversa a expressão do coronel ao dizer estas palavras, que Rola, vibrando de indignação da cabeça aos pés, replicou, soerguendo-se precepitadamente : — Se é por isso, antes ser engeitada do que ser filho de louca! O coronel avançou para Rola, que, já arrependida, punha as mãos num gesto de supplica, fallando com doçura : —-* Para que me obriga a dizer cousas que eu não quero dizer? ! Seu filho adora minha filha, elle é todo sentimento, todo bondade e intelligencia...

é a imagem viva da mãi, que o'senhor tão mal comprehendeu ! Se o contrariar não teme que lhe venha a acontecer o mesmo que succedeu a D. Angela? Diga ! Adda é engeitada, mas tem saúde, tem alegria, tem belleza. — Prefiro vêl-o morto. — Oh! — Prefiro vêl-o morto; ouviu bem? insistio o coronel, approximando o rosto duro do rosto espantado^de Rola; antes morto que marido dessa... — Não a insulte ! atalhou Rola quasi num grito. — Falle baixo, ordenou elle, e curvando-se continuou : — volte para a sua casa e diga á outra que o filho de uma louca só se deve casar com uma mulher ile juizo. —• O senhor não me entendeu. Eu tenho medo do futuro e quiz evitar o mal. Fique certo de que Ruy saberá dispensar o seu consentirriento; riiais alguns mczes e elle será maior. Eu não queria que fosse assim; mas o senhor quer, lavo-dahi as minhas mãos. O coronel estacou, pela sorpreza daquella idéa, que lhe não occorrera, e procurando repellir tal ameaça retrucou num gesto decisivo : —: A senhora não sabe o que diz.

Esse casamento é impossível. — Mas impossível por que? ! 14 Í 6 — Basta O que aflirmei. Não posso dizer mais fiada. — Não basta; não me aventurei a este sacrifício para respeitar razões oecultas. Quero, saber porque é que Ruy não se pôde casar com Adda... — Ora porque... porque Adda é... O coronel susteve-se, procurando os lermos para completar a .sua phrase, ao mesmo tempo que uma idéa diabólica feria repentinamente o cérebro de Rola. Seria Adda filha do coronel? O espanto augmoulou-lhe o tamanho dos olhos; um arrepio gélido, nervoso, percorreu-lhe o corpo, dos calcanhares á nuca. Elle observava-a agora, um pouco espantado do e fiei to produzido pelas suas meias palavras... mas era tão clara a expressão daqúelles olhos e daqueUas^faees descahidas' pelo assoriibro, que elle, num relance, comprehendeu a suspeita que se debatia naquella pobre alma. O espirito de um communicára-se ao do outro, sem que fosse proferida a ultima confidencia.

Como aquella suspeita fosse uma arma, o velho apoderou-se delia sem relutância; por isso, quando Rola, ainda suffocada, indagou : — Diga a verdade; só isso o desculpará. Adda é?... Elle apressou-se em cortar-lhe o fim da phrase, fazendo um gestoafflrmativo. E continuou firme de pé. Rola deixou-se cahir como um trâpo sobre o espaldar da cadeira. As lagrimas corriam-lhe agora em fio pelas faces pallidas. Toda ella era amargura, toda ella era alma ! O coronel sacudio-se. Retomou o chapéo que em um momento atirara para o sofá e, com um brilho de inquietação a tremeluzir-lhe nas pupillas, esperava que passasse aquella crise de ohoropara se ir embora. Depois de um largo espaço de prostração, ella murmurou : •,- — Porque não declarou isso desde o principio?! Se Ruy soubesse que Adda era sua irmã, tel-a-ia amado de outra maneira... Pobres Crianças... que vai ser dellas! — Não lhes diga nada. Ordenou o coronel, muito agitado.

— Gomo não? ! irias é indispensável que todps, todos saibam quem é o pai da minha pobre Adda, para que a não acusem de leviana... Ninguém ignora que ella é a namorada dé Ruy; quero que saibam porque não será sua mulher! Não a engeite mais uma vez ! Como o senhor é máo ! Elle, confuso, girou em silèricio pela sala; depois sentou-se bem perto de Rola e fallou-lhe rente aos ouvidos : — E' que não teüho a certeza... sabe? suspeito apenas... a mãi era casada... Adda tanto pôde ser minha filha... comO não ser... Rola afastara o corpo e olhava de face para o rosto transtornado do pai de Ruy. Os seus olhos tinham-se- -lhe seccado de repente e mergulhavam agora, ávidos, agudos, nas pupillas turvas do coronel. — Pouco importa.; será precizo declarar isso mesmo a seu filho... — Não. — Sini! — Não! - - Nesse caso, elle esperará a maioridade e easar-scá com Adda, quer ella seja ou não sua irmã ! - - Isso seria um crime!

Não será o primeiro commettido na família.." — A responsabilidade será sua ! - Será nossa, visto que o senhor não se declara... — Nem me declararei nunca ! Rola apertou a cabeça com as mãos; não podia comprehender aquillo. — Nem a senhora dirá nada a ninguém ! a ninguém, ouvio? Promelta que isto ficará entre nós dois só... — Não prometto. Os seus segredos pesam demais... O meu interesse é espalhar este por toda a parte !... Basta-me o outro ! O senhor esqueceu-se... Elle fez um gesto que se calasse. E com voz prudente : — A senhora falia muito alto. Lembre-se de que não estamos em nossa casa... Por hoje basta. Pense no que lhe vou dizer : Ruy é excessivamente sensível; a declaração deste segredo causar-lhe-ia um mal horrível... um mal irremediável. E' prudente agir de um outro modo; empenhemo-nos de preferencia em separar esses namorados... elle exactamente agora preciza de muita calma para os seus estudos...

— O senhor só pensa no Ruy... e ella? ! Elle fez irreflectidamente um gesto de indifferença, rematando, com um sorrisinho : — Case-a com outro... talvez não seja precizo procurar muito... heim? ! 'tO Rola levantou-se indignada. Uma onda de sangue coloria-lhe agora o rosto, até então livido. — Mas que espécie de homem é o senhor, que... — Não perca tempo com palavras inúteis. A nossa comedia dura ha quasi uma hora... e começo a sentirme fatigado. Supponha que eu lhe menti, e resigne-se. Isto de entrevistas... só de amor, e em outras idades... Não tenho mais nada a dizer, e passe muito bem. Petrificada, no meio da sala, Rola não fez sequer um gesto. Elle voltou-lhe as costas com indifferença e sahio. No patamar da escada do jardim encontrou D. Delfina, que subia com as mãos carregadas.de flores. Elle gabou-lhe as rosas e ofíereceu-lhe um casal de pombos brancos, que lhe mandaria nessa mesma tarde.

— Aqui está um homem bem delicado... pensou de si para si a esposa do senador Guidão. ")0 XVII D. Ricarda cosia á machina no seu cantinho costumado, quando Rola entrou em casa. A viuva abaixou a cabeça, para contemplar a amiga por sobre os óculos e indagou : — Você está doente? ! — Não, D. Ricarda, estou triste... Que é de Adda? — Sahio. Foi á cidade. Disse que era dia de dentista... Eu nem sabia que ella estava tratando dos dentes !... Rola parecia já não ter forças para fallar, mas murmurou ainda : — Sozinha? ! — Não... parece que já tinha combinado tudo com a filha da vizinha, alli defronte. Foram juntas. De chapéo, de véo... umas pimponas ! Rola sentou-se ao lado da viuva, com ar abatido, sem coragem de ir mudar de roupa. — Sabe quem veio cá, logo que você sahio? o Flaviano. Trouxe uma tampa de cajus e pedio empres- tados cinco mil réis... Sahem sempre caros os presentes do Flaviano.

—• Coitado, elle tem estado doente... — Hum.:. Houve um momento de silencio, em que a viuva teve de prestar a maior attenção á costura. Extra - nhando depois a prostração de Rola, perguntou : — Mas, por que é que você está assim? D. Ricarda, era uma amiga segura, grandemente criteriosa e boa conselheira. Sem sahir do angulo mais illuminado da sua saleta de costuras brancas, onde trabalhava para camisarias e particulares, ella criticava com acerto acções alheias e as suas sentenças eram tão exactas, que Adda costumava chamar-lhe com antipathia — bocca de praga. Rola tinha por ella um grande respeito. Fora D. Ricarda quem lhe dera a mão para transpor o passo mais penoso da sua existência e que a auxiliava ainda a viver. Delia só lhe tinha vindo beneficio e consolação. Assim, contou-lhe ponto por -ponto todos os episódios da sua entrevista com o coronel. Acabou chorando. — Você foi tola em se approximar de um homem que tantas vezes nos tem desfeiteado, e que a estas horas se está rindo da sua credulidade.

Depois, para quê? Estou certa que elle é tão pai de Adda como eu sou a mãi; mas também isso pouco importa. Ella já não gosta do.Ruy... — Não diga isso, D. Ricarda !... — Foram passos no ar. E' o que lhe digo. Ainda hontem de tarde, Adda1 estava alli no banquinho polindo as unhas, quando Ruy passou e deu o signal Õ2 do costume... Ella nem se moveu. 0 rapaz andou alli fora para traz o para diante, repetindo os assobios. E.ella indifíerente... Por fim, com pena delle, ainda a avisei : — parece que é o Ruy !... ella levantou os hombros, com pouco caso. — Algum arrufo... — Pois sim ! — Afinal? — Afinal, elle cançou-se e foi-se embora. Um dia irá de todo o o pai ficará contente. Vocês andam no mundo da lua e não percebem o que se passa embaixo do seu telhado ! Adda não é a mesma ; está alvoroçada, mais faceira ainda... e mais bonita... — E' por causa dos banhos de mar... — Qual o que! é por causa do Eduardinho, isso sim.

Cá por mim de quem tenho pena é do Ruy, que nem estuda direito, anda com a cabeça á roda. 0 que vale é que tudo passa neste mundo, e que por maior que seja um primeiro amor, vem outro depois... Por um lado o pai tèm razão. O rapaz terá por forga de mudar de idéas... Desde esse dia Rola começou a observar a filha com redobrada attenção. Não queria crer na advertência da viuva. Ella sabia bem que Adda não era extremamente sentimental; mas julgava conhecer a fundo o seu caracter sincero. Se tivesse deixado de amar o Ruy, ella não o entreteria com promessas e sorrisos vãos, nem lhé leria as cartas... Se ella dava um bocadinho de corda á corte do Eduardinho, era por faceirice e sem a menor intenção de um desenlace positivo; bem sabia que esse moco voltaria em breve para os seus estudos em S. Paulo, e que faria então delia tanto caso, como da primeira camisa que vestio. Adda era mais innocente do que os outros suppunham e era a sua própria ingenuidade que'a compromettia.

A gente maliciosa estraga pêlos seus máos pensamentos os actbs da mais sincera confiança. Se Adda fosse uma hypocrita, uma sonsa; todo o mundo a acharia um anjo; como era alegre, expansiva e franca, todos desconfiavam delia. Pobre da sua filha! Defendendo Adda diante dos seus pensamentos, Rola debatia-se ao mesmo tempo na idéa de declarar ou não a Ruy tudo o que lhe tinha dito o coronel na malfadada entrevista de Ipanema. Previa que o rapaz lhe haveria de perguntar por tudo, e ella não teria coragem pára dizer a verdade ! Toda se arrepiava reverido a expressão do cororiel e o sentido das suas palavras. Quarido teria elle mentido? na hora em quê afflrmaVa, ou naquella em que tinha negado uma paternidade que era um estorvo á felicidade daquellas pobres crianças? ! Para não ouvir conceitos injustos a respeito de Adda, Rola deixou de fallar á viuva rtos enredos que a consumiam. Cada dia que principiava era para ellà um martyrio, pensando nòs assaltos de Ruy, que não cessava de pedir que lhe repetisse as palavras dó pai.

Na porta do João Sérvulo, uma vez a insistência fora tamanha, que ella, atrapalhada e nervosa, respondeu que o coronel tinha tido razão no que dissera. Ruy devia cuidar da sua saúde e dos seus estudos. Não lhe podia dizer mais nada. O moço presentia a mentira, e desesperado por saber 15 pornienorcs por que anciava, desatava a queixar-se de Adda. que ora lhe escrevia cartas enormes cheias de paixão, que o alvoroçavam, ora bilhetes lacônicos... ou cousa nenhuma ! Rola voltava scismando para as suas costuras. O raio ha de cahir, pensava ella, sentindo a tempestade sobre a cabeça da filha e do Ruy; mas como cahirá elle, Senhor? ! * Uma manhã, em que exactaineiile linha acordado mais tranquilla, acompanhando Adda ao banho, encontrou, junto á Guanabara, o Eduardinho Guedes, já em trajes de banho, prompto para o mergulho. O coração bateu-lhe com uma suspeita. Por que viria o estudante á enseada da igrejinha, quando tinha ás portas da casa do avô a praia'do Ipanema?

Num impeto, que a prudência susfeve a tempo, esteve quasi a indagar o motivo daquella extravagância. Approximando-se de arribas, com um riso largo em que os dentes brilhavam muito brancos, elle cumprimentou Rolinha, olhando para Adda. A moça atirou o enxugador felpudo que a envolvia para o rebordo da Guanabara e estendeu ambas as mãos ao estudante, para entrarem juntos na água. Elle fixoü-lhe os braços nús, os pés, de que ella sacudira as sandálias, e o collo, emergindo muito branco da flanella preta, e foi-a puxando docemente, vagaiosamente, para o mar. Petrificada de espanto por aquella scena inesperada e vexada pela humilhação de se vêr alli corno a mais reles das criadas, Rola encostou-se á canoa para aguen- 5 taro corpo que desfallecia. Que fazer agora senão esperar o fim daquella entrevista, que ella não cortaria sem escândalo nem ofiensa? Sim, porque aquillo era uma entrevista... houvera, com certeza, combinação.

, Na água mansa, o Eduardinho ensinava agora Adda a nadar. As suas mãos magras, de longos dedos, tacteavam-lhe o corpo esbelto e lindo, suspendendo^o sobre a água molle, fazendo-o ir e vir de um a outro ponto. Ella agitava-se, ria-se, ou, obedecendo por momentos ao conselho do mestre, deixava-se levar por elle passivamente, executando os movimentos da natação, para logo os interromper. Soavam então alto as suas gargalhadas; punha-se em pé, desapparecia num mergulho, voltava a apparecer e deixava-se deitar de costas, boiando, com os olhos para o céo, os braços brancos abertos, como uma linda cruz de mocidade, em êxtase para o azul do céo. O Eduardinho ia a seu lado, em pé, com o rosto curvado para a carne núa do seu collo, dos seus braços, dos seus artelhos e dos seus pés... até que, reagindo, e ,debatendo-se na onda, ella procurava levantar-se, sacudindo sobre elle as madeixas dos cabellos empapados...

A água espreguiçava-se numa volúpia molle, deitando-se na areia em ondas cansadas. Toda a manhã era como um suspiro de amor... Rola impacientava-se. Aquelle banho parecia não ler fim. Quando o julgava acabado, eis que recomeçavam os exercícios natatorios. Eduardo movia os braços compridos em gestos exaggerados, como se se buizesse fazer comprehendido de longe e só parava !ilb para, segurando o cinto da moça, obrigal-u a executar mais uma vez os mesmos movimentos. Assim iam o vinham, juntos e semi-nús, no mysferio da onda. Houve um momento mesmo em que o Eduardinho se curvou tanto sobre a cabeça de Adda, ipie pareceu a Rola querer beijal-a; sacudida então pela indignação, ella ia ^gritar, quando ouvio um grunhido de animal atrás de si, na Guanabara, rente do seu pescoço. Voltou-se sobresaltada. Pedro mudo estava dentro da canoa, sentado sobre um rolo de cabaria, com os cotovellos fincados nos joelhos, o queixo pousado nas mãos e os olhos luzindo, luzindo para o grupo do banhistas.

A sua pelle molle, côr de tabaco fresco, toda se engelhava nas faces arrepanhadas pelos dedos; as orelhas largas arfavam como agitadas pelo vento; elle ria-se, e aquelle riso vinha como um sopro do deserto, cheio de cousas ignotas... Pela primeira vez em sua vida, Rolinha teve medo daquelle homem. Nas suas pupillas pequenas brilhava um fio de intelligencia maldosa; elle exprimia bem agora uma velha definição do Ruy : — a malícia de um satyro numa sepultura de carne. Vencendo a commoção que a abalava e ainda mais com o sentido de desviar o olhar atrevido do caboclo de cima daquelle quadro que tanto o deleitava, a costureira pousou-lhe a mão no hombro e chamou-o. Elle não fez caso delia. Rola então postou-se bem defronte delle, interceptando-lhe a vista, para obrígalo a pensar noutra cousa. Ellegrunhio como um porco e inclinando-se todo continuou a olhar para os banhistas.

Cruel Amor

Sinopse

Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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