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Cruel Amor

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Cruel Amor

Capítulo 24 · Cruel Amor

Parte 24

24 de 24 ≈ 5 min de leitura

óculos de metal branco, que lhe davam á physionomia uma expressão solemne. — Hoje é. dia de fumar charutos, afflrmava no coreto das prendas o Rubião barbudo, repartindo-os com os companheiros atarefados. Gigarrinho e paraty é para dia de trabalho... vocês vão vêr logo de noite? cóm estas luzes todas accesas, "como até ha de dar afflicção nos olhos... JCoragem, minha gente, que o povo da cidade não tarda ! Meu violão vai dar sorte, mata a sanfona do Ruffino e os trombones dos músicos..**' Tou presumindo que, apezar dos óculos, até João Sérvulo vai dansau o maxixe ! Hoje é que vai se vêr quem tem peixe embaixo do peneiro... hein? ! As prendas- iam chegando umas atrás das outras. Seu Çlarindo da Camponeza dera um. frango pesado e gordo que fazia gosto. Também não o deixaria ir por qualquer cousa....tinha no bolso com que disputal-o. D. Conceição, que andava agora níais repousada, foraécera nada menos de seis dúzias de ovos, divididas em três cestinhas, com papeis de seda; Rola concorria com roupinhas ej[agazàlhos para as crianças dos pes- -cadores e da pobreza do lugar; e até o Bié trouxera numa caixinha de .papelão, como uma jóia rara, atufado em musgo, um lindo búzio côr de mel.

Os sinos repicavam, e á hora da missa o povo foi affluindo pela encosta acima. A Fortunata, toda de engommado, arrastava o Antonico pela mão, ao lado da Hortensia, que andava Bempre em sua companhia. Foi já perto da Igrejiiília que ellas toparam com a viuva Tobias, balançando-se S como uma canoa, entre as duas filhas, de lucto alliviado, a Maria Augusta e a Maria Aurora. A espera do todos, no alto, D. Conceição fazia fulgurar ao sol os anneis miúdos do seu oabello ruivo e os ouros do seu pescoço. Depois da morte do Maria Adelaide juntara-se muito á viuva, pela alliança secreta que sempre provoca um desgosto em commum. Ella já fizera notar ao Marcos que a Maria Aurora se estava fazendo muito parecida com a irmã finada, mas para mais bonita... Marcos, observando o rosto da moça, vio-a volver para elle um olhar em que toda a sua mocidade parecia raiar numa alvorada. Elle desviou a vista, taciturno.

A mãi sorrio. A vida continuava. A pequena distancia, Rubião chammuscava os de-, dos, soltando foguetes sobre foguetes. Era precizo animara festa; o sol estava alegre, o mar de setim azul floreado de ouro, a atmosphera leve e fresca... que mais se poderia desejar no mundo? Parecia-lhe a elle que. nesse dia não tinham ficado em casa cão nem gato. Vira passar até o coronel Mangino, de cartola e sobrecasaca, ao lado da família Guidão, e logo depois a ti'Antonia, capengando junto aquella desgraçada da mãi do Flaviano... A' lembrança do companheira encarcerado, elle sentio uma lagrima humedecer-lhe os olhos; para disfarçar a commoção precipitou ainda mais os foguetes, acompanhando-lhes o percurso com o olhar, através do espaço... Quando recebey ordem de cessar o fogo, estava com a vista escura. O sineiro tinha cessado também de repicar. Começara o ofiicio religioso. Em poucos minutos o outeiro parecia deserto.

Foi então que Ruy subio, seguindo para diante, para o pontal da fortaleza, com ar distraindo, mãos nos bolsos, cigarro na bocca. Que lhe importava agora a elle a festa? Subia até alli para vêr o mar, do alto, já desinteressado daquella sociedade humilde, que principiava a tratal-o por senhor. Raramente vinha agora áquelles sitios; o seu espirito andava por outros caminhos, penetrando em trabalhos de homem. Sósinho, em face do mar, elle_j;onsideraya que o maior dever da vidajião é chorar com_os que choram, nem prostrax-se a gente ao lado dos já prostrados; mas saber resistir á Dôr, como aquellas pedras resistiam aos embates das ondas mansas ou furiosas. Resistir, — tudo se condensava nessas três syllabas, como num escudo em que as lanças da adversidade se quebram para só dejxar triumphante a vontade do homem. O Destino, em que elle acreditara de olhos fechados, perdera a sua significação de infalibilidade.

Todas as visões da sua meninice, o seu pavor pela loucura da mãi, os, arroubos da sua paixão eterna,, o desengano do seu amor, que lhe fizera pensar em enforcar-se nas trancas da pobre doida, tudo que o alterara e lhe dera febre, tinha abatido, ao sopro forte da Razão e do Sofiriménto. Do menino dócil, impressionável, contemplativo e piedoso, ahi vinha até á beira do abysmo o homem desafiador da fatali- dade. Poderia agora cahir um raio, que elle se sentia bastante forte para o aparar nas mãos... Gom a testa vincada pelo pensamento, o olhar desdobrado pelo espaço infinito, Ruy sentia crescer-lhe na consciência a persuasão de que a vida é o que cada um quer que ella seja, — quando ouvio grunhir atrás do seu pescoço. Voltou-se. Era o mudo. Vinha do samburá no braço e de caniço na mão, para a pesca; o seu chapéo de palha de coco sombreava-Ihe os olhinhos côr de café, deixando-lhe apparecer a meio as largas orelhas amollecidas por um esforço incompeneado.

Pedro desfranzio os beiços murchos num sorriso triste; olharam-se de perto e pela primeira vez com sympathia. Depois, o pescador desceu aos saltos, de barranco em barranco, até ás pedras baixas da beira d'agua; e Ruy, contemplando-o, pensou, re"- trahindo-se com amargura : — O' eterno desespero do homem escravisado ao ignoto, sempre ha de existir no fundo do teu ser um sonho insatisfeito 1... FIM Typ. AIIAAUD, AXVES & O : F= IUUI TYP- A U C O D r A L V E S M 1 96. Boul.! PARIS

Cruel Amor

Sinopse

Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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