Universo da obra
Universo da obra
óculos de metal branco, que lhe davam á physionomia uma expressão solemne. — Hoje é. dia de fumar charutos, afflrmava no coreto das prendas o Rubião barbudo, repartindo-os com os companheiros atarefados. Gigarrinho e paraty é para dia de trabalho... vocês vão vêr logo de noite? cóm estas luzes todas accesas, "como até ha de dar afflicção nos olhos... JCoragem, minha gente, que o povo da cidade não tarda ! Meu violão vai dar sorte, mata a sanfona do Ruffino e os trombones dos músicos..**' Tou presumindo que, apezar dos óculos, até João Sérvulo vai dansau o maxixe ! Hoje é que vai se vêr quem tem peixe embaixo do peneiro... hein? ! As prendas- iam chegando umas atrás das outras. Seu Çlarindo da Camponeza dera um. frango pesado e gordo que fazia gosto. Também não o deixaria ir por qualquer cousa....tinha no bolso com que disputal-o. D. Conceição, que andava agora níais repousada, foraécera nada menos de seis dúzias de ovos, divididas em três cestinhas, com papeis de seda; Rola concorria com roupinhas ej[agazàlhos para as crianças dos pes- -cadores e da pobreza do lugar; e até o Bié trouxera numa caixinha de .papelão, como uma jóia rara, atufado em musgo, um lindo búzio côr de mel.
Os sinos repicavam, e á hora da missa o povo foi affluindo pela encosta acima. A Fortunata, toda de engommado, arrastava o Antonico pela mão, ao lado da Hortensia, que andava Bempre em sua companhia. Foi já perto da Igrejiiília que ellas toparam com a viuva Tobias, balançando-se S como uma canoa, entre as duas filhas, de lucto alliviado, a Maria Augusta e a Maria Aurora. A espera do todos, no alto, D. Conceição fazia fulgurar ao sol os anneis miúdos do seu oabello ruivo e os ouros do seu pescoço. Depois da morte do Maria Adelaide juntara-se muito á viuva, pela alliança secreta que sempre provoca um desgosto em commum. Ella já fizera notar ao Marcos que a Maria Aurora se estava fazendo muito parecida com a irmã finada, mas para mais bonita... Marcos, observando o rosto da moça, vio-a volver para elle um olhar em que toda a sua mocidade parecia raiar numa alvorada. Elle desviou a vista, taciturno.
A mãi sorrio. A vida continuava. A pequena distancia, Rubião chammuscava os de-, dos, soltando foguetes sobre foguetes. Era precizo animara festa; o sol estava alegre, o mar de setim azul floreado de ouro, a atmosphera leve e fresca... que mais se poderia desejar no mundo? Parecia-lhe a elle que. nesse dia não tinham ficado em casa cão nem gato. Vira passar até o coronel Mangino, de cartola e sobrecasaca, ao lado da família Guidão, e logo depois a ti'Antonia, capengando junto aquella desgraçada da mãi do Flaviano... A' lembrança do companheira encarcerado, elle sentio uma lagrima humedecer-lhe os olhos; para disfarçar a commoção precipitou ainda mais os foguetes, acompanhando-lhes o percurso com o olhar, através do espaço... Quando recebey ordem de cessar o fogo, estava com a vista escura. O sineiro tinha cessado também de repicar. Começara o ofiicio religioso. Em poucos minutos o outeiro parecia deserto.
Foi então que Ruy subio, seguindo para diante, para o pontal da fortaleza, com ar distraindo, mãos nos bolsos, cigarro na bocca. Que lhe importava agora a elle a festa? Subia até alli para vêr o mar, do alto, já desinteressado daquella sociedade humilde, que principiava a tratal-o por senhor. Raramente vinha agora áquelles sitios; o seu espirito andava por outros caminhos, penetrando em trabalhos de homem. Sósinho, em face do mar, elle_j;onsideraya que o maior dever da vidajião é chorar com_os que choram, nem prostrax-se a gente ao lado dos já prostrados; mas saber resistir á Dôr, como aquellas pedras resistiam aos embates das ondas mansas ou furiosas. Resistir, — tudo se condensava nessas três syllabas, como num escudo em que as lanças da adversidade se quebram para só dejxar triumphante a vontade do homem. O Destino, em que elle acreditara de olhos fechados, perdera a sua significação de infalibilidade.
Todas as visões da sua meninice, o seu pavor pela loucura da mãi, os, arroubos da sua paixão eterna,, o desengano do seu amor, que lhe fizera pensar em enforcar-se nas trancas da pobre doida, tudo que o alterara e lhe dera febre, tinha abatido, ao sopro forte da Razão e do Sofiriménto. Do menino dócil, impressionável, contemplativo e piedoso, ahi vinha até á beira do abysmo o homem desafiador da fatali- dade. Poderia agora cahir um raio, que elle se sentia bastante forte para o aparar nas mãos... Gom a testa vincada pelo pensamento, o olhar desdobrado pelo espaço infinito, Ruy sentia crescer-lhe na consciência a persuasão de que a vida é o que cada um quer que ella seja, — quando ouvio grunhir atrás do seu pescoço. Voltou-se. Era o mudo. Vinha do samburá no braço e de caniço na mão, para a pesca; o seu chapéo de palha de coco sombreava-Ihe os olhinhos côr de café, deixando-lhe apparecer a meio as largas orelhas amollecidas por um esforço incompeneado.
Pedro desfranzio os beiços murchos num sorriso triste; olharam-se de perto e pela primeira vez com sympathia. Depois, o pescador desceu aos saltos, de barranco em barranco, até ás pedras baixas da beira d'agua; e Ruy, contemplando-o, pensou, re"- trahindo-se com amargura : — O' eterno desespero do homem escravisado ao ignoto, sempre ha de existir no fundo do teu ser um sonho insatisfeito 1... FIM Typ. AIIAAUD, AXVES & O : F= IUUI TYP- A U C O D r A L V E S M 1 96. Boul.! PARIS
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